E eu, mal abastecido de oxigénio no cérebro, a pensar que assim um tipo às direitas como o Liberdade de Expressão ia gostar deste meu texto... Afinal achou que não bati o suficiente no Estado. Mas aqui venho em sua ajuda para que finalmente estejamos de acordo:
Desde que nasci, há quase três décadas, tenho familiares que são proprietários de terrenos florestáveis e pelo menos desde então eles têm sido livres de plantar por lá o que muito bem entendem; sublinho que nem um subsídio granjearam. Garanto também que nenhum deles deixou de ser pastor para ver crescer pinheiros (ainda que eu saiba de uns primos afastados que dedicaram os seus lameiros ao plantio bem mais rentável de coníferas). Por razões puramente interesseiras (as dos seus interesses económicos baseados na rentabilização máxima dos recursos disponíveis), o que por lá vemos plantado são essencialmente os tais pinheiros bravos (já velhos conhecidos de inúmeras gerações de portugueses) e essa relativa novidade que é o perfumado da Austrália, as tais árvores de que fala o Liberdade de Expressão. Naturalmente, ainda que não tendo sido o Estado a obriga-los a tais culturas a culpa de tais opções ao longo dos últimos 30 anos é sem dúvida desse mesmo Estado que não lhes abriu os olhos, que não lhes deu cultura e conhecimentos técnicos, que foi omisso em lhes fazer perceber o risco dos seus erros e a ilusão potencial do retorno esperado face às rentabilidades (e risco) futuros.
Não lhes explicou sequer que há uma palavra bonita que se chama ecologia e que faz muito bem à saúde. Por isso estamos de acordo: a culpa é do Estado. O Estado aliás só faz asneiras. Mas cuidado, caro Liberdade de Expressão, quando fala em pôr o Estado a "proteger terceiros". Eu digo antes, o Estado que não se atreva a tomar medidas, afinal, muito provavelmente, e atendendo àquilo que diz e digo aqui dele, só irá cercear a livre iniciativa e penalizar essa casta tão rara na nossa nação que são os investidores de risco. A grande maioria dos penalizados pelos incêndios não era ela própria constituída por proprietários que incorriam nos mesmos erros? Tiveram o que mereceram. Faz parte das regras do jogo. Os dois ou três desgraçados imaculados que foram vítimas não passaram disso mesmo, duas ou três vítimas colaterais que não poderão impedir o regular funcionamento do mercado e muito menos justificar uma desproporcionada intervenção do Estado. Lamentemos e prestemos as condolências às famílias e mitiguemos o dano com um pouco de caridade, esse instrumento tão precioso e eficaz como tão bem provaram os portugueses ao aceitarem o repto de tantas televisões, jornais e quejandos na recolha de donativos. Deixe o mercado agir livremente, caro Liberdade de Expressão, não se tente. Teve um momento de fraqueza perfeitamente compreensível. Ele ajustará a melhor solução, seja ela a da repetição do passado (que só se repetirá se for a solução mais eficiente na racionalidade do lucro, a única admissível à face da Terra e planetas limítrofes), ou a do abandono da floresta (com o potencial desinteresse dos proprietários escaldados - imagine a "ecologia" que ganharíamos com os matagais florescentes, em 30 ou 40 anos com um pouco de sorte tínhamos uma muito genuína floresta de cheirosas mimosas em boa parte do país).
Deixe-se o Estado ficar mudo e quedo porque os agentes económicos, no longo prazo, conquistarão a racionalidade que lhes faltou, digo, recuperarão a racionalidade que está neles adormecida. Se as comunidades acharem que lhes faltam bombeiros mobilizar-se-ão para os apagar. Afinal não ouvimos tantos e tantos relatos de vizinhos da tragédia que ficaram calmamente a beber umas e outras na cervejaria da aldeia na presença das primeiras labaredas na serra? Quer agora que sejam os meus impostos a servir para apagar o fogo nas casas desses preguiçosos? Deixe o Estado em paz que já tem culpas que chegue. A bem do mercado, que somos afinal todos nós; a única entidade com algum laivo de comunidade que verdadeiramente interessa.
(Acham que com mais algum treino tenho hipóteses de concorrer ao título do mais populista dos ultra-liberais?)
Publicado por Rui em dezembro 16, 2003 11:24 AM | TrackBackOlá!
obrigada pela visita, Rui. Eu já tinha esbarrado com esse blog quando procurava sobre o adufe, mas não imaginava que era o que era! Certamente vou visitar mais vezes! Adorei!! :)
Quanto ao adufe brasileiro, eu só copiei e colei a informação!! ehehe
Ainda estou tentando aprender a tocar esse aqui e pelo que vi, é meio diferente dos daí, mas como foi o único que encontrei, na próxima vez que eu estiver em Portugal, compro um daí!
Um abraço,
Cris
Curiosidade: aquele ali da imagem de cima apesar de não ter ranhuras para as chapas de metal (tipo tampas de garrafa achatadas) tem uns gizos no interior.
Eu sou uma nulidade a tocar. Adufar só se for com palavras :-)
O Rui não responde aos meus argumentos. Tente responder a estas perguntas:
O pinheiro bravo é a vegetação natural de Portugal?
Qual é a paisagem original do país?
Quem implementou políticas de fomento florestal na década de 30 e 40?
Quem expropriou/nacionalizou os baldios?
Quem fomentou as celuloses nos anos 50 e 60 tornando possível a expansão do pinhal "por razões puramente interesseiras" dos proprietários "(as dos seus interesses económicos baseados na rentabilização máxima dos recursos disponíveis)"?
Qual era a área florestal portuguesa e qual era a sua composição em 1900? Como variou desde então?
Porque é que o estado financia a replantação em terrenos privados sustentando dessa forma uma actividade inviavel?
Porque é que o estado cobre os prejuízos de quem não faz seguros sustentando dessa forma uma actividade inviavel?
Porque é que os registros de propriedade estão desactualizados?
Pois é! O estado, ao longo do século XX fomentou a plantação de pinheiros e eucaliptos, quer directamente, usando os baldios, quer indirectamente, promovendo as celuloses. Tudo funcionou enquanto existiu mão de obra barata no interior. Após o exodo rural, a situação tornou-se insustentável. Mas o estado continua a insistir numa política de fomento florestal financiando uma actividade que sem esse financiamento não seria rentável. Se os proprietários tivessem que pagar do seu bolso as despesas de plantação, os seguros e as despesas de segurança, a maior parte das áreas ardidas não seria replantada para voltar a arder.
Afixado por: Joao Miranda em dezembro 16, 2003 03:26 PMEntre o registo cómico (que me levaria a divagar sobre dinossauros e coníferas, árvores suas contemporâneas bem anteriores a qualquer espécie de folha caduca em todo o planeta) e o registo mais sério vou agora optar pelo segundo.
Concordemos com o diagnóstico histórico, a gestão do espaço silvícola e florestal foi catastrófica durante uma boa parte do séc. XX. Particularmente no período até ao final da ditadura. É preciso notar que tivemos então uma mudança de regime que convém destacar para percebermos que falamos de diferentes "Estados".
Mas aqui como em muitos outros mercados há muito que o Estado deixou de ser imperativo, quando muito tem sido indicativo. Que eu saiba, o Estado não me subsidia a plantação de eucaliptos ou de pinheiros. Há muitos anos que nada obriga os actuais proprietários nas suas escolhas. A opção celulose/silvicultura (castanha, pinhão, noz, etc)/madeira nobre (mobiliário)/Cortiça foi e é tomada livremente por agentes económicos no mercado. O factor risco, se estes fossem racionais (se não precisassem de um enquadramento mais vasto, talvez de um regulador do sector - O Estado) deveria ter sido considerado nas suas opções, seria integrado nas suas escolhas e equilíbrios. Se o Estado tem responsabilidade nas áreas que gere directamente é preciso ver que boa parte da "floresta" nacional é privada, hoje e há já muitos anos... Uma das maiores percentagens da Europa segundo li ontem ou antes de ontem num jornal.
Ou seja, a minha piadinha ao liberal mais impedernido no meio disto tudo, é que, em bom rigor, o mercado há muito deveria ter resolvido o problema, ou começado a resolvê-lo; pelo menos desde que existe fora da alçada imperativa do Estado (último quartel do séc. XX).
É incorrecto e enganador, na actual conjuntura culpabilizar integral e exclusivamente o Estado.
Se encararmos este com um problema de responsabilidades partilhadas estaremos bem mais próximo de uma solução.
Atendendo ao lastro histórico e à gravidade e multidimensionalidade do problema (ecologia, ocupação humana, exploração económica, etc - é preciso notar que não é consensual qual é o problema, quais as dimenões importantes a valorizar) parece-me evidente que o mercado não está capaz de resolver por si "o" problema.
Ou seja, não se vislumbra solução para a situação sem que haja uma intervenção e um acompanhamento do Estado sobre os agentes do mercado. Ou seja, o Estado é preciso para estimular a economia do sector e o seu papel é útil de não cair nos erros do passado, imperativos e/ou indicativos.
A minha tese para o papel do Estado na sociedade assenta no princípio de que o Estado como qualquer empresa ou organização pode ser bem ou mal gerido, pode ter uma acção benéfica ou negativa sobre a sociedade. Contrariamente ao que alguns liberais mais extremistas pensam, a existência de um mercado livre não é garante por si só de um regular e adequado aproveitamento dos recursos e produtor dos equilíbrios adequados a um interesse comum que me custa a admitir que alguém possa negar existir.
Nesta questão reparei que algumas das vozes que tanto apregoam a privatização de vastos sectores da economia, o papel exclusivamente regulador e minimalista do Estado tenham vindo com tanta ligeireza fazer um diagnóstico que desresponsabiliza por completo os proprietários privados da "Floresta" nacional. Escamoteando que além da má intervenção do Estado, os interesses puramente egoístas de cada um dos proprietários contribuiu também para conduzir a uma situação calamitosa para todos. A cada um o seu quinhão da culpa.
Afixado por: Rui MCB em dezembro 16, 2003 06:43 PMO estado continua a subsidiar a actividade florestas de várias maneiras:
1. O estado é que paga o combate aos fogos. Num regime liberal, essa devia ser uma tarefa dos privados.
2. O estado é que paga a reflorestação dos privados. Quem não está disposto a investir não devia ter florestas.
3. Em caso de incêndios, o estado garante preços artificiais para a madeira queimada. Ou seja, o estado cobre os riscos dos privados, que deviam cobrir esses riscos com seguros.
O Rui diz que "a opção celulose/silvicultura (castanha, pinhão, noz, etc)/madeira nobre (mobiliário)/Cortiça foi e é tomada livremente por agentes económicos no mercado."
Não é verdade. Essa opção só é tomada porque o estado a torna viável. Sem o dinheiro que o estado injecta, há muito que a maior parte dos proprietários teriam deixado a actividade.
O que "desresponsabiliza por completo os proprietários privados da "Floresta" nacional" são as políticas interventivas. A melhor forma de responsabilizar os privados é impedir que seja o estado a pagar pela má gestão deles. Se arde, o custo tem que ser suportado pelo proprietário.
Aliás, o estado tem que fazer com que os proprietários paguem os recursos públicos que consomem como água subterrânea e serviços de segurança. E para isso é necessário subir os impostos sobre a propriedade florestal.
Afixado por: Joao Miranda em dezembro 16, 2003 06:59 PMCriticar o estado não é ser pela anarquia, é ser contra a tendencia irritante do estado se meter a fazer coisas que não consegue fazer (como gerir florestas) e não se dedicar o tempo suficiente a fazer aquilo que lhe compete (cobrar impostos e aplicar justiça).
Assim não é uma questão de descobrir quem é mais incompentente o estado ou os privados. É questão de descobrir o que é que o estado faz bem (cobrar impostos, regular as actividades e aplicar justiça) e evitar que o estado faça o que faz mal (gerir, investir, gastar).
Ó João!!! Impostos!!
Nada disso! Um verdadeiro liberal entregava-os à sua sorte. Aliás, o João estava a ir tão bem no seu enunciado e no final acaba por concordar com a estatização de funções como o combate aos fogos?! Não senhor. Seja claro e leve o seu raciocínio às últimas consequências. Acabe-se por completo a tal intervenção do Estado. E não se ponha a cobrar a água subterrânea senão vai ter de pagar o oxigénio gerado pelas árvores aos proprietários de floresta assim como o nocivo carbono que depositam nos seus sumidouros florestais.
Já vi que não está disposto a partilhar responsabilidades entre o Estado e o mercado, reconhecendo lacunas em ambos que contribuiram para a situação que temos, mas então seja coerente até ao fim. Porque é que há-de pôr o ineficiente Estado a gerir impostos para pagar a bombeiros?? Os proprietários que se organizem e que os contratem eles!
E já agora para que conste, em pelo menos nas serras da Beira Baixa que conheço, nunca vi o Estado a pagar a reflorestação após os incêncios das últimas décadas. Quanto à viabilidade da exploração florestal, acho que o João não está a ver bem quem são os "indústriais" privados da "floresta". À parte as grandes celuloses estamos a falar de micro proprietários que quando muito deitam a semente (muitas vezes nem isso, esperam que cresça) e se limitam, nos primeiros anos, a podar os pinhos e os eucaliptos e a escolher os que se apresentam mais promissores limpando a serra dos mal-nascidos. O resto é um deixa crescer durante anos e anos, com maior ou menor (geralmente menor) limpeza da mata. O investimento típico num pinhal ou eucaliptal por parte de um proprietário não industrial (a grande maioria) é reduzido. Não é pela ajuda do Estado que ele se mantém nesta actividade. E muito menos pela expectativa de um valor de venda seguro garantido pelo Estado! Recebe uma miséria para vender a um angariador por um bem que à boca da celulose costuma ser relativamente bem pago ( esta disfunção dde distribuição não é tão grave na Beira Litoral e em alguma áreas da Beira Alta mas sei que o é na Beira Baixa). Acho até que é pela absoluta inércia (ignorância, idade dos proprietários, desvalorização histórica - sublinho o histórica - da floresta face à exploração agrícola, etc) que muitos deles nem se apercebem que a castanha pode dar dinheiro, ou a madeira nobre para o mobiliário pode dar dinheiro, ou as nogueiras, ou os pinheiros mansos (isto se incorporarem a colacação no mercado).
O papel do Estado enquanto culpado por acção está manifestamente a ser exagerado.
Entregue o João, em absoluto, a gestão das florestas aos actuais proprietários, numa perspectiva ultra liberal e de desresponsabilização total do Estado (muito mais próxima do ideal nesse modelo do que a situação vigente) e terá um lindo serviço. Ou mato ou a repetição do erro. É isso que lhe oferecerá o mercado se o Estado se limitar ao deixar andar (sem o intervencionismo, portanto, que já ouvimos, se dispõe a fazer). Se o João conviver bem com isso, com o cenário de mato ou de repetição do erro e achar que não nos diz respeito (que não há um interesse colectivo relevante) essa deve ser a sua linha de defesa.
Ó Primeiro Ministro!!! O Estado é bom a cobrar impostos!!! E a exercer a justiça?!?
Nada disso! Eu reconheço que o Estado tem sido historicamente mau demasiadas vezes nessas funções. À semelhança do que já aconteceu com as tais outras funções em que este é incompetente (investir, gerir).
Ou admite que o Estado é sempre mau (anarquia!!) ou então terá que concordar comigo. Para ter esperança que o Estado venha a melhorar a sua capacidade na cobrança de impostos e na justiça tem de admitir que não é irrelevante a forma como este se organiza. Há factores "ambientais" importantes, os impostos e a justição não saõ inatos, não há uma capacidade genética. Do mesmo modo para a gestão e para o investimento, também defendo que não há uma incapacidade inata.
O Estado, as empresas são feitas por pessoas, e os limites em que se propõem desenvolver a sua acção não são irrelevantes. São determinantes!
Ultrapassando a discussão de saber se o Estado é capaz de fazer ou não, podemos então discutir o que é que é desejável que faça.
Os meus cumprimentos.
Sustento, o estado é bom a cobrar impostos e a aplicar justiça, não porque o faça bem feito, mas porque ninguém mais é capaz de o fazer. Se não fosse o estado quem é que o substituia? Logo estas funções são as primárias do estado. As insubstituiveis. Se fica mal feito é porque o estado quer fazer outras coisas ao mesmo tempo
Afixado por: Primeiro Ministro em dezembro 16, 2003 09:54 PMO Rui que me perdoe, mas de liberalismo percebo eu. A posição liberal não é aquela que o Rui imagina.
Em primeiro lugar, a propriedade comum deve ser, ou privatizada, ou gerida por órgãos eleitos. Estes bens têm que ser bem geridos e quem os utiliza deve pagar a sua utilização à comunidade. A comunidade não é obrigada a pagar externalidades positivas geradas por actividades privadas. A água é um bem comum que deve ser pago. Os serviços de segurança devem ser prestados por privados, mas se são prestados pelo estado, então devem ser pagos por quem deles usufrui.
As florestas não geram necessáriamente oxigénio. As árvores consomem CO2 quando crescem, mas libertam CO2 quando morrem, quando ardem ou quando os produtos florestais ardem ou se degradam. Cada árvore acabará, eventualmente, por se degradar e o CO2 acabará por ser libertado. Em estado estacionario, o consumo de CO2 pelas florestas é nulo.
O Rui não percebeu o meu objectivo. A vegetação natural de Portugal é mesmo o mato. Portugal tem floresta a mais e a actual área florestal devia ser reduzida ao tamanho sustentável. Para isso, basta que o estado não promova a floresta e cobre aos proprietários o valor dos serviços que presta. E já agora, multe quem não cumpra regras de segurança mínimas.
Afixado por: Joao Miranda em dezembro 17, 2003 12:58 AMCaro Primeiro Ministro cocordo que as funções que atribui ao Estado são insustituíveis não concordo inteiramente com o artigo "as". Defesa nacional. Regulação dos mercados (que vai além da justiça). Instrução. Serviço Nacional de Saúde. Informação (serviços de informação, um grupo de media do estado). Investimento Público em tecnologia e desenvolvimento. Política de redistribuição da riqueza enquadrada num sistema de segurança social. Enfim. Nada de novo. Apenas com alguns métodos que julgo mais aprefeiçoados que os do passado, com reacções menos viscerais às características de mercado e com uma ideia um menos paternalista e mais laboriosa do Estado, mas ainda assim sem ilusões quanto à necessidade de ter um Estado cuja esfera de acção/infuência vai bem além das áreas que defende vossa excelência. Tento ver o Estado e o mercado como dois dinamizadores que se complementam numa economia mista.
Com os melhores cumprimentos
O texto entre aspas é do João Miranda
“A comunidade não é obrigada a pagar externalidades positivas geradas por actividades privadas. A água é um bem comum que deve ser pago. Os serviços de segurança devem ser prestados por privados, mas se são prestados pelo estado, então devem ser pagos por quem deles usufrui.”
Utilizador pagador portanto.
“As florestas não geram necessáriamente oxigénio.”
Esta é uma novidade absoluta para mim…
“As árvores consomem CO2 quando crescem, mas libertam CO2 quando morrem, quando ardem ou quando os produtos florestais ardem ou se degradam. Cada árvore acabará, eventualmente, por se degradar e o CO2 acabará por ser libertado. Em estado estacionario, o consumo de CO2 pelas florestas é nulo.”
Esse seu estado estacionário envolve um período de tempo de quanto milhões de anos? Estou a pensar no petróleo… De facto, estamos a fazer tudo por tudo para lhe dar razão João, queimando agora o que se “sumiu” há largos milhões de anos.
Convenhamos que temos de encontrar um período de análise para basear a decisão um pouco mais curto… Mesmo entre as explorações económicas da floresta há muitos aproveitamentos cujo ciclo de vida é razoavelmente extenso (Papel, mobiliário, cortiça, alimentos, integração de compostos e ligas com diversos aproveitamentos industriais…). Há outras contas menos lineares a fazer noutras áreas mas só encontro argumentos para discutir o grau e nunca o princípio.
Num ponto o João defende a lógica do poluidor pagador, ou melhor, cliente pagador, noutro despreza por completo a lógica do mercado de emissão de poluentes, aquele mercado ao nível dos estados onde há transacção de quotas de poluição e há créditos que se ganham se se investir na captação dos compostos poluentes (ex. CO2) via exploração agro-silvícula, por exemplo. Parece-me muito injusto que não se considere uma parceria entre os proprietários “florestais” e o Estado no sentido de repartir os dividendos desse mercado.
“O Rui não percebeu o meu objectivo. A vegetação natural de Portugal é mesmo o mato. Portugal tem floresta a mais e a actual área florestal devia ser reduzida ao tamanho sustentável. Para isso, basta que o estado não promova a floresta e cobre aos proprietários o valor dos serviços que presta. E já agora, multe quem não cumpra regras de segurança mínimas.”
Quanto à primeira parte perferia que dissesse antes que basta que o Estado não sirva os interesses da grande indústria da celulose sem os obrigar a alguns compromisso ambientais. Não ponha todos os proprietários ao barulho pois muitos deles têm a floresta que têm porque assim o quiseram livremente. Dá dinheiro mais rápido logo plataram pinhos e eucaliptos. Não culpe o estado deste raciocínio individual.
Quanto à segunda parte ( a do já agora) é preciso perguntar hoje que serviços presta o Estado? Se não limpa (compulsivamente se necessário) as matas ou implementa qualquer outro sistema de prevenção (condicionando por exemplo a continuidade de culturas com elevado risco de incêndio); se não é eficaz no combate aos incêndios; senão fiscaliza a existência de monopólios locais na intermediação produtor / industrial que argumentos é que tem para cobrar aos proprietários? A consequência de uma intervenção desse género (multas e cobrança de serviços) sem um esforço de valorização do seu serviço e sem um esforço de dinamização do mercado, equilibrando o peso dos diversos agentes, levará à nacionalização de vasta áreas da floresta (os proprietários irão ao ponto de oferecer á penhora as propriedades, garanto-lhe). Por outra palavras, hoje, se nada for feito, não há um mercado saudável e capaz de se sustentar. Há apenas dois ou três grandes proprietários que controlam verticalmente o ciclo produtivo do papel. Devido a essa incapacidade dos pequenos proprietário o problema é assim bem mais complexo e adivinha-se ou tal intervenção que o João e eu tememos: subsidiando os erros do passado a uma escala nunca antes vista ou…sei lá, talvez a nacionalização das terras e a posterior entrega aos tais industriais e a alguns empreendimentos “turísticos” de exploração da caça.
A solução parece-me passar de facto por uma maior intervenção do Estado, pela disposição desse mesmo Estado em assumir os terrenos abandonados e pelo seu papel dinamizador nalguns mercados dominados por regras pouco claras, fiscalizando por um lado, e estimulando, por outro, a exploração de espécies autóctones, o regresso da agricultura e o alargamento de algumas das reservas naturais.
Caça, agricultura, madeira, celulose, recursos hídricos, povoamento, rentabilidade económica, qualidade de vida e ambiente, limitações/oportunidades comunitárias tudo variáveis do mesmo problema.
Então no caso da floresta, a função do estado não tem de ser nem de gestor, nem de proprietário. A floresta é um bem, não comum mas privado, cabe aos privados gerir para o bem (os produtos que dái extrai) e para o mal (prevenindo os incêndios e pagando a factura dos mesmos).
As medidas do Primeiro Ministro são simples. Seguro anti-incêndio obrigatório e risco de expropriação/revenda para pagar os custos provocados pelos incêndios. Mais do que isto é excesso de intromissão do estado e externalização dos custos.
Muito bem senhor primeiro ministro.
Gostei da clareza. O Estado assumirá, em última análise, a função de acumular a gestão e a propriedade das propriedades expropriadas.
Ainda me resta um sublinhado.Não conheço nenhuma Seguradora que esteja disposta a aceitar tal cobertura num seu seguro. Admito que não as conheço todas mas julgo que a haver alguma com essa cobertura, cobrará de prémio bem mais do que o valor de mercado do próprio bem segurado. Logo o seguro também não é solução.
Outra hipótese seria o Estado estipule um prémio padrão, mais razoável que contudo poderia por em perigo a própria viabilidade financeira das seguradora. Ainda outra hipótese: caso não haja mesmo nenhuma seguradora disposta a segurar é preciso ver que sendo o seguro obrigatório, o Estado, via Instituto de Seguros de Portugal, teria de ratear esse risco pelas várias seguradoras acreditadas, impondo a esse sector uma obrigação que poderia, também, por em risco a viabilidade do negócio segurador.
Parece-me um problema complicado para uma linha de solução que mostra ainda algumas lacunas, caro primeiro ministro. Mas pensemos, pensemos que havemos de chegar lá.
Mais uma vez, os melhores cumprimentos para V.Exa.
Algumas notas rápidas:
- só quando uma floresta está em fase de crescimento é que absorvem CO2. Numa escala de tempo de uns 50 grand parte desse CO2 é devolvido à atmosfera. Por razões políticas, poderá fazer sentido pagar por um armazenamento temporário do CO2. Mas em termos ecológicos a coisa não serve de muito.
- a floresta poderá ser uma fonte competitiva de combustível. Se assim for, a substituição de combustíveis fósseis por combustíveis florestais tem vantagens ecológicas porque a produção líquida de CO2 é nula.
- a política florestal portuguesa está há muito tempo submetida aos interesses económicos e industriais. A floresta é tida como uma prioridade política por causa dos interesses indústriais e não por motivos sociais ou ecológicos.