março 10, 2004

O Manifesto Futurista

Se sempre que quiserem bater em mim o fizerem como fez a Sarah da Espuma dos Dias eu agradeço.
Para que melhor se perceba o que a Sarah publicou na Espuma (e porque acho que fez muito bem em traze-lo a público) vou aqui deixar (em anexo) o mail que lhe mandei ontem. Já agora chamo à discussão o Nuno Peralta e o Joel, se quiserem (entre todos os outros!).
A Sarah diz na Espuma que se recorda de ser "vagamente homófoba, confusa, agarrada aos papéis". Seguramente eu estarei ainda a fazer o caminho. Não sei se chegarei onde está hoje a Sarah mas sei já que não há nada mais esclarecedor do que fazer o esforço de defender uma razão. Pela sua falência ou pela sua força chegarei a um lugar melhor. A propósito, sobre outros temas o Adufe tem andado cheio de certezas, vou continuar a expor por aqui muitas das minhas dúvidas. Muito provavelmente voltarei a este tema, para já fica só o mail e o debate da Sarah.

O Mail:

Olá.
A propósito do texto do Joel Neto que comentei no Adufe sobre "adopção de crianças por homossexuais". Aproveito para dizer que conheço tanto o Joel como conheço a Sarah.

Ó Sarah... Não tenho (que eu saiba...) amigos homosexuais, nem moços, nem moças (pelo menos assumidos). É um facto que não estimo, nem lamento. Até agora é assim. Desconfio, é cá uma fezada (brinco!) que são gente como eu. Que sentem o mesmo, que são capazes do mesmo, para o melhor e para o pior.
Acho que sou um rapazito minimamente esclarecido mas com enooormes áreas de ignorância. A ignorância muitas vezes é incómoda, leva-nos a querer tapar o buraco com uma qualquer ideologia ou teoria esfarrapada que nos deixe dormir na paz.
Ora com labor, ora com preguiça, vou tentando evitar essas soluções fáceis, vou tentando manter os sentidos em alerta, procurando reduzir o tal buraco.
Tal como às vezes me surpreendo com a ignorância dos outros que de vez em quando me bebem as palavras, numa ou noutra matéria em que estou mais informado, também eu lhes conheço o lugar e passo pela mesma experiência, ouvindo e conhecendo outras gentes muito mais sábias do que eu.
Eu tenho a certeza absoluta que há casais do mesmo sexo capazes de amar profundamente e mil vezes melhor um filho que muitos outros casais hetero. E tenho ao mesmo tempo dificuldade em, numa situação limite não deixar de discriminar. Explicando. Dois casais "concorrem" a uma criança para adopção, um hetero e outro homo. Ambos se qualificam brilhantemente e terminam a avaliação empatados. A constituição do casal deve determinar nesse caso o desempate ou deitamos moeda ao ar? Imagino que a Sarah nem queira responder (a manter o estado de espírito dos "Serviços Mínimos") mas eu, num primeiro impulso, e perante uma adopção, desfavoreceria o casal homo simpatizando com a lógica de "excepção" do Joel, uma espécie de último tributo à biologia da espécie. Dito isto fiquei a olhar para o barrete que a Sarah ofereceu no texto "Serviços Mínimos" e comecei a enfiá-lo. Chame-lhe atavismo, condicionamento cultural, medrices, ou pior, whatever, mas o que é certo é que esse foi o meu primeiro impulso.

Reflectindo mais um pouco, como tentei fazer publicamente no Adufe, expus sumariamente algumas contradições que nos assaltam quando tentamos fazer um esforço de coerência com outras posições relativas a outras questões melindrosas. E muitas mais, além das que descrevi, me passaram pela cabeça!
O caminho mais razoável parece então indicar-me quão frágil é (para não lhe chamar outra coisa) o argumento da excepção, mesmo em situações "limite". No entanto, o que quero dizer é que para ter dúvidas não é necessariamente preciso ser um “português de merda” (é claro que não enfiei o barrete). Acho que ninguém nasce merecedor desse título, é algo que tem de ser conquistado e acredito que há muitos concidadãos que não o merecem, mesmo entre os que como eu impulsivamente corram para um preto e branco tradicional mais ou menos elaborado (no meu caso inventei uma situação "limite").
É preciso que haja esclarecimento, que haja confronto, é preciso que tenhamos energia para ir vivendo sempre garantindo os serviços mínimos. É difícil podermos renunciar a isso... Nada de desesperanças!

Atrevo-me a mandar um beijo.
Rui Branco
adufe.pt

Publicado por Rui em março 10, 2004 02:00 PM | TrackBack
Comentários

Chamem-me conservador, português de merda ou o que quiserem, mas eu acho que a liberdade de um termina onde afecta a de outro.
Por isso, como o Joel, defendo o casamento homossexual, é algo que apenas afecta duas pessoas livres que desejam viver sozinhas. Quando isso já afecta terceiros, tenho dúvidas, sérias dúvidas sobre o resultado final. Não sou contra nem sou a favor. Também não sou o Professor Cavaco. Tenho dúvidas. E muitas. E eu que sou pai, tenho muita relutância em que essas dúvidas sejam dissipadas à custa de experiências com crianças.
Agora de uma coisa não tenho dúvidas, a adopção por um casal homossexual é sempre preferível à vida num lar, onde por muito amor que as educadoras possam ter pelas crianças, a sensação é sempre de um depósito de crianças abandonadas pela sociedade.
Chamem-lhe preconceito, mas no desempate entre um casal hetero e um casal homo com tudo o resto igual, eu entrego a criança ao casal hetero.

Afixado por: NunoP em março 10, 2004 03:08 PM

Tenho sempre a sensação que as pessoas têm medo do que não conhecem. Ele é fazer amizades com casais gay e ver que tomara muitos de nós terem pais como aqueles....

Afixado por: Claudia em março 10, 2004 05:08 PM

Nuno: se saires da tal situação limite (e bem vistas as coisas até aí) tudo fica muito mais complicado e chegas depressa a alguns confrontos inevitáveis entre vários princípios. A Sarah toca num argumento forte que é o de teres de rejietar que a família tradicional seja um modelo de virtudes inquestionável dotado de algum tipo inquestionável de supremacia. Já hoje tens éne crianças educadas por um único pai, por tios, avós, irmãos, porquê descriminar a possibilidade ou a qualidade de um casal homo? Porquê atribuir-lhe um desfavor devido à sua opção sexual quando na decisão de adoptar um criança? A capacidade de amar, o perfil psicológico, as condições materiais são tudo factores que deverão ridicularizar em grau de importância uma qualquer suspeita de risco adjacente à homosexualidade dos pais. O que está em causa verdadeiramente é a capacidade que alguém que se propõe adoptar tem para ser bem sucedido a criar a criança.
Não há nenhuma avaliação que te garanta coisa alguma: nem que um casal hetero não entrará em disrupção (segundo os padrões de normalidade de que falamos implicitamente), nem que um casal homo é incapaz de dar uma educação equilibrada por ser o que é.

Acho que a Claudia aqui sugere uma forma de simplificarmos o dilema. Não tenho a mínima dúvida que me ajudaria muito consolidar estas minhas ideias se conhecesse melhor aqueles de quem falo. Temos medo do que não conhecemos, o que não tem de ser mau. Depende do que decidimos fazer quanto a isso.

Afixado por: Rui MCB em março 10, 2004 09:55 PM
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