janeiro 26, 2004

As inspecções de veículos

O que está a falhar nas inspecções de veículos?
Este fim de semana disseram-nos que poderá andar mais de um milhão de veículos com inspecções obrigatórias feitas mas indevidamente aprovadas.

Disseram-nos que o elo mais fraco são os inspectores por estes serem trabalhadores como os outros. Ou seja, por poderem ser trabalhadores a prazo, com contratos precários e/ou cada vez mais facilmente dispensáveis graças às maiores facilidades de despedimentos presentes no novo código de trabalho. Pessoal mal formado e/ou mal alimentado, gerido por patrões que lhes impõem o crime como condição de emprego (espero que seja crime!).

Mas são o elo mais fraco do quê? Dos interesses em jogo, evidentemente.
O interesse do cliente, particularmente quando é dono de uma grande frota de veículos comerciais (ligeiros ou pesados) que escolhem o centro de inspecções, não de acordo com o preço, que é fixo, mas de acordo com a maior ou menor probabilidade de um mesmo veículo ser aprovado ou reprovado na inspecção. E o interesse do dono do centro.

O dono do centro de inspecção deveria agir no respeito do alvará do Estado. Deveria prestar serviços ao Estado cumprindo as suas obrigações... Mas o dono do centro de inspecção não é do Estado, é um privado com privados interesses que, não podendo fixar preços, continua a ter preocupações de viabilidade financeira do seu centro, continua a ter de pagar maquinarias e trabalhadores, continua a querer o seu lucro, a sua remuneração do risco em que incorre e do investimento feito. Acresce que o dono do centro é por vezes (aparentemente muitas vezes) alguém com uma muito privada concepção de direitos e deveres cívicos.

Todo o edifício se desmorona, já pela segunda vez com repercussões públicas - sim a notícia não é nova se tiverem memória...

O que fazer?
Inspeccionar mais os centros de inspecção?
Interiorizar no aparelho do Estado a fiscalização dos veículos?

Como disse a notícia não é nova e as medidas anteriormente tomadas (que levaram a alguma concentração dos centros de inspecção) não parecem ter garantido os resultados desejados.

Tudo isto era tão previsível quando surgiram pela primeira vez os centros de inspecção técnica de veículos... A iniciativa privada, particularmente em situações de mitigação das regras de mercado - que julgo serem incontornáveis neste caso - tende a produzir estes efeitos se não for regulada. O equilíbrio exige uma intervenção activa e permanente do Estado, uma ideia que tantas vezes é iludida pela "privatização" de serviços.

A continuar a ser este o cenário mais previsível sempre que o Estado delega o provimento de bens públicos na iniciativa privada, saberemos que privatizar será também sempre um grave erro. A pior solução.
Neste caso de consequências criminosas. Como noutros.

Publicado por Rui em janeiro 26, 2004 02:40 PM | TrackBack
Comentários

Já aqui há temos falei disso no Tadechuva. É isso e mais algumas coisas.


Um abração do
Zecatelhado

Afixado por: Zecatelhado em janeiro 26, 2004 07:35 PM

Mantém-se a corrupção, De costumes, de carácter, de honradez.
O problema não está no privado ou no público. Está na organização, no controle, no respeito, no civismo.
Há, em Portugal, empresas privadas, e cito a Siemens ou a Vulcano, que detêm, no seu respectivo ramo, uma das melhores produtividades da Europa; e com trabalhadores portugueses.
E porquê?

Afixado por: manuel marques em janeiro 26, 2004 10:39 PM

Era tão bom que não fosse verdade.

Afixado por: Rui em janeiro 27, 2004 09:44 AM

Não sei bem se o culpa é exclusiva dos patrões.
Eu tive uma experiência pessoal com um automóvel
numa primeira inspecção e não me pareceu que a exigência que me foi imposta pelo dito inspector tivesse a ver com nenhuma recomendação da entidade patronal, aquilo foi de iniciativa própria e reveladora da pouca honestidade do dito inspector. É certo que a atitude foi suficiente para nunca mais lá voltar.

Afixado por: congeminações em janeiro 27, 2004 09:30 PM
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