dezembro 31, 2003

Momento publicitário

Se isto fosse um programa de fim de ano numa qualquer TV (por mais deprimente que fosse, e estão a ser - mais valia ler um livro como sugeriu já hoje o José Mário do BDE II) a publicidade estaria agora a ser paga a peso de ouro... Mas não é e aqui a publicidade é gratuita. Por enquanto sou eu que manda.

Publicidade:

O país: Portugal - um país curiosíssimo com uns habitantes do melhor que há. Simpatiquíssimos com os turistas e doidos por estados de depressão colectiva. Um must, venha visitar-nos.

O espumante: Murganheira "champanhe" dos pobres, 100 vezes melhor que qualquer raposeira.

Filme recomendado para a madrugada de hoje e, quem sabe, para ir vendo aos bocadinhos ao longo de 2004 recomendado a todos os portugueses e lusófonos: Uma História Simples de David Linch.

Simplifiquemo-nos.

Para o ano há mais blogue e algumas novidades.

Publicado por Rui em 11:46 PM | Comentários (2) | TrackBack

São servidos?

É caseirinho!!!
E afinal até está bom... Nhami!
Ópera

Publicado por Rui em 09:45 PM | Comentários (8) | TrackBack

Joke

Querem saber qual a lista de prémiados de 2003 do Adufe?
Post disponível apenas no Newsletter do Bloguítica.

Quanto vale um endereço de e-mail?
Para quando o primeiro blogue com assinaturas pagas?
Não esquecer de declarar actividade nas finanças e exigir recibo. Por falar nisso, em que categoria fiscal se deverá incluir esta "actividade"?

Publicado por Rui em 05:06 PM | Comentários (4) | TrackBack

Dizem as estatísticas

Dizem as estatisticas que em Dezembro o Adufe foi visitado por computadores alojados em 58 países diferentes com o top três a incluir Portugal, EUA e Brasil.

Dizem as estatísticas que a "linguagem corporal" foi, de longe, a expressão mais procurada no Adufe, seguida de "ele e ela" e do inevitável "Sebastianismo". Quase lamento não serem estas as prioridades (e por esta ordem) da nossa vida. Quase.

Dizem as estatísticas que a "velhinha de taubaté" aparece, ainda, no fim da lista (mas aparece!) dando-nos esperança e estimulando a nossa credulidade em mais um novo ano.
Como disse há pouco: fiquem bem.

Publicado por Rui em 01:09 PM | Comentários (5) | TrackBack

Amigos...

Amigos, hoje à noite vou (vamos) tragar as comezainas ontem cozinhadas sob inspiração de Mary Shelley. E não satisfeitos (é obra feita a 4 mãos) ainda se perfilam cogumelos, queijos vários, ovos cozidos, presunto, picles, pão ralado, algum álcool, ingredientes secretos, sapateiras e gambas para uma segunda volta de experiências científicas na cozinha.
Novos "monstros" se advinham. Será que irei sobreviver ao que falta de 2003? Se sim hei-de estar a comemorar num bem popular passeio pela baixa mais logo à noite.
Que o ano 2004 seja um bocadinho melhor que este que finda.
Fiquem bem.
(ainda cá hei-de voltar antes de fechar o ano...)

Publicado por Rui em 10:19 AM | Comentários (4) | TrackBack

dezembro 30, 2003

A cozinha

Eu acho que nunca estive até tão tarde na cozinha em experimentações... Tudo estreias desde o belo pastel de bacalhau passando pelo leite creme (que ficou mais parecido com xarope de limão cremoso) ao especialíssimo bolo coquete do Cordon Bleu cujo aspecto final é ainda neste momento uma perfeita incógnita. Bom, já chega de descanso deixem-me lá ir ao último assalto. Até amanhã !

Publicado por Rui em 11:42 PM | Comentários (5) | TrackBack

Mapa de risco sísmico em Lisboa 2ª parte (revisto)

Continuando a busca na Internet por informação sobre o risco sísmico em Lisboa fui parar a dois sítios merecedores de destaque.
Um do (extinto?) Instituto Geológico e Mineiro onde me pedem pela Carta Geológica do Concelho de Lisboa, na escala de 1:10 000, em Formato Digital, além da assinatura de um termo de responsabilidade, entre 748,20€ a 1496,39€ mais IVA e portes de envio. Como eu não tenho o software que permita ler o mapa digital (e só por isso) continuei em busca de informação mais...acessivel e fui parar ao outro aqui (opção Intensidade Sísmica).
A informação é menos que básica, muito grosseira mesmo, mas para já é o que se pode arranjar. Se descobrirem melhor...digam coisas!


Adenda: é suposto o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil ter feito e divulgado em tempo o referido mapa, mas mais do que essa acção pontual junto da população de Lisboa convinha que se mantivesse disponível a todo o tempo, por exemplo, no seu sítio na Internet... Acreditemos que esteja mesmo em construção uma nova casa virtual porque o que hoje existe é do mais pobre que consigo imaginar, quase nem vale a pena ir...

Publicado por Rui em 05:50 PM | Comentários (8) | TrackBack

Em busca da carta sismológica de Lisboa (será este o nome?)

Quem tem acesso e pode disponibilizar informação sobre as zonas de risco sismico em Lisboa? Eu gostava de saber o grau de risco do sub-solo em que assenta o meu doce lar... O nosso geólogo de serviço não quer ajudar?

Primeiro achado:
Carta de Isossistas de Intensidades Máximas, no Instituto de Meteorologia.

Publicado por Rui em 05:11 PM | Comentários (2) | TrackBack

A bola de cristal

O Adufe cita John Kenneth Galbraith:


"The only function of economic forecasting is to make astrology look respectable."


E cita muito bem porque só um tolo é que acredita que um sistema complexo como a economia pode ser antecipado. Mas se não pode ser antecipado, então as interferências do estado na economia são irresponsáveis porque as consequências das políticas são imprevisíveis.

in Liberdade de Expressão

Meu caro João, interpreto a frase de JKG mais como um apelo bem humorado ao culto da humildade por parte dos economistas (econometristas) e ao espírito crítico de quem por eles é aconselhado, do que como uma lei empírica que deva tolher por completo a utilidade da tentativa de projecção da realidade económica.
No fundo é o mesmo que dizer: tenhamos cautela com as previsões, olhemos para elas como indicações, como mais uma peça de informação a considerar no conjunto dos dados que levam à tomada de decisão.
É preciso ver que qualquer empresa, e não apenas o Estado, deve fazer um esforço para se projectar no futuro, em fazer previsões sobre si e sobre o meio em que se insere, (e isto também envolve economic forecast!) para melhor preparar decisões estratégicas.
Olhemos para as previsões mas não as levemos demasiado a sério, não façamos depender a nossa reputação e as nossas políticas da absoluta precisão das mesmas. As consequências que o João extrai são na minha modesta opinião excessivas e claramente enviesadas. Uma engraçada provocação :-)

Uma área onde o João Miranda deve estar mais próximo da razão (apesar de haver ainda uma acessa discussão e muita matemática a palpitar) é na previsão dos mercados financeiros: demasiadas vezes a melhor previsão é um belo de passeio aleatório. It's an "arch" question to deal with! ;-)
Como perguntava outro economista que cito de cor: se os analistas financeiros são tão bons a prever a evolução das cotações porque raio é que não são todos multimilionários?

Publicado por Rui em 11:01 AM | Comentários (2) | TrackBack

Presenting: Juergen Klinsmann de Shamiday

É já um ancião este gato da minha gata portista, tem pinta de leão:

Juergen Klinsman de Shamiday

Publicado por Rui em 10:10 AM | Comentários (2) | TrackBack

O bairro lisboeta da blogoesfera (emendado!)

Já ouvi o mesmo velho que ela ouviu. Já senti as mesmas "dores" que ela senti (notem bem nas aspas e no link!!)
Encontramo-nos aqui nesta esquina espreitando o andar um do outro e dos outros.

Por falar em outros, anda tudo cheio de "tops" do ano. Por aqui elejo o melhor fazedor de tops do ano! Os do Luis.

qssssssssss - interferência......

Ó vizinha chegue cá. Eu acho que o Luis conhece a Sarah, a dos linkes lá de cima... É como lhe digo, devem-se conhecer de um outro bairro real [inaugura-se a era da cuscuvilhice na blogoesfera?!?] . Cá para mim vizinha, o finório não passa de um nome com um érre a menos e um éle e um ésse a mais! Não fossem essas letrinhas e era um pobre Rui como os outros. E agora tenho de ir que ainda não fui ao pão. Até logo vizinha!

qsssssss - fim de interferência.

Os do NunoP (do meu amigo Nuno que conheci algures entre o bairro da mouraria, a lapa, a estrela e são bento) não são de se deitar fora, têm uma plasticidade mais... publicitária. Mas eu gosto da singeleza tocada por alguma imperfeição presente no estilo de top da "Natureza do Mal", qual Leonor Silveira manquejando por um qualquer vale Abraão (notem a hora a que este post foi escrito!!!).
Enquanto eu vou ali e já venho perdoem-me qualquer coisinha.

Publicado por Rui em 02:39 AM | Comentários (3) | TrackBack

Os falsos profetas

Serenamente o Causa Liberal deu réplica a este meu texto com a seguinte nota que intitulou: o liberalismo não é uma teoria de gestão

Deixo aqui a sua nota (em itálico) e acrescento dois breves comentários meus no final:

O liberalismo não "despede" (nem contrata) ninguém.
Convém notar que o liberalismo não é uma teoria de gestão nem estabelece de que forma ("autoritária", "mecaninicista" ou qualquer outra) devem ser geridas as empresas e restantes organizações. Essa é, aliás, uma das mais importantes características de uma ordem liberal (ou "espontânea", seguindo a terminologia de Hayek), por contraposição ao planeamento centralizado. O liberalismo determina apenas que todas essas empresas e organizações devem estar sujeitas à mesmas regras, não sendo beneficiadas nem prejudicadas por intervenções governamentais, de modo a que, precisamente, os modelos que se revelem mais vantajosos para as partes envolvidas possam prevalecer.

1. Caro Causa Liberal (André Azevedo Alves) desde já lhe digo que lendo as suas palavras (e sublinho que me refiro exclusivamente a estas) não me provocam nenhum transtorno nas entranhas, por outras, não tenho este seu liberalismo como inquestionavelmente nefasto, digo-lhe até que estas suas palavras se enquadram naquela "inspiração liberal pura" que a palavras tantas referi no meu texto. Não sendo um liberal de todos os costados pois defendo algumas intervenções do Estados em áreas que desconfio ache que este não deveria meter o bedelho, reconheço que são mais os falsos profetas do liberalismo que critico (tenho em mente de alguns bloggers “liberais” que por aqui andam, assim como, uma certa direita que chega ao poder e de caminho consegue denegrir a democracia-cristã, o liberalismo, a social democracia e os mais simples princípios de boa fé...). À parte: para quando um partido liberal depurado por estas bandas? Faz cá muita falta, bem mais do que o nosso pobre Manuel Monteiro.

2. Uma vez que já me dediquei no decurso de afazeres profissionais a algum estudo mais aprofundado sobre a medição da pobreza ( o pretexto que nos trouxe aqui a estas palavras) tentarei nas próximas semanas discorrer um pouco sobre conceitos como pobreza relativa, absoluta, subjectiva, segundo as condições de vida, bem como, os (alguns) problemas envolvidos nessa árdua e muitas vezes armadilhada e/ou indesejada tarefa.
Bom ano!

Publicado por Rui em 12:56 AM | Comentários (0) | TrackBack

O meu Natal I (acres.)

O grande braseiro...

Na aldeia que melhor conheço, o madeiro é uma luz monumental que se acende na noite de consoada junto à Igreja. Os moços do ano (rapazes que completam 20 anos) coordenam a recolha de árvores mortas ou moribundas que se espalham pelo vale e, na noite da consoada, gerem a grande fornalha enquanto se vão regando com a prova do vinho novo.
Este ano contaram-me que o monte de toros de árvores se elevava a 5 metros do empedrado e pela amostra que tive em outros natais não me custa acreditar. Se a maluqueira do espírito olímpico se mantiver temo que ainda um dia aqui se conte história de como ardeu a Igreja, mas não nos apoquentemos demasiado que exagero de propósito.

Se uns pecam por excesso...
A passagem da noite mais simbólica do natal deste ano foi, contudo, feita noutro concelho do interior, um pouco mais a norte. Em terras onde os vales não se espalham por planícies antes se estreitam em gargantas apertadas.
Não há falta de árvores entre tais serras, sei que a tradição do luzeiro natalício é aqui igualmente antiga e sei também que não faltam rapazes e vinho novo mas então que raio de amostra de madeiro é esta que deixaram ali bem no adro na Igreja Matriz?

Cá para mim é uma questão de falta de ânimo, o que é que acham?
Castro Daire, Natal de 2003

Publicado por Rui em 12:40 AM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 29, 2003

As contradições

JSC já para o PSD, andor!

JSD já para o PS e é já mesmo!

Querem lá ver isto!? Mais um bocadinho e deixamos de ter deputados a fazer figura de corpo presente no Parlamento...

Publicado por Rui em 05:13 PM | Comentários (4) | TrackBack

John Kenneth Galbraith

"The only function of economic forecasting is to make astrology look respectable."

John Kenneth Galbraith

Ai o que ele foi dizer...

Errata: como alguns simpaticamente me fizeram notar, o nome do citado economista tinha uma terminação errada. Está corrigido.

Publicado por Rui em 04:32 PM | Comentários (8) | TrackBack

Os transportes em Lisboa (act.)

Surge há vários anos juntamente com o suplemento de Economia do Público um mini suplemento chamado Cargas e Transportes. Por aquelas páginas alguns articulistas têm esgrimido opiniões sobre as opções de investimento nacional relacionadas com as redes de transportes e, concomitantemente, sobre a economia portuguesa.
O artigo que hoje por lá li (de Rui Rodrigues) merece-me este destaque por se tratar de um contributo, em bom português, e compreensível por qualquer leigo, que pode estimular a reflexão sobre a gestão urbana das acessibilidades à capital. Enunciam-se asneiras do passado, do presente e para o futuro. Devo confessar que estou largamente de acordo com o autor.

Com a devida vénia ao jornal e ao autor do artigo aqui o deixo sem mais comentários.
Prima para ler o artigo

Publicado por Rui em 02:50 PM | Comentários (3) | TrackBack

O pior

De regresso à capital fui apanhado desprevenido. Tinha-me esquecido de quão diferente tem andado a selecção musical da TSF. Mais uma vez quando estava fisicamente impedido de mudar o rádio (no meio da higiene matinal) tive de gramar com o esganiçado Jon Bon Jovi que surgiu logo após "dois grandes êxitos do final do anos 80".
A voz do cota ainda está a matraquear na minha cabeça e aproximo-me da náusea.
Se eu faço regularmente da audição da música a minha farmácia é bom de ver que estou vulnerável aos efeitos nefastos da má medicina.
Qualquer dia a TSF descobre que está a perder os ouvintes abaixo dos 35 anos e começa a passar Shakira para recuperar a pedalada. Quanto apostam?
Logo à noite vou ouvir esta outra pérola que já andou navegando pelas ondas de ex-rádio pirata.

P.S.: Preferia as beldades de plástico de hoje do que os morcões sentimentalões dos saudosos anos 80)

Publicado por Rui em 10:06 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 28, 2003

Publicidade não desejada

Caros amigos,
Em algumas situações reparo que ao abrir o Adufe este carrega automaticamente publicidade via uma janela pop up que desconfio estar associada ao serviço www.interney.net que tive activo no Adufe (identificava quanto cibernautas estavam a ler simultaneamente o Adufe).
Julgo tê-lo removido integralmente do código do Adufe mas a situação parece persistir.
Assim que for possível tentarei resolver a situação (se alguém tiver sugestões agradecem-se).
Se algum dia o Adufe tiver publicidade desejada por mim e pelo proprietário do servidor certamente serão avisados desse facto. Para já é um problema irritante.

Publicado por Rui em 11:59 PM | Comentários (2) | TrackBack

Na pele do outro

Quando no dia 11 de Setembro de 2001 aconteceu, em Nova Iorque, o que todos sabemos e se começaram a ouvir os números das potenciais vítimas do terrorismo lembro-me de ter perguntado aos meus botões quantas pessoas conhecerei ao longo de toda a minha vida. Já não era a primeira vez que perante uma tragédia tentava encontrar uma qualquer unidade de medida base mais próxima do meu pequeno mundo que me permitisse ter uma melhor noção do que se passava, hierarquizar a desgraça, antever as suas consequências.

Quase de certeza que já alguém fez essa pergunta e até deve haver estudos sobre o assunto, imagino que seja um número útil de estimar para efeitos epidemiológicos ou para outro fim que não descortino.

Esta sexta-feira quando ouvi as notícias do sismo no Irão e, mais tarde, quando revi o filme "A Vida é Bela", a pergunta voltou a acompanhar-me, mas há ordens de grandeza, quer nasçam do terror dos homens ou de algum cataclismo natural, que não consigo conceber por mais perguntas que faça.

Por mais que queira não encontro paralelos no meu mundo pequeno que me permitam aproximar a tragédia, perceber o incompreensível, imaginar-me verdadeiramente na pelo do outro. Desconfio, contudo, que esse é o nosso maior desafio e a nossa maior esperança para podermos continuar esta espantosa viagem.

Publicado por Rui em 01:37 PM | Comentários (4) | TrackBack

dezembro 27, 2003

O meu BMW é muito mais importante que a fome do outro

O nosso amigo do Jaquinzinhos brindou-nos com mais alguns parágrafos no seu texto "Conceitos" ainda sobre a questão da pobreza.

A época não está para grandes polémicas mas li por lá uma frase e um parágrafo que quero para aqui trazer. Já se sabe como é a conversa, tal como as cerejas, puxa-se por um assunto e quando se dá conta estamos a discutir os porquês do mundo:

"
Pobre é o homem cujo vizinho comprou um BMW.

Estamos no Natal e talvez esta seja a altura ideal para olhar para este mundo e perceber porque é que os países ocidentais, com economias mais livres, criaram sociedades em que as privações dos seus cidadãos se reduziram a níveis residuais, enquanto muitos outros países que abraçaram outras teorias deixaram os seus povos em níveis de subsistência e desenvolvimento insuportáveis."

in Jaquizinhos

Na minha modesta opinião o seu Jaquim conseguiu exceder-se. Á parte a tirada do residualismo da pobreza nas economias mais livres - Como mede o nosso Jaquinzinhos a pobreza e de que pobreza fala? – já sabemos que não é a relativa; A partir de quanto é residual? Qual o período histórico com que compara a dimensão actual da pobreza nas sociedades ocidentais? Qual a evolução da pobreza de que fala o Jaquinzinhos numa perspectiva cronológica recente, digamos, os últimos 100 anos no seio das sociedade ocidentais? - fico então a saber que nós, "as economias mais livres", não tivemos absolutamente nada a ver com o passado e as suas consequências sobre a actualidade da realidade económica e social dos povos que hoje enfrentam problemas graves para assegurar o desenvolvimento dos seus países. Digo isto porque, num passe de magia, toda a responsabilidade da pobreza (dos “níveis de subsistência e desenvolvimento insuportáveis”) que grassa por bem mais de meio mundo é culpa exclusiva do "abraço a outras teorias" que não a neo-liberal...

Eu confesso que nem sabia quão abrangente havia sido a prática desse tipo de abraços teóricos nos países onde a pobreza se conta maioritariamente pelo risco da indigência e inanição total. Mas o Jaquinzinhos descobriu numa penada o culpado e a cura resumindo-se esta última numa palavra: liberalizem!
É irónico que este seja o grito que alguns dos países que tentam sair da pobreza e possuem alguma inteligência entre as suas escassas elites lançam aos ouvidos das "economias mais livres".

Pelo que vou conhecendo estou convencido que o nosso modelo económico actual, o das “economias mais livres”, é demasiadas vezes um importante factor restritivo das possibilidade de recuperação de povos que tenham caído no pecado de "abraçar outras teorias".
Muito do que somos e temos hoje foi construído e é construído às custas do outro, do que é hoje pobre. Para cada exemplo de sucesso recente (sucessos "liberais" francamente duvidosos em muitos casos por pactuarem ou se basearem num funcionamento de mercado de trabalho pleno de atrocidades e comportamentos repugnantes para o nosso entendimento de Homem) encontramos muitos outros onde pelo comportamento distinto das potências mundiais e/ou da história particular do Estado se agravou o fosso entre os mundos agravando-se também o problema da pobreza.
O modelo que tanto prezamos é cego e não necessariamente adequado às concepções de justiça exigidas pelo ser humano no relacionamento com o seu semelhante. Além disso, o modelo e os agente que o praticam possui uma muito conveniente e concorrida “porta da traição”: as “economias mais livres” e os principais arautos do modelo, quando na posse do poder político e económico, estão longe de seguir os seus tão propalados dogmas. Crendo que não está em causa a democracia como veículo adequado à implementação do modelo neo-liberal, nem os princípios básicos subscritos na Carta Universal dos Direitos Humanos, só pelo implícito receio de um desmoronamento (de alguns sectores?) das economias mais livres se compreende:
- o proteccionismo das economias mais livres em sectores onde estas são menos concorrenciais a nível internacional;
- a incapacidade de concretizar promessas de colaboração e compromisso com sociedades em vias de desenvolvimento disponíveis à mudança;
- o veneno que são algumas das ajudas caridosas que as ricas “economias mais livres” têm lançado cirurgicamente aos famintos pobres [podemos discutir por exemplo a questão da "inundação", perdão, doação de carne de vaca potencialmente infectada com BSE e/ou febre aftosa – carne que ninguém por cá queria - de que foram "felizes" beneficiários alguns países, onde finalmente o mercado mais livre da carne começava a dar os primeiros passos, lembro-me da Rússia...].

As teorias tem destas coisas, da boca dos seus mais distintos defensores e implementadores surgem as aparentemente mais incoerentes medidas que no fundo nada mais traduzem do que a capacidade e disponibilidade permanente para o discricionarismo. Um discricionarismo que é nefasto por não ser assumido, percebido e antecipado perante os cidadãos e agentes económicos. Um discricionarismo que no caso específico da mentalidade neo-liberal se manifesta quase sempre pela defesa do domínio da lei do selvagem mais forte, pela defesa sem princípios e desregulada, não-solidária e egoísta dos meus interesses particulares de curo prazo. Um discricionarismo que entendo por burro. Se atentasse a uma perspectiva mais vasta do mundo e do meu papel nele, nos levaria seguramente a outros caminhos...
Práticas discricionárias não admitidas pelo modelo teórico que, em suma, desacreditam o âmbito generalista que pretendem atribuir ao quadro teórico que defendem.

O meu BMW é muito mais importante que a fome do outro, o meu BMW ou aquele que eu não tenho e que faz de mim uma "pobre alma" no mundo onde eu vivo, não está desligado do regime político estabelecido exogenamente em alguns dos países fornecedores de matérias primas sustentáculo da indústria automóvel e de boa parte da nossa economia actual. Ter fome é estar em desvantagem, é ser incapaz, é pertencer a uma sociedade, a uma espécie onde grassa a extrema desigualdade.
Era bom que o Jaquinzinhos tivesse razão, que a solução se resumisse a uma vontade do faminto em abraçar uma teoria salvadora.

Pela minha parte e feita a breve crítica digo-vos que encontro características instrumentais na teoria neo-liberal que em ambientes maduros e regulados (a discutir se quiserem) dificilmente encontrarão alternativa mais eficaz e eficiente. O Liberalismo que conheço pelos bispos da Escola do Jaquizinhos não me deslumbra, contudo, para fazer a sua acérrima defesa tamanhas são as suas lacunas. Pode dar algum gozo ter um "clube", servir para andar às cacetadas com os "bárbaros" de Esquerda ou coisa que o valha mas não creio que faça de qualquer mente com sentido crítico racional uma pessoa iluminada conhecedora da verdade suprema que terá de espalhar pelo mundo à laia de um qualquer fanático marxista-leninista ou fundamentalista religioso.

Pela parte que me toca, não faço dessa teoria nem de nenhuma outra aquilo que elas não são: soluções globais, infalíveis e definitivas para a organização económica e social da nossa espécie. Defendo uma utilização criteriosa e combinada de várias características das teorias dominantes. O esforço intelectual a que nos votámos não foi em vão. Mas não nos deixou nada de absolutamente perfeito.

Há de facto a necessidade de exercer "jurisprudência" no governo dos organismos, há espaço para a criação, espaço onde a cartilha não se adequa, há um desafio de ajustamento entre os vários instrumentos que tenhamos em acção ou como opção.
Digo-vos, por exemplo, que acredito que o poder da transparência, da sinceridade e do envolvimento no governo de uma empresa (que poderemos ver como de inspiração liberal pura num certo sentido) tem sido largamente desprezado face ao poder do chicote (também ele tantas vezes defendido pela lógica do trabalhador manhoso prolifera na boca de neo-liberais conservadores). Olho para a forma como a AutoEuropa decidiu em conjunto enfrentar a crise e vejo um exemplo, uma excepção. É demasiado fácil confundir autoridade com autoritarismo e ainda ninguém me convenceu que sustentar uma empresa com base no autoritarismo e mecanicismo do força de trabalho seja mais vantajoso do que apostar no respeito, no compromisso. Demasiadas vezes vejo o liberalismo a “despedir” como primeira opção, raras vezes vejo-o a procurar alternativas e não compreendo a razão deste caminho quando é a própria razão que consegue ir provando em muitas desta excepções que há alternativa que estas, a médio prazo, se traduzem em ganhos bem mais interessantes (e mutuamente vantajosos) para a empresa e empregados.

Como definir os critérios para colmatar as falhas das teorias? Podemos e devemos tentar desenvolver novas teorias, novos instrumentos, observar a realidade e tentar compreendê-la mas, no final (e no entretanto), teremos sempre algum grau de discricionaridade a que recorrer para lidar com os fenómenos de natureza social onde o agente é o homem livre.
Resta-nos observar os princípios básicos da sã convivência próprios da civilização em que vivemos e defendemos (e que são muitos deles, felizmente, aceites pelas demais sociedades do planeta) e utilizar as capacidades intelectuais de que dispomos onde não se desprezem as experiências passadas e a capacidade de antecipação das consequências (que devemos humildemente reconhecer como limitada) para recomendar um percurso.

Combatendo o orgulho pessoal, cultivando a sinceridade e o tão delapidado valor da palavra de cada um (chamem-lhe honra se quiserem) e exigindo não menos que esse combate dos outros talvez cheguemos a algum mundo de patamar superior onde não faça sentido falar de pobreza.
Temos um belo caminho de pedras a percorrer!
Pela minha parte tentarei evitar os “pecados” que aqui enuncio e ser fiel aos princípios que prezo e que nesta época histórica tenho a sorte de serem a “teoria dominante” da sociedade em que vivo.

Publicado por Rui em 10:30 PM | Comentários (2) | TrackBack

Nódulo

Todos estamos cheios deles mas a palavra do título é para alguns especial; lida como uma ameaça que tanto pode ter sido vencida no passado, enfrentada no presente ou latente para um dia no futuro.
Mas além dos fisiológicos há-os de outra natureza ainda que muitos deles também se qualifiquem como "orgânicos".
Não sei se o que o Valdir Cardoso encontrou nesta época de Natal no Hospital de Santo António no Porto é um nódulo ou se já é mais do que isso mas a denúncia, o alerta para que se faça o diagnóstico pode revelar-se muito útil. Nunca se sabe quando teremos de enfrentar também este outro problema.
Em legítima defesa recuso a banalização destes casos e a sua menorização grosseira por via da qualquer psicose rapidamente atribuida a quem vê o "inevitável" sofrimento de um ente querido. Infelizmente algum conhecimento de causa levam-me-a a acreditar na sinceridade do Valdir e a aqui vos convidar a ler o seu texto.

Um excerto do texto do Valdir no seu Crítica Lusa.

Alguns relatos de como não se deve tratar pacientes. Isto aconteceu no Hospital Sto. António, serviço de cirurgia 1.
Caso nr 1
Depois da operação óbviamente a minha mãe levou soro, até o intestino voltar a funcionar devidamente.
Um enfermeiro espeta a agulha do soro no braço da minha mãe, que entretanto se queixa de a agulha lhe estar a doer.
Resposta do enfermeiro: "Isso é fita !! Não dói nada !!"
Resultado: No dia seguinte, o soro estava a sair pela agulha e a escorregar pelo braço, além de um forte hematoma que a minha mãe tinha no braço. A minha mãe chama o médico, que por sua vez, chama o enfermeiro que fez esta asneira, dá-lhe um raspanete dos antigos, em frente de todos.

Publicado por Rui em 07:43 PM | Comentários (1) | TrackBack

Íntima Fracção

Mais um recadinho recebido ontem em jeito de prenda de Natal:

Na ESEC Rádio on line é possível ouvir uma colectânea de Outono que a Janela Indiscreta pediu ao autor do programa de rádio Íntima Fracção. Em breve, na mesma página estará uma Íntima Fracção (http://intima.blogspot.com ), que fará 20 anos em 8 de Abril próximo, e enquanto não regressa a uma antena.

Um presente de Francisco Amaral, cuja entrada é por aqui:


Prima o botão da direita do rato para fazer o download

Publicado por Rui em 07:06 PM | Comentários (0) | TrackBack

TSF - A explicação

Viva!
Já por cá ando de novo (pela Internet e por Lisboa).
Para já digo-vos que estou sensibilizado pelas simpáticas mensagens que encontrei na caixa de correio.
Além dos votos de boas festas e de outras mensagens que ainda só li na diagonal deixo desde já na integra uma justificação recebida da TSF sobre a bizarra ocorrência que relatei neste outro texto (e comentei na página da TSF) no passado dia 23 de Dezembro.
Com as linhas que transcrevo tudo fica explicado. Só fica bem à TSF e a quem por lá trabalha. AH! E a malta que ouve/lê agradece!

Olá, boa tarde.

Obrigada pela sua chamada de atenção para a falha que cometemos, unicamente «tolerável» pela compreensão do que é escrever a uma velocidade estonteante para conseguir acompanhar o ritmo noticioso diário e manter o site actualizado.

Pedimos desculpa pela nossa falha involuntária e aproveitamos para informar que uma vez que o erro já está corrigido, não faz sentido mantermos o comentário que chama a atenção para o mesmo, pelo que este foi retirado.

Obrigada pela sua preferência e votos de um Feliz Natal.

Manuela Caldeira
TSF Online
Tudo o que passa na TSF, fica na rede: www.tsf.pt

Publicado por Rui em 06:52 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 23, 2003

Lá vou eu enfrentar os Pontos Negros como este:


Via: EN2, ligação entre N2 e IP3 em Fail
Distrito: Viseu

Tipo de situação: raio de curvatura ou inclinação da via desajustados

Neste local a N2 tem perfil de autoestrada com uma longa recta a descer. O problema é que termina abruptamente numa curva à esquerda com um ângulo superior a 90 graus e raio apertado, o que constitui a receita ideal para a promoção do acidente.

Informação da ACA-M

Agora é que é:
BOAS FESTAS!

Publicado por Rui em 04:45 PM | Comentários (9) | TrackBack

9 euros (acrescentado)

Correcção, parece que afinal são cerca de 11 dólares americanos. Entretanto o Governo já descobriu os países das novas carruagens da União Europeia:

Bagão Félix frisou que existem pelo menos oito países da União Europeia em que o SMN é inferior ao de Portugal, sublinhando ainda que cerca de quatro por cento dos trabalhadores portugueses recebem a remuneração mínima, sobretudo em sectores ligados à agricultura.

Teremos então menos de 4% de pobres? Ou os desempregados também contam?

Se sim, já somos capazes de chegar aos...digamos 8%, para dar algum desconto pois nem todos serão pobres? Mais uns quantos reformados, para aí metade dos cerca de 2 milhões e meio que temos... Já somam mais 10% o que nos levaria a 18% da população?...
Bem, bem Rui, deixa-te lá de contas desonestas em cima do joelho (consequências de andares a ler muitos blogues "liberais seguramente") e vai mas é gozar o Natal enquanto podes!

(Nota: convém lerem os textos anteriores para perceberem este arrazoado)
Boas Festas!

Publicado por Rui em 04:10 PM | Comentários (2) | TrackBack

Da TSF

Consultei esta notícia da TSF:

FRANÇA
Khatami pede fim de proibição de usar lenço islâmico na escola
O presidente iraniano, Mohammad Khatami, pediu esta terça-feira ao governo francês para que anule «a sua decisão errada» de proibir o uso do lenço islâmico nas escolas.

e aparece-me como Notícia Relacionada esta:

LÍBIA
Khadafi apela à renúncia de armas de destruição maciça
O líder líbio Muhammar Khadafi encorajou, esta segunda-feira, a Coreia do Norte, Irão e Síria a seguirem o seu exemplo, renunciando às armas de destruição maciça.

Desculpe-me lá mas não percebo senhor jornalista. O que é que o véu tem a ver com as armas? Ou será que confundiram Khadafi com Khatami?? Mal por mal, esperemos que sim!

Publicado por Rui em 03:44 PM | Comentários (0) | TrackBack

10 Euros

O Salário Mínimo Nacional vai ser aumentado em cerca de 12 dolares norte americanos. Atendendo a que alguns milhares de milhões de seres humanos no planeta têm menos de 1 dolar por dia para viver, até que não é um aumento nada mau... É tudo uma questão de desigualdade, digo, de relatividade.

Publicado por Rui em 03:39 PM | Comentários (0) | TrackBack

Pobreza: Respondendo na diagonal... (Acrescentado)

Qualquer medida de pobreza relativa deve ser calibrada por medidas de pobreza absoluta (cesta básica alimentar, por exemplo), indicadores de privação ou, à falta destes, por outras medidas clássicas (índice de gini, indicadores FGT, etc) ou ainda por fasquias da própria medida relativa em questão (50%, 70% da mediana por exemplo, permitindo um melhor conhecimento da distribuição do rendimento e da sua assimetria) e/ou ainda por uma medida de pobreza subjectiva ("O seu agregado familiar faz face às despesas e encargos familiares mensais: com muito, alguma ou pouca dificuldade; Pouca, alguma, muita facilidade?"; "Você considera-se pobre?").

Dito isto, acrescento que uma análise da evolução temporal também não é nada desprezável, assim como dados relativos à PERSISTÊNCIA da pobreza avaliando a evolução intergeracional no seio de um mesmo agregado familiar (qual era a situação dos avós, dos pais e agora dos filhos?).

Infelizmente, muitos destes dados estão ainda em falta neste país ou "sabiamente" escondido e desprezados em algumas gavetas.
aqui disse que se anda a fazer algum esforço na divulgação pública de indicadores mais complexos (e mesmo na recolha de mais informação) mas o processo arrasta-se pelo menos desde a presidência portuguesa da UE em 2000... Já vamos em 2003 e o processo continua muito embrionário.

Haja ou não má fé, este facto acaba por ser conveniente para quem não quer enfrentar factos que permitem análises bem mais sérias do que a possível com os simplistas indicadores disponíveis no Eurostat (60% da mediana do rendimento do agregado por adulto equivalente e pouco mais).
Tudo isto é conveniente para que se possam dizer no escuro algumas baboseiras como as deixadas por alguns comentaristas e explícitas no discurso provocador deste post do Jaquinzinhos.

Se objectivamente os 60% da mediana não nos provam que há pobres ou, por outras, não nos provam qual a severidade, intensidade e persistência da pobreza, também não nos provam que qualquer crescimento económico é melhor para todos. Por outro lado, a desigualdade agravada e reconhecida, supostamente provocada pelo crescimento económico é em si tanto mais grave quanto melhor for percepcionada pelos indivíduos não sendo de todo uma questão negligenciável devido a potenciais consequências perturbadoras dos próprios relacionamentos sociais.

Há já alguns dados que permitem (ver INE) uma análise mais completa do pobreza, mas ainda assim faz sentido que exijamos informação estatística multidimensional que nos permita uma discussão mais avisada.

Algumas sugestões de leitura estatística sobre pobreza disponível no INE:

Exclusão Social e Pobreza(s) em Portugal: uma primeira abordagem aos dados do Painel dos Agregados Familiares da União Europeia (1994 1997)

Análise da pobreza e da desigualdade em Portugal através da Regressão de Quantis

Evolução da Pobreza e da Desigualdade em Portugal no período 1995 a 1997

Rendimento, Desigualdade e Pobreza

Demographic, social and economic aspects of older persons in Portugal

Mulheres e Homens em Portugal nos Anos 90

Publicado por Rui em 12:22 PM | Comentários (4) | TrackBack

Ex-libris

Abrantes no Natal Via ânimo encontrei a fotografia de uma bela vista que trouxe na memória da minha última viagem pelo combóio descendente (Castelo Branco a Lisboa).


À falta de um Castelo de Almourol bem iluminado consolei-me com o bonito véu com que cobriram a torre de comunicações da Cidade de Abrantes.


No Natal toda a luz se perdoa.


Publicado por Rui em 11:20 AM | Comentários (0) | TrackBack

Esta Lisboa que eu amo!

1. Acordei ao som do chilrear de melros e pardais.

2. Quando subia a Alameda passei por um vendedor de pão que andava de porta em porta distribuindo as carcaças que transporta no cesto da bicicleta que tem pendurado no guiador.

3. Estou a trabalhar a 100 metros da Avenida da República e acabei de ouvir passar um amola-tesouras.

4. Falam-me de uma Lisboa escondida que ainda existe... Qual quê! Ela passa bem diante dos nossos olhos!

5. Infelizmente não dou mais uma hora até termos um belo smog no horizonte.

Você tem a certeza que não podia ter deixado o seu automóvel estacionado à porta de casa?

Publicado por Rui em 10:33 AM | Comentários (1) | TrackBack

Adeus Sitemeter, welcome Pentágono! (act.)

Li no Público e reparei que o Cidadão Livre também já fez uma referência:
Um endereço alojado em Portugal onde se apresenta todos os dias uma nova história para crianças (financiado pelo POSI e patrocinado pela presidência do conselho de ministros), foi visitado pelo Pentágono provavelmente devido ao número relativamente elevado de acesso oriundos dos EUA (algumas centenas por dia).
Este número terá feito disparar um qualquer alerta automático da Echelon (de algum emigrante português aventa o mal dissente Cidadão Livre :-) !) e lá veio o robot visitar as histórias da carochinha em busca do Bin Laden ou de algum segredo económico português.

O objectivo dos blogueres mais viciados e amantes do sitemeter, está-se mesmo a ver, vai ser substituido pela caça à visita do Pentágono!!!
Por aqui, neste vosso modesto canto, que tanto anda entre as cento e poucas como as cerca de quatrocentas visitas por dia, conforme o sistema de contagem escolhido, o melhor que consigo arranjar é uma visita do outro lado do Atlântico Norte, sim senhor, mas do http://www.sympatico.ca/ Canadá! Um original nome para um service provider de uma famosa companhia de telecomunicações...
Ainda vos digo, contudo, que já aqui veio por diversas vezes um tal de www.gov.pt. Seria o SIS? Ou o porteiro de algum ministério mais info-incluido? Seja lá quem for: que volte sempre e passe bem!

Publicado por Rui em 09:10 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 22, 2003

Imaginário infantil

Numa melodia repetida ao longo das três estrofes ouço as vozes das mulheres da beira "contando com alegria":

Ó meu Menino Jesus,
ó meu Menino tão belo,
logo vieste nascer
na noite do caramelo.

Entrai, pastores, entrai
por este portal Sagrado.
Vinde adorar o menino
numas palhinhas deitado.

Alegra os céus e a terra
Cantemos com alegria
Já nasceu Deus Menino
Filho da Virgem Maria.

menino.jpg

Publicado por Rui em 11:19 PM | Comentários (0) | TrackBack

São voltas e voltas

Contra este Natal marchar, marchar.
Porque afinal Deus é grande...
Ainda que o terror espreite por onde menos se espera e a contradição nos assalte do alto do nosso auto-elogioso saber.
Mas será contraditório o caminho de defender coerentemente a crítica dos que foram os nossos próprios argumentos, procurar continuamente os nossos caminhos?
Tudo dito e escrito restar-nos-á a muito íntima e universal perplexidade; teremos a não menos premente e estimulante presença da maravilhosa estupefacção que nos acompanhará esperançosamente até ao último momento.

Publicado por Rui em 11:13 AM | Comentários (0) | TrackBack

O verdadeiro Adufe

Há novo brinquedo cá por casa e o Adufe, o genuíno, que não o do http://www.portugalregional.pt/ que durante tanto tempo aqui serviu de imagem emprestada, vai poder finalmente ser apresentado.


Nada de modernices, continuamos a ter duas mãos e a mesma pele retesada mas, desta vez, pelo menos quem está deste lado da internet sente a sua própria casa mais familiar.
Ei-lo para vocês:
adufe2.jpg

Publicado por Rui em 08:30 AM | Comentários (6) | TrackBack

dezembro 21, 2003

Em limpezas (act.)

Há as limpezas de primavera e parece que há as de fim de ano. Neste blogue não se fará nada de radical, nem está nenhuma introspecção prevista (mas se bater à porta: faça favor de entrar), o que conto fazer é actualizar a lista de ligações que tem andado abandonada. Para já, antes de limpar o que já por lá anda vou acrescentá-la de dois ou três poisos por onde tenho passado ultimamente:

Pela Rua da Judiaria
Pela alta estratosfera no OzOnO
Pelo Blogue de uma Loura
Pela Serra da Estrela do João Tilly
E pela Sintra Gare

Os que não me veêm à memória ficam para outras núpcias...

Publicado por Rui em 10:14 PM | Comentários (0) | TrackBack

Uma boa reforma à beira da conclusão? (act.)

(republicado - 1ª edissão 2003-12-21 14:38:07)

Mais uma sindicância...
Bem sei que não sou especialista em direito (qualquer tipo de direito) e admito que haja alguma história relevante que não conheça quanto ao processo mas, enquanto leitor de jornais e cidadão interessado sem acesso a informação privilegiada, não posso deixar de sublinhar pela positiva o que li no destaque do suplemento de Negócios de ontem do Diário de Notícias.
Celeste Cardona actual Ministra da Justiça
António Costa, impulsionador da reforma em questão enquanto ministro da justiça do governo PS

O Ministério da Justiça actual deu seguimento à reforma do Código de Processo Administrativo que havia sido desencadeada e largamente preparada pelo anterior ministro António Costa. Houve alguns atrasos, perdeu-se um, talvez dois anos, com a mudança de governo e as suas respectivas prioridades mas julgo que o fundamental está assegurado. Aproveitou-se o que se considerou uma boa reforma e na prática aproveitou-se a reflexão e o trabalho de alguns anos que já havia envolvido diversos actores com responsabilidades e competências na área.
Pelo que leio no artigo de Margarida Bon de Sousa no Dn, muito vai mudar no relacionamento do cidadão com o Estado particularmente em situações em que ambos se constituem como partes numa contenda judicial.

O Estado perde alguns privilégios absurdos de que usufruía, podendo ver-se obrigado a pagar coimas, assumir o rosto de responsáveis de carne e osso. Noutro sentido, a inoperância, a burocracia ou mesmo a má fé por parte do Estado deixará de ter consequência tão nefastas como até agora no exercício (celeridade) da justiça pelos tribunais, prevendo-se efeitos significativos em favor da transparência e agilidade económica quando estão em causa concursos públicos e intervenções do Estado sobre propriedade privada. Pelo que leio, vamos ficar mais iguais e vamos perdoar menos também pela via judicial a incompetência do Estado.

No meio de tantas críticas e desmoralizações que levam à descrença colectiva, ou fui muito bem enganado pelo que li, ou temos aqui um bom exemplo que devemos elogiar e que nos deve servir de algum consolo e estímulo que não deve ser do todo insignificante.

Deixo em anexo o artigo do Diário de Notícias.

Empresas ganham direitos à Administração Pública

MARGARIDA BON DE SOUSA

A relação entre o Estado e os privados vai mudar substancialmente a partir de 1 de Janeiro de 2004, data em que entra em vigor o novo Código do Processo Administrativo. Uma das maiores inovações prende-se com a entrada em vigor de uma aplicação informática nos tribunais que possibilitará aos advogados consultarem os processos em que se encontram envolvidos através de uma simples password.

Outra mudança. Deixa de haver acções contra o Estado no abstracto, para passarem a existir destinatários finais completamente identificados, como os ministérios ou os organismos com personalidade jurídica. Se o privado se enganar nesta identificação, cabe ao próprio tribunal encontrar a entidade correcta, não deixando, por isso, a acção de ser acolhida.

O juiz pode também aplicar uma sanção pecuniária compulsória ao funcionário público, dirigente da administração pública ou mesmo a um membro do Governo, sempre que isso seja necessário para obrigar a cumprir uma sentença ou para que o processo instrutório seja enviado para o tribunal dentro de prazos razoáveis. Estas multas vão oscilar de 5% a 10% do salário mínimo nacional, situando-se actualmente entre os 17,5 e os 35 euros por dia.

A Administração Pública passa também a ter de pagar custas quando perde. O que significa que terá de pensar duas vezes antes de recorrer, situação que hoje é comum na esmagadora maioria dos processos em que se encontra envolvida.

As novas regras pretendem pôr cobro à situação que se vivia até agora neste campo e que davam a primazia à forma, em detrimento do conteúdo. Ou seja, sempre que havia um engano num prazo ou uma formalidade não cumprida, o queixoso podia perder, ainda que tivesse razão.

O novo Código introduz, por isso, uma grande clarificação do que deve acontecer durante todo o processo e os actos que podem ser impugnados. Deixa também de ser exigível a obtenção final de um acto definitivo e executório para impugnação de uma decisão. Ou seja, passa a poder-se impugnar qualquer acto desde que este tenha eficácia externa.

COMPENSAÇÕES O IVA e o IRC também vão poder ser utilizados na compensação de indemnizações a pagar pelo Estado. Esta medida insere-se no objectivo de facilitar a execução das sentenças proferidas pelos tribunais e prevê que se um determinado ministério ou uma pessoa colectiva pública tiverem um crédito sobre um particular, este possa ser utilizado para pagar a indemnização.

A simplificação processual abrange outras situações. Se hoje um particular quiser fazer vários pedidos ao tribunal tem de o fazer separadamente, em processos distintos. A partir de Janeiro passa a poder fazê-lo num único processo, desde que os pedidos tenham relação entre si.

A própria administração pode ser condenada por litigância de má fé, se o juiz entender que houve um comportamento processual excessivamente inadequado. Neste caso, o magistrado pode também aplicar uma multa.

O juiz pode também decidir mais rapidamente, logo na fase inicial do processo, se considerar que tem elementos suficientes para suportar a sua decisão.

PROVIDÊNCIA CAUTELAR Outra das inovações prende-se com a possibilidade de um particular que processe o Estado poder solicitar uma providência cautelar enquanto aguarda a decisão do tribunal. Por exemplo: uma agência de viagens que tenha visto a sua licença recusada por um organismo público pode pedir a atribuição provisória dessa mesma licença enquanto aguarda decisão judicial.

A informatização dos processos administrativos vai também dificultar que dois tribunais decidam de maneira diferente sobre casos semelhantes. Haverá ainda mecanismos, inspirados na lei do processo administrativo espanhol, que possibilitarão aos particulares ganharem os seus casos sem terem de ir a tribunal, sempre que demonstrem à Administração Pública que em cinco casos idênticos a Justiça decidiu no sentido da sua petição.

E se vários particulares colocarem a mesma questão, o presidente pode fazer aplicar mecanismos de processos em massa, para lhes dar um tratamento mais célere e semelhante.

Formação profissional só arranca no próximo ano

O novo Código do Processo Administrativo foi elaborado quando António Costa era ministro da Justiça e previa a criação de 10 novos tribunais administrativos de círculo e um segundo tribunal central de segunda instância no Porto. Outra das condições prévias à entrada em vigor das novas regras era a aquisição de uma aplicação informática para gerir todos os processos que dessem entrada na Justiça. Um terceiro requisito prévio prendia-se com a formação dos juízes e dos oficiais de justiça no sentido de se adaptarem ao novo programa informático. A aquisição do programa informático à Deloite & Touche só foi concretizada muito recentemente - devendo ser anunciada pela actual ministra da Justiça no início de Janeiro, pelo que a formação profissional só será dada já com as novas regras em vigor. João Tiago da Silveira, um dos mentores das alterações durante a tutela de António Costa, considera que estes atrasos terão repercussões na aplicação imediata das novas regras, mas deverão ser recuperados ao longo de 2005.

Diário de Notícias, Suplemento de Negócios de 20 de Dezembro de 2003

Publicado por Rui em 09:38 PM | Comentários (0) | TrackBack

Eco

Também eu me junto ao Leonel dizendo que é "obrigatório" ler este texto de Paulo Querido.

Deixo um excerto:

Os media portugueses estão absolutamente fora da carroça. Todos eles. Como são grandes e possuem grandes meios, é provável que consigam recuperar atrasos. Mas eu lastimo que estejam cegos nesta altura... Jornais como o Público e o Expresso NÃO APROVEITAM o espectacular apoio que têm na blogsfera, por exemplo. A edição online do Público é lida, linkada (para o boneco... às urtigas com os arquivos! um modelo absolutamente estúpido) e comentada com entusiasmo. Em vez de acarinhar esse entusiasmo já e aos poucos estudar como o fazer reverter em proveito próprio (não necessariamente dinheiro: pode ser fidelização, pode ser conteúdos adaptados e dirigidos, pode ser tanta coisa...), o que faz o Público? Nada. E por isso tem menos de metade da influência do Abrupto sobre a blogsfera (nacional e mundial). Mas não se julgue que considero o Abrupto um exemplo: não considero. Confesso que raramente o leio -- e quando o faço é por razões profissionais. E porquê? Por uma razão muito simples: o Abrupto não tem sindicância! E hoje 99% dos blogs que leio é através da sindicância.

Publicado por Rui em 12:49 AM | Comentários (5) | TrackBack

Amizade

Aos poucos vamos fazendo amigos.
O exemplo que hoje vos trago começa por uma rotina. Pelo cafezinho que lá se vai tomar ao final do almoço. Pelo refresco saboreado na pequena esplanada num dia de verão. Pela surpresa de um valente saco de amendoins e demais salgadinhos que nos é oferecido numa inesperada visita familiar distraidamente confessada. Pelo paralelo surpreendente na história passada de uma vida que se descobre em dois dedos de conversa...
Esta semana foi uma encomenda que se deixou à guarda no café, à falta das chaves de casa; o único sítio de confiança. Um serviço prestado com simpatia e voluntarismo, com poucas palavras, mas sem dúvida "de confiança".
Aos poucos vai nascendo uma amizade feita de pequenos nadas, enraizada na qualidade do íntimo de cada um, a única condição suficiente e necessária.
Mais pelo que se faz e pelo que se compreende em breves palavras do que por qualquer outro meio, sentesse um laço animador a nascer.
Hoje tivemos muito gosto em oferecer uma prenda, uma Alice no País das Maravilhas, à filha dos senhores do café. Um pequeno gesto, entregue com poucas palavras, dado e recebido com muito sentimento.
É tão fácil andar distraido e não perceber estes pequenos nadas, deixá-los passar ao nosso lado, perder a oportunidade de fazer um amigo.
O nosso maior desafio hoje, moços da cidade, é continuar a acreditar, alimentar uma sonda que por debaixo das nossas couraças consiga chegar ao outro permitindo-nos arriscar um bocadinho.
Bom Natal!

Publicado por Rui em 12:39 AM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 20, 2003

As nossas escolhas (act.)

17 craques das Escolinhas de Futebol do Bairro da Boavista foram visitar a Sociedade Desportiva 1° de Dezembro, em Sintra... A Filipa comentou o texto de ontem designado Escolhas nestes termos:

Olá Rui, não duvido do mérito do plano Escolhas e da sua manutenção.

Mas até que ponto faz sentido este tipo de programas de acompanhamento de jovens e famílias para a sua integração, da inicitaiva do ESTADO, se a sociedade civil esta pouco sensibilizada e tem pouca consciencia da sua responsabilidade comum naquilo que chama a prevenção!?

Um sociedade consciente não discrimina os estrangeiros, sejam eles de leste, africanos ou brasileiros! Uma sociedade sensibilizada não exclui o toxicodependente e o criminoso e faz de conta que nada se passa, ou então comenta entre os amigos: "Isso são coisas de pretos e dessa gente esquisita de leste"!!??

Além disso, de que valem estes planos de acompanhamento se o próprio poder político, seja ele central ou regional, continua a empurrar esses ditos jovens e famílias com problemas para zonas periféricas aos espaços urbanos, transformando-os em verdadeiros getos de marginalidade, de consumo de drogas, etc, etc.?!

Porém, esta é a realidade e parece-me que ainda estamos longe de conseguir alterar esta atitude!!

Além de aqui destacar o texto da Filipa permito-me esta breve resposta:

Cara Filipa:
Eu revejo-me no Estado e considero-me parte da sociedade civil. Revejo-me particularmente num Estado que apoia este tipo de iniciativas e enquanto membro da "sociedade civil" procuro ser consciente, sensível e activo na solução dos problemas que criamos e/ou nos criaram. Por mais exemplos que revelem atitudes e práticas que colidam com este espírito empreendedor que encontremos, só nos resta agir defendendo aquilo que achamos poderá e deverá levar a um situação melhor do que a que temos.
O que propõe Filipa? Que deixemos os racistas e todos os que têm asco ao seu semelhante e que o demonstram com ou sem hipocrisia levar a melhor?
Há uma batalha constante, há pessoas que ignoram ou se recusam a ver o que lhes passa à frente do nariz mas também há quem se decida a pôr mãos à obra, que denuncie, quem alerte. Há quem no exercício do poder que tem tente fazer a diferença, quer esteja apenas na "Sociedade civil" ou no aparelho do Estado no exercício de um cargo público.
É a esses (que também os há!) que nos temos de juntar Filipa.
Um abraço,
Rui

Publicado por Rui em 04:50 PM | Comentários (6) | TrackBack

Frenesim de Natal

É terrível andar às compras neste fim de semana mas, ainda assim, houve um raro momento de trégua à hora de almoço. Noventa por cento do sentimento de culpa que nos foi embutido ficou resolvido, ou por outras, as urgências foram aviadas, restam algumas penas para a final da tarde.
Digerido o almoço tardio preparamos já as armaduras de segurança e as máscaras de oxigénio para um (rápido?) mergulho no formigueiro consumista... Em Roma há que ser romano, por vezes...

Publicado por Rui em 03:02 PM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 19, 2003

Escolhas

Hoje de manha a TSF pegou num programa de apoio à integração social nos bairros suburbanos portugueses, lançado em 1999 e fez dele notícia. O programa Escolhas. O actual governo tem pendente a decisão quanto à manutenção do dito plano.

Não conheço a trabalho de campo e as suas consequências pessoalmente mas pelo que ouvi hoje na TSF parece ter um papel meritório no acompanhamento de jovens e famílias que enfrentam problemas de integração/exclusão/pobreza (chamem-lhe o que quiserem), nomeadamente promovendo ocupação de tempos livres dos jovens através de actividades que contribuem para o seu processo educativo e a sua formação cívica.

É extremamente difícil quantificar as vantagens deste tipo de iniciativas. Quantos jovens deixam de cair na criminalidade? Quantos evitam a toxico-dependência? Quantos conseguiriam vingar na vida e contribuir activamente para a sociedade se não tivessem quem lhes desse a mão, fazendo algo tão simples como ocupar-lhes as tardes em actividades de grupo (educação física, trabalho de grupos, ensino musical, redacção de um jornal, projectos em suporte digital…) com orientação profissional e empenhada de instrutores? De forma mais abstracta: o que se ganha ao retirar estes jovens da rua onde estão completamente desapoiados aguentando com a ausência dos pais (quando não de um pai) que podem muito bem estar a trabalhar muito honestamente, tentando com dificuldade assegurar a viabilidade financeira do lar?

Como digo, é extremamente difícil quantificar os ganhos destes programas pelo que quando ouço que gastar um euro num programa do género do Escolhas é 20 ou 30 vezes mais vantajoso do que investi-lo no aparelho judicial (polícias, tribunais e prisões) não levo os números muito a sério. Penso que essa contabilidade não é muito relevante… Digamos que me basta confiar na intuição e na evidência empírica ou conhecimento antropológico básico para estar à partida convencido da vantagem do investimento na prevenção em relação ao investimento na coerção/repressão/ exercício da ordem pública.

Há dados mais à mão como o número de crimes, de toxico-dependentes, de detenções, de sero-positivos, de polícias na rua, de prisões e sua lotação, de novos sistemas de segurança... Número mais facilmente esgrimiveis na arena política. Números mais “mediáticos” que muitas vezes pela sua manipulação são um caminho seguro para instilar o medo e, numa segunda fase, angariar mais alguns votos pela atitude mais militarista que está à mão de semear.
É ainda muito fácil confundir estes números com outras discussões que para muitas destas situações concretas ou vêm a destempo ou são completamente despropositadas (como as que se referem à imigração).
No entanto, os números ocultos ou potenciais estão lá, deixarão o seu carácter virtual se o permitirmos e, muito raramente, encontram nas medidas quantificáveis em polícias e prisões o seu mais seguro inimigo.

A batalha pela percepção da dimensão real dos problemas, pela percepção real dos riscos e pelo entendimento informados das soluções disponíveis é desigual. É demasiado fácil falar em mais policiamento após um evento violento mediático como uma assalto a um comboio. É bem mais complicado admitir que uma parte fundamental da solução não se obtém com um estalar de dedos e passa por um trabalho continuado, determinado, de proximidade, de envolvimento das comunidades de proveniência de muitos dos indivíduos que se violam a ordem pública que todos prezamos. Muito frequentemente encaramos o problema como se houvesse dois lados, duas concepções antagónicas de solução. Em virtude de preconceitos ideológicos (?) e da escassez real e incontornável de recursos públicos, domina a lógica de custo benefício numa formulação completamente enviesada, onde os indicadores possíveis impedem objectivamente a valorização dos muitos dos aspectos positivos da prevenção em favor da lógica da dissuasão/persuasão coerciva. Onde o exemplo da falha na eficácia de uma medida pela chico-espertice de alguns (lembro-me do rendimento mínimo que apesar de tudo tem uma concepção distinta de algo como o programa Escolhas) serve de argumento supostamente arrasador da utilidade de toda acção, anulando as vantagens de qualquer medida.

Tenhamos uma concepção mais ou menos paternalista do papel do Estado parece-me muito complicado negar lucidamente que há um factor relevante de responsabilidade comum a partilhar ou, numa perspectiva talvez mais consensual, há um problema que tem a potencialidade de nos afectar a todos. Optar por intervir além da função coerciva do Estado é, contudo, uma atitude que nos tempos que correm pode muito menos no imaginário dos eleitores se estes forem bombardeados pela exploração mediática do assalto, do assassinato do discursos marginalizante e algumas vezes racista, seja qual for o sentido da evolução dos grandes números que apontem para a redução da criminalidade, do consumo de drogas, dos conflitos sociais...

A politização apresenta aqui uma das suas facetas mais nefastas e usualmente serve-se da irracionalidade que estimula para ignorar a evidência daquilo que me parece ser um caminho límpido que passa necessariamente pelo esforço de integração activo da colectividade sobre grupos muito localizados e específicos da população residente.
Hoje, no decurso de uma situação particularmente complicada em termos económicos este tipo de intervenção mais localizada do Estado é particularmente relevante e deve ser encarado como prioridade. Esperemos, portanto, que não venha, ao invés, a merecer um desprezo particular pelo poder político, vitimado por mais alguma desonesta e/ou estúpida contabilidade financeira. Falemos de métodos racionais e astuciosos de evitar ao mínimo os oportunistas mas não viremos as costas à evidência.
É preciso que o Estado consiga ver um palmo à frente do nariz.

Publicado por Rui em 05:58 PM | Comentários (4) | TrackBack

I Just need a fuse

Não sei bem porquê hoje veio-me esta à memória:

Excerto:

"It's the last great adventure left to mankind"
- Screams a drooping lady
offering her dreamdolls at less than extortionate prices,
and as the notes and coins are taken out
I'm taken in, to the factory floor.

for the Grand Parade of Lifeless Packaging
- All ready to use
the Grand Parade of Lifeless Packaging
- I just need a fuse.

Got people stocked in every shade,
Must be doing well with trade.
Stamped, addressed, in odd fatality.
That evens out their personality.
With profit potential marked by a sign,
I can recognise some of the production line,
No bite at all in labour bondage,
Just wrinkled wrappers or human bandage.

Grand Parade of Lifeless Packaging
- All ready to use
it's the Grand Parade of Lifeless Packaging
- I just need a fuse.

Genesis, The Grand Parade of Lifeless Packaging, álbum The lamb lies down on Broadway

Publicado por Rui em 10:21 AM | Comentários (2) | TrackBack

David Atenblog de regresso à Bloga!?

Não perca mais um capítulo da autoria do Poetry Café.

Um excerto:

A civilização Egipcia teve como seu apogeu máximo a criação do primeiro Blog textual própriamente dito... sim, porque até aí, o que existiam eram foto-blogs com posts rupestres... no antigo Egipto surgiu a escrita hieroglifica que funcionava à base de GIFS, pequenos ficheiros retirados da internet que funcionavam para ilustrar de maneira simbolicó-linguistica o que eles queria expressar...

Outra grande invenção desta epoca foram os LINKS... (ligaduras) usados para conectar os sarcofagos (bases de arquivos)... (sic)

Publicado por Rui em 10:15 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 18, 2003

Inteligência Artificial

Haja quem melhore (ou piore) a inteligência artificial dos motores de busca, particularmente do Google.
Um desgraçado veio aqui parar porque procurava Bandas de Sucesso Portuguesas 2003.

O Google fez este resumo:
"... usado especialmente em festas folclóricas portuguesas e brasileiras ... há uns meses
ali para as bandas do Barreiro ... sempre fórmula segura para o sucesso e para ... "

Impressionante!

Publicado por Rui em 09:39 PM | Comentários (4) | TrackBack

Estão aqui uns bonecos giros

Estão a dar uns bonecos giros... (via Mata Mouros)

Gravação de sessão de hoje

Publicado por Rui em 08:39 PM | Comentários (0) | TrackBack

Quantos?

Quantos transeuntes já terão sido entrevistados a estas horas, em directo, nos telejornais das 20h?

Um destes dias lanço aqui um concurso. O que mais se aproximar ganha como prémio uma entrevista em directo para o Adufe!

Publicado por Rui em 08:28 PM | Comentários (1) | TrackBack

Entrevista de rua em directo feita pelo Adufe

O Adufe saiu à rua e está a entrevistar transeuntes sobre a quadra natalícia. Vamos ao primeiro, neste caso à primeira, uma senhora que está folhear o jornal aqui à porta da papelaria na Grande Superfície Comercial.

Adufe: Bom dia!

Transeunte: Bom dia!

Adufe: O que acha das compras de natal este ano? A vida está difícil, não é? O dinheiro é pouco, imagino? A vida está cara, certamente? O que nos tem a dizer nesta época natalícia?

Transeunte 1: ... ... ... Olhe … Só lhe digo que até consigo simpatizar com o Durão Barroso quando olho para aquele gajo! Até consigo simpatizar com qualquer um, menos com ele! ... Qualquer um excepto o Paulo Portas!

Adufe: Está a falar do Pai Natal?!

Transeunte 1: Qual Pai Natal! Estou a falar deste cromo que é Presidente da Câmara de Lisboa e que pôs aqui um anúncio no jornal a avisar que não gasta dinheiro quase nenhum em anúncios! Quem é que ele pensa que eu sou? Uma atrasada mental!? E passe muito bem!!

Adufe: ... Penso que é tudo por agora… Alô estúdio?

Publicado por Rui em 03:08 PM | Comentários (3) | TrackBack

Springfield

Vai um bocadinho de algodão doce? É só esticar o braço está mesmo aqui à beira da janela, um pouco acima das gaivotas. Bem vindos a Lisboa Springfield!

Publicado por Rui em 12:11 PM | Comentários (0) | TrackBack

Lancia Oppidana

Pesquisei há pouco "Sortelha a velha" no Yahoo e para minha satisfação descobri este site que o Sr. Américo Valente (Página de entrada aqui) que me contou coisas que eu só adivinhava daquele castro ou póvoa situado no concelho de Penamacor entre o limite da Benquerença e do Vale da Senhora da Póvoa na Serra de Opa. De lá vê-se a outra, a mais conhecida Sortelha, a aldeia muito merecidamente integrada na rota das aldeias históricas do país.
Subi até ao castro de Sortelha a Velha há mais de 10 anos. Sei-o agora que este castro ou cidadela é apenas um, talvez o primeiro e mais pequeno de três que se encontram em toda a extensão da Serra de Opa. Sortelha a Velha o único que visitei tem a particularidade ficar num monte isolado (designado de Serra da Galeota). Digo-vos que do vale só um olho conhecedor consegue descobrir o pequeno muro que resta enquanto vestígio da ocupação romana e subsequente (de facto, agora que tenho a certeza de existirem outros, posso desde já dizer que do vale da Ribeira da Meimoa, é possível adivinhar uma outra construção no cume mais elevado da Serra de Opa).
No dito sítio de Sortelha a Velha, percebe-se pelas lajes e seus entalhes e disposição circular das pedras do muro que houve ali mais do que uma qualquer choça de pastor. Pelo que leio, a atendendo à fonte dos dados referido por Américo Valente datar de 1964 é bem provável que algum estudo arqueológico tenha sido feito. Mas temo que talvez um pouco tardiamente, pois segundo me contam muito poder-se-á ter perdido nas campanhas do trigo que levaram ao cume da serra a força do arado. Ou então talvez algum artefacto mais valioso tenha ido parar às mãos de algum operário em vagabundagem serrana descansando das minas de volfrâmio que por lá se exploraram nos idos anos 40.
Talvez ainda descubra a história que há (haverá?) desse lugar. Tra-la-ei aqui se tal acontecer. Para já recomendo o que nos oferece o Américo Valente citando Mário Saa – As Grandes Vias da Lusitânia – 1964 nesta biblioteca de trazer por casa que é a Internet.

Publicado por Rui em 10:23 AM | Comentários (2) | TrackBack

A indignação e os mal feitores (act.)

No início contaram-me que o governo não tinha boys de qualidade para assessorar alguns ministérios... Rimo-nos.
De seguida, contaram-me que havia boys para nomear para a gestão dos hospitais mas poucos entre eles tinham competência e experiência de gestão. Alguns, aparentemente, tinham currículos que não justificavam, pelo elevado risco presente, o cargo de gestão de algumas mercearias de bom nome. Vimos os exemplos, ouvimos as histórias (muito poucas chegaram aos jornais) e não encontrámos motivos para risota...
Depois, contaram-me que os novos hospitais privados andavam (e andam) a pagar exorbitâncias para cativar alguns profissionais competentes. Muito mais do que pagam a um funcionário público, talvez esse mesmo funcionário que entretanto se desvinculou ou mudou de área de residência...
Por fim, começaram a chegar a público as "más vontades" quanto à prestação de cuidados terapeuticos e realização de exames a pacientes mais “complicados”, mais dispendiosos, ou não prioritários nas novas linhas de gestão. Estes prontamente eram despachados para casa ou, na melhor das hipóteses, para os hospitais centrais ainda públicos engordando os seus défices, exacerbando assim a prova provada da sua ineficiência...

Tudo isto era previsível, tudo isto foi previsto. Havendo inteligência no topo, inverto o ónus constitucional: até prova em contrário, o governo está a agir de má fé. Usa o terrorismo para destruir o serviço nacional de saúde naquilo que ele tem de mais nobre e valioso.
Digam-me que estes exemplos não são verídicos, provem-me que tudo isto é mentira, que não há uma relação directa entre a mudança realizada e os casos que se avolumam. Ou então assumam que isto é uma opção política, que estes são os seus custos colaterais, que não temos dinheiro para manter o sistema de saúde e que temos de lhe fechar as portas. Se me disserem isto far-lhes-ei então outras perguntas. Falaremos do Banco Atlántico e dos aumentos de capital da CGD, falaremos dos submarinos, falaremos da "contenção" orçamental na Madeira, falaremos da aquisição de material de transporte em alguns ministérios, falaremos da dimensão da intervenção militar no exterior, falaremos das medidas preventivas de ataque a doenças infecto-contagiosas, falaremos da cruzinha nas receitas dos médicos, falaremos da ausência de regulação da relação banco-cliente, falaremos de perdões fiscais, falaremos de benefícios fiscais, falaremos das farmácias sociais, falaremos até do choque fiscal no IRC. Falaremos?

Publicado por Rui em 12:00 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 17, 2003

Cacofonia I

O que é Pop? *

Can’ttouchthis!

Duas moedas da mesma face.

Sou caipira.
Às vezes tenho a sensação de que não vou chegar aos trinta.
Carefree. Don’t worry, be...
Just do it!
Can’ttouchthis!


Limites fixos só na estrada.
Let it be!
...paved with gold.

Life is life!

You might as well face it! You’re addicted...
Just one life!
Thou shall not be sad.

Por os cavalos à frente dos bois.

Estou aqui a reclamar pelo que o filho da puta deste governo está a fazer!
...I know we'll meet again some sunny day!
...ilumina a mina...
Não posso mais...
Une valse a mil temps...
... callienta el sol...
Si tu veux, je...
...I went wandering.
Quem conta um conto...
Estamos condenados a repetirmo-nos!
It’s been a hard days night...
O mundo, num sentido lato...
Seemed to last forever!
Find me somebody to...

Return to sender! Return to sender!
Mayday! Mayday!
Quando eu morrer...
Play the game!
Roger!
Anda moi!
Come a papa!
Stay put for the next episode!
Não nos venham pedir contas!
Game, set and match.
If you have any doubts...
Go straight ahead...
By the way that is pointed, it looks safely in the fareway!
Start speeding the news, I’m coming to stay...

Up in the hill...
Wise man said...
...are you really social?
Are you real...
Será que o louco deve ir na barca?

Fade out (termina ao som do efeito que finda o álbum Zooropa dos U2, a última imagem é a de um santo escaravelho esborrachado por um martelo de madeira).

* - Coligido, essencialmente, no ano de 1994. Dedicado à SPA (Sociedade Portuguesa de Autores). Começo já a imaginar as pesquisas no Google que aqui hão-de vir em busca da dita SPA... Perdoem-me.

Publicado por Rui em 10:40 PM | Comentários (0) | TrackBack

Bye bye taça!

Parabéns Setúbal!!!

Publicado por Rui em 10:07 PM | Comentários (2) | TrackBack

As palavras dos outros

Para que conste, recomendo e subscrevo o texto Por culpa do Juiz no Mata Mouros. Adenda: ressalvo apenas que não tenho as certezas do Mata-Mouros quanto à culpabilidade de nenhum dos indivíduos que estiveram em prisão preventiva.

Um excerto:

"(...) Revelam-se mais do que fundados os receios manifestados por diversas vezes pelos autores do Mata-Mouros de que os erros sucessivos deste mau Juiz [Rui Teixeira] acabem por comprometer fatalmente a descoberta da verdade e a punição dos eventuais culpados. (...)"

Publicado por Rui em 06:44 PM | Comentários (0) | TrackBack

"Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia" II

Outra sugestão do Jiminy Cricket do Ter Voz para a frase de Eça:

"Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia"

Pintor
Jose Luis Abassolo
Venezuela

Publicado por Rui em 06:05 PM | Comentários (1) | TrackBack

Biotecnologia em Portugal (act.)

Nuno Arantes de Oliveira é o autor de um texto diagnóstico da situação da biotecnologia e do investimento em Investigação e Desenvolvimento no nosso país.
Além de dar aqui destaque ao texto publicado no suplemento de Economia do Público da passada segunda feira que tomo a liberdade de reproduzir em anexo (o link desaparecerá em breve), sublinho os factores críticos para o sucesso da indústria da biotecnologia (sectores de investimento a longo prazo de elevado retorno e alto risco) que o autor destaca:

“(…)a sobrevivência das empresas de biotecnologia depende grandemente de dois tipos de solução: o primeiro é a intervenção de grandes empresas, por exemplo farmacêuticas, que apostem em inovação e que queiram "servir-se" das "start-ups" de biotecnologia como janela para novas oportunidades tecnológicas. Foi isto que determinou, em grande parte, a emergência da biotecnologia em países como a Suécia ou a Irlanda. O segundo factor tem a ver com a existência de investidores especializados, geralmente fundos de Capital de Risco, que se dedicam a financiar projectos empresariais jovens, de base tecnológica. Deste tipo de investidor espera-se um perfil e uma postura específicos, que lhes permitam fazer investimentos substanciais a longo prazo, compreendendo o mercado e a tecnologia que formam a base dos projectos. (…)”

Sucede que, tal como adianta o autor, nenhuma desta soluções se encontra disponível acima dos níveis críticos em Portugal pelo que é necessário fazer um esforço de captação de atenções junto de agentes externos (um esforço necessariamente coordenado pelo Estado) e, adicionalmente, fomentar o investimento continuado em investigação e desenvolvimento que atinge valores muito inferiores aos dos nossos concorrentes directos.

Há uma infra-estrutura quase invisível a completar nesta área. Além da necessária aposta na instrução vocacionada para a investigação e desenvolvimento, via sistema de ensino, creio que o Estado (que o dinheiro dos contribuintes), pode e deve ser aqui investido com fundadas esperanças de criação de valor, combinando a contratualização com os centros de conhecimento e o necessário investimento de risco.
O intuito final deverá ser o de contribuir para construir, pacientemente, uma cultura de criação de conhecimento junto do tecido empresarial português encontrando novos sectores de actividade por onde desenvolver a economia nacional. Tanto quanto sei, esta não tem sido uma aposta relevante do actual executivo, talvez indirectamente o seja na vertente de captação de investimento estrangeiro, mas pelo que se conhece da história recente das relações com o exterior (que se revelam um interesse externo insuficiente), pelo grau ainda embrionário dos agentes económicos numa actividade de ponta caracterizada por grandes riscos e grandes competitividade, parece ser um esforço insuficiente.
Falta talvez um valente empurrão?

Economia do conhecimento tarda em dar provas do seu potencial
A Infância Prolongada da Biotecnologia em Portugal
Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2003

Quatro anos depois da revista Nature Biotechnology ter declarado que o país tinha "aberto as suas fronteiras" ao sector, as empresas então consideradas bons exemplos tiveram dificuldades em crescer, as "start-ups" contam-se pelos dedos da mão e não se vêem casos claros de sucesso internacional de produtos nacionais

Nuno Arantes e Oliveira*
Em Março de 2000, um artigo publicado na prestigiada revista científica Nature Biotechnology declarava no título que Portugal tinha "aberto as suas fronteiras" à biotecnologia. A peça falava do crescimento no número de doutorados em áreas científicas relacionadas com a biotecnologia, da emergência de programas de promoção do empreendedorismo, dos parques de ciência e tecnologia (C&T), e de medidas para a promoção de Investigação e Desenvolvimento (I&D) no tecido industrial. O tom era de esperança e optimismo; os problemas existentes tinham sido identificados e seriam resolvidos - a biotecnologia em Portugal poderia estar prestes a passar à fase adulta.

Passados quase quatro anos, como é que evoluiu a biotecnologia em Portugal? Mesmo as empresas que já na altura eram consideradas os bons exemplos do sector tiveram dificuldades em crescer, apesar do mérito inegável dos seus pioneiros fundadores. Poucas "start-ups" surgiram entretanto, e quase nenhumas com a intenção explícita de desenvolver novas tecnologias. A biotecnologia continua a representar uma ínfima fracção dos projectos propostos aos parques de C&T, e não se vêem casos claros de sucesso internacional entre os produtos da biotecnologia feita em Portugal. Será que o país está condenado a não ter uma verdadeira indústria biotecnológica? Será que para progredir vamos forçosamente depender da inovação produzida por outros? E será que o investimento na base científica, em particular nas ciências biológicas e afins, nunca irá trazer benefícios visíveis à economia nacional? A resposta a todas estas questões poderá ser não; mas para que o seja é útil perceber primeiro o que é a biotecnologia (ver caixa), e quais serão os factores-chave a ter em conta para que a situação melhore.

Factores críticos de sucesso...
A biotecnologia é um sector difícil e complexo. Os ciclos dos seus produtos são extremamente longos, e as receitas só surgem por vezes ao fim de alguns anos. A isto junta-se o facto de as empresas exigirem investimentos de monta, devido sobretudo aos custos do trabalho de I&D. Trata-se de um sector de alto retorno, mas de alto risco também. Por esta razão a sobrevivência das empresas de biotecnologia depende grandemente de dois tipos de solução: o primeiro é a intervenção de grandes empresas, por exemplo farmacêuticas, que apostem em inovação e que queiram "servir-se" das "start-ups" de biotecnologia como janela para novas oportunidades tecnológicas. Foi isto que determinou, em grande parte, a emergência da biotecnologia em países como a Suécia ou a Irlanda. O segundo factor tem a ver com a existência de investidores especializados, geralmente fundos de Capital de Risco, que se dedicam a financiar projectos empresariais jovens, de base tecnológica. Deste tipo de investidor espera-se um perfil e uma postura específicos, que lhes permitam fazer investimentos substanciais a longo prazo, compreendendo o mercado e a tecnologia que formam a base dos projectos.

Talvez o principal desafio que a biotecnologia enfrenta hoje em Portugal seja a angustiante indisponibilidade, ao nível nacional, de cada uma destas duas soluções. Por um lado quase não existem actores industriais de grande dimensão que procurem inovação biotecnológica, e à sombra dos quais novos projectos inovadores possam florescer. Por outro lado não existem entidades financeiras vocacionadas para a biotecnologia. Embora existam fundos de capital de risco em Portugal, nenhum demonstra uma orientação adequada especificamente à biotecnologia. Na ausência de um número suficiente de empresas ou casos de sucesso, compreende-se que seja hoje arriscado, para um investidor, dedicar-se prioritariamente à biotecnologia em Portugal.

... para sair do círculo vicioso
Como sair deste círculo vicioso, onde a ausência de empresas trava o surgimento de investidores especializados e vice-versa? Tal como noutras situações, teremos de olhar para fora de Portugal, de modo a gerar benefícios internamente. Seria positivo criar condições para que grandes multinacionais farmacêuticas se instalassem em Portugal, não para distribuir os seus produtos localmente, mas para fazer I&D de ponta. Existem zonas do país - como Oeiras - que apresentam condições favoráveis à fixação de multinacionais farmacêuticas: parques tecnológicos com boas infraestruturas, institutos de investigação biológica de alto nível, concentração de doutorados, etc.. Mas para que uma indústria de biotecnologia cresça em Portugal de forma sustentada é preciso mais. É preciso que as tecnologias que surjem nos nossos centros possam ser desenvolvidas por projectos empresariais, com objectivos ambiciosos e bem definidos. Importa que os melhores (bio)empreendedores portugueses vislumbrem soluções para que os seus projectos cresçam para além das fases embrionárias de dependência de subsídios governamentais. Para isso a melhor solução poderá ser mais uma vez a atracção de entidades estrangeiras - desta feita sobretudo fundos de capital de risco especializados - para investir, directa ou indirectamente, na biotecnologia feita em Portugal. Para tal é importante criar um clima de confiança, em que os grandes investidores da biotecnologia mundial se sintam motivados a actuar em Portugal. Isto só acontecerá se os principais actores locais, em particular o governo, fizerem da biotecnologia uma verdadeira prioridade estratégica e apontarem, de forma inequívoca, o sector como um dos principais motores do ressurgimento económico do país.

Como nota de conclusão, e correndo o risco de constatar o óbvio, há a lembrar que nenhum sector de base tecnológica florescerá em Portugal se não se mantiver e acelerar, por bons e largos anos, o investimento na investigação científica de base. O combate aos problemas aqui descritos será inútil se, em simultâneo, Portugal menosprezar a sua ciência. O crescimento no número de doutorados e outros indicadores tem sido positivo, mas de modo nenhum suficiente. Só um investimento público continuado na investigação científica, ladeado por iniciativas que atraiam indústria e capital estrangeiro, poderão permitir à biotecnologia feita em Portugal sair, finalmente, da infância em que há muito se encontra.

*Investigador de pós-doutoramento no Centro IN+ do IST

Colaboração INTELI - Inteligência em Inovação

Artigo do suplemento de Economia do Público 15/12/2003

Publicado por Rui em 03:07 PM | Comentários (6) | TrackBack

Chá de carqueja

Na caixa de comentários do texto de ontem "A Culpa é do Estado! Irra!" continua um debate onde se trocam impressões sobre a "floresta" portuguesa.
O diagnóstico e a atribuição de responsabilidades não é pacífica, as soluções talvez um pouco mais próximas (a ver). Passem por lá e tomem um cházinho enquanto ainda há carqueja na serra.

Publicado por Rui em 12:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

Hanukkah

Eventuais leitores da comunidade judaica,
Algum de vós me sabe dizer onde posso comprar um postal de boas festa (em Lisboa) cujo motivo seja a celebração do Hanukkah?
O melhor que arranjo é o belo postal na net...
Gostaria de poder retribuir os votos que recebi de uns amigos e ainda não encontrei nada além de meninos jesus (convenhamos que poderia ser ofensivo) e bonecos de neve...
Obrigado.

Hanukkah is a holiday celebrated by Jewish people every year between the end of November and the end of December. It begins on the 25th day of the Hebrew month of Kislev, a date which varies from year to year on the Western calendar. Hanukkah is an eight-day celebration commemorating a miracle that occurred in Jerusalem in 165 B.C. That year, a small group of Jews known as the Maccabees (which means "hammer") fought for and successfully won religious freedom from the oppressive Syrians. During the rededication of the Jerusalem Temple, there was only enough oil to light the N'er Tamid, or eternal light, for one night. By some miracle, however, the sacred lamp burned for eight days. Thus, Hanukkah has come to signify a triumph of a people with a burning determination to preserve its identity. Hanukkah, in fact, means "dedication" in Hebrew and is also known as the "Feast of Dedication" in addition to the "Feast (or Festival) of Lights."

http://www.care2.com/send/cathanukkah1.html

Publicado por Rui em 10:27 AM | Comentários (5) | TrackBack

dezembro 16, 2003

“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia” I

“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”

Eis a primeira sugestão de imagem enviada pelo Jiminy Cricket.


Pintor
Jose Luis Abassolo
Venezuela

Seguem-se ao longo das próximas horas (ou dias) mais três do mesmo autor sugeridas pelo Jiminy e mais alguma que alguém sugira inspirado pelas palavras de Eça de Queirós. Estão abertas inscrições ;-)

Publicado por Rui em 09:02 PM | Comentários (1) | TrackBack

"Aborto: PP recusa alteração à lei"

A notícia é do Portugal Diário... As palavras citadas são de Luis Nobre Guedes:

«Dentro de um período que se estende no mínimo a esta legislatura não há nenhuma razão para questionarmos aquilo que soberanamente foi decidido pelos portugueses (...)Tenho a certeza absoluta que o PSD vai respeitar o acordo político que fez com o CDS-PP (...) neste, como noutros julgamentos, a posição do partido é que o poder político não deve condicionar as decisões judiciais. (...) A posição do CDS-PP em 1998 ao apelar ao »não« [no referendo pela despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às 12 semanas] foi uma posição de tolerância e humanismo. Somos contra o flagelo social que é o aborto, um flagelo que não termina com a liberalização total. Se fosse hoje a posição do CDS-PP seria exactamente a mesma».

Polícias, Juízes, Estabelecimentos prisionais... Amigos, depois da hipocrisia patente aquando da votação do referendo onde quase ninguém se atrevia a considerar legítimo e desejável a detenção das mulheres que abortam, o PSD (através deste acordo e das palavras do outro subscritor) clarifica a sua posição. Encontrámos assim uma obsessão mais valiosa que a do défice. Não se olhe a meios para punir os assassinos que veêm em cada mulher que aborte. Houve alguns momentos de esperança de alguma razoabilidade nas últimas horas. Voltámos ao mesmo. Ou talvez não... Talvez da próxima vez seja mais fácil aos portugueses perceberem o que está em jogo nesta melindrosa questão.

Publicado por Rui em 08:22 PM | Comentários (2) | TrackBack

Dar-lhes o arroz

Domingo, 14 de Dezembro de 2003, 20h30, Av. Morais Soares, Lisboa, Portugal. Temperatura ambiente 12º C.

Pouco movimento automóvel. No passeio algumas pessoas aparentemente despreocupadas e descontraidas (quase só casais e famílias, em passo lento, cujos olhares se demoravam nas montras).
A cabine telefónica estava ocupada por um indivíduo de sandálias, calções e t-shirt que gesticulava animadamente. À porta, ouvindo a conversa, um amigo sorridente.
Mensagem sonora enviada pelo falante em bom português do Brasil para a sua terra Natal interceptada por uns ouvidos que passavam:

"Neste país parece que só se come arroz. Pô! Verdade! Verdade, verdadinha. É de encher o saco!"

Jantar de dia 16 de Dezembro 2003:
Sopa.
Arroz branco com moelas arranjadas tipo petisco a acompanhar com vinho tinto e um bom naco de pão de mafra. Salada? A considerar...
Maçãs bravo esmolfe para sobremesa.

Publicado por Rui em 07:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

Falta-me uma imagem

Quem me arranja uma imagem para este aforismo de Eça de Queirós?

“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”

Publicado por Rui em 02:35 PM | Comentários (3) | TrackBack

A culpa é do Estado, irra!

E eu, mal abastecido de oxigénio no cérebro, a pensar que assim um tipo às direitas como o Liberdade de Expressão ia gostar deste meu texto... Afinal achou que não bati o suficiente no Estado. Mas aqui venho em sua ajuda para que finalmente estejamos de acordo:

Desde que nasci, há quase três décadas, tenho familiares que são proprietários de terrenos florestáveis e pelo menos desde então eles têm sido livres de plantar por lá o que muito bem entendem; sublinho que nem um subsídio granjearam. Garanto também que nenhum deles deixou de ser pastor para ver crescer pinheiros (ainda que eu saiba de uns primos afastados que dedicaram os seus lameiros ao plantio bem mais rentável de coníferas). Por razões puramente interesseiras (as dos seus interesses económicos baseados na rentabilização máxima dos recursos disponíveis), o que por lá vemos plantado são essencialmente os tais pinheiros bravos (já velhos conhecidos de inúmeras gerações de portugueses) e essa relativa novidade que é o perfumado da Austrália, as tais árvores de que fala o Liberdade de Expressão. Naturalmente, ainda que não tendo sido o Estado a obriga-los a tais culturas a culpa de tais opções ao longo dos últimos 30 anos é sem dúvida desse mesmo Estado que não lhes abriu os olhos, que não lhes deu cultura e conhecimentos técnicos, que foi omisso em lhes fazer perceber o risco dos seus erros e a ilusão potencial do retorno esperado face às rentabilidades (e risco) futuros.
Não lhes explicou sequer que há uma palavra bonita que se chama ecologia e que faz muito bem à saúde. Por isso estamos de acordo: a culpa é do Estado. O Estado aliás só faz asneiras. Mas cuidado, caro Liberdade de Expressão, quando fala em pôr o Estado a "proteger terceiros". Eu digo antes, o Estado que não se atreva a tomar medidas, afinal, muito provavelmente, e atendendo àquilo que diz e digo aqui dele, só irá cercear a livre iniciativa e penalizar essa casta tão rara na nossa nação que são os investidores de risco. A grande maioria dos penalizados pelos incêndios não era ela própria constituída por proprietários que incorriam nos mesmos erros? Tiveram o que mereceram. Faz parte das regras do jogo. Os dois ou três desgraçados imaculados que foram vítimas não passaram disso mesmo, duas ou três vítimas colaterais que não poderão impedir o regular funcionamento do mercado e muito menos justificar uma desproporcionada intervenção do Estado. Lamentemos e prestemos as condolências às famílias e mitiguemos o dano com um pouco de caridade, esse instrumento tão precioso e eficaz como tão bem provaram os portugueses ao aceitarem o repto de tantas televisões, jornais e quejandos na recolha de donativos. Deixe o mercado agir livremente, caro Liberdade de Expressão, não se tente. Teve um momento de fraqueza perfeitamente compreensível. Ele ajustará a melhor solução, seja ela a da repetição do passado (que só se repetirá se for a solução mais eficiente na racionalidade do lucro, a única admissível à face da Terra e planetas limítrofes), ou a do abandono da floresta (com o potencial desinteresse dos proprietários escaldados - imagine a "ecologia" que ganharíamos com os matagais florescentes, em 30 ou 40 anos com um pouco de sorte tínhamos uma muito genuína floresta de cheirosas mimosas em boa parte do país).
Deixe-se o Estado ficar mudo e quedo porque os agentes económicos, no longo prazo, conquistarão a racionalidade que lhes faltou, digo, recuperarão a racionalidade que está neles adormecida. Se as comunidades acharem que lhes faltam bombeiros mobilizar-se-ão para os apagar. Afinal não ouvimos tantos e tantos relatos de vizinhos da tragédia que ficaram calmamente a beber umas e outras na cervejaria da aldeia na presença das primeiras labaredas na serra? Quer agora que sejam os meus impostos a servir para apagar o fogo nas casas desses preguiçosos? Deixe o Estado em paz que já tem culpas que chegue. A bem do mercado, que somos afinal todos nós; a única entidade com algum laivo de comunidade que verdadeiramente interessa.

(Acham que com mais algum treino tenho hipóteses de concorrer ao título do mais populista dos ultra-liberais?)

Publicado por Rui em 11:24 AM | Comentários (14) | TrackBack

Imigração e Xenofobia

O NunoP lançou a questão para a "mesa". Deixei por lá um contributo apressado na caixa de comentários. É um tema que vale sempre a pena pensar com calma, mas hoje não deu para mais.

Publicado por Rui em 12:49 AM | Comentários (0) | TrackBack

Só palavras de um leigo, será que se entendem? (act.)

A sociedade ocidental...
Parece que há por aí quem veja estas palavras como um cristal, ou melhor, como um diamante há muito lapidado que temos de preservar sem beliscão, a todo o custo. Um dogma que herdámos e sem o qual desapareceremos. Talvez assim seja (não é pois não?) mas a forma como encaramos esta empresa parece-me demasiado perigosa em algumas das suas modalidades.

A sociedade ocidental...
Há um activo histórico inegável. Há uma estrutura em que me defini, em que me fiz culto de acordo com os costumes.
A análise crítica do caminho que foi percorrido para que eu recebesse esse legado diz-me CLARAMENTE que é pela forma como lido hoje com o outro, pela forma como resolvo um problema, que tenho poder para sustentar (e eventualmente renovar) o meu sistema de valores. Pelo mesmo processo, através de uma determinada prática, posso com igual facilidade questionar, renovar e/ou destruir esse mesmo legado. A legitimação é fundamental para enquadrar as práticas e fortalecer os valores.
Detalhando:


A sociedade ocidental tem de conseguir lidar com pelo menos duas ameaças.
Por um lado, hoje, como sempre, define-se por oposição (não necessariamente por conflito, mas também) com as outras sociedades com que interage.
Muito concretamente hoje, acho que tem de não se satisfazer quanto ao que sabe das ameaças exógenas (sublinho o plural que considera mais adequado) que enfrenta, devendo procurar pôr nitidez onde há neblina, fundamento onde há suspeita, equilíbrio onde há desequilíbrio, correlação onde à apenas relação. Deverá, para cada um dos problemas encontrados, definir casuisticamente os modos de acção mas só depois de averiguar o grau de correlação entre estes. Diplomacia, envolvimento pela economia, belicismo, aculturação cirúrgica (ou avassaladora) do outro ou, em alternativa, reformular-se, adoptando alguns valores do outro, etc, etc...

Por outro lado, deve ter sempre presente que ao agir é auto-julgada pelos próprios valores em que se baseia. Estando qualquer solução pragmática de um problema desenquadrada dos preceitos formais supostamente vigentes e legítimos, pode colapsar internamente por manifesta descredibilização /desajustamento que inviabilize a sua própria reprodução. Pode também renovar-se sem grandes perigos se enfrentar as lacunas do seus esquemas de valores caso disso se trate. Há uma questão de grau a ter em conta. Nesse momento, em que novos valores não estão consensualmente aceites, se em vez de um esforço de conciliação interno se se alimentar a divergência aberta e extremada, o nível do que está em causa pode assumir proporções que desencadeiem uma convulsão interior, à qual caberá encontrar um novo equilíbrio de valores a seguir. No entanto, neste período de ebulição, a sociedade emergente é particularmente frágil se houver à mistura uma inaptidão ou indisposição para o entendimento das ameaças externas. Nesse caso, coloca-se à mercê do exterior se este for suficientemente intrusivo.

O que é que isto quer dizer? Não sei bem, mas, olhando para o mundo, parece-me que as palavras ali de cima se devem encaixar nalgum lado. E há alguns dos cenários que me parecem plausíveis. Como lema para os tempos que se avizinham acho tão importante olhar nos olhos de quem se nos coloca à frente (ainda que por vezes queira fazer da emboscada o seu encontro connosco) quanto ter presente que para defendermos a nossa prezada sociedade "vender-lhe a alma" não é opção.

Fiquem bem.

Publicado por Rui em 12:13 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 15, 2003

imagens mentirosas :

Subscrevo o alerta do João da Metamorfose e faço aqui a sua transcrição:

 Se a imagem desaparecer provavelmente o público mudou de posição tendo optado por retilá-la esta fotografia tem vindo a ser utilizada pelo público online, para ilustrar notícias relativas à discussão em torno da despenalização da interrupção voluntária da gravidez (ivg) até às 12 semanas.
acontece - como é perfeitamente visível - que a mulher fotografada está grávida de muito mais do que 12 semanas, pelo que a utilização neste contexto é profundamente abusiva. e não só é abusiva, como retrata muito bem a degenerescência a que tão importante questão está sujeita.
a ivg tem vindo a ser abordada por responsáveis políticos, jornalistas e figuras públicas com alguma intensidade e frequência. no entanto, a desinformação é generalizada, a politização extremada e a inacção confrangedora, o que ilustra bem a inconsequência da maior parte das discussões de fundo da sociedade portuguesa.
mostramos mulheres grávidas de mais de 20 semanas, quando nos referimos a gravidezes até às 12 semanas; damos atenção às palavras de um bispo, mas relativizamos a opinião de médicos e cientistas; escrevemos páginas e páginas de opinião, mas são muito poucos os que estão minimamente informados sobre as múltiplas dimensões do problema.
mostrar fotografias como a que o público mostra não é só irresponsável. é, também, um desrespeito imenso por todas as mulheres do mundo.

nr - no sábado passado, enviei um email ao josé manuel fernandes e ao josé vitor malheiros a chamar a atenção para o facto de a fotografia aparecer a ilustrar uma notícia do público online. hoje de manhã, recebi um e-mail de resposta, onde se afirma que a questão iria ser discutida em reunião de redacção e que também eles achavam que a fotografia era infeliz. o facto de a mesma aparecer esta tarde a ilustrar uma nova notícia, leva-me a concluir que ou a questão não foi discutida em reunião da redacção, ou não tendo ainda acontecido tal reunião, não foram activados os mecanismos que estou certo o jornal público tem ao seu dispôr para repôr a verdade dos factos em tempo útil. só pelo facto de se ter sido publicada uma segunda vez, é que me senti na obrigação de escrever este post.

Publicado por Rui em 05:22 PM | Comentários (4) | TrackBack

Recomenda-se a leitura de...

O défice que me perdoe mas crescimento é fundamental!
In Canal de Negócios

António Mendonça
O défice que me perdoe mas crescimento é fundamental!
amend@iseg.utl.pt
--------------------------------------------------------------------------------


Tornou-se por demais evidente que o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) se revelou um instrumento ineficaz para assegurar o cumprimento das regras de coordenação das políticas orçamentais impostas pela gestão conjunta do euro.
A recente decisão do Ecofin de relaxar a aplicação de sanções à França e à Alemanha pelo não cumprimento dos limites fixados para o défice orçamental vem tornar dramaticamente evidentes duas situações de fragilidade do desenvolvimento actual do processo de integração europeia.

A primeira prende-se com a inexistência de uma política efectiva de coordenação macroeconómica a nível comunitário, suportada em objectivos estratégicos claros e num orçamento quantitativamente credível para apoiar o lançamento de projectos europeus integrados, de médio e longo prazo, orientados para a promoção do crescimento na Europa, incluindo a correcção das inevitáveis assimetrias entre países.

Com efeito, tornou-se por demais evidente que o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) se revelou um instrumento ineficaz para assegurar o cumprimento das regras de coordenação das políticas orçamentais impostas pela gestão conjunta do euro. Concebido mais para limitar as tendências laxistas por parte dos países menos desenvolvidos, entre os quais Portugal, do que para abrir caminho a uma maior integração de objectivos e de resposta conjunta a problemas, o PEC não resistiu à primeira grande prova de fogo provocada pelos efeitos da actual recessão económica sobre os países mais fortes da União Europeia.

A segunda fragilidade prende-se com o papel da actual Comissão Europeia e com a inexistência, de facto, de um verdadeiro órgão de dinamização de iniciativas de âmbito comunitário. Paradoxalmente, numa fase maior de desenvolvimento quantitativo e qualitativo do processo de integração europeia é quando se revela a total incapacidade da Comissão de antecipar a evolução dos acontecimentos e de propor as medidas necessárias para evitar chegar às situações de descredibilização do projecto de integração europeia como a que se viveu na última reunião do Ecofin.

Em vez de apelidar o Pacto de "estúpido" e deixar tudo na mesma, teria sido muito mais útil dinamizar um processo de adequação das regras do Pacto à evolução da situação económica, acomodando e integrando as inevitáveis medidas anti-cíclicas, postas em prática nos diferentes países mais afectados pela recessão e preparando o caminho para uma maior coordenação e integração das políticas orçamentais. Poder-se-á contra-argumentar que, na prática, foi isso que aconteceu na reunião do Ecofin e, em parte, não deixa de ser verdade, mas a credibilidade das decisões e dos compromissos aí assumidos seria, seguramente, maior se se tivesse evitado o desrespeito, imposto pelas necessidades dos mais fortes, das regras acordadas por todos.

As mais recentes previsões económicas, da Comissão Europeia e da OCDE, (ver Quadro 1) apontam para a inversão das tendências recessionistas ao longo de 2004 e 2005. De entre as projecções de crescimento, não deixa de ser surpreendente a revisão em alta das taxas de crescimento do produto americano que, no caso da OCDE, apontam para 4,4% em 2004 contra 2,2% para a U.E. e 1,6% para o Japão.

Se olharmos para a evolução das principais economias mundiais nos anos mais recentes é claramente visível o maior desempenho da economia americana, com excepção do ano de 2001, ano em que a recessão bateu forte. Mas também é notória a despreocupação com que os americanos têm olhado para o défice orçamental que rapidamente evoluiu de uma situação de excedente, vivida no período de expansão da presidência Clinton, para uma situação de défice crescente desde, precisamente, o ano de 2001, e que se projecta para a casa dos 5%, pelo menos até 2005 (ver Quadro 2).

Pode-se dizer que, no caso dos EUA, a política macroeconómica anti-cíclica tradicional encontra o pleno espaço de aplicação. Não apenas no plano monetário, com as mais baixas taxas de juro desde os anos 50, mas também no plano orçamental onde a entrada em recessão fez automaticamente disparar o défice para valores que, em termos absolutos, para termos uma ideia da sua dimensão, representam cerca de seis vezes o PIB português! E não se ficam por aqui os americanos no afã proteccionista dos seus interesses económicos como o demonstra a aplicação de sobretaxas à importação de aço e de outros produtos concorrentes dos produzidos em território americano ou no modo como deixam o dólar depreciar-se significativamente, dando aos europeus a ilusão de que é o euro que se está a apreciar.

Talvez seja a constatação da descolagem da economia americana que levou franceses e alemães a inverterem prioridades em matéria de política económica interna e a colocarem o combate à recessão como preocupação central. No entanto, a via seguida não foi seguramente a melhor do ponto de vista do interesse geral da União e poderá ter consequências desastrosas nos planos da credibilidade e eficiência das instituições comunitárias e da confiança recíproca entre os países-membros.

Em todo o caso não adianta "chorar sobre o leite derramado" e o que importa é seguir em frente recuperando a outra componente do Pacto que aponta precisamente para a importância de considerar o crescimento como uma preocupação central da cooperação económica no espaço da União, abrindo por esta via espaço para a afirmação das dinâmicas de inovação e competitividade que têm faltado em muitos dos sectores da economia europeia quando comparados com os seus congéneres americanos e asiáticos.

Se a recuperação da dinâmica de crescimento é essencial para o sucesso do projecto de integração europeia e de afirmação da União no contexto das tendências actuais de globalização, no caso de Portugal esta necessidade assume contornos verdadeiramente dramáticos. Com efeito, desde 2001, como é fácil constatar pelos quadros juntos, a economia portuguesa enveredou por um processo de divergência face à média comunitária que, tudo indica, terá um ponto culminante este ano com uma das maiores quebras do produto da sua história recente e continuará, de acordo com as projecções, pelo menos até 2005.

Continuar a apostar no equilíbrio orçamental como objectivo prioritário, neste contexto, corre o risco de deixar de ser obsessão para passar a ser puro suicídio. Portugal precisa de passar rapidamente para taxas de crescimento significativamente superiores à média europeia o que implica uma inversão completa de objectivos e prioridades em matéria de política económica. Todos os esforços devem ser concentrados no sentido de promover o investimento interno e externo, de apoiar as empresas e os sectores mais dinâmicos nos seus processos de internacionalização, de consolidar bases nacionais de inovação e desenvolvimento de produtos e processos de produção, de consolidar e alargar a base produtiva real da economia.

Dar prioridade ao crescimento não significa transigir em matéria de despesismo ou da necessidade de continuar a assegurar o controle do défice público mas, simplesmente, reconhecer que as reformas estruturais necessárias à criação de condições para uma efectiva consolidação orçamental só poderão ser realizadas com plena eficiência em ambiente de dinamismo económico.

In Canal de Negócios

Publicado por Rui em 05:08 PM | Comentários (0) | TrackBack

Eu quero uma mão invisível na Floresta!

Factor de risco para prevenção de incêndios
Portugal é o segundo país da UE com mais floresta privada

Leiam a notícia caros amigos (está em anexo).
Finalmente em alguma coisa estamos na liderança da Europa!
Só não percebo o ante-título. Factor de Risco? Deve ter sido um comuna, anti-liberal, um inimigo do mercado livre que escreveu tal coisa. Só falta dizer que o Estado tem de investir mais no interior para evitar os incêncios! No Interior! Já não bastam os milhões de euros desperdiçados em auto-estradas onde não passa nem passará ninguém nos próximos 30 anos? E pior! Ao longo da notícia cita mesmo um especialista que afirma:

«...)as causas sociais são responsáveis por 72 por cento dos fogos florestais. Lutas Craveiro sublinhou que é necessário estudar mais as causas sociais que estão na origem dos incêndios do que as causas naturais. "Desaparecem as pessoas, aparecem os incêndios", lembrou, referindo-se ao fenómeno da desertificação.»

Causas Sociais? Despovoação? Desculpas esfarrapadas para quererem nacionalizar a nossa tão querida floresta.
Defendamos a propriedade privada a todo custo! Se Deus quisesse que não ardesse ela não arderia. O Estado não tem nada que meter o bedelho. Não têm mais nada com que se preocupar? Ou onde gastar o dinheiro do contribuinte? E os senhores jornalistas também não têm mais nada que fazer?
Se eu volto a ver este tipo de discurso preparatório de mais uma cedência a essa corja que acha que o Estado por um momento que seja pode mais do que cada um de nós por si, convoco logo uma... concentração de pessoas de bem!

(O autor deste blogue sofreu um episódio momentâneo de rarefacção de oxigénio no cérebro. Encontra-se em convalescença acelerada pelo que esperamos que retome o seu juizo normal dentro de momentos.)

Nota: Inspirações incidentais em declarações de Carmona Rodrigues, Woody Allen, comunidade blogger ultra liberal, Luis Nobre Guedes, corruptores de Adam Smith, etc, etc.

Factor de risco para prevenção de incêndios
Portugal é o segundo país da UE com mais floresta privada

Lusa
Portugal é o segundo país da União Europeia com maior percentagem de floresta privada, o que dificulta a gestão do território florestal e potencia a ocorrência de incêndios. Os dados do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), relativos ao ano corrente, indicam que, na União Europeia (UE), à frente de Portugal só fica a Áustria.

O estudo do investigador Lutas Craveiro, do LNEC, indica que a floresta privada em Portugal "dificulta a coordenação entre interesses privados e interesses públicos", impedindo uma maior eficácia na prevenção de fogos florestais.

"Mais de 70 por cento de floresta em Portugal é privada", afirmou Lutas Craveiro, comparando a situação com a austríaca, em que mais de 80 por cento da floresta é privada. Na Alemanha menos de 50 por cento da floresta pertence a privados e na Grécia este valor desce até aos 15 por cento.

O especialista alerta que, dentro de 30 anos, todo o território nacional poderá ter um risco "muito alto" de incêndios. Actualmente, este risco concentra-se sobretudo no norte interior do país mas, de acordo com vários estudos, devido às alterações climáticas, deverá alargar-se a todo o território continental.

Segundo este especialista, as causas sociais são responsáveis por 72 por cento dos fogos florestais. Lutas Craveiro sublinhou que é necessário estudar mais as causas sociais que estão na origem dos incêndios do que as causas naturais. "Desaparecem as pessoas, aparecem os incêndios", lembrou, referindo-se ao fenómeno da desertificação.

Os dados do perito confirmam aquilo que já se sabe sobre os factores de risco para os incêndios, como as queimadas, o uso de fogo indevido, a negligência, acções de vingança entre vizinhos ou crime. In Público (15/12/2003)

Publicado por Rui em 04:58 PM | Comentários (2) | TrackBack

Top +

Como é natural tenho curiosidade em saber que palavras mais se procuram no Adufe e tenho acompanhado com alguma regularidade as pesquisas mais populares. Algumas são absolutamente surpreendentes. Por exemplo, nos últimos quase quatro meses em que o Adufe está no Weblog.com.pt a pesquisa mais popular é de longe... é melhor não dizer senão vou estar a contribuir ainda mais para que algum desgraçado aqui venha parar encaminhado por algum motor de busca. O que é certo é que foi um tema (um neologismo sugerido pela Economist) que aqui abordei ainda no Verão. Poderão ver o resumo dos últimos 15 dias em anexo, sendo que a tal palavra surge aí em 2º lugar. Para já, ao longo de Dezembro, o lider dos tops é outro que confesso não sabia gerar tanto fascínio entre os cibernautas. Já leva 14 pesquisas feitas, uma entrada directa para a liderança.

Top +: 1ª Quinzena de Dezembro de 2003

Publicado por Rui em 10:14 AM | Comentários (5) | TrackBack

Sonhar

De vez em quando é tão bom estar à lareira com um galhito na mão.

(Quem me dera agora)

Publicado por Rui em 12:12 AM | Comentários (7) | TrackBack

dezembro 14, 2003

Quem quiser andar contente

A semente da mentira
E da calúnia também
Gira num mundo que gira
Na lama que o mundo tem.

Quem quiser andar contente
E ser na vida feliz
Não diga tudo o que sente
Mas sinta tudo o que diz.

Quadras Populares

Publicado por Rui em 11:09 PM | Comentários (3) | TrackBack

"Perante isso, tudo o resto é secundário e menor (Act.)"

É espantoso ver reanimar tantos bloggers para a discussão Iraquiana, vê-los tão contundentes e conclusivos. Vingados mesmo. Vai por aí um foguetório impressionante, tão impressionante que pondero retomar aqui a questão da segurança quanto ao lançamento de material pirotécnico.

Mais impressionante ainda é vê-los num tom policial de caderninho na mão a anotar quem não está suficientemente inebriado com a detenção de Saddam Hussein. Alguns deles, recordemo-nos, já tentavam quase em desespero, e há bem pouco tempo, escapar à inclemente solidão do purgatório das suas consciências, alargando a abrangência da culpa das asneiras cometidas pela grande super-potência e seus aliados a todos os mortais. Estes mesmos renascem agora para uma desproporcionada celebração ao bom estilo do futebol. Nem hoje é segunda-feira, nem este é um assunto para a Bancada Central*.
Sejam humildes e não percam o sentido de perspectiva... É sempre possível repetir as mesmas asneiras no futuro se insistirem em não encarar a experiência do passado e os erros que acabam por ajudar a perpetuar no presente.
Por muito satisfeitos que possamos estar pela captura de um ditador sanguinário, o pior erro que poderiam cometer seria pensar, agora, que esse facto em si absolve a culpa que há tão pouco tempo queriam partilhar; que eliminava da história o erro grosseiro de avaliação que levou a uma acção geradora de problemas que até ao momento permanecem sem solução.
Uma acção da qual o maior dano imediato para a civilização ocidental (auto-inflingido) é a descredibilização total dos seus líderes e consequentemente do seu sistema de legitimação como tentei expressar no texto anterior.

* A Banca Central é um programa de rádio (TSF - Rádio Notícias) que se baseia predominantemente na discussão das paixões clubísticas pelos respectivos adeptos que ligam para a emissora. Não é só isto - até porque está lá o admirável jornalista Fernando Correia -, mas é também isto.

** Sem qualquer intenção policial sublinho que o título é um frase extraída deste texto do Mar Salgado.

Publicado por Rui em 05:20 PM | Comentários (3) | TrackBack

Credibilidade

Se os EUA hoje dissessem que tinham descoberto, no Iraque, armas de destruição massiva do anterior regime de Saddam você acreditaria?

Publicado por Rui em 04:02 PM | Comentários (11) | TrackBack

dezembro 13, 2003

Europeus dramatizando a Europa

Antes de fechar a loja por hoje e ainda num tom politizado recomendo a leitura do Cidadão Livre na sua réplica às «Dez razões para um "sim europeu"». Tenho de admitir que em muitas questões estou mais próximo do tom mais federalista e liberal do Cidadão Livre do que do modelo de Europa implícito nas "10 razões para um sim europeu". Não vejo grandes motivos para contentamento e vejo poucas para "votar sim" ao que tem estado em cima da mesa.

Pela minha parte, resolvo-me a ir reduzindo o culto de reservas mentais quanto ao modelo de governação de uma União Europeia. É fundamental falar claro e ter regras e procedimentos claros. Hoje parece-me evidente que estamos muito longe de assumir que queremos um Estado Federal capaz e completo (coerente na diplomacia, na defesa, nos direitos sociais). Não me parece, contudo, que possamos conviver unidos à escala a que chegámos (25 países em tendencial União Económica e Monetária) com menos do que isso.

Espero ao menos que, na perspectiva de um impasse absoluto, se perceba que um passo atrás na integração não será o fim do mundo. Será sempre preferível ao colapso total que está à espreita.

Publicado por Rui em 11:43 PM | Comentários (3) | TrackBack

Cumpre decidir, o que é que queremos?

Ideia original do blogue Gin Tónico: http://ogintonico.weblog.com.pt/

Rapinando a ideia do sempre interventivo Gin Tónico fiquem com estes votos!

Publicado por Rui em 11:15 PM | Comentários (1) | TrackBack

Torpedo portuense

De volta ao frenesim.
Como sublinha o Paulo Gorjão, parece que não é só no Barreiro que se encontram exemplos admiráveis no interior da igreja católica. Quem conhece minimamente o percurso de D. Armindo Lopes Coelho não fica surpreendido com as suas afirmações relativas à questão do aborto.
Mais um contributo para a emancipação de alguma Igreja e de muitos católicos. Emancipação face a quem? Na nossa vida caseirinha, face, por exemplo, a alguns políticos que se auto-consagraram como autênticos bispos evangelizadores e recolectores do respectivo (suposto) dízimo eleitoral.

D. Armindo Lopes Coelho perturba ainda noutra matéria quando é peremptório no prognóstico das presidênciais na eventualidade de uma candidatura de António Guterres. Sairá vencedor diz o senhor bispo. Terá sido um acto de coragem? Uma prova de amizade? Ou será uma previsão baseada nos mesmos neurónios que o levaram às afirmações lúcidas que fez em matéria de aborto onde, curiosamente, se destaca claramente de Guterres? Não sei responder, mas,ainda assim, desconfio que não são afirmações de inspiração divina .

Publicado por Rui em 05:57 PM | Comentários (1) | TrackBack

Com tempo

Com tempo até o agreste monitor do computador parece cansar menos os olhos e a vontade de percorrer textos mais densos vence a superficialidade frenética que geralmente acompanha a espuma dos blogues. Interessantes ideias estas, por exemplo.

Publicado por Rui em 04:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

Licor

Com que então licor de poejo e licor de amoras... Seria uma estreia.
Há aqui dois dedos pedinchantes no ar :-)

Noutro registo - experimentação culinária - informo que dentro de algumas horas tentarei a minha primeira tarte de limão. Se sobreviver troco por um cálice de licor em data acertar.
A minha moça avisa-me ainda que esperamos a todo o momento uma boa aguardente caseira vinda das bandas de Montemuro. Tem como destino traçado integrar um futuro licor de café... Pelo sim pelo não vou reservar um pouco da dita cuja, temo que tanta experimentação não nos leve a nada sublime mas digamos que estamos preparados para aguentar algum revés.
E por hoje é tudo, boa noite e bons livros.

Publicado por Rui em 01:04 AM | Comentários (0) | TrackBack

Vim de perto

Há pouco fui ver um "show" de teatro. Pediram-me a "alma", como sempre. Quis deixar lá um bocadinho... Mas eles sabem mais do que eu. A "alma" não se divide, quando muito dá-se a vislumbrar ou, se a isso estivermos dispostos, põe-se num caldeirão, nem que por apenas sete minutos, bulindo com as outras que lá estejam. E no fim, se o mestre usou correctamente o lume e os condimentos, extrai-se uma vontade renovada de deslumbramento e alguma energia adicional para levantar, se necessário, o estandarte de uma qualquer indignação.
Foi um bom regresso à plateia. Haja quem por aí traga boas achas para a fogueira que eu, nós, lá estaremos por perto.
A devida vénia aos actor de hoje:
António Fagundes, Susy Rêgo, Tácito Rocha, Neusa Maria Faro, Denis Victorazo e Luís Amorim.

Do Jornal de Notícias

Êxito de Fagundes "Sete minutos" prolonga espectáculos até ao dia 21

A peça brasileira "Sete minutos", com o actor António Fagundes, vai prolongar a sua temporada até dia 21, no Teatro Tivoli, em Lisboa. Segundo a produtora Plano 6, haverá mais uma semana de récitas "devido ao interesse do público, após cinco semanas de lotação esgotada".
"Sete minutos", escrita pelo próprio António Fagundes, descreve a falta de respeito do público durante a representação de peças de teatro. Curiosamente, na temporada de estreia no Porto, de 14 a 16 de Novembro, o enredo ficcional transformou-se em
realidade: no primeiro dia, diversos espectadores chegaram atrasados à peça e foram impedidos de entrar - manifestando-se então ruidosamente do lado de fora do Coliseu do Porto.
O elenco, que é o mesmo do Brasil, é composto por Fagundes, Susy Rêgo, Tácito Rocha, Neusa Maria Faro, Denis Victorazo e Luís Amorim.

Publicado por Rui em 12:30 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 12, 2003

Olá!

img09[1].gif

Publicado por Rui em 08:15 PM | Comentários (3) | TrackBack

De quem eu gosto

Há muitos, muitos anos, na RTP 1, alguém fez uma adaptação deste conto que transcrevo. Uma adaptação mais tarde repetida, sem o mesmo fulgor, numa interpretação de Ruy de Carvalho. A primeira peça, a que ficou na minha memória mais fulcral, é de um tempo onde os actores não eram actores e em que o que saía da televisão não era um exercício laboral mas apenas pura magia. Uma magia que tenho tido a felicidade de recuperar sempre que leio estas palavras singelamente apostas em carreira por um admirável escritor:

Um Conto de Natal

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas , tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente , ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha , punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.

Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga , não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!

Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.

Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

- Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

Miguel Torga

Publicado por Rui em 02:41 PM | Comentários (1) | TrackBack

Fenómenos Paranormais

Se não me engano este é o primeiro relato de um fenómeno paranormal em sentido estrito publicado na blogoesfera. Teremos o primeiro blogger com um sósia? Um deles será de plástico? Ou será que o nosso spin doctor já spinou demais?
Está-me a parecer que este é um caso para o primeiro (?) super-herói da blogoesfera portuguesa...

Publicado por Rui em 01:08 PM | Comentários (7) | TrackBack

Oração para mim

Amigos, companheiros, camaradas, palhaços e demais acrobatas,

Desculpem a pretensão mas eu não mereço Paulo Portas como Ministro. Ninguém merece. E de todos nós ele é claramente um dos que menos merece.
Mas, como sabemos, a democracia não é, para o bem e para o mal, uma meritocracia. E nem sempre cada um tem aquilo que merece...
Combinar a necessária inquietação e indignação com a indispensável paciência é por vezes demasiado penoso, mesmo para um democrata, mas tem que ser.
Amem.

Publicado por Rui em 11:17 AM | Comentários (2) | TrackBack

E esta hem?

"Feliz Natal
Impresso a letras pretas, grandes e várias, em cartão branco:
O Luís
Arrumador de Carros da Sé Nova
Deseja a todos os estimados clientes
Um Feliz Natal
e
Um Próspero Ano Novo
Telem. 91xxxxxxx

Inédito?"

Pergunta a Sofia da Natureza do Mal

Publicado por Rui em 10:49 AM | Comentários (2) | TrackBack

Adufe

Em dias destes, de denso nevoeiro, é particularmente útil ter um instrumento de percussão à mão. Espevitemos os ouvidos, agucemos o olhar e sejamos vigorosos a tocar os respectivos adufes.
Por favor, não se esqueçam de acender as luzes de nevoeiro. Obrigado.

Publicado por Rui em 10:40 AM | Comentários (0) | TrackBack

1 e 2

Date: 12-12-2003 Time: 1:10:39
Intrusion attempt detected from address 67.165.102.53 by rule "Default Block Backdoor/SubSeven Trojan horse".

Date: 11-12-2003 Time: 20:56:58
Intrusion attempt detected from address 213.22.38.175 by rule "Default Block NetBus Trojan horse".

Publicado por Rui em 01:19 AM | Comentários (1) | TrackBack

Comentando o perguntador

Disse ontem, no início do dia, que alguém iria pegar no texto de JPP e dedicar-se a analisar a matéria de facto, mas... de facto, só agora e por via do Terras do Nunca leio alguém a dar-lhe o merecido destaque. Posso ter andado distraido mas até prova em contrário estranho o silêncio na blogoesfera...
Recomendo, o Terras do Nunca, naturalmente.

Publicado por Rui em 12:47 AM | Comentários (2) | TrackBack

(Da) Ajuda aos Mártires da Pátria - act.

Chegou tarde, cansada mas sorridente. O trabalho no escritório decorreu sem notícia de destaque além da tardia hora de saída. Aproxima-se o tempo de todas as urgências. Ainda que poucos saibam o que fazem, tudo tem de estar pronto para recomeçar de novo no primeiro dia do ano. O dia de hoje foi um preliminar, sem história, ou quase.

A rotina foi quebrada com o patrocínio da Carris – que, para quem não sabe, é uma empresa centenária que está actualmente sobre alçada do Estado e é responsável pelos transporte colectivo rodoviário no interior da Cidade de Lisboa.
A Carris, ou melhor, parte dos seus trabalhadores, protagonizaram hoje mais uma meia greve, ou um turno de greve, custa-me precisar. Pela enésima vez este ano, os amarelo-laranjas, campeões da poluição por motor quadrado, ficaram nas garagens no início da noite. Também, devido a isto chegou tarde, cansada e particularmente... sorridente.

A companhia tem por hábito sub-contratar outras empresas para garantir algumas poucas carreiras onde o transporte público é exclusivamente assegurado pela via rodoviária e, esta modesta iniciativa, provou-se hoje, provou ela hoje, acabou por se revelar um anti-stressante inesperado.
Imaginem um condutor de autocarros de grande turismo, habituado a viagens de longo curso, onde as distâncias se contam às centenas e a velocidade às dezenas de quilómetros, a percorrer as ruas de Lisboa à caça de paragens cor de laranja num itinerário que mal conhece...

A cada mupi mais alaranjado que encontrava na beira do caminho lá estava o condutor a fazer pisca para a direita em sinal de “vou encostar”. Noutras ocasiões, as paragens estavam tão disfarçadas que não havia outro remédio senão deixar os passageiros pasmados e ligeiramente indignados no semáforo avermelhado mais próximo... Mas a história não se fica por aqui.

Era tarde, estava cansada e pouco animada. Começou a simpatizar com o condutor e a gostar da gincana invulgar.
Desprevenidas, duas turistas francesas entraram no autocarro, mostraram o bilhete diário e sentaram-se conversando animadamente. Ficaram neste descanso por pouco tempo. Passados alguns instantes, o extraordinário motorista meteu conversa com a dupla, em bom francês. A coisa podia ter dado para o torto, mas não! As senhoras deliraram por encontrar um chauffer francófono. E patati, patatá, ficaram a saber das andanças e paranças do motorista internacional. Até se souberam vizinhas da comadre Joaquina no 12º bairro de Paris-não-sei-a-ver-o-quê.
Não contentes com tamanhas descobertas, ao fim de mais alguns minutos, convertiam a viagem banal, rotineira, amorfa, num autocarro alugado pela Carris, numa autêntica excursão em espírito carpe diem. Puseram quase toda a gente no autocarro a cantarolar as musicas da rádio que entretanto subira de tom.

Para compor ainda mais o cenário desta crónica, é preciso frisar, que, a cada paragem falhada, a cada novo abrir de portas, os pacientes candidatos a passageiros ouviam as cantilenas e as risadas bem humoradas, bem como, a voz bonacheirona do motorista que, lá de dentro, as interpelava animada e veementemente: “Entrem, entrem que esta carreira faz quase o mesmo caminho que o 107. E esse ainda está em greve. Venham comigo até à Paiva Couceiro que de lá apanham o especial.”. Uns entravam outros ficavam-se com um olhar espantado e o autocarro lá seguia embalado ao som de mais uma música intemporal cantada com vigor por alguns dos passageiros e o respectivo mestre de cerimónias.

Muitas inesperadas paragens depois, tarde, cansada, ela saiu do transporte trazendo um sonoro “Boa Noite” nos ouvidos e um simpático e muito personalizado aceno de despedida no olhar. Chegou-me aqui com um sorridente “Não sabes o que me aconteceu agora. Só visto que contado ninguém acredita!

Lisboa, 11 de Novembro de 2003

Publicado por Rui em 12:24 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 11, 2003

Lisboa e a nova taxa

A quente:
Uma taxa para circular na Baixa de Lisboa com o popózinho particular? Ena! Talvez seja boa ideia!

Espera aí... Não é uma taxa diária como em Londres? É uma taxa ANUAL?!

Publicado por Rui em 08:32 PM | Comentários (3) | TrackBack

Mais um empurrão

Na Ânimo (o blogue) brinca-se aos prémios (espero não ser desqualificado com esta potencial tentativa de aliciamento :-) ) e está também em curso uma "operação" para bater um record de visitas. Para dar um empurrão destaco este e este texto. Duas referências da Ânimo a duas boas peças de arte.

Obrigado pela nomeação, já fico babado entre tão ilustre companhia. Bem hajam.

P.S.:A "outra" Ânimo está aqui.

Publicado por Rui em 08:24 PM | Comentários (0) | TrackBack

Desequilíbrios Regionais

Se houver alguém interessado... Infelizmente não poderei ir mas gostava de poder fazer algumas perguntas/ter alguns esclarecimentos. Enfim, fica a dica.

Exmos(as) Senhores(as),

Vimos relembrar que, a Ordem dos Economistas vai realizar na sua sede em Lisboa, na Rua da Estrela n.º 8, no próximo dia 12 de Dezembro, às 21 horas, uma Conferência sobre os > "> Desequilíbrios Regionais> "> , no âmbito do 16º Aniversário dos CADERNOS DE ECONOMIA e de O ECONOMISTA-ANUÁRIO DA ECONOMIA PORTUGUESA.

A sessão será presidida pelo Ministro da Economia, Dr. Carlos Tavares, e contará com a participação dos seguintes oradores: Professor Daniel Bessa (coordenador do estudo sobre as regiões e sectores deprimidos da economia portuguesa); Dr. Vasco Cal (coordenador-geral do relatório sobre a coesão económica e social - UE); Dr. Felix Ribeiro; Dr. Cadima Ribeiro. Será moderador o Bastonário, Prof. Simões Lopes.
Por razões técnicas a que somos alheios, não podemos garantir em absoluto a transmissão on-line da Conferência.
Contamos com a sua presença e participação activa.
A entrada é livre.

O Assessor do Bastonário
Pedro Meireles

Publicado por Rui em 06:21 PM | Comentários (0) | TrackBack

Meteorologia do posto de trabalho II

O calor interior desta cidade (música) fez recuar a tenebrosa bruma que vinha de Espanha, mas a ameaça persiste no horizonte. E agora as gaivotas apresentam-se rondando os arranha céus... Ganhámos, contudo, um belo pôr do Sol.

Publicado por Rui em 04:39 PM | Comentários (0) | TrackBack

Meteorologia do posto de trabalho

Ai vem ela, decididamente avançando para o mar. Prepara-se para esconder os traços de gelo das esteiras dos aviões que tão singelamente destacavam o azul. Cobrir-nos-á por completo em alguns minutos. Tivemos um dia de sol, aproveitemos os últimos minutos.

Publicado por Rui em 02:41 PM | Comentários (0) | TrackBack

Enunciado breve sobre José Pacheco Pereira

O nosso amigo, permita(m)-me a liberdade de expressão, não foi presidente da república, não vem de um cargo que recomende qualquer tipo de contenção, construiu um percurso político muito próprio e, pelo que conheço, respeitável e intelectualmente honesto. Sempre foi à luta e deu a cara internamente, tendo ganho diversas eleições, foi o rosto do PSD na AR durante vários anos. Recentemente foi responsável por algumas das mais acutilantes e certeiras críticas feitas ao anterior executivo desde o pulpito da Assembleia e desde os microfones das rádios e páginas dos jornais.
Que eu saiba – admito que sei muito pouco - não está manietado por nada nem ninguém além de admitir alguns condicionamentos resultantes de naturais e muito humanas amizades pessoais e além dos ditames da sua própria consciência e orientação política.
Parece-me também que, contrariamente a outros “radicais livres” de direita, como o Prof. Marcelo, conhece perfeitamente as suas "limitações" em termos de ambição política, fruto, entre outros, da imagem (e substrato) de intelectual que sempre cultivou. Um claro handicap em quase todo o lado... Essa percepção que parece ter de si minimiza facilmente os efeitos da evidência; não demonstra estar a correr atras de qualquer cargo ou posição de maior poder além do oferecido pelos media. Não tem nada a perder.

O nosso José Pacheco Pereira (JPP) ameaça reforçar o seu papel de fazedor de opinião, crítico do PSD, (conjunturalmente tanto mais ouvido e influente quanto mais a descrença no poder vigente se acentuar) junto de alguma, na minha opinião, relevante, consciência pública portuguesa.
JPP está em vias de abandonar o Parlamento Europeu e pela amostra e intensidade da sua intervenção dos últimos dias parece que arranjou causa bastante que o manterá ocupado politicamente nos próximos tempos.
O que tem dito JPP, assim como alguns outros militantes de referência, dá a entender que a via interna de discussão e debate se esgotou. E a pressão do discurso do “Abram os olhos!” para o interior toma agora novas proporções. Também porque, ou principalmente porque, talvez o mais mal amado político português pela "classe" jornalística, tem peso, tem espaço e boa voz para desempenhar o seu papel de sempre.
Goste-se ou não se goste, JPP é uma prova e um contributo para a saúde democrática nacional e, acrescento mesmo, de melhor calibre e/ou em melhores condições para exercer o seu papel do que qualquer paralelo seu à esquerda demonstra ter (espero estar redondamente enganado nesta minha última afirmação, mas se olhar particularmente para o PS duvido que me engane).

Quanto ao concreto das suas palavras de hoje seguramente muitos se dedicarão à merecida escalpelização.

Publicado por Rui em 11:11 AM | Comentários (4) | TrackBack

Está bem, confesso...

Também já li a Margarida Rebelo Pinto (Sei Lá), li o Paulo Coelho (Alquimista) e até li aquele, o...como é que se chama...o... O Borda D'água!
O primeiro fez-me reconsiderar escapadinhas em Pousadas de Portugal (não me perguntem porquê, mas ainda tenho esperança de me livrar do misterioso preconceito), o segundo ensinou-me que lá bem no fundo do nosso ser todos somos dourados, e produzimos obras douradas (felizmente não cheira) e o terceiro... ah! o terceiro, muito haveria para dizer sobre o terceiro mas destaco apenas que costuma esgotar ali para as bandas do Largo do Caldas em altura de campanha eleitoral. Afinal, ninguém prescinde do melhor repositório de datas e lugares das mais diversas feiras populares que tem este lindo país.
E agora vou decidir se dedicarei a minha carreira literária às obras primas ou aos best sellers, no fundo, vou decidir o título do meu primeiro livro: será "Entre dois fios de luz" ou "O meu rico travesseirinho"?

Publicado por Rui em 01:24 AM | Comentários (8) | TrackBack

dezembro 10, 2003

A Bola de Cristal (act.)

Para desenjoar dos números da Economia estive a ler na diagonal os cenários demográficos das Nações Unidas, ontem divulgados. (Disponível aqui).
Constato que a ONU utilizou como base para o cenário uma população residente em Portugal no ano 2000 de 10.016 mil indivíduos. Ora logo aqui a base está claramente sub-avaliada e, pior ainda, a correcção da subavaliação deveria implicar algum rejuvenescimento do contingente e consequentemente da idade média (padrões de fecundidade) desse mesmo contingente pois, tal como se desconfiava em 1999-2000, haviam entrado no país e aqui fixado residência (entretanto largamente legalizada) perto de 250 mil imigrantes. No final do primeiro trimestre do ano 2001, o INE, através do recenseamento geral da população actualizou todas as estimativas e indicou residirem em Portugal, à data do recenseamento, 10.356.117 indivíduos. Um valor em si claramente superior ao máximo que a ONU projectava para 2010, ou seja 10.082 mil residentes. Só por aqui, devido a este historicamente anormal incremento populacional via fluxo migratório (conhecido há cerca de três anos), demonstra-se, logo no primeiro dia após a publicação, que as premissas utilizadas pela ONU para traçar o cenário para Portugal estão gravemente enviesadas. Mas enfim, já sabem como é, para o relatório ter saído ontem, já devia estar concluído há alguns meses (anos?), entretanto, andou em escrutínio junto de um batalhão de diplomatas, talvez mesmo de sucessivos comités de espertos internacionais…Há ainda que considerar que estudar o mundo não é simples, há sempre muitos compromissos técnicos a fazer para permitir uma reconhecidamente limitada comparabilidade. Mas não é sequer isto que me move neste relato.
O que me move é o que se extrai levianamente do estudo, algo que trai o trabalho de quem produz a estatística. Atribuir ao estudo um carácter de profecia escatológica é desmoralizador e potencialmente paralizante.
Ainda que sujeito a poderosas forças de arrasto onde o efeito das decisões de hoje terão consequências duradouras significativas, o fenómeno demográfico é claramente mais dinâmico e imprevisível do que o adivinhado no tom fatalista que encontrei em tantos e tantos órgãos de comunicação social que divulgaram acriticamente o estudo. É possível e conveniente fazer algo sabendo para onde se quer ir. É esse o aviso que nos deixam estas previsões.

P.S.: Aproveito para saudar as Nações Unidas pela disponibilização gratuita e relativamente detalhada dos dados e respectivas hipóteses de trabalho. Um exemplo a seguir e a melhorar.

Publicado por Rui em 06:48 PM | Comentários (1) | TrackBack

Em perigo

Depois não digam que ele não avisou (mais uma vez). Pela boca morre o Cherne, perdão, o peixe.

Publicado por Rui em 03:56 PM | Comentários (0) | TrackBack

A linguística correcta II

Piada de caserna:
A mulher do soldado está prenha.
A mulher do sargento está grávida.
A mulher do oficial está em estado interessante.

Para contrabalançar e em certa medida contrariar a lógica denunciada na "A linguistica correcta" o Ter Voz faz um ponto de ordem.

E a dada altura Luis Tito escreve: "Adufa-se que género é mais higiénico que sexo. Talvez, mas não é tão bom. As pessoas têm género mas fazem (ou não) sexo.
Talvez por isso, a ONU não comemore hoje a Declaração Universal dos Direitos do Homem que aprovou em 1948, mas sim a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Basta recordar o n.º1 do articulado para saber porquê:

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade."

Naturalmente não sou um fundamentalista do imobilismo mas acho que exageramos. Vejo demasiada cosmética e pouco tutano. Pegando no exemplo da ONU, temo que o exagero que vemos nos leve num futuro próximo à Declaração Universal dos Direitos da Mulher do Homem à laia do "Portuguesas e portugueses..." só para reforçar mais um bocadinho a igualdade. Vai-se perdendo pelo caminho o sentido do ridículo. E talvez genica para agir sobre o problema.

Já agora, a mudança de sexo para género baseou-se, pelo que me contaram, em razões bem pouco louváveis. Foi mais uma vitória de um lobby conservador do que reflexo de uma qualquer correcção com as boas intenções desse outro exemplo da Declaração Universal. Deixou alegres os que acham que não se deve apresentar a palavra sexo num manual escolar. Reforçaram um tabu e ficaram felizes. Sempre é menos um pretexto para pôr as crianças a fazer perguntas e uma boa razão para acharem que depois desse dia deixaram o mundo muito melhor do que o encontraram. E andam nisto diplomatas do planeta inteiro. Por exmeplo aquando no Ano Internacional das Pessoas Idosas (1999) contaram-me que a discussão foi também muito intensa e deu origem a diversas reuniões internacionais (bons pretextos de viagens?). Eu próprio vi incrédulo, versões e mais versões dos mesmos documentos ora com old people, ora com old persons, ora com elder individuals, ora com elder persons... Para ser franco já nem sei bem em que é que se ficou, mas foi determinante e muito menos ofensiva da sensibilidade dos ditos a opção final, disso estou certo.
Ná. Por enquanto vou continuar a criticar esta moda admitindo como natural a excepção e não a regra. Tenham lá paciência.

Publicado por Rui em 02:18 PM | Comentários (5) | TrackBack

Mais um para memória futura

Teodora Cardoso, uma sempre incómoda e bem informada economista da nossa "praça", atreve-se a fazer o balanço necessário. Com a inevitável brevidade que se impõe a um artigo de jornal analisa a política económica nacional dos últimos anos e chama os bois pelos nomes.
Quem quiser ler poderá fazê-lo consultando o texto que deixo em anexo. Encontra-se temporariamente disponível no Canal de Negócios.

Para abrir o apetite destaco estas palavras particularmente dedicadas ao actual governo e inspiradas pela constação das evidências:

«(...) Mesmo o aumento do desemprego em 2003 e o fraquíssimo crescimento dos nossos parceiros não conseguiram aproximar a produtividade portuguesa da europeia.

O desígnio de o fazer até 2010 insere-se num conjunto de programas do Ministério da Economia que tornam os governos Guterres num paradigma de eficácia e realismo. Outras grandes reformas, como as da administração pública ou da formação profissional, preparam-se para deixar tudo na mesma, com a possível excepção de politizar ainda mais o que devia ser despolitizado. Quanto à saúde, além de travar a melhoria de alguns serviços e acelerar a degradação de outros, vai conseguir reduzir o consumo público... porque passa a chamar-se transferências.

Por tudo isto, a viragem no sentido da “destruição criativa” de Schumpeter aparece cada vez mais longínqua. Para já, 2003 ficará para a história como o ano da “destruição destrutiva”.»

Teodora Cardoso
2003, o ano da “destruição destrutiva”
teodora.cardoso@clix.pt
--------------------------------------------------------------------------------


Em 1942, Schumpeter cunhou a frase “destruição construtiva” para caracterizar o fenómeno típico da evolução das economias capitalistas, onde aquilo que conta é a concorrência pela inovação.
Em 1942, Schumpeter cunhou a frase “destruição construtiva” para caracterizar o fenómeno típico da evolução das economias capitalistas, onde aquilo que conta é a concorrência pela inovação. Nos termos do próprio Schumpeter, a concorrência que importa é a “que põe em causa, não as margens de lucro ou o nível de produção das empresas existentes, mas os fundamentos mesmos da sua existência. Este tipo de concorrência está para a tradicional como um bombardeamento para o forçar de uma porta.

E faz com que se torne relativamente indiferente o facto de a capacidade competitiva tradicional reagir com maior ou menor celeridade. A poderosa alavanca que a longo prazo faz expandir a produção e baixar os preços é feita de outra massa.” (Joseph Schumpeter, Capitalism, Socialism and Democracy).

Foram precisos sessenta anos e a moeda única para que este conceito começasse a fazer sentido em Portugal. O proteccionismo corporativo e o reaccionarismo cultural que dominou as instituições portuguesas nos últimos séculos fez com que nos contentássemos com a concorrência pelo preço, mau grado o custo em termos de desenvolvimento económico que ela determinou.

A integração na UE aumentou o rendimento do país e eliminou a fortíssima restrição de financiamento externo que antes existia e, por isso mesmo, tornou definitivamente obsoleta a concorrência pelo preço.

Durante quase duas décadas continuámos, no entanto, a preferir ver na UE apenas o desafogo imediato e não as implicações futuras. Se um dia a história for contada, a forma como foram gastas as verbas da formação profissional dirá mais a este respeito que todos os comentários ou declarações políticas.

A decadência que começou a manifestar-se durante a gestão Guterres reflectiu sobretudo a resistência das corporações e dos grupos de interesses nacionais ao avanço das novas formas de concorrência que, como Schumpeter acentua, irão abalar os próprios fundamentos da sua existência.

Tornou-se aí clara a necessidade de uma liderança política forte que permitisse estimular uma ambição capaz de ver para além do acesso a cada vez mais fundos comunitários para alimentar actividades com um cunho cada vez mais parasitário.

Poder-se-ia acreditar que, com maioria absoluta no Parlamento e uma retórica de reformas estruturais e capacidade de decisão, o actual governo iria finalmente dinamizar essa mudança e multiplicar os exemplos de sucesso que, apesar de tudo, mostram ser esse o caminho certo. A realidade foi, no entanto, outra.

Em matéria de política macroeconómica, lançámo-nos no grande desígnio de “cumprir” o Pacto de Estabilidade, apenas com vista a aprofundar o afrontamento político e a preparar a necessária viragem do ciclo eleitoral. Para isso, tomámos medidas de restrição orçamental (aumento do IVA, cortes do investimento público, congelamento de salários, etc.), convencidos de que a retoma, que – pensava-se – viria na segunda metade de 2002, compensaria os seus efeitos negativos, que ficariam assim bem acantonados no campo do adversário político.

A retoma foi posteriormente adiada para 2003 e agora para 2004. Com respeito ao PEC, passámos a aderir com crescente convicção à escola italiana que leva a contorná-lo até onde a imaginação e a complacência das instituições europeias o permitam. Nos últimos tempos, até já vemos defensores da política governamental argumentar que a política orçamental não foi restritiva porque só reduziu o défice através das receitas extraordinárias. Esta parte é verdade, mas primeiro o governo aumentou o défice graças precisamente às medidas restritivas.

Quando finalmente foi suspensa a “máquina infernal” do PEC (na expressão de Charles Wyplosz), tornando indispensável retomar a discussão séria da coordenação das políticas económicas na UE, a Ministra das Finanças declarou o seu desinteresse pela matéria, uma vez que lhe basta saber o que quer para Portugal.

Acontece, porém, que quaisquer objectivos que tivermos para Portugal não serão atingidos ignorando a UE. Pior do que isso, porém, esses objectivos são cada vez mais difíceis de descortinar. Mesmo o aumento do desemprego em 2003 e o fraquíssimo crescimento dos nossos parceiros não conseguiram aproximar a produtividade portuguesa da europeia.

O desígnio de o fazer até 2010 insere-se num conjunto de programas do Ministério da Economia que tornam os governos Guterres num paradigma de eficácia e realismo. Outras grandes reformas, como as da administração pública ou da formação profissional, preparam-se para deixar tudo na mesma, com a possível excepção de politizar ainda mais o que devia ser despolitizado. Quanto à saúde, além de travar a melhoria de alguns serviços e acelerar a degradação de outros, vai conseguir reduzir o consumo público... porque passa a chamar-se transferências.

Por tudo isto, a viragem no sentido da “destruição criativa” de Schumpeter aparece cada vez mais longínqua. Para já, 2003 ficará para a história como o ano da “destruição destrutiva”.
In Canal de Negócios

Publicado por Rui em 11:24 AM | Comentários (0) | TrackBack

A linguistica correcta (act.)

Depois da sugestão de leitura ali de baixo, roubo descaradamente um texto ao Bisturi.
Quando era pequeno explicaram-me porque é que o Réu tinha deixado de ser réu e passado a Arguido. Disseram-me que com o uso, réu adquirira uma carga negativa que subliminarmente prejudicava o estatuto que o indivíduo deveria ter, a condição de "inocente até prova em contrário", pelo menos aos olhos do povo... Ouvida a história a pergunta que fiz de seguida (era tão esperto quando era puto) foi no sentido de saber quando é que iam substituir a palavra arguido, uma inevitabilidade mais que evidente.
Esta desistência em lutar pelo significado não é um caso isolado. Temos cada vez mais significantes que vão sendo escondidos debaixo do tapete, substituidos por outras palavras "novinhas em folha". Em algumas áreas a uma velocidade tão grande que já alguns distraídos encerraram o ciclo e recuperaram palavras proscritas do passado o que, convenhamos, até dá algum gozo. Só mais um exemplo que me ocorreu: na ONU deixou de se gostar da palavra sexo, já não há sexo masculino e sexo feminino, temos o género, uma palavra muito mais higiénica como é bom de ver... O poder de mudar os nomes às coisas deve dar uma grande pica a muita gente. Chefes de Estado inclusive.
Fiquem-se com as palavras do Bisturi que nos alerta para uma possível conclusão que extrai deste movimento frenético "anti-traumático" e pseudo-consciencioso.

"Linguística
A linguagem tornou-se hoje um instrumento de poder na sociedade. Todas as palavras concernando o trabalho simples ou manual, e das pessoas que os executam, foram substituídas por definições retorcidas e fluídas.
Exemplificando, uma secretária transformou-se numa "assistente administrativa", um maqueiro num "auxiliar de acção médica", uma telefonista numa "assistente de recepção". Também fora do âmbito profissional, não se altera o figurino. Então vejamos: o cego passou a "invisual", o preto a "pessoa de cor", o cigano a "nómada", o pobre a "desfavorecido", os bairros da lata a "bairros sensíveis", o vagabundo a "sem-abrigo".

Este exercício de estilo esconde na realidade um profundo desprezo em relação a estas pessoas, trata-se de uma linguagem eufemística que se destina a esquecer o que realmente significam as palavras." in O Bisturi

Publicado por Rui em 10:35 AM | Comentários (5) | TrackBack

A América para lá dos filmes

Era uma vez uma boa história.

Publicado por Rui em 09:22 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 09, 2003

ETA foi «largamente desmantelada»

Comecei o dia a ouvir esta notícia na TSF. Faço votos de que seja mesmo assim. Espero que estejamos também mais próximos de uma solução sensata e equilibrada para a questão basca. Espero que haja cada vez menos suporte entre os bascos para o absurdo actual que é o exercício do terror em Espanha.
Nunca como antes o povo basco dispôs de meios não violentos para fazer ouvir a sua voz e fazer respeitar os seus anseios.
Independentemente de tudo isto, em si e por si esta é já uma boa notícia. O futuro dirá se é mais do que isso.

Publicado por Rui em 05:14 PM | Comentários (5) | TrackBack

Produto Interno Bruto regista quebra homóloga de 0,9% em volume

O Produto Interno Bruto (PIB) português diminuiu 0,9% no 3º trimestre de 2003, em termos reais, face a igual período do ano anterior, traduzindo uma melhoria face ao registo homólogo do trimestre anterior (-2,1% em volume), em resultado da quebra menos intensa da procura interna. O contributo da procura externa líquida para o crescimento homólogo do PIB foi menos positivo do que no trimestre anterior, em consequência da aceleração das Importações de Bens e Serviços.
Fonte: INE

Publicado por Rui em 03:14 PM | Comentários (1) | TrackBack

O Pragmatismo e os Princípios

E lá estou eu outra vez a meter-me com a Joana. Mas porquê? Não a conheço de lado nenhum, já me disseram que eram palavras inglórias, que não valia a pena, que era estar a dar destaque a quem não merece, que nem sequer é uma figura famosa da blogoesfera(!). É claro que vale a pena e é claro que nenhum dos argumentos que me emprestaram valem grande coisa. Dar réplica é um dos fundamentos da blogoesfera e por enquanto nada vi que me levasse a crer que a Joana a desmerecesse. Por isso e até nova reflexão que aconselhe o contrário cá vai disto:
No seu último texto, até este momento - uma referência à homenagem prestada pela Câmara Municipal de Lisboa ao recentemente falecido comunista João Amaral - a Joana destila a despropósito alguns clássicos contemporâneos sobre Esquerda e Direita. Uma espécie de axiomas recorrentes, absolutamente redutores que tentam recuperar uma suposta clarividência e simplicidade sobre o mapa político. Cheira-me mais a auto-convencimento, mas adiante. Axiomas que naturalmente oferecem uma versão cómoda e simplificada ao mais preguiçoso de quem é o bom e que é o mau da fita.
De vez em quando é conveniente ter estes “axiomas” presentes e proceder à sua desmontagem. Um exercício que sendo para alguns mais batidos, já algo enfadonho, se recomenda como uma mezinha para evitar males maiores. A indiferença é sempre inimiga da saudável inquietação. E a Joana inquieta-me quando escreve coisas do calibre que li neste seu último texto. Os itálicos que se seguem são da Joana.

"A esquerda é um deserto de ideias".
Já vi ideias de alguma esquerda defendidas pela Joana nos seus textos. São breves escapadinhas da Joana ao deserto ou ideias oportunisticamente roubadas pela esquerda? A chatice é "as coisas" insistirem em ser complexas, cheias de tonalidades. São tão assim que fazem parecer tontas as pessoas que escrevem que "A esquerda rege-se por princípios" por oposição à direita que " é mais pragmática".
É o que me parece a mim Joana. Não vale a pena ofender-se.
Para não voltarmos a entrar em rodriguinhos e em incompreensões pego num exemplo. E, relembro-lhe, um exemplo é tanto mais poderoso quanto mais absoluta é a verdade que pode desmascarar:
Celeste Cardona (uma ministra, da justiça, de um partido de direita) quando negou terminantemente considerar sequer a hipótese de combater o flagelo (que reconheceu) da proliferação da Sida nas cadeias, via salas de injecção assistida, conforme sugestão do Provedor de Justiça, foi pragmática ou seguiu um princípio?
A ministra reconheceu o problema porque este é inegável, há manifesta incapacidade de por cobro a curto prazo ao problema da toxicodependência no interior das cadeias. Mas então o que fez ela? Falou em princípios... Condenou à morte quantos prisioneiros por uma questão de princípio? Onde estava aí o seu pragmatismo para enfrentar um problema de saúde pública? Que alternativas eficazes apresentou?
Só se o seu pragmatismo foi o do: Deixem-nos morrer! Tem o que merecem!
Para mim, um tipo de esquerda, inevitavelmente da única que a Joana reconhece, a dos princípios, isto não são opções admissíveis no pragmatismo de ninguém. Será que a Joana tem mesmo razão? Se assim for, olhando para este exemplo, percebo afinal que "A esquerda rege-se por princípios" por oposição à direita que " é mais pragmática".

Publicado por Rui em 01:13 AM | Comentários (5) | TrackBack

dezembro 08, 2003

Ataque súbito

Freud acabou de me atacar à socapa e perguntou: quais foram os primeiros blogues que visitaste assim que regressaste à blogoesfera?
E eu lá respondi:
O Aviz (e ainda bem);
O Klepsidra (porque me citou e fui ver a que propósito - junta-se ao coro de protesto por um acesso gratuito à legislação da república, ao menos no suporte digital),
E o Terras do Nunca (porque não tem a mania da perseguição nem o raciocínio apressado dos nossos dias).
E então senhor Freud, que me diz sobre a minha infância?

Publicado por Rui em 11:11 PM | Comentários (2) | TrackBack

Ampti dampti (acrescentado)

Podia-vos falar da viagem de comboio desde as berças, feita em 1ª classe por já não haver outras alternativas à boca da bilheteira, numa carruagem que era um autêntico berçário, não tanto pela efectiva profusão de petizes, mas pela "altitude" das temperaturas do ar condicionado; podia-vos falar da Estrela nevada, vista a uma distância segura (de avalanches de neve e de turistas); podia-vos falar de mais uma tentativa de compreensão do emparcelamento da Cova da Beira... Mas...
Ofereceram-nos uma rosa de ferro fundido, uma peça de fazer floretas, ou melhor filhós de floreta... Tentámos uma, duas vezes, com mais farinha... Com mais leite... Tirando e pondo o ferro a alta velociade no óleo, na massa, no óleo, ou então mais lentamente... Tentámos com o óleo mais quente... com o óleo mais frio... Desistimos!
Acabámos com um milhão de óvulos e alguns escassos espermatozoides na frigideira. Para não ferir susceptibilidades digo agora que temos uns deliciosos e aporteguesados Ampti Damptis para comer cá em casa! São servidos?...

Adenda: Agradeço ao LT pela dica e esclareço que sem sabermos o que fazer à massa que sobrara das tentaivas falhadas, juntámos mais um pouco de farinha, agarrámos numa colher e toca de despejar colheradas de massa para o óleo. Daí "nasceram" os "óvulos" quais Humpty Dumptys, autênticos sempre em pés que insistiam em só querer alourar de um lado por mais que os tentássemos virar para completar a fritura! Já os bichos cabeçudos, vulgo, espermatozoides (ou deverá ser ao contrário?) resultavam tão simplesmente das gotas de massa excedentárias que caiam inevitavelmente da colher. Foi só rir. Mas comem-se!

Publicado por Rui em 11:10 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 06, 2003

Que serra é esta? Chamam-lhe Estrela

Até terça-feira meus amigos que eu vou encolher o coração por terras de florestas outrora verdejantes e plenas de vida.
Fiquem-se com os 845 textos e bonecadas que já por aqui estão publicados.

Um abraço final aos do Bar do Bé, como lhes tenho chamado na minha lista de links, por se arriscarem a ler e linkar este vosso concidadão.

Publicado por Rui em 02:03 AM | Comentários (2) | TrackBack

Ainda cá estou

Para se ter fé não é preciso ser-se crente. Ter fé é acreditar em algo sem provas concretas que alicercem essa crença. Julgava, até ler o seu texto, que este entendimento fosse um dado adquirido no léxico português.
Quem diz estas, certamente sábias, palavras é a nossa colega bloguer Joana do Semiramis.
E são paradigmáticas as ditas, paradigma da nossa momentânea (lá está o meu optimismo) incapacidade de entendimento. Leio o que lhe escrevi em matéria de fé, leio estas linhas aqui reproduzidas que a Joana me dedicou e fico em posição de "Pensador" com o queixo nas mãos.
Lá terei que deitar fora o meu modesto Houaiss, pelo menos na sua definição filosófica de fé, mas enfim, quem sou eu, um pobre Adufe, para rejeitar os dados adquiridos da mais excelsa deusa dos Assírios (espero não ter a mitologia trocada).

Joana, perante tamanha incapacidade da minha parte em compreender e interpretar o que escreveu, deixemos então aos leitores o julgamento que bem entenderem fazer da nossa breve polémica. Havemos de ter outras oportunidades para debater outros temas. Talvez micro-temas, para ver se é mais fácil não nos enredarmos em incompreensões sucessivas.
Lamento apenas ter de lhe comunicar que partilho o seu sentimento de incompreensão face àquilo que percebeu de algumas coisas que eu escrevi. Agradeço desde já os sublinhados que me fez e que me permitiram seguramente clarificar e aprimorar as minhas técnicas discursivas facilitando debates futuros com próximos polemistas com que me venha a debater. Mas denoto ainda, para finalizar, alguma mágoa por a Joana insistir em querer colar ao esoterismo, ou deverei dizer talvez, ao âmbito do onírico, sinceras propostas de operacionalização que julgava estar a fazer. É que nem uma se escapou, nem uma micro reforma para a amostra, nem mesmo as já implementadas que citei e que julgava servirem de modelo a reproduzir (escuso-me de as repetir, estão no texto). Pelos vistos sofro do mal da governação pois, pegando na sua metáfora, ao implementar as minhas "medidas", note as aspas, mais não faria do que repetir o mito de Nero na sua Roma, agora não com a lira, mas seguramente com um Adufe.

P.S.: A história da floresta de que fala é curiosa... Imaginando-a, pelo que li, acérrima defensora da supremacia e larga auto-suficiência do mercado (por favor diga-me que desta vez não a interpretei mal pelas deduções que fiz), fico-me com esta: onde estava a mão invisível do mercado para, com a sua racionalidade automática, antecipar e precaver a potencial extinção pelo fogo, (ou, no mínimo, grave atrofiamento) do próprio mercado dos produtos florestais? As premissas da concorrência e do mercado livre estavam largamente asseguradas, o estado, omisso, permitia o maior dos liberalismo possível e imaginário, e contudo... Tudo ardeu! Ninguém, nenhum agente livre conseguiu unir-se a outrem por forma a que todos juntos, ou por entreposto prestador de serviços subcontratado, desmatassem a floresta e evitassem o mal... Esperava que ao menos agora, os proprietários florestais imitassem os armadores renascentistas recorrendo ao mutualismo, ao seguro, rejeitassem interferências externas ao sector... Não clamassem pelo socorro do Estado essa figura tão presente no nosso passado debate...

Publicado por Rui em 01:30 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 05, 2003

Já me esquecia!

A Ana, uma amiga que me quer esclarecido, e que tem amigos nos States muito esclarecidos recomendou-me ir ao Google tentar a minha sorte. Quer que eu descubra, sem margem para dúvida, o verdadeiro significado da expressão "miserable failure". Esclareçam-se!
Bye!

Publicado por Rui em 06:11 PM | Comentários (2) | TrackBack

Fixe técnica

A popularidade do PM desce (a do PR sobe bastante), a do Governo desce bastante e a de Ferro Rodrigues sobe.
Naturalmente as intenções de voto no PSD sobem e no PS descem (!!).
Não percebo estes portugueses da sondagem.

Até breve. Fiquem bem.

Publicado por Rui em 06:02 PM | Comentários (1) | TrackBack

Quanto custa conhecer a lei?

Se descartarmos as bibliotecas muito pouco práticas para alguns milhões de portugueses atarefados, o acesso ilimitado durante um ano, à base de dados do Diário da República custa ao bom português 550€ (?) (preços de 2003).
Bem sei que andamos em época de encontrar onde poupar mas atrevo-me a considerar estes preços de consulta via suporte digital uma afronta. Constituem uma barreira significativa de acesso a informação vital... Até as leis do mercado estão em causa! Não acha meu caro (liberal sorteado aleatoriamente da blogoesfera)?
Haveria coisa mais básica onde o acesso deveria ser livre de taxas do que o acesso à legislação que somos obrigados a conhecer? Cobrem mais pelas estatísticas não gerais, se quiserem, mas deixem as leis em paz!

Publicado por Rui em 04:40 PM | Comentários (6) | TrackBack

A Igreja

Há muitas igrejas dentro da Igreja Católica Apostólica Romana. A que eu conheço ou conheci há uns meses ali para as bandas do Barreiro não soa tão violentamente determinista e impositiva como a que Teixeira Lopes terá encontrado no Congresso da Católica (ver texto anterior).
Encontrei discussões abertas, encontrei a defesa dos valores do amor, do diálogo entre um casal e uma tentativa de gerar reflexão propondo pela experiência de outros a antecipação de problemas comuns e futuros mais que prováveis no relacionamente conjugal entre duas pessoas. A Igreja oferecia "aulas" de preparação pré matrimonial onde não assisti a nada que se parecesse com uma cassete ou lavagem cerebral.
Perante os vários casos de diversos aspirantes a futuros casais, encontrei receptividade para quem já partilhava há muito uma vida a dois fora do sagrado matrimónio, não encontrei nada que se pareça com uma crítica violenta a quem usa o preservativo. O assunto não foi sequer abordado por iniciativa da igreja.
Não nos ensinaram métodos naturais ou coisa que o valha. A aposta foi valorizar a responsabilização dos potenciais futuros pais. Encontrei até entendimento para a possibilidade de um matrimónio entre uma crente e um não crente, uma possibilidade que após as conversas tidas em nada pareceu ferir os desígnios divinos estabelecidos pela Igreja. Se esta igreja for um exemplo do que esperam futuros filhos meus num eventual catequismo, não me choca nada que venham a frequentar uma catequese... Conhecer os princípios do cristianismo. Se.
Sublinho que nas reuniões de que falo não se falou no aborto.
Aquela igreja, com aquele padre e com aqueles praticantesdeixou-me mais esperançado, mais satisfeito com a possibilidade de esclarecimento que não lhe adivinhava. É pena que não seja mais assim a Igreja, mas é bom que ainda seja também assim.
Vou fazendo figas para que a batalha que há muito se trava no seu interior (como no seio de muitas outras religiões) lhe permita reforçar esta igreja que antes de atirar, de impor a tudo e todos os seus dogmas (alguns perfeita e compreensivelmente inamovíveis até ao fim dos tempos) procure entender e ser entendida.

Publicado por Rui em 03:59 PM | Comentários (7) | TrackBack

A linguagem corporal do amor

Principais conclusões do congresso "A linguagem corporal do amor numa visão integrada do homem", realizado na Universidade Católica, no mês passado:
- é indispensável combater o sexo sem amor, o amor sem filhos e os filhos sem sexo;
- o sexo serve apenas para a procriação;
- combater qualquer lei que legalize o aborto e a fertilização artificial;
- reforçar o combate contra os contraceptivos;

"Compilação de excertos de uma intervenção do deputado do BE, Teixeira Lopes, na Assembleia da República"
in Público, 5 de Dezembro de 2003.

Sérgio

Publicado por Rui em 02:45 PM | Comentários (4) | TrackBack

Dados da Cultura 2002

Qualquer dia temos estatísticas de blogues no INE... Para já o que há é isto:

"(...)[Em 2002] Os museus mais visitados foram o Oceanário de Lisboa, Jardim Zoológico em Lisboa, Zoo da Maia, Mosteiro dos Jerónimos, Mosteiro de Santa Maria da Vitória na Batalha, Palácio Nacional de Sintra e Palácio Nacional da Pena, que totalizaram 41% do total dos visitantes.
(...)
A partir do “Inquérito anual às publicações periódicas - 2002” foram apuradas 2 107 publicações. A tiragem total anual foi de, aproximadamente, 703 milhões de exemplares e cerca de metade tinha uma periodicidade diária e 30% semanal. No que respeita ao número de títulos por tipo de publicação, as revistas representavam 41% do total, os jornais 38% e os boletins 15%.
Quanto à tiragem, 87% dos jornais apresentaram uma tiragem média por edição que não ultrapassou os 10 000 exemplares. Este tipo de publicação foi
responsável por 70% da tiragem anual, 74% do número de edições anuais e 73% dos exemplares vendidos.

(...)
No ano 2002 foram observadas 1 917 bibliotecas, as quais dispunham de 2 580 núcleos de apoio, 3 043 salas de leitura e 99 905 lugares disponíveis. O número de utilizadores registados foi de cerca 11,9 milhões, os quais consultaram 16,3 milhões de documentos.
(...)
Em 2002, realizaram-se cerca de 15 mil sessões de espectáculos ao vivo, diurnas e nocturnas, registando um total de 2,2 milhões de bilhetes vendidos e 2 milhões de bilhetes oferecidos. O número total de espectadores foi de 4,3 milhões, gerando receitas no valor de 22,6 milhões de Euros. O teatro foi, de todas as modalidades dos espectáculos, aquela que continuou a ter maior expressão, sendo responsável por 56% das sessões realizadas, com um total de 1,3 milhões de espectadores, representando 30% do total. O valor das receitas geradas por esta modalidade foi de 7,2 milhões de Euros, correspondendo a um preço médio por bilhete de 9,8 Euros.
(...)
Nas sessões de cinema realizadas foram exibidas maioritariamente longas metragens (503,4 mil), das quais 97% eram de origem estrangeira. Destas, cerca de 86% eram provenientes dos Estados Unidos da América. Refira-se que, no total das exibições, os filmes de origem europeia representaram cerca de 7%. O número de exibições de filmes exclusivamente portugueses atingiu cerca de 2%, aumentando esse peso para aproximadamente 3% se forem incluídas as co-produções.
(...)
Em 2002, as despesas das Câmaras Municipais com actividades culturais ascenderam a cerca de 766 milhões de Euros, traduzindo-se num acréscimo de
14% face ao ano anterior.
Nos jogos e desportos e nos recintos culturais as despesas aumentaram 34% e 21%, respectivamente. Nos restantes domínios as despesas ou registaram pequenos aumentos (artes plásticas e publicações e literatura) ou decréscimos, como os verificados nas despesas afectas à radiodifusão (-30%), música (-15%) e património cultural (-9%).
"

in INE Destaque à Comunicação Social de apresentação das "Estatísticas da Cultura Desporto e Recreio
2002"

Publicado por Rui em 02:31 PM | Comentários (1) | TrackBack

A fé, o optimismo e a determinação

Cara Joana para já dispenso-me de discutir detalhadamente os fundamentos primordiais da ciência económica pois até aí, face ao que disse (demasiado redutor) teria muito a dizer. Mas já que discutimos princípios básicos falo-lhe num parágrafo (e aos leitores) da forma como encaro o papel da Economia na sociedade.

Sublinho que prezo muito a vertente histórica da Ciência Económica (não será Economia essencialmente um exercício de compreensão do passado?) e considero que a capacidade da Economia e das suas mais famosas teorias em fornecerem um manual de procedimentos adequado para a resolução do dilema necessidades/recursos (para pegar na sua dicotomia) se encontra demasiado sobrevalorizada. Ainda temos muitos passos a dar nesta jovem ciência e muito provavelmente pede-se mais dos economistas do que aquilo que eles deveriam considerar-se capazes de dar. Acresce ainda que temos a mania de nos levarmos demasiado a sério. Demasiadas asneiras se fazem e fizerem em nome da Economia, o tenebroso economicismo. Mas enfim, é possível que sejamos uma das melhores hipóteses da sociedade para tentar resolver alguns dos seus problemas, para decifrar com maior ou menor probabilidade as causas e efeitos de algumas acções em sociedade. Notem que sou economista…

Respondendo a este último texto da Joana: A Alemanha do Pós-Guerra? Confesso que aqui a Semiramis foi desconcertante. Esta lição da história não percebi… Se não lesse o resto do seu texto estaria preocupado mas os pensamentos negros que me passaram pela cabeça foram felizmente desaparecendo com as suas restantes palavras. Há muitas interpretações possíveis do exemplo que deu. Não sei bem o que entender dessa referência… Se quiser ajudar a colmatar esta minha limitação disponha, se não quiser ter a paciência também não lhe levo a mal.

Em vez de continuar um taco a taco vou tentar sintetizar o que entendi do que a Joana escreveu e que me pareceu ser ponto de discórdia.
A Joana diz que não a entendi que nunca colocou o curto prazo à frente do longo prazo que tudo está integrado e tem de ser resolvido em conjunto… Ou seja, pelo que diz que estamos de acordo. Se assim é não consigo perceber o que quis dizer quando me respondeu com estas palavras que aproveito para colar à prioridade que destacou no primeiro texto:

Disse: «Você quando escreve “Estimular, promover e facultar a formação e a reflexão sobre o negócio, estimular a iniciativa privada, e o investimento público reprodutivo” parece o PR a falar. É óbvio que isso tem que se fazer (aliás, já devia ter sido começado há 30 anos), mas isso são acções que demoram muitos anos a surtir efeito. Até lá temos que viver com o que temos e geri-lo da melhor forma possível.»

Permita-me uma interpretação mais coloquial inspirada neste seu parágrafo e à luz do resto que escreveu: ok é preciso ter essa ambição à la Presidente da República, tudo isso é muito bonito mas não passa de lirismo. Temos é que controlar o défice com a realidade que temos, custe o que custar para não fazer das empresas uns aleijadinho a nível internacional. “Estimular, promover e facultar a formação e a reflexão sobre o negócio, estimular a iniciativa privada e o investimento público reprodutivo” não passam de palavras vãs muito distantes de terem consequências práticas. É preciso medidas concretas e de eficácia no curto prazo como a contenção salarial.
Foi contra esta interpretação das suas palavras que escrevi. Contra essa ideia de aquilo que demora muito tempo não dever ser a prioridade nestes tempos, este é um tempo de decisões clara e é preciso claramente conter os salários ponto final. Esta lógica é no mínimo desonesta. Como andamos há anos a tentar e não conseguimos mude-se a página, feche-se a loja e deixem-se os empresários trabalhar. Mas ao mesmo tempo a Joana disse que era óbvio que as tais medidas do PR são fundamentais… Disse-o por ser politicamente correcto? Para mim é mesmo preciso encontrar outros caminhos para pegar nesses velhas bandeiras (algumas nem tanto). Hoje! E de forma mais determinada e urgente do que aquela com que defende o equilíbrio das finanças públicas via contenção salarial e, já agora, congelamento quase absoluto de contratações. A sua aposta em absoluto no lado da oferta sem estimular minimamente a procura também não me inspira grande sucesso. É preciso que se diga como acabou já por dizer que a política de contenção se deve aplicar a que m não é produtivo esteja ou não no sector privado. São pequenas coisa que contrariam as generalizações e que são muito relevantes. Tudo o que seja 8 ou 80 no que toca à economia costuma produzir efeitos desastrosos. Mas não me alongo por aqui que o texto já vai longo.

Entretanto no meu penúltimo texto tentei perceber até que ponto acredita naquilo que diz. E aquilo que disse, se bem se recorda, passava pela demonização em absoluto da função pública e “das empresas à mesa do orçamento”, das Universidades pela sua genérica incapacidade criadora e carácter feudal e por ai fora. Generalizou abusivamente e perdeu qualquer credibilidade ao fazê-lo.
Folgo em notar agora, no seu último texto, que afinal pelo menos no que toca à Universidade a sua convicção não vai além da faculdade de Economia que conhece, admite até que em Engenharia os vícios e a capacidade dos centros de investigação não sejam tão graves. Quando falei em centros de excelência que devem continuar a ser apoiados e gerados com o estímulo do investimento público estava naturalmente a pensar além da faculdade de economia que conheço com os seus pequenos quintais, pensava naturalmente nos tais outros centros que são de excelência não por que o político queira mas porque a comunidade cientifica internacional e nalguns casos o próprio mercado o dizem. Centros que, contudo, como já disse, definham (particularmente desde que chegámos à obsessão do défice) e em muitos casos por manifesta falta de visão da iniciativa privada nacional e também do Estado perdem para o exterior a fase que poderia trazer o maior valor acrescentado para a economia nacional. A questão do Feudalismo é distinta e merece uma abordagem específica. Recomendo que não se ponho tudo no mesmo saco no sentido de se faça depender uma medida indispensável e útil a implementação de uma reforma (não vá o diabo tece-las).

Quanto à questão da reforma da administração pública noto que a Joana voltou a generalizar passando ao lado de algo mais particular que eu propunha e que se cingia à administração fiscal. Com a proverbial demora das grandes reformas passa desde já um atestado de impossibilidade a uma mexida nessa área específica? Nessa área específica acho que um simples modelo de gestão com provas dadas no privado fará sem grande esforço justificar com retorno os investimentos que se façam. Haja um mínimo de vontade política. Estamos a falar de uma cobrança, de mais cobradores, mais fiscalização mais meios humanos essencialmente e eventualmente uns toques a nível legal. É óbvio que há espaço para melhorar na administração fiscal. Faça-se uma micro reforma Joana. Deixemo-nos de mega operações de reestruturação da Função Pública as tais que andam em bolandas há 30 anos. Enquanto se discute, se arrasta o processo global cujo fim a Joana já tão bem conhece (incapacidade política de resistir aos poderes feudais dos trabalhadores e estruturas de poder internas) porque é que o poder público não há-de receber dos economistas a sugestão de ir fazendo micro-reformas? Hoje a administração fiscal, amanhã os notários, depois o enquadramentos dos medicamentos (genéricos), as lojas do cidadão... Consigo fazê-la recuperar a “esperança juvenil” de que é possível mudar o aparelho do Estado com esta matreirice de enfrentar um lobby de cada vez? Deixar de pensar o Estado com profundidade porque é preciso combater o défice e porque não há nada para pensar pois já se sabe que é mau é o maior disparate a que assistimos.
Quanto mais troco impressões com a Joana mais optimista fico, mais distante me sinto de algumas ideias fáceis (desculpe o adjectivo) em que já me revi.

Não é que seja muito relevante mas já que referiu o seu percursos digo-lhe que este meu optimismo juvenil foi sendo construído depois de acabar o curso. Passei por uma ultra dinâmica multinacional (com muito a ensinar a muitas empresas e também muito a aprender) através da qual pude contactar com empresas de todos os sectores de actividade, depois trabalhei numa PME e até já conheço por dentro uma instituição pública em profunda ebulição reformadora. Não me deslumbrei com nenhum dos mundos. Há muito para fazer em ambas as esferas e há também muitas coisas boas a funcionar, por vezes no mais insuspeito e indevidamente mal catalogado lugar. Haver quem tenho olho é que é difícil, tal como naquela multinacional de chicos-espertos de que falei num outro texto desta série de debate.
Não gostei de todos os efeitos da regulação pelo mercado – exploração laboral próximo da escravidão e destrutiva de qualquer tentativa de estruturação de uma família por exemplo - nem da lógica vigente na parte função pública que conheci (onde a avaliação de desempenho está ausente e não há o mínimo sabor meritocrático). Dai a concluir que o monstro do aparelho do Estado é imutável e não há instrumentos que estão por aplicar para o mudar substancialmente num prazo de uma ou dias legislatura já é outra história.

Em certa medida o Estado precisa de exercer o seu poder libertando-se dos condicionalismos que o tolhem. Mas que condicionalismo são esses Joana? O dos sindicatos? Sim. Sem dúvida. Há situações de aproveitamento abusivo do contrato geral do trabalho e havia já muitas formas de os limitar que foram sendo ignoradas pelos sucessivos responsáveis. Uma situação muito semelhante à tal multinacional da chicos-espertos de que falei num texto anterior (já me repito não é?).
Mas há outros condicionalismo, o das pressões dos tão beneméritos e esforçados agentes económicos de mercado que se recusam a querer e a deixar o próprio Estado liberalizar o próprio mercado. Um efeito perverso muito interessante e de raiz histórica seguramente mas não só... Há lá grande empresa que se preze que não tente manietar o Estado na implementação de medidas que reforço da concorrência? Porque é que o mercado não “regula” esta atitude dos empresários? Eles deviam perceber quão bom é, para todos, haver mais liberalismo, no entanto, parecem não o desejar para o seu sector. E aqui arranjo-lhe exemplos desta prática em todos os países do mundo independentemente do grau de liberalismo vigente. É uma falha intrínseca mesmo para países que não tiveram o tal condicionalismo histórico do paternalismo da ditadura.
A gestão do Estado é também uma responsabilidade nossa, somos nós os micro accionistas. Ainda acho que podemos fazer alguma coisa além de fechar a empresa…

O que mais me preocupa no pensamento da Joana não é o seu pessimismo mas antes as suas certezas, o carácter definitivo do seu diagnóstico que justa ou injustamente tenho ouvido na boca dos actuais governantes para justificar as maiores barbaridades como a lei da rolha na contratação de funcionários públicos por exemplo. Não atribuindo tais responsabilidade à Joana noto a evidência das semelhanças teóricas entre os dois discursos.
É a facilidade com que parece pegar em casos pessoais para extrair certezas que me apoquenta (note que os meus têm contribuído para lançar a dúvida e abandonar certezas parecidas com as que a Joana perfilha). Com o congelamento, a não renovação de contratos de trabaljo, por exemplo, o Estado perdeu anos de formação, alguns dos seus melhores profissionais e muito provavelmente a sua melhor esperança para conseguir implementar as tais reformas, ou melhor ainda, as micro-reformas que se adivinhavam com as reestruturações, revisões do código de trabalho (contratação colectiva) e afins.

Cara Joana não me chame irrealista, há sempre uma faceta da realidade que nunca conseguimos ver. Boa parte do que a Joana transmite julgo que já outras Joanas e eu próprio conhecia, mas ainda assim acredito sempre que tenha algo de novo e interessante para eu acrescentar à minha percepção do mundo (hei-de ler os outros textos seus…). O melhor que eu posso querer é ir propondo humildemente algumas boas perguntas, aventar com alguns bons exemplos, demonstrar empiricamente as falhas no raciocínio e de prática de outros, de preferência através da experiência passada e sonhar um bocadinho na esperança de ter um sonho criativo com alguma utilidade.
Achei curiosos que não sendo religioso me atribua fé. Se for um crente crítico, daqueles que duvidam todos os dias e só assim concebem viver as suas crenças, não me parece que seja grave num economista optimista e voluntarioso que vou descobrindo, até me parece recomendável.

Publicado por Rui em 02:02 PM | Comentários (0) | TrackBack

Sexta-Feira

Vou estar fora uns dias, hoje será o último dia de blogues e não sei se terei tempo para dar a devida resposta em jeito de síntese à Joana (ver polémica politico-económica mais abaixo). Mas na pior das hipóteses e na ausência de imprevistos fica prometida para Terça-Feira. Vejamos se a minha fenomenal produtividade laboral me permitirá arranjar folga ainda hoje para dar um pouco mais de trabalho ao teclado e ao que o tecla.

Publicado por Rui em 01:39 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 04, 2003

Sete Minutos

Há quantos anos não vou ao teatro? Acho que já foi no milénio passado...

Publicado por Rui em 05:55 PM | Comentários (6) | TrackBack

Preservemos a nossa Gaita! - Ideias Soltas

De há uns anos a esta parte, mais concretamente de há uns 5 anos, alguns, poucos, tentaram retomar o uso da nossa gaita, reaprendendo o seu manuseamento, a posição das mãos e seus movimentos, o cuidado posto na sua embocadura, enfim, tentando recuperar o perdido na nossa cultura, na nossa identidade.
(...)
A reconquista deste laborioso, mas aprazível culto conduz-nos a Sendim. (...)
Hoje temos já escolas de Tocador de Gaita, veja-se, e o número de praticantes não cessa de aumentar."

Mais uma micro causa que nos traz o Carlos com as suas Ideias Soltas.
Em defesa da Gaita, o Adufe não podia deixar de se solidarizar. A ler...

Publicado por Rui em 05:54 PM | Comentários (2) | TrackBack

O 1º Itálico residente do Adufe

Por acaso costumo fazer bastantes comentários aqui pela sala sobre os absurdos do dia a dia. Será que é isso que alimenta os blogues? Sendo assim, passarei, a partir de hoje, a enviar-te mais algumas preciosidades...

Sérgio

Publicado por Rui em 03:44 PM | Comentários (0) | TrackBack

Epístolas Económicas (Act.)

Caro Rui
Estamos a falar em 2 registos diferentes. Nós temos 2 realidades com que nos confrontar: o curto e o médio e longo longo prazo E temos que agir sobre ambas.

Cara Joana,
Onde é que eu disse o contrário?

Quando você escreve que aquele “é o melhor discurso para tais acções nunca serem implementadas, na eventualidade de alguém as tentar implementar, há já uma expectativa demasiado precária para que haja motivação empreendedora”, eu também lhe poderia responder que o seu é o melhor discurso para não fazer nem um a coisa nem outra.

Mas qual é o discurso? O afirmar que não há estancidade entre curto, médio e longo prazo e de reconhecer que não podemos esperar que se atinjam todos os equilíbrios macroeconómicos dos livros para se recuperar o tempo perdido?

Não criar os equilíbrios macroeconómicos indispensáveis agora e não implementar as medidas a médio e longo prazo, pois que com uma economia não competitiva, com défice exterior demasiado elevado, não há recursos para o fazer.

Não há recursos?!?! Agora é a Joana que parece um político derrotado a falar. O dinheiro público não pode ser melhor gerido mesmo quando estamos a combater o défice? Porque é que não põe o combate fiscal, a maior equidade quanto à base de tributação fiscal (os contribuintes abrangidos) ao nível da contenção salarial na sua escala de prioridades? Se eu gastar mais um euro na máquina fiscal e garantir que esta me devolve mais do que um Euro com aumento da base e redução da carga fiscal do contribuinte individual não vale a pena o investimento? Noto que tem passado sempre ao lado deste ponto nos seus comentários… Corrigir a forma distorcida como os agentes económicos lidam e encaram o Estado (e vice-versa) também passa por aqui!
Eu vi o actual governo a tomar opções políticas de reforçar o orçamento de alguns ministérios, como o da Defesa, por exemplo, tendo ao mesmo tempo desinvestido no apoio à ciência e tecnologia. É claro que não há os recursos financeiros ideais, não há os que estavam disponíveis em 1998 e 2000 estamos de acordo. A tarefa é mais difícil, estamos de acordo. Mas há recursos e há opções que podem ser tomadas e cujo âmbito e impacto deve ir além do curto prazo.
Quer um exemplo que eu acho feliz onde o Estado não gastou praticamente nada e está a curto e médio prazo a retirar vantagens de uma boa medida? A situação dos genéricos. Muitas mais estão por tomar.

Escreve “Repor a saúde da economia... Das finanças públicas, queria dizer?”. Uma coisa implica a outra. Você não pode ter uma economia saudável com défice excessivo e com as contas com o exterior altamente deficitárias. Gera inflação, aumentos com encargos financeiros com a dívida pública e nas empresas, pois um Estado com défices excessivos constitui um risco maior e é penalizado nas taxas de juro, aumentos de impostos e, por acção conjugada destes factores, perda de competitividade das empresas e desemprego.

O equilíbrio das finanças públicas é uma condição necessária mas não suficiente. É só e apenas isto que quero deixar bem claro. E por não ser suficiente é necessário integrar esse objectivo de equilíbrio no outro mais ambicioso de garantir a saúde da economia. Neste momento não podemos dizer “vamos primeiro equilibrar as finanças públicas e depois vamos ver o que se pode fazer quanto à economia”. Temos de coordenar os dois objectivos admitindo que nalgumas áreas do aparelho do Estado reformar significa gastar mais e noutras gastar muito menos. Isso implica desfasar no tempo o objectivo do défice? Talvez. Admito que sim. Teria de conhecer melhor as finanças públicas para o dizer com mais segurança e teria de saber até onde poderia ir em termos de reformas. Que suporte político teria, de que fibra seriam feitos os meus ministros, que tipo de expectativa teria conseguido incutir na sociedade… Muito provavelmente teríamos de assumir claramente outras metas para o saneamento das finanças públicas. Aqui a conjuntura externa também teria uma palavra a dizer. Mas havendo determinação sólida, havendo a certeza que não abandono nenhuma das metas, demonstrando que estou a dar passos no caminho do saneamento (desburocratização na justiça, saúde, educação….) não acredito em grandes penalizações “via risco da economia”. Se a expectativa for sendo alimentada antecipamos as vantagens do saneamento das finanças públicas mesmo antes de as atingirmos.

O que diz sobre a “banca portuguesa (que era no mínimo tão retrógrada quanto a administração publica de então, aliás era administração pública...)” não tem qualquer fundamento. Os bancos melhoraram muito o seu desempenho desde as privatizações mas já estavam muitos, mas muitos, furos acima da administração pública. E também a maioria das empresas públicas como a Cimpor, a EDP, a Galp, etc.. Mesmo a CGD, que é pública não tem qualquer comparação com a função pública.

Generalizei na comparação com algo que não é nem nunca foi homogéneo e dei-lhe argumentos para me rebater. Aceito o seu ponto se compararmos com o que de pior há na Função Pública. Mas mantenho que ocorreu uma modernização a um ritmo invejável e que muitos não acreditavam possível em tão pouco tempo. É apenas esse ultrapassar do sentimento de impossibilidade que tento alcançar com este exemplo. Há muitas áreas na administração pública (Institutos Públicos por exemplo) onde acredito que este fenómeno é reprodutível em igual período. E deve iniciar-se de imediato.

Quanto à formação, você sabe o que aconteceu aos FSE. Gastaram-se rios de dinheiro que apenas serviu para manter a ilusão de haver menos desemprego. Os potenciais desempregados arrastavam-se de acções de formação em acções de formação.

E será que não aprendemos nada com isso? Já houve algumas medidas deste governo na área da competitividade que me pareceram interessantes e que espero tenham bons resultados. Mas quando falo em formação não penso apenas, ou principalmente, na “reciclagem”. Falo, por exemplo, na fuga chocante de cérebros para instituições públicas e privadas no estrangeiro por não terem enquadramento institucional para desenvolver uma carreira neste país. Aqui, acho que o Estado devia em último recurso garantir o aproveitamento deste capital intelectual dinamizando alguns dos excelentes centros de investigação que já possui nas Universidades e promovendo a ponte para a esfera produtiva com parcerias público-privado. Esta é uma das áreas que aguarda por melhores dias, “à falta de recursos”.

Você vive num mundo utópico (não o digo pejorativamente, porque é utópico na medida em que você aponta coisas com utilidade prática, mas pensa que basta dizer “vamos a isso” para elas aparecerem implementadas e a funcionarem).

Pela parte da utopia até posso interpretá-la como elogio e pela parte do voluntarismo deixe que os meus vinte e muitos anos me permitam ser ambicioso. Deixe-me ahar que podemos evitar os erros do passado e começar a limpar o entulho que nos impede o caminho. Se a tarefa é difícil temos mais trabalho pela frente. Recuso ceder precocemente ao derrotismo. E sei que a minha ideia de sociedade não é garantida só pela empresa. Há valores e necessidades que não se garantem/suprem pelo mercado.

E pior, pensa que há meios humanos para isso e não haverá obstáculos a nível da sociedade portuguesa para o fazer.

Bem aqui já é quase ofensivo. Mas admito que o discurso que fiz não seja claro. Aqui lhe recomendo a leitura de alguns textos meus para perceber até que ponto tenho consciência dos obstáculos e da escassez de recursos. Mas Joana se o caminho é claro temos de batalhar para o percorrer com o que temos. Ficar parado não é opção e muito menos fingir que há outro caminho ali para as bandas do abismo.

Quanto ao Estado dinamizar o processo, apenas o pode fazer diminuindo as burocracias, criando algumas condições para que tal aconteça.

De acordo.

Não tem vocação para mais, nem saberia por que ponta começar.

Bem aqui a conversa daria para um tratado. Digo-lhe apenas novamente que não vi ainda uma supremacia absoluta do privado sobre o público. Já vi os erros do público no privado e os erros do privado no público. Raramente vi os privados suprir bens públicos. E mais amiúde tenho visto o Público suprir (desnecessariamente) alguns bens privados. Mas como imagina isto daria pano para mangas. Para já e dito isto dá para perceber que duvido que estejamos de acordo quando ao âmbito da vocação do Estado. Não se esqueça que sou utópico e que imagino um Estado mais eficaz e eficiente do que aquele que temos e imagino até que é possível obte-lo.

Mas mesmo aquilo que tem vocação para fazer, não o tem feito e continua a não fazer.
As universidades, idem. São corpos teóricos que quando emitem pareceres (há, às vezes a tentação de se adjudicarem estudos às universidades, por terem preços muito mais baratos, por razões óbvias) são absolutamente académicos, sem qualquer operacionalidade prática, que nunca proporcionam qualquer instrumento de decisão ao cliente. Metaforicamente, são como uma equipa de futebol que só sabe jogar a meio campo, mas nunca remata à baliza. As universidades portuguesas são um dos últimos restos do feudalismo em Portugal. O seu pensamento é escolástico, a sua organização elitista e corporativa.

Aqui é a Joana que cai na generalização abusiva. “As universidades são más. O Estado não presta. As empresas é que são boas.” Quem é utópico Joana? Há neste país alguns dos centros de investigação mais destacados a nível mundial em diversas áreas. Precisamos de mais, precisamos de aproveitar o que aí de produz em termos de conhecimento. A grande maioria desses centros estão integrados na Universidade. Há algo de bom e algo de mau. E há nas universidades, como nas empresas e noutras organizações, uma batalha entre bons e maus profissionais. Tentemos mexer nas regras do jogo a nosso favor, batalhando contra os interesses estabelecidos com astúcia inteligência e justiça.

Têm que ser as empresas, muitas vezes sem qualificação, incluindo gestores e trabalhadores, que têm que fazer pela vida. É este o quadro que temos. E neste quadro que temos que trabalhar.

Todos, Joana. Todos temos que ser Heróis mesmo os mauzinhos que trabalham na Administração Pública e que a gerem. Reformar o Estado e a Economia contra toda uma classe onde há todo o tipo de profissionais e motivações é um erro grosseiro. A tarefa é um pouco mais difícil. Mais cinzenta.

Todos estes textos têm sido feitos ao correr da tecla, como provavelmente os seus, e como tal poderão conter algumas imprecisões. Mas na generalidade e salvo alguns esquecimentos, contêm o fundamental que eu penso sobre este assunto.

Idem. E sabe que mais? Acho que somos ambos demasiado paternalistas um com o outro. Mas vamo-nos entendendo.

Se ler os textos que tenho afixado sobre este tema verá que não estou de acordo com a forma como o governo tem gerido este processo. Infelizmente, o que vejo na oposição como alternativa a ele é a mais completa irresponsabilidade que, no caso do PS, é complementada com a total hipocrisia.

Tentarei ler em breve procurando essencialmente pontos de consenso. Quanto ao seu último comentário tenho muitas dificuldades em atribuir com distinção o título de mais irresponsável e de mais hipócrita. Temo que no final da corrente legislatura sinta menos dificuldades pelos priores motivos e espero que até lá o PS se vá aproximando de uma política económica mais clara, determinada e sustentável.

Publicado por Rui em 02:58 PM | Comentários (3) | TrackBack

Eficiência Governativa

Decreto-Lei n.º 292/2003. DR 268 SÉRIE I-A de 2003-11-19
Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas
Prorroga, pelo período de um ano e a título excepcional, o prazo de instalação da Agência para a Qualidade e Segurança Alimentar, criada pelo Decreto-Lei n.º 180/2000, de 10 de Agosto.

Sérgio

Publicado por Rui em 01:40 PM | Comentários (0) | TrackBack

Indicador de clima e indicador de confiança nos consumidores em recuperação

Em Novembro, o Indicador de Clima fixou-se num nível marginalmente mais favorável que o apurado no mês anterior. Mantém-se ao melhor nível dos últimos treze meses. O indicador de confiança dos consumidores apresentou também uma muito ligeira recuperação no mês de Novembro. No sector dos Serviços manteve-se a tendência de evolução desfavorável do Indicador de Confiança, tendo-se registado o valor mínimo da série iniciada em Abril de 2001.
Fonte: INE

Publicado por Rui em 12:03 PM | Comentários (0) | TrackBack

Ambição - A réplica 2ª Parte

Cara Joana,
Andamos os dois a fugir à teoria pelos vistos. Como a Joana escreve "(...)O futuro não se constrói com modelos teóricos. Temos que construir o futuro, mas arranjar também soluções para o presente. (...)". Estamos de acordo. Não me parece é que haja alinhamento no "quando" é que começa o futuro para as medidas que propus. Uma cronologia que anda há 30 anos (como diz a Joana e eu agora acrescento) há espera de uma oportunidade face à urgência dos problemas de curto prazo.

Voltando ao que escreve a Joana:
"(...) Você quando escreve “Estimular, promover e facultar a formação e a reflexão sobre o negócio, estimular a iniciativa privada, e o investimento público reprodutivo” parece o PR a falar. É óbvio que isso tem que se fazer (aliás, já devia ter sido começado há 30 anos), mas isso são acções que demoram muitos anos a surtir efeito. Até lá temos que viver com o que temos e geri-lo da melhor forma possível."

Este é o melhor discurso para tais acções nunca serem implementadas, na eventualidade de alguém as tentar implementar, há já uma expectativa demasiado precária para que haja motivação empreendedora.
Infelizmente, não podemos ficar à espera que o mundo volte a ser benévolo para iniciarmos o processo. Resta a questão da duração, do tempo até se verem resultados. Também aqui não acredito em nenhum preconceito. Olhando para a imagem que se criou do "modelo" Irlandês e evitando considerações mais profundas e reveladoras, se o tentássemos reproduzir teríamos de esperar uma geração até sentirmos efeitos na economia. Lembra-se do discurso inicial do actual Governo que ia neste sentido? Nada do que seria fundamental foi implementado. Tudo porque o curto prazo era demasiado urgente... Já perdemos mais 2 anos...

Quando vejo, por exemplo, a modernização que ocorreu ao nível da banca portuguesa (que era no mínimo tão retrógrada quanto a administração publica de então, aliás era administração pública...) ou quando vejo os exemplos da indústria de moldes, de desenvolvimento de software (das poucas onde o investigação e desenvolvimento é relevante) acredito que é possível saltar etapas. Há éne sectores com o mesmo grau de liberdade que tem a banca, porque não tiveram eles a mesma evolução? Falta de massa crítica ao nível da gestão? É possível o Estado dinamizar lavagens cerebrais benévolas com o apoio das organizações do sector quando as houver? É possível o Estado desenvolver parcerias com os empreendedores apoiando investimentos de alto risco em área de elevado potencial de retorno económico?
Acredito que é possível haver um empurrão com patrocínio estatal cirúrgico em alguns sectores. Mais uma vez repito, acho que se perdeu uma excelente oportunidade ao nível do contrato de trabalho para se estimular a modernização de toda a economia.

Escreveu ainda a Joana:
"Aumentar a despesa é aumentar a procura interna e com a elevada propensão marginal à importação da economia portuguesa é agravar substancialmente o défice de transacções com o exterior."

Estas verdades absolutas desculpadas por raciocínio médio macro-económico desconcertam-me cara Joana. Também o economista/decisor público pode descer à rubrica. Tentar a tal cirurgia. Evitar centrar-se nos bombásticos choques globais disto ou daquilo.
Não tenho uma teoria em que me encaixe confortavelmente e sempre que vejo na prática negações singulares destas regras passo a toma-las como duvidosas. Não há investimento público reprodutivo, multiplicador? É essa uma das suas verdades? Todo o investimento/despesa implica canalização nefasta para o défice da balança comercial? Se pensa assim, neste ponto, estamos conversados. Poderei apenas tentar mostrar-lhe alguns exemplos que negam este axioma se desejar. Ou a sua convicção vem do desempenho histórico dos sucessivos governos? Pareceu-me que é isto que pensa e perante esta experiência empírica tudo o que eu diga é teórico e inglório, dai a contenção salarial. Percebi bem?

Ainda a Joana:
Nós estamos com um nível salarial superior à produtividade média. Por isso é que temos os défices. Temos que repor a saúde da economia, senão continuaremos com uma inflação superior à média europeia, a perder competitividade no tecido económico e a aumentar o desemprego. (...)"

Repor a saúde da economia... Das finanças públicas, queria dizer?
É que passar das finanças públicas para a economia não vai lá com psedo-défices de 3% suportadas por contenções salariais, receitas extraordinárias e cortes estúpidos, em termos de eficiência dos desígnios do Estado, na despesa pública, só para imaginar um cenário bem nosso conhecido.
O que fazer? Assim que puder hei-de ler os textos da Joana com atenção em busca da sua opinião nesta matéria.
Até breve.

Publicado por Rui em 01:44 AM | Comentários (3) | TrackBack

Ambição - A réplica 1ª Parte

Escreveu a Joana na caixa de comentários do texto anterior:

"(...)Aliás, a questão salarial nas empresas privadas resolve-se pelos mecanismos de mercados. Se os trabalhadores ganham acima da sua produtividade, as empresas deixam de ser competitivas, vão à falência e há o desemprego, a menos que invertam a tendência, normalmente com sacrifícios e algum desemprego à mistura. É simples. (...)"

Permita-me discordar pelo empirismo como aliás sugere logo no início da sua réplica.
Não são essas as empresas que temos Joana. Ou pelo menos tenho visto muitas onde essas regras teóricas bonitinhas são completamente ignoradas. Casos quase inacreditáveis de blindagem à mão invisível do mercado.
Consigo ver exemplos tão gritantes de ineficiência no privado quanto no público. Dou-lhe o exemplo mais chocante que conheço: uma multinacional. As multinacionais são em regra (já duvido...) um paradigma de boas práticas a vários níveis, desde a gestão de topo aos procedimentos de base de qualquer colaborador. Esta é uma das realidades que temos nas multinacionais.
A outra é aquela em que o centro de controlo está tão distante e distraído (e há tantos anos que está distraido, talvez por sermos um mercado quase irrelavante) que nenhum dos mecanismos de auto-regulação funciona. Temos a velhinha teoria da agência a funcionar...
Quem gere, gere o seu salário e não os interesses do capital. Basta isto para poder levar a empresa à ruína certo? Nem sempre! Pode-se ir mantendo o barco à tona com alguma inteligência mas sem necessidade de ter golpe de asa para rentabilizar o investimento.
De forma directa (via salários e prémios) ou de forma indirecta (compadrio na contratação de Fornecimentos e Serviços Externos às empresas dos amigos - ou dos próprios gestores! - por exemplo) o capitalista é expoliado pelo suposto gestor. Pelo caminho evita-se que o report levante muitas suspeitas dentro dos critérios de análise do grupo e a empresa vai-se aguentando passando pelos pingos da chuva... Há décadas!

No longo prazo talvez o mercado venha a funcionar, talvez alguém no distante lá fora se digne vir até cá e compreenda até onde vão as manigâncias criativas dos gestores que contratou, talvez. Mas aí sou absolutamente Keynesiano. No longo prazo...
Em suma: cada caso é um caso e não atribuo, sem uma adequada análise ao mercado concreto em discussão, sector a sector, nenhuma supremacia concreta da iniciativa privada face à inciativa pública (nem o reverso, já agora).
(continua)

Publicado por Rui em 12:10 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 03, 2003

Ambição - Economia Pura (act.)

Recomenda-se a leitura prévia deste artigo no Semiramis.

Cara Joana,
Não será um pouco curto acreditar que mais do mesmo (só e apenas moderação salarial) resolverão o problema?
E que tal olhar para outros aspectos do problema como o nível de instrução dos gestores de boa parte do tecido produtivo nacional? Só para dar um exemplo pouco corrente.

A moderação poderá ajudar num típico fine-tunning, mas não resolverá nada.
É indispensável? Eu diria que sim: a moderação. Mas sejamos justos com a conotação da palavra. Moderação Salarial dá para tudo, dos aumentos marginais às diminuições consideráveis em termos reais. Recomendaria moderação na dose certa para não estrangular a procura interna e não criar novas falsas ilusões. Uma moderação que deveria ser medida sector a sector, ajustada às realidades do respectivo dinamismo económico e assim determinada pelos agentes económicos responsáveis.
O efeito de contenção pelo exemplo aplicado à esfera pública poderá ser pernicioso nestes casos. É muito fácil encontrar a colagem fácil e ignorante de muitos empresários de vistas-curtas. Se por exemplo a Banca apresentar fortes ganhos de produtividade porque havemos de defender a moderação salarial?
Na administração pública o Estado também deveria ser capaz de avaliar a produtividade de cada área da administração e implementar, dentro de um enquadramento de contenção, uma política salarial distinta para o que é distinto. Espero com alguma expectativa o que se prepara para os Institutos Públicos, por exemplo. Feita a ressalva admito que a meta global na administração pública devesse tender para um aumento real nulo no próximo ano. Um crescimento da massa salarial ao nível da inflação prevista (numa previsão realista!).
Agora que já brinquei ao merceeiro falta o que interessa, o que nos poderá salvar do tal cenário de recessão agravada e de mais desemprego. Falta o que é mais difícil e que não surge com passos de mágica, focando-nos apenas nos estabilizadores macro-económicos. Estimular, promover e facultar a formação e a reflexão sobre o negócio, estimular a iniciativa privada, e o investimento público reprodutivo (particularmente na área da investigação científica e no apoio a novos negócios) à custa de algum desequilíbrio de curto prazo nas finanças públicas. Só não vê quem não quer que não há investigação e desenvolvimento neste país (o anglo-saxónico R&D) em volume satisfatório além da esfera pública. Nem há perspectivas de mudança significativa desse cenário. A natureza desse tipo de investimento não se coaduna com quebras abruptas de financiamento ou desprezos legislativos de ordem cirúrgica. Deveria ser uma daquelas questões de Estado. Racionalize-se o que se quiser mas não se perca a noção da importância e do carácter fundamental desse investimento. O seu efeito multiplicador potencial é demasiado significativo para poder ser ignorado e mal amado.
Voltando ao cenário da investigação e desenvolvimento: é o que temos, ou seja, temos de investir colectivamente nesta área. Cativando os cérebros que temos e nos escapam e promovendo a implementação das descobertas junto do tecido empresarial (ainda tenho esperança que haja quem venha abrir os olhos se devidamente avisado). Como vê tudo tarefas que levam algum tempo, talvez não as gerações de que já se falou. (Veja-se a interessante perspectiva do Sérgio Figueiredo hoje no Jornal de Negócios em Editorial.)
Assim talvez conseguíssemos algo de sustentável.
O modelo de mão-de-obra barata é perfeitamente ilusório. Apostar quase exclusivamente na moderação salarial, apresentando-a como bandeira, num contexto como o actual, em que começam a haver sinais de instabilidade social, poderá ter consequências políticas e económicas pouco desejáveis, no mínimo contraproducentes... É preciso indicar outro caminho, que seja mais credível (sem abandonar a moderação...).
É pena que, por exemplo, ao nível da reforma do contrato de trabalho se tenha ficado tão aquém do que seria desejável, restando pouco mais do que uma triste imagem da fraqueza política ao nível da visão estratégica.

Mais do mesmo cara Joana? Até parece que há por aí um manual incompleto ao qual faltam as soluções para este nosso pequeno grande problema. Discutamos algo um pouco mais ambicioso para variar.
Os melhores cumprimentos.

Publicado por Rui em 11:48 PM | Comentários (3) | TrackBack

Eu também conheço um Zé...

Página do PSDEncontrei o Zé na rua hoje.
O Zé é do PSD desde que há PSD...
Hoje disse-me que nunca pensou sentir o que sente. Está desiludido com o que o partido está a fazer ao país.
Estava abatido o Zé, bem mais do que qualquer caminhante do deserto que tenho visto por estes dias...
Pouco depois começou a falar de Cavaco Silva e num instante já a tensão nos ombros e as rugas de apreensão da testa desapareciam. "Quando ele for Presidente vai ser diferente" assegurou-me o Zé. Mas eu já conheço o Zé, sei que o ânimo fulgurante que o iluminou tem pés de barro, mesmo para ele, é só espreitar lá bem no seu íntimo de Zé-com-décadas-de-tarimba. Por isso adiei as perguntas: "Em quê? Como? Quando?"

Publicado por Rui em 09:59 PM | Comentários (2) | TrackBack

Desregramento - Os jornalistas e a sua opinião nas páginas dos jornais (act.)

(republicado)
Ontem trouxe aqui um destaque a várias triologias e entretanto ameaça surgir uma outra que acho que vale bem uma leitura.
Por enquanto são dois textos do meu homónimo do Pais Relativo: A (de)missão de informar e o império da opinião. O Rui termina a última reflexão com uma pergunta que no mínimo os visados deveriam considerar:
"Por exemplo, se ficamos a saber da coluna de opinião de Judite de Sousa que ela considera certo líder político incompetente, como esquecer-nos dessa sua opinião da próxima vez que ela o entrevistar para a RTP?"

Podemos sempre dizer que ao menos sabemos com o que contamos, não temos de nos esquecer de nada, mas... Como já aqui disse, enquanto leitor e consumidor de informação fico preocupado. Custa-me mais valorizar o esforço de isenção e objectividade a quem também faz da sua carreira e fonte de rendimento a emissão de opinião. E aqui a remuneração parece-me pecaminosa. Juntar aos problemas próprios da carreira de jornalista os de fazedor de opinião empenhado, parece-me tarefa sobre-humana para a maioria dos mortais sem que com isso se comprometa algo de fundamental ao nível do jornalismo. Como questiona o Rui, o jornalista que deixa transparecer a sua opinião mais ou menos irredutível sobre quem poderá vir a entrevistar, perde a aura de inquisidor independente que deveria cultivar e perseguir. No caso particular da entrevista, onde o perguntador trás o preconceito público escarrapachado na testa, como devo encarar o que se vai passar? Vou assistir a um debate viciado onde uma das partes controla em absoluto o tempo e o modo como tudo se desenrola? Estando o entrevistado preso a velhos conceitos de entrevista e não podendo como tal responder à letra como se defrontasse um rival político? A manter-se este estado de coisas os "entrevistados" deverão mudar urgentemente de atitude...
Temos crónicas, temos reportagens e convivo bem com elas, admiro-as e acho-as preciosas, e talvez não me preocupasse demasiado com o alerta que o Rui faz sobre a opinião não fora o fenómeno se estar a generalizar, proliferar por tudo e por nada, surgir numa altura em que há demasiada escassez de lucidez em muitas redacções. Numa altura em que ora se é político, ora se é jornalista; em que a constante ameaça ser o estatuto de comentador, dar opinião e, particularmente, sobre o assunto estrito em que desenvolvem a sua actividade no seio de um órgão de comunicação social, indo além do clássico e bem estabelecido editorial do seu órgão de comunicação social, é demasiado nefasto. Até aqui, ao nível do editorial, quando não assinado, tenho dúvidas da sua bondade. E para que melhor me entendam repito a "pergunta" de dia 23 de Novembro:

Se todos os jornais (órgãos de comunicação social) declarassem e tivessem uma orientação política não haveria problema?
Claro que não. Deixávamos era de ter jornalismo. O que é o jornalismo? É uma questão de Retórica e Persuasão.
E fazem falta os jornalistas? Espero que uma resposta afirmativa não se restrinja a uma qualquer ideologia política.
O jornalismo não se alcança, nem se garante, por um equilíbrio de mercado com garantia de livre iniciativa.
É possível que levar esta "liberdade" (dos media e dos jornalistas) ao extremo concorra para o fim do jornalismo. O que fazer? Em larga medida a solução terá de passar pela classe, muito pouco se pode e deve fazer a nível central. Controlar as posições dominantes à luz do que manda a Constituição e manter um órgão de comunicação social de referência (TV, Rádio, Agência de Notícias e, por este andar, Jornal) com as obrigações, recursos disponíveis e objectivos bem definidos e com os estatutos blindados à interferência política directa na gestão corrente.
Um órgão de comunicação que usando os diversos meios seja capaz de disseminar pelo exemplo e pela formação o paradigma do jornalismo enquanto um bem indispensável a um Estado de Direito. Se mais ninguém na iniciativa privada quiser alinhar muito bem, mas pelo menos garantia-se a falha de mercado que se avizinha: a "marcelização" dos jornalistas com dois palmos de testa.

Publicado por Rui em 05:10 PM | Comentários (5) | TrackBack

O céu tinha cor de crude...

...agora está azul. Hoje está como o mar da Mafaldinha: neurótico.

Publicado por Rui em 03:35 PM | Comentários (1) | TrackBack

O céu tem cor de crude

Gaivotas em Terra...

Publicado por Rui em 02:09 PM | Comentários (0) | TrackBack

Cozinha Filipina

Um destes dias ainda hei-de experimentar uma receita deste mestre filipino, tem fotos e tudo! O blogue está muito bem organizado e é de fácil entendimento para quem domina minimamente o inglês. Só é pena não poder pôr aqui um exemplo. Teria que digitar o texto... O copy paste não está disponível, mas não é grave, é só dar um salto até lá.

A propósito dos pouco saudáveis "alimentos saudáveis" como apelida, por exemplo, os cereais de pacote para pequenos almoços lança uma das suas máximas: "I still say: ditch processed food items and go natural".
Bom apetite!

Publicado por Rui em 10:15 AM | Comentários (0) | TrackBack

Há blogues que deviam ser livros II

Então e este? Noutro registo mas ainda assim um bom livro de crónicas!

Confesso que não gosto de ler textos grandes no monitor, cansam-me, custa-me manter a concentração, seja qual for o tamanho da coluna, esteja ela mais à esquerda ou mais à direita. Ainda não me habituei a olhar para a tela brilhante como quem olha para as páginas de um livro. Não fora a minha já grande pegada ecológica e ia tudo corrido a impressão!
Digo "textos grandes" mas acontece quase o mesmo com a poesia. Deveria dizer Textos?

O que não me canso de ver numa tela brilhante são as imagens... Por exemplos as deste autor e as deste difusor. E assim finda a ronda.

Publicado por Rui em 12:09 AM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 02, 2003

Perdidos em combate...

O que é que aconteceu ao Niilista? E ao Maizum?

Publicado por Rui em 11:47 PM | Comentários (0) | TrackBack

Crescei e multiplicai-vos

Tiranos de palmo e meio

O Bisturi põe o dedo na ruga demográfica e, com maior ou menor polidez acerta várias vezes em cheio numa série de textos onde aborda um dos mais importantes e até agora pouco mobilizadores assuntos do mundo civilizado na sua vertente pró-natalista. Antecipo muitas reacções superficiais mas pela minha parte defendo um papel mais activo do Estado na discriminação positiva de quem se propõe ter filhos. Se começassemos por não discriminar negativamente já não seria mau... Seria interessante conhecer, por exemplo, o que se tem feito na França nesta matéria, ao longo das últimas décadas.

Para já destaco numa perspectiva mais sociológica este texto do Bisturi que a dada altura conclui:

"...O risco das crianças não ouvirem “não” é se tornarem adultos fúteis, egoístas, desorientados e estéreis nas relações com outrem. Elas necessitam tanto de autoridade como de amor. A imposição de limites, com muito afecto enleado e espaço para a criatividade própria da infância, prepara as crianças para a realidade e todos os desafios que terão de enfrentar ao longo da sua vida..."

Publicado por Rui em 11:22 PM | Comentários (0) | TrackBack

Há blogues que deviam ser livros

E depois há blogues que deviam ser livros. Este é um deles. Eu comprava... Abram os olhos!!

Publicado por Rui em 11:08 PM | Comentários (2) | TrackBack

Universos Desfeitos

Ainda da ronda, o HMBF, que há poucos dias apresentou no seu blogue uma edição de autor a que se abalançou, conta-nos a sua aventura pelos meandros dos editores livreiros em Bolsas de Criação Literária
Em 1999 concorri a uma dessas Bolsas de Criação Literária, na área da poesia.

Publicado por Rui em 11:01 PM | Comentários (0) | TrackBack

A fazer a ronda...

Já há muitos dias que não me dedicava a fazer uma ronda completa aos "meus" blogues (lista à direita).

A Sida, a política, a economia, um pouco de poesia... Ainda vou a meio. Sem desprimor destaco por achar um pouco mais perenes a triologia do Luis Tito no Ter Voz e as reflexões de Paul Krugman interpretadas pela GIN que se abalançou numa outra triologia (até agora) interessante.

Deixem-me cá ver o resto...

Publicado por Rui em 10:40 PM | Comentários (0) | TrackBack

Figos secos com noz

Da última vez que fui à provícia rural fiquei feliz por ver que a nogueira havia pegado de estaca. Estava viçosa a infanta por entre raquíticas pereiras, pobres árvores descendentes de outras primevas que em tempo de Homens serviram de pretexto para a toponímia daquelas terras. Apoucando-se as peras, alindou-se o terreno dando-lhe um declive mais suave; reduziu-se a concorrência daninha e infestante de silvedos e de outras plantas rasteiras e regou-se o pequeno canteiro feito com duas sachadelas.

Ainda há-de demorar uns anos até dar nozes mas já me sabem melhor os figos secos que nos ofereceram duas pingo-mel que habitam lá perto. Uma dupla de figueiras imbatíveis na produção de tão saboroso fruto. Quase anseio por um deserto se tiver a certeza de um oásis cheio de figos maduros.

Hoje, na província urbana, os maduros, já secos, marcham com nozes de Trás-os-montes e marcham bem. Um, dois, esquerdo, direito, encolhe a barriga e segue pelo estreito!

02/12/2003

Publicado por Rui em 09:57 PM | Comentários (0) | TrackBack

O grão da voz

Na próxima hora, Tiago Rodrigues entrevistado por Carlos Vaz Marques na TSF.

Publicado por Rui em 07:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

Ao passar um navio

Hoje de manhã, ao acordar, soube via rádio que a EDP apurou que os portugueses andam a dormir pouco. Deitam-se à meia-noite e acordam às sete. Devo confessar que ainda estava na cama, meio endorminhado, quando dei comigo a pensar “Quem me dera ser português. Sempre dormia mais uma horita ou duas.” Ora aí está! Junta-se um ligeiro estado de inconsciência a uma pitadinha de estatística e descobre-se a pátria da cada um. Hoje de manhã, provaram-me por A + B que só sou português ao fim de semana.
Boa noite, nobre povo.

15/11/96

Publicado por Rui em 07:02 PM | Comentários (4) | TrackBack

Constantes I

Nos últimos 25 a 30 anos, alguém se recorda de um ano -- apenas de UM ano -- em que NÃO houve bailinho na Madeira (Chão da Lagoa)?

Qualquer semelhança com este post é pura coincidência.

Publicado por Rui em 04:48 PM | Comentários (1) | TrackBack

Dependência

Quantos não medirão hoje o seu nível de dependência face à blogoesfera e aos seus blogues em particular?
Vou aproveitar a falta de tempo para blogar para muito fingidamente me solidarizar com os blogguers do blogspot e calar o Adufe por mais umas horas. Ide passear que está um lindo dia ou então conversem com os colegas do trabalho ou melhor ainda: que tal acabar aquele trabalho que está pendurado há semanas?

This is Rui Moral saying GdBye for now!

Publicado por Rui em 03:05 PM | Comentários (0) | TrackBack

Ah Pois!


Esta fica para a história ou como diria o outro: TODA A VERDADE sobre os BLOGUES!
Via Catarina: Top 10 Dangers of Living in the Blog Space

Publicado por Rui em 02:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 01, 2003

Para adoçar a boca...

A ler apenas depois do jantar.

Hum-hum-hum!! Que delicioso Bolo Rainha. Avelãs, passas, noz, pinhões e uma massa delicada saborosíssima!
Estava aqui mais uns parágrafos a destilar superlativos e a debitar exclamações...
Recomendo-vos vivamente a pastelaria Capuchinha ali mesmo no Rossio... em Viseu. É seguramente uma das melhores pastelarias do país. Encontram lá do mais requintado que pode haver de pastelaria fina internacional, bem como, o melhor que a região do Dão-Lafões tem em matéria de doces, bolas... Acreditem que não lhes gabo apenas o bolo rainha!
É raro encontrar por aí quem tenha na qualidade, no servir bem e bem servir o lema fundamental do negócio. Um lema simples que, adicionado das doses certas de dedicação, de inteligência na economia de procedimentos e de uma pitada de espírito empreendedor são quase sempre fórmula segura para o sucesso e para deleite das nossas papilas guuuustativas...

Pelo sim pelo não guardei um pedaço de bolo para mais daqui a 90 minutos não vá precisar de um ansiolítico.

Adenda: O que acabou de ler poderia trata-se de um anúncio descarado imposto pelo respectivo departamento de publicidade, completamente à revelia do editor do Adufe. Se assim fosse, estaria neste momento a decorrer uma zaragata financeiro-deontológica entre directores do Adufe, mas o mal já estaria feito: o dinheiro encaixado, e os leitores, alguns, poucos ligeiramente defraudados. Felizmente, o Adufe é essencialmente um one-man-show e é muito raro detectarem-se divergências entre os vários directores. Provavelmente, naturalmente e inevitavelmente o mesmo não se passará em muitos bons órgãos de comunicação social do pais.
A (des)propósito, agora, quase no final das leituras, já posso afirmar: a Grande Reportagem é obviamente leitura obrigatória aos Sábados com o JN e/ou DN. Mais uma pequena coisa que recuperamos e que, acreditem, ajuda a dar gozo em ser português.

Espero que os advérbios não paguem IVA que isto hoje foi um abuso...

Publicado por Rui em 09:43 PM | Comentários (1) | TrackBack

Sporting Olé!

Pela segunda vez em poucos meses Alvalade soube despedir-se dos seus Herois. Se for preciso saberá também assobiar os que não provam merecer a camisola. Não lhe peçam para estar calados é a psicilogia de grupo a funcionar na devida contenção. O espírito vai resistindo ao negócio. Da união dos dois poderá manter-se o espetáculo.

Publicado por Rui em 09:19 PM | Comentários (0) | TrackBack

2% para aqui, 3% para ali.

Além das divergências, mais ou menos profundas, que possa ter com qualquer governo gosto de estar convencido que quem governa o faz convicto que está a defender o interesse nacional...
Já estive menos convencido quanto a George W. Bush, por exemplo. Hoje, acho que ele se julga algum messias, além de ver com piada o controlo do petróleo do Iraque.
Por cá, ao tentar perceber o que significa obrigar as empresas a contratar 2% de deficientes, uma medida que é apresentada como o paradigma da política social deste governo, escapam-se-me as forças para acreditar que os nossos governantes julguem convictamente estar a defender o interesse nacional.
É demasiado mau para acreditar e tenho a sua inteligência em conta demasiado elevada para acreditar na ingenuidade da medida.
Amigos da oposição, por favor, aprendam com estes erros e evitem-me a vergonha de, no futuro, ver o meu país passar por mais situações como esta.
A caridade é um belo complemento individual e de preferência discreto ou mesmo anónimo para se contribuir para atenuar os males do mundo. Não podemos é fazer dele um limpa consciências, um acto de desresponsabilização magnânimo para deixarmos de ver tudo o que nos rodeia. E para pelo caminho brincarmos individualmente aos deuses.
Há uma inevitável necessidade de fazer perguntas e encontrar respostas colectivamente. Por mais dificil e atribulado que seja esse percurso, por mais chico-espertos oportunistas que apareçam há´problemas e soluções que só se identificam e resolvem se nos obrigarmos a olhar para eles.
Bom natal!

Publicado por Rui em 05:02 PM | Comentários (0) | TrackBack

Imagine aqui o limpa-pés à porta desta sua casa

Seguindo o "desafio" do Leonel Vicente deixo aqui o primeiro texto do Pré-Adufe, do meu primeiro blogue, um texto que mantenho ainda hoje:

[rasp-rasp] Imagine aqui o limpa-pés à porta desta sua casa: "Seja benvindo quem vier por bem!"

A casa por enquanto não tem tecto, apenas umas mantas espalhadas pelo chão em roda de um pequena fogueira. Há uma chaleira para chá e uma cafeteira para café, faltam chicaras, o dito chá, café... há apenas um resto de açucar, nada de adoçantes.

[Olá!] Eis agora o tipo que foi limpar um bocado de mato para acender o lume: Vive em Lisboa e arranjou este bocado de terreno baldio. Trouxe apenas um antigo tapete da capital que vai melhor com a decoração algo rústica deste alojamento. O tapete tem qualquer coisa de familiar que lhe dá conforto num lar provisorio. Dá jeito em tão extraordinario ambiente.

Está sentado numa das mantas a ler uma carta...
in Portal - País Abreviado

Publicado por Rui em 03:41 PM | Comentários (0) | TrackBack

No Natal quero um blogue

O Leonel Vicente está a cumprir o prometido e na sua Memória Virtual iniciou o percurso pela já não tão breve História dos Blogues. Deixa-nos alguns factos e breves comentários que permitem sempre uma reflexão mais desapaixonada. A acompanhar...

Publicado por Rui em 02:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

Fausto

Seguem palavras do Francisco Amaral directinhas para outros editores:

"Novo disco de Fausto (Bordalo Dias).
Em que playlist consegue entrar ? Com que (em que) frequência ?
E na televisão ?
Será que é ele que não quer "correr as capelinhas" da promoção ? Não me admirava e até o compreendia. Há uns anos (muitos), almocei com o Fausto e os "promotors" da discográfica que editara um dos seus discos . Fausto é um homem diferente. Foi com constrangimento que o vi ter que engolir as graçolas dos promotores da ocasião.
Agora, dizem, fez um álbum desencantado. Ainda não o consegui ouvir, mas se for, estou com(o) ele.
Fausto é um excelente músico. Um magnífico poeta. Um homem culto.
Não chega.
Falta qualquer coisa que o eleve ao nível de uma Mónica (S?)Cintra.."

Francisco Amaral in Íntima Fracção

Publicado por Rui em 11:32 AM | Comentários (11) | TrackBack

Grande Reportagem

Ainda estou a saborear a nova Grande Reportagem (o que para quem me conhece é bom sinal) mas já houve duas páginas que não me agradaram. Duas páginas de publicidade a um perfume masculino. Gostava de ter visto um pequeno aviso na primeira que me informasse que se trata de publicidade... Parecia-me um artigo da revista e fico sempre aborrecido quando caio numa dessas armadilhas dos chicos espertos da publicidade. Armadilhas que nascem com o conluio dos editores, certo?. Tá mal, tá mal.
Há dias em que só a publicidade me enche as medidas numa revista, noutros tenho mais do que fazer do que ler prosa de vendilhão. Quero é, sem grandes dúvidas, poder escolher o que fazer num segundo.
Nota menos neste ponto para este número da GR.

Publicado por Rui em 11:30 AM | Comentários (9) | TrackBack

As palavras

Escusado será dizer (mas digo) que gosto mais de um texto lavado a 90º Celsius e enxuto ao sol do que de um cheio de alinhavos e limpo a seco.
A chatice é que dá muito trabalho e é cansativo escrever pouco e lavar bem as palavras. Tão cansativo que por vezes, muitas vezes, sob pena de nenhuma ser escrita, edito aqui um "testamento". Valerá a pena? Ser asseadinho vale sempre a pena, o resto me dirão.

E assim fomos para a noite: 470 Palavras.

Lavado a 90º Celsius e enxuto ao sol: 223 Palavras.

Adenda: é claro que é preciso cuidado não vá acabar com um monte de frases lixiviadas...

Publicado por Rui em 11:15 AM | Comentários (0) | TrackBack

Lavado a 90º Celsius e enxuto ao sol

Descubra as diferenças entre este:
E assim fomos para a noite
Este:
Seco ao sol depois de lavado
e este:

“Então, vão para a noite?”
Respondemos com um sorriso e seguimos caminho apaixonados. Nesta rua, neste momento, somos turistas, talvez em Roma, em Oslo ou em Madrid. Seguimos caminho por entre estrelas, pendões e esferas luminosas que completam o ambiente natalício.

É a minha primeira noite ali. Não vejo ninguém à porta. Apenas a luz suave que se projecta pelas estreitas frestas horizontais denuncia a actividade nocturna no interior. Entramos e somos envolvidos por uma nuvem de fumo com um intenso odor adocicado. Encontramos uma sala ampla iluminada com dezenas de luzes brancas de várias tonalidades. Projectores iluminam suavemente o tecto alto, coberto com baixos relevos e frescos.

A música, que sempre nos acompanhara desde o momento em que entráramos, só agora nos atinge plenamente. Vozes poderosas enchem a sala projectadas por colunas estrategicamente dispostas que aproveitam na perfeição a acústica da sala.

Habituamo-nos ao fumo e percebemos que a sala está cheia, não diria apinhada mas cheia. Uns de pé, outros sentados, alguns cantam animadamente.
Ficamos sentados ao fundo a ouvir e a observar.

A música pára... Todos se levantam aos primeiros acordes de outro som que é debitado das paredes. O cheiro a incenso é agora menos sufocante. Este é o Primeiro Domingo do Advento. O padre saúda-nos e tu ouves a palavra de Deus.

E assim fomos para a noite.

Lisboa, 1 de Dezembro de 2003

Publicado por Rui em 02:20 AM | Comentários (4) | TrackBack

Seco ao sol depois de lavado

E assim fomos para a noite

“Então, vão para a noite?”
Respondemos com um sorriso e seguimos caminho encarnando o casal de amantes apaixonados que não deixámos de ser. Cruzamo-nos com grupos animados com coisas para dizer. Nesta rua, neste momento, somos turistas como eles, talvez estejamos em Roma, em Oslo ou em Madrid. Chegamo-nos mais um ao outro e seguimos caminho por entre estrelas, pendões e esferas luminosas que completam o ambiente natalício.

É a minha primeira noite ali. É o meu amor que me conduz. Não vejo ninguém à porta mas isso parece ser normal. De fora apenas a luz suave que se projecta pelas estreitas frestas horizontais denuncia a actividade nocturna no interior. Entramos e somos de imediato envolvidos por uma nuvem de fumo com um intenso odor adocicado. Encontramos uma sala ampla iluminada com dezenas de luzes brancas de várias tonalidades. Adivinhamos também projectores que iluminam suavemente o tecto alto, coberto com baixos relevos e frescos. Toda a sala tem uma decoração requintada e completamente insuspeita do exterior. Mesmo ela que a conhece parece arrebatada pelo que vê.

A música, que sempre nos acompanhara desde o momento em que entráramos, só agora, após o primeiro confronto visual, nos atinge plenamente. Vozes poderosas enchem a sala projectadas por colunas estrategicamente dispostas que aproveitam na perfeição a acústica da sala.

Habituamo-nos ao fumo e percebemos que a sala está cheia, não diria apinhada mas cheia. Uns de pé, outros sentados, parecem encantados a ouvir. Alguns acompanham a música cantando animadamente.
Ficamos sentados ao fundo a ouvir e a observar. Reparo que as paredes estão também cobertas de baixos relevos, de pinturas, de panos coloridos e de esculturas embutidas em nichos, cada qual com a sua iluminação dedicada e sabiamente ajustada.

A música pára por instantes... Todos se levantam aos primeiros acordes deste outro som que, mais alto, é debitado das paredes. O cheiro a incenso é agora menos sufocante. Este é o Primeiro Domingo do Advento. O padre saúda-nos. A música cessa e ela ouve a palavra de Deus.
E assim fomos para a noite.

Lisboa, 1 de Dezembro de 2003

Publicado por Rui em 01:59 AM | Comentários (0) | TrackBack

E assim fomos para a noite (Rev.)

“Então, vão para a noite?”
Respondemos com um sorriso e seguimos caminho, lado a lado, em direcção ao metro, encarnando o casal de amantes apaixonados que não deixámos de ser.

Ressurgimos à superfície na zona nobre da capital. Na noite fresca, que não fria, encontramos ainda muitas pessoas. Cruzamo-nos com potenciais portugueses que falam estranhas línguas entre si. Grupos animados com coisas para dizer. Nesta rua, neste momento, somos turistas como eles, talvez estejamos em Roma, em Oslo ou em Madrid. Chegamo-nos mais um ao outro e seguimos caminho por entre estrelas, pendões e esferas luminosas que completam o ambiente natalício. Ainda haveríamos de ter nas mãos A Christmas Carol nesta noite, «Marley was dead, to begin with.», mas por ora: “Então, vão para a noite?”

É a minha primeira noite ali, é ela, o meu amor, que me conduz. Não vejo ninguém à porta mas isso parece ser normal. De fora apenas a luz suave que se projecta pelas estreitas frestas horizontais, construídas por cima de uma porta monumental, denuncia a actividade nocturna no interior. Entramos com um simples empurrar de porta e somos de imediato envolvidos por uma nuvem de fumo com um intenso odor adocicado. Encontramos uma sala ampla iluminada com dezenas de luzes brancas de várias tonalidades. Adivinhamos também projectores que iluminam suavemente o tecto alto, coberto com baixos relevos e frescos. Toda a sala tem uma decoração requintada e completamente insuspeita do exterior. Estamos os dois espantados com o cenário; mesmo ela que o conhece parece arrebatada pelo que vê. Imagino que este é um efeito que seguramente nunca experimentaríamos durante o dia.

A música, que sempre nos acompanhara desde o momento em que entráramos, só agora, após o primeiro confronto visual, nos atinge plenamente. Vozes poderosas enchem a sala projectadas por colunas estrategicamente dispostas que aproveitam na perfeição a acústica soberba da sala.

Habituamo-nos ao fumo e percebemos que a sala está cheia, não diria apinhada mas cheia. Uns de pé, outros sentados, parecem encantados a ouvir. Alguns acompanham a música cantando animadamente.
Preciso habituar-me ao ambiente, ela compreende e ficamos sentados ao fundo a ouvir e a observar.
Reparo que as paredes estão também cobertas de baixos relevos, de pinturas, de panos coloridos e de esculturas embutidas em nichos, cada qual com a sua iluminação dedicada e sabiamente ajustada.
A música pára por instantes... Todos se levantam aos primeiros acordes deste outro som que, mais alto, é debitado das paredes.

O cheiro a incenso é agora menos sufocante e uma pequena folha que encontro no banco em que nos sentámos esclarece que este é o Primeiro Domingo do Advento. A homilia versará, entre outros, sobre a Fé, a Esperança e a Caridade. O padre saúda-nos. A música cessa e ela ouve a palavra de Deus. Assim seja.
E assim fomos para a noite.

Lisboa, 30 de Novembro de 2003

Publicado por Rui em 01:31 AM | Comentários (0) | TrackBack