março 24, 2004

Para que interessa a vida dos poetas?

Discute-se se a ninfeta Scarlett deve ou não desnudar-se (linda palavra esta - desnudar-se, forte, promissora, dá o poder à mulher pois ninguém que não o próprio se desnuda, tem ainda o bónus de ser "ibérica", um must por estes dias).
Esta prosápia sexual (prosápia faz-me sempre cócegas, põe-me a rir!) leva-me a uma velha discussão. Será o escritor uma figura pública, ou melhor, como devemos encarar a sua história de vida face à sua obra? Ignorar uma e apreciar a outra? Esperar que o dito morra para chafurdar (esta é nojenta mas muito apropriada ao que sinto em certas análise históricas sobre famosos desaparecidos) nas biografias e na "objectividade" do distanciamento temporal? Não prego retórica, pergunto apenas, subjectivamente. Imagino que até haja cadeiras universitárias sobre isto mas eu venho de económicas por isso perdoem-me (lá estou eu a contextualizar este escritor que vos interpela!).
Por exemplo. (Não se faz isto de por ali um ponto final mas está feito: por exemplo.)

Quão importante é saber se o nosso Fernando Pessoa alguma vez na vida got laid?

(Haverá alguma tese sobre o assunto?)

Publicado por Rui em março 24, 2004 12:48 PM | TrackBack
Comentários

O António Lobo Antunes disse uma vez (ou eu é que só ouvi uma vez) que não podia admirar o Fernando Pessoa por ter morrido virgem.

Compreendo que para um psiquiatra provavelmente de formação Freudiana isto seja algo inadmissível, uma falta de realização do ser humano.
ou...então sublimou o desejo para a poesia e fez ele muito bem :-)

Octavio Paz (El desconocido de sí mismo, em Cuadrivio) constatou que na obra poética de Fernando Pessoa a ausência da mulher é constante: "Faltam nele os prazeres tremendos. Falta a paixão, aquele amor que é o desejo de um ser único." Tanto Alberto Caeiro como Ricardo Reis falam como eunucos, como se estivessem encobrindo, na maior parte da obra, a "sexualidade branca" de Fernando Pessoa, que, segundo consenso geral, morreu virgem. As cenas eróticas do Fausto contêm as confissões mais ardentes que Fernando Pessoa jamais fez sobre sua impotência. A incapacidade de praticar o "contato carnal das almas" impedia-o de realizar o seu sonho de amor ("Seria doce amar, cingir a mim,/ Um corpo de mulher, mas fixo e grave / E feito em tudo transcendentalmente, / O pensamento impede-me...")

Eu tenho curiosidade sobre a vida dos escritores que gosto. Se sei alguma coisa da vida de um escritor que me desagrada antes de ler um livro, fica logo tudo estragado...(Hemingway e as touradas *suspiro*)...

Já o Pessoa, parecia ter uma vida desinteressante. Pelo menos no aspecto exterior, interiormente tinha aquela gente toda a largar poemas cada um para seu lado.

Quando vejo algum homem de bigode, feio, a beber um copito e a rabiscar em papéis penso: o Pessoa devia ser assim. Sempre no seu copito de aguardente, com um ar atadito, com ar de empregado de escritório. E depois saía de lá um poeta, ligações obscuras a maçonarias e a rosa-cruzes e cartas ao Crowley.

De qualquer maneira, apesar de eu gostar de saber não me parece importante saber os pormenores sórdidos da vida de alguém para poder apreciar o seu trabalho.

Mas é difícil. E se o Hitler tivesse pintado alguma coisa de jeito em vez daquelas aguarelas da treta? Era uma chatice.

Afixado por: Claudia em março 24, 2004 03:05 PM
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