março 09, 2004

The grey zone (act.)

O Joel tocou ontem numa questão complicada. A adopção e a homossexualidade. Digo complicada porque é difícil definir uma linha de pensamento robusta que não depare com paradoxos morais ou práticos. O aborto, a eutanásia, a manipulação genética em humanos, as barrigas de aluguer, mesmo os bancos de esperma e a utilização de embriões para investigação são questões que formam uma nebulosa que neste nosso cantinho têm carecido de esclarecimento colectivo. Qual a nossa posição enquanto comunidade? O que é que queremos regular? Demasiadas vezes a omissão e a hipocrisia fazem "lei".
Tenho diferentes graus de convicção quanto a cada um destes temas e não interessa aqui agora expor o meu pensamento integral sobre cada um deles. Ocupo-me apenas de sublinhar que, apesar de alguns dilemas colaterais e não insignificantes que se prendem com efeitos da medida concreta sou levado a concordar com o Joel na sua análise sobre a adopção e a homossexualidade. Mas...

Tenho diferentes graus de convicção quanto a cada um destes temas e não interessa aqui agora expor o meu pensamento integral sobre cada um deles. Ocupo-me apenas de sublinhar que, apesar de alguns dilemas colaterais e não insignificantes que se prendem com efeitos da medida concreta sou levado a concordar com o Joel na sua análise sobre a adopção e a homossexualidade. A "proposta" do Joel é talvez a de mais difícil execução, dependerá sempre de demasiados aspectos subjectivos numa avaliação dos candidatos a “adoptantes” mas o princípio defendido pelo Joel parece adequado. A avaliação é por definição um processo de equilíbrio entre objectividade e subjectividade. Trata-se de sugerir mais um parâmetro, de reconhecer que há uma diferença que deve ser evidenciada nesta questão muito particular:

"(...) Não é boa nem é má. Mas, da mesma forma que as comissões de avaliação têm de aquilatar sobre a solidez emocional ou a estabilidade financeira dos candidatos à adopção, também a orientação sexual destes deve ser tida em conta no momento do despacho.
Os homossexuais devem poder casar. Como é óbvio: vivem em comunhão e devem usufruir das vantagens (e submeter-se às obrigações) de quem vive em comunhão. Mas, no que diz respeito ao casamento, tudo se passa na esfera dos dois - são eles quem se casa e são eles quem arca com as consequências disso.
A adopção é diferente. Há uma terceira pessoa a arcar com as consequências desse casamento (ou dessa união, em termos latos). E essas consequências não podem ser atribuídas com base em pressupostos de excepção - até porque a criança adoptada não pode escolher.
"

Tudo parece bem. Já posso dormir descansado...ou talvez não...
Defender isto implica reflectir muito bem também sobre outras questões relacionadas... Deverá um casal de lésbicas (por exemplo devidamente encartado - em países onde o casamento já seja uma possibilidade) poder recorrer a um banco de esperma para engravidar? Até onde deve ir a disposição imperativa do Estado sobre as liberdades de cada um? Pegando no que defendo sobre o aborto (remeti para a opinião do Paulo Querido) perante esta outra questão estou num dilema. As duas opções parecem recomendar comportamentos distintos para a questão da fertilização in-vitro de homossexuais. Pegando na resposta ao dilema da adopção entre homossexuais poderia opor-me terminantemente a essa prática defendendo com isso que a utilização do sémen seja controlado pelo Estado. Seguindo o raciocínio aplicado quanto ao aborto, onde privilegio o poder soberano da mulher mesmo perante um aborto, seria estranho agora vir impedi-la de engravidar de sua livre a expontânea vontade. Ou seja, deveria defender a liberdade de opção de toda e qualquer mulher independentemente da sua orientação sexual e da forma como pressuponho que venha a educar um filho.
Pensando um pouco mais sobre estes assuntos talvez me aperceba que algumas das contradições são apenas aparentes, mas por hoje e agora... estou muito genuinamente perdido. Nem sei se ainda concordo consigo caroJoel...

Publicado por Rui em março 9, 2004 07:16 PM | TrackBack
Comentários

Rui, sobre este ponto, tens a minha opinião aqui:
http://janelaparaorio.weblog.com.pt/arquivo/077999.html

Afixado por: NunoP em março 10, 2004 10:51 AM
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