dezembro 10, 2003

A linguistica correcta (act.)

Depois da sugestão de leitura ali de baixo, roubo descaradamente um texto ao Bisturi.
Quando era pequeno explicaram-me porque é que o Réu tinha deixado de ser réu e passado a Arguido. Disseram-me que com o uso, réu adquirira uma carga negativa que subliminarmente prejudicava o estatuto que o indivíduo deveria ter, a condição de "inocente até prova em contrário", pelo menos aos olhos do povo... Ouvida a história a pergunta que fiz de seguida (era tão esperto quando era puto) foi no sentido de saber quando é que iam substituir a palavra arguido, uma inevitabilidade mais que evidente.
Esta desistência em lutar pelo significado não é um caso isolado. Temos cada vez mais significantes que vão sendo escondidos debaixo do tapete, substituidos por outras palavras "novinhas em folha". Em algumas áreas a uma velocidade tão grande que já alguns distraídos encerraram o ciclo e recuperaram palavras proscritas do passado o que, convenhamos, até dá algum gozo. Só mais um exemplo que me ocorreu: na ONU deixou de se gostar da palavra sexo, já não há sexo masculino e sexo feminino, temos o género, uma palavra muito mais higiénica como é bom de ver... O poder de mudar os nomes às coisas deve dar uma grande pica a muita gente. Chefes de Estado inclusive.
Fiquem-se com as palavras do Bisturi que nos alerta para uma possível conclusão que extrai deste movimento frenético "anti-traumático" e pseudo-consciencioso.

"Linguística
A linguagem tornou-se hoje um instrumento de poder na sociedade. Todas as palavras concernando o trabalho simples ou manual, e das pessoas que os executam, foram substituídas por definições retorcidas e fluídas.
Exemplificando, uma secretária transformou-se numa "assistente administrativa", um maqueiro num "auxiliar de acção médica", uma telefonista numa "assistente de recepção". Também fora do âmbito profissional, não se altera o figurino. Então vejamos: o cego passou a "invisual", o preto a "pessoa de cor", o cigano a "nómada", o pobre a "desfavorecido", os bairros da lata a "bairros sensíveis", o vagabundo a "sem-abrigo".

Este exercício de estilo esconde na realidade um profundo desprezo em relação a estas pessoas, trata-se de uma linguagem eufemística que se destina a esquecer o que realmente significam as palavras." in O Bisturi

Publicado por Rui em dezembro 10, 2003 10:35 AM | TrackBack
Comentários

Por aqui a mudança semântica de secretária para assistente administrativa é acompanhada de uma mudança financeira. Para fazer jus ao título de secretária é preciso ter formação superior. Por outro lado, para ser presidente do país não precisa de nenhuma formação. O cargo de presidente vai ser mais concorrido do que o de secretária...
;)

Afixado por: Cathy em dezembro 10, 2003 09:43 PM

Diz a Cathy que para se ser presidente não é preciso ter formação e defacto é verdade desde que o eleitorado acredite na sua mensagem pode até ser um excelente presidente. E quem garante que a assistente administrativa com formação académica até de nível superior, possa ser uma
boa profissional?

Afixado por: congeminações em dezembro 10, 2003 10:20 PM

A questão é: se a formação não é importante, qual a razão de exigir a formação para pagar bem o bom profissional?
O problema é: meu país precisa de mais coerência! As pessoas com mais de 40 anos, sem formação superior, sem aparência de modelo, etc... lutam com desespero para conseguir um emprego, mesmo que seja para ganhar uma miséria... Mas o discurso do país é que podemos ter um excelente presidente que não tem formação nenhuma.
O que eu realmente gostaria é que o discurso e a prática andassem mais próximos!

Afixado por: Cathy em dezembro 11, 2003 01:22 AM

Ou melhor, que o discurso servisse para o povo que elegeu esse presidente...

Afixado por: Cathy em dezembro 11, 2003 01:32 AM

gostaria de receber textos destra, informaões a respeito de linguagem no sistema capitalista.
parabéns.
ótimo

Afixado por: Paulo Dias em fevereiro 9, 2004 09:07 PM
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