outubro 05, 2004

Os contadores de histórias

Da derradeira passagem pela Feira do Livro da Bertrand deste ano trouxe mais um livro (Planeta Editora - 2003) que me agarrou pelo título: "Os Contos do Tio Joaquim". Segundo me parece trata-se de um livro de um autor português do Século XIX, Rodrigo Paganino, médico e jornalista que expirou aos 28 anos em 1863.

O Tio Joaquim é uma personagem do campo, já entrada na idade que se destacou por ser um excelente contador de histórias. Tenho alguma curiosidade em ler este livrinho que se rotula entre o romantismo tardio e um realismo precoce.

Porque me agarrou o título?
Também eu conheci um Tio Joaquim, «pechêgo», contador de histórias meu bisavô.

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setembro 14, 2004

Pesadelo na Auto-Estrada

Um tipo que não sabe conduzir, que nunca pôs os pés num automóvel desliga a TV a meio das declarações de um ministro e olha tristemente para a caixa de anti-depressivos importados da Alemanha. Hesita em abri-la. Espreita o chocolate suíço mas decide-se pelo comprimido.

Estica-se na cadeira de balouço produzida na capital do móvel, descalça os chanatos alentejanos e é acometido por uma súbita necessidade. Vai ligeiro para a casa de banho sentar-se no trono de porcelana espanhola.

Pensa nas palavras do ministro que ainda apanhou. Ele acha bem, os que usam as auto-estradas que as paguem. A ele não lhe fazem proveito nenhum. Porque há-de estar a pagá-las?
Avia-se e vai ao frigorífico italiano. Tira um saco e começa a depenicar um cacho de uvas marroquinas.
Engasga-se com uma grainha e a seguir com um bago inteiro que lhe fica entalado à entrada da traqueia. Soluça, sai à rua pela porta das traseiras pedindo socorro sem conseguir respirar! Quando está prestes a perder os sentidos quase caindo para a frente de um camião Checo que passa na rua, acorda estremunhado a tempo de evitar o separador da auto-estrada.

É melhor sair na próxima estação de serviço e descansar um pouco.

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agosto 11, 2004

Note to self nº 9866543

Hoje acordei, como de costume, e também como de costume liguei mecanicamente o rádio.
Preguicei uns minutos enquanto ouvia as notícias e preguicei ainda mais um pouco "só" para ouvir umas musiquitas.
Para castigo fiquei meio dia a ouvir na minha caraminhola uma horrível melodia dos Scorpions. (Obrigado TSF)

Há pouco fiz esta confissão em voz alta - o blogue ficou com ciúmes por não ser o primeiro confessor mas coitado, amanhe-se - e uma amiga recomendou-me um remédio infalível para esta angústia comum: "Cantarola o mahnhamanha dos Marretas que isso passa."

Funciona! E é mil vezes mais estimulante!

Recolho testemunhos para um estudo científico sobre o assunto. Digam coisas!

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agosto 08, 2004

Vá para fora cá dentro

Almoçar na casa de todos os dias, abrir a porta da cozinha e ficar à mesa vendo a chuva cair, embalada por um vento indeciso.
O momento zen do dia.

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julho 09, 2004

45 cêntimos

Campo Grande, sinais debaixo do viaduto da 2ª circular em direcção a Odivelas/Sintra. No início de 2004.

Vermelho. Para a carroça.
Com velocidade surpreendente um pequeno e um pequena molham, esfregam e enxaguam o pára-brisas.
Apesar de respeitar as condições mínimas para permitir uma boa circulação, a ausência de chuva recente e o desleixo calculado que vou votando ao veículo permitiam ver a diferença. Estava limpo!

Completada a operação segue-se o pagamento. A moça aproxima-se do vidro do condutor e bate com o nó do indicador. "Uma ajuda", estende a mão e sorri.
É bonita a pequena cigana. Abro o vidro e ponho-lhe na mão 50 cêntimos acrescentando um "Obrigado!".
Antes de lhe dizer adeus "a" moeda cai para dentro do carro. A moça perde o sorriso e soluça "Caiu!" enquanto olha para o porta-moedas que eu ainda não tinha arrumado.

Apressei-me a dar-lhe outra moeda, um ou dois euros que já não havia outros 50 cêntimos, o sinal ficou verde e fui embora.

Qual é a história? Esta deveria ser a história que a dupla de aprendizes queria que eu contasse, uma história que terão repetido vezes sem conta por aqueles dias. Mas para seu azar, a moeda que caiu dentro do carro parou no meu colo e não no chão, debaixo do banco, escondida. Estranhamente, os 50 cêntimos eram agora uma moeda de 5...
Um truque engraçado. Ilusinismo, pois então! Devolvi a moeda à moça que me manda uma gargalhada traquina e dispara a fugir como o seu companheiro refugiando-se atrás dos cavaleiros de pedra que vigiam o jardim.

O sinal ficou verde e eu fui embora. Esta é a história.

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julho 01, 2004

A festa II - Ordem e progresso

(Continuação)
Primeira parte aqui

Seguimos depois pela Estefânia onde os foliões eram esporádicos e exclusivamente motorizados. Foi por essa altura que percebemos que a passagem pela praça do Chile nos deixara os ouvidos a zunir. Mais um grãozinho de perda de audição antes dos 70 anos.
Fomos caminhando em direcção ao Saldanha aproximando-nos de um outro vulcão. Desta milha de passeio, a fotografia que guardei fê-la o sem abrigo que assentara arraial à entrada do Bilbau e Viscaya. Quase de bruços, embrulhado num cobertor e rodeado por cartões e jornais, olhava para a fonte do largo da Estefânia aparentemente indiferente às buzinas dos carros, ao agitar das bandeiras e aos nossos olhares curiosos. Ele não estava ali.

No Saldanha regressaram com intensidade as buzinas e vimos os primeiros holandeses a posar para a fotografia, uma imagem que se repetiriam inúmeras vezes ao longo da noite. Confraternização, palmadinhas nas costas, troca de cachecóis e fotografias, muitas fotografias. A Avenida Fontes Pereira de Melo estava em vias de ser encerrada na sua totalidade e as bancas de vendedores de adereços instalavam-se e despachavam a bom ritmo os produtos. Venha de lá um cachecol a 5 euros.
O negócio da noite deve ter sido a corneta “tromba de elefante” que encheu a cidade de uma banda sonora que intercalada com o pandeiro dos sambistas fez lembrar os olharápos e o animatrix da expo 98.
Mas o mais original dos aparelhos de poluição sonora foi mesmo uma sirene de manivela, instalada quase em frente ao Fórum Picoas, igualzinha à que vemos em filmes de guerras antigas avisando para o bombardeamento iminente. Click! Para o álbum.

Os sambistas? Não podiam faltar. Em torno das bagageiras dos automóveis que difundiam a melodia de pronto complementada pelo pandeiro e pandeireta, juntavam-se sambista de ocasião. Estes, como quase todos os foliões, iam-se refrescando com as cervejinhas que se vendiam em todas as esquinas com o maior dos informalismos. Seriam difíceis de contar os baldes de gelo ambulantes que distribuíam a cerveja em lata e uma episódicas garrafas de água ao longo de todas as avenidas festeiras da cidade.

Chegados ao Marquês ficou na retina o espectáculo de milhares de bandeiras esvoaçando sem tibieza, empurradas pelo vento forte. Haveríamos de regressar ao Marquês um pouco depois, já em pelo dia 1, para o encontrarmos ainda mais repleto de animação. A tudo testemunharam as entranhas da cidade ali expostas no arremedo de escavação que desfeava parte do enquadramento.

A descida da Avenida da Liberdade fez lembrar outros dias, algumas manifs. Lá do alto da edifício do Diário de Notícias, no último andar, espreitava-se pela janela… Muito pretexto para mais um cigarro ouve ontem.
O enquadramento das árvores, os cafés e restaurantes das laterais e a luminosidade menos agressiva desta avenida promoviam com maior bonomia o contacto entre estranhos. A cada camisola laranja, uma festa!

Muitas crianças acompanhavam as famílias que saíram à rua, e destas a maioria dormia profundamente embaladas pelo carro de bebé. A melhor fotografia foi mesmo a de três petizes que se aninharam no passeio em jeito de dominós tombados perante a guarda dos pais que agitavam bandeiras.

Restauradores, Rossio, Rua Augusta. Uns acima outros abaixo sem destino nenhum que não o de agitar a bandeira e esganiçar a voz. É pena sermos tão pouco dados à música (e contra mim falo). Muitos tentavam uma melodia, procuravam exteriorizar a alegria que não pelo urro e pela canção que mal dá para cantar.
Além dos brasileiros o único batuque digno de nota passou a alta velocidade numa carrinha de caixa aberta repleta de foliões. Minha gente! Se o hábito de ganhar pega, temos de fazer a festa ainda mais linda!

Se nos falta o engenho para canções e melodia sobra-nos para pinturas e pronto-a-vestir. Lindas vestimentas se fizeram com a bandeira nacional. Do mais provocante ou mais trabalhado, um vestido digno de passerelle passou por ali: “click”.
Do caos à ordem, da ordem ao progresso?
Fechou-se a noite com os pés doridos e a alma reconciliada vá-se lá saber com o quê.

Perdoem a prosa mas não tenho tempo para primores. Fiquem bem!

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A festa I

Passavam poucos minutos do apito final e o cantinho mais ensurdecedor da capital devia ser aquele pedaço da Almirante Reis entre a Praça do Chile e a Pascoal de Melo. Em mais nenhum sítio da cidade por onde passámos nas horas seguintes, ficámos com os ouvidos a zunir.

Predominavam os bólides - em Fiat Uno e Renault Clio - sobrelotados com famílias inteiras (crianças, pais e avós) ou com jovens pouco mais que adolescentes empoleirados nas janelas e espreitando pelos tectos de abrir.
Não fazia ideia de existirem tantos carros com tejadilhos amovíveis nesta cidade. Uma moda a considerar nos próximos anos para os vendedores de automóveis.

Retive duas "fotografias" daquele canto. A de uma venerável avó espreitando a rua do lugar da janela do pequeno utilitário. O sorriso que nos oferecia era sereno, cheio de rugas, nuns olhos piscando com o reflexo dos neons. Aposto que estava feliz.
A outra guardo-a para uma das muitas buzinas originais que encontrámos ao longo da noite. Chamemos-lhe "buzina de detonação" esta que um casal de idosos, no seu igualmente idoso veículo, ia pondo a funcionar com sucessivas bombadas naquele enchedor de pneus com apito acupulado.

(continua)

Posted by Rui at 12:45 PM | Comments (0) | TrackBack

junho 07, 2004

7 de Junho de um ano qualquer

Há alguns anos atrás, era ainda pequeno, chorei convulsivamente, sozinho no meu quarto, depois ter assistido a um episódio de uma série da BBC que retratava a vida num esquadrão da RAF durante a batalha de Inglaterra.
"Naquele dia" o avião de um dos heróicos pilotos foi abatido.

Porquê o choro? Não era a minha primeira morte na TV, já não era suficientemente pequeno para que não percebesse o que podia ser a guerra, para que não soubesse quão determinante ela sempre foi entre os homens. Na medida do entendimento dos meus 10, 12, 14 anos (?) já me tinham apresentado o horror do Holocausto, da guerra das trincheiras...

Também já tivera tempo para perceber quem fazia e por quem passava inevitavelmente o sofrimento da guerra: pessoas comuns como eu, como o meu pai... Percebia, ou pelo menos assim pensava.
Naquela noite, não temi o escuro do quarto, um "inimigo" há muito derrotado... Naquela noite, sei lá eu porquê, sem luzes, anjos ou foguetório onírico, comecei a perceber verdadeiramente qualquer coisa que me há-de acompanhar até ao fim do meu mundo. Uma “qualquer coisa” absolutamente indizível para as minhas capacidades. O melhor que posso dizer é o que aqui lêem. Sei apenas que se algum desconforto carrego devido a esse saber, ele resulta do receio de por algum inoportuno momento regressar à ignorância.

Eles morreram por nós. Saibamos nós viver por eles!

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maio 31, 2004

Qual a diferença entre o campo e a cidade?

A diferença é que na festa de seis dias lá da aldeia, no início de Agosto, a função fecha no final da semana com um foguetório imenso, sempre maior que o do ano anterior, promovido com esmero e aguardado com expectativa (ou temor) por todos os habitantes. Raro é o ano em que não há feridos ou incêndio…

Na cidade, a festa dura os mesmo seis dias mas em jeito salta pocinhas, três aqui, três ali, e, em cada novo dia – mania das grandezas! –, se tenta suplantar o dia anterior com o mais extenso e mais barulhento festival de traques mecanizados de que há memória. Quanto a acidentes conta-se com o sempre incerto patrocínio externo pela mão dos senhores do terror.
Uma da manhã, pum! Duas da manhã, pum! Um enfado.

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maio 28, 2004

O beijo

Quando estendo a face para beijar e ser beijado é a direita que vai à frente.
Tenho cá para mim que há uma espécie de norma nacional. Suponho que seja assim também consigo, caso o caro leitor seja português. Ou talvez não?

Bom, tentativas de castos beijos em faces italianas resultaram em choque cultural. Elas oferecem sempre primeiro a sinistra. Pelo menos é assim com as romanas...

Hoje diz-me a moça (aquela ali do boneco da coluna da direita) que deixou dois jovens italianos nordestinos encavacados ao pespegar-lhes dois beijos na face em jeito de boa viagem. Os frios e a timidez germânico-eslava estão já demasiado perto da fronteira do nordeste de Itália...

Não são engraçados estes determinismos geográfico-antropológicos?

Posted by Rui at 10:35 PM | Comments (3) | TrackBack

maio 24, 2004

O senhor das planícies

Não é tanto pela finura, mais pelos rodriguinhos.
Não é sequer pela falta de determinação; com maior bonomia poderia dizer que nem é uma questão de engenho – embora o seja.
A arte vem-me apenas e só para as planícies e particularmente para as banhadas pela alvura imaculada dos lençóis recem-lavados.
Tudo o resto é demasiado. Demasiado subtil, demasiado repetitivo, e, se me permitem uma aparente incoerência, de uma rudez exaltada por maneirismos incontornáveis. Acima de tudo demasiado definitivo!
Afinal de contas quem se pode orgulhar de distraidamente conseguir corrigir uma bainha mal alinhavada pelo perene afago do ferro de engomar?

Cá por casa ganho aos poucos o título do senhor das planícies. Toalhas e lençóis é comigo.

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abril 18, 2004

Férias: o ómega e o alfa

Era Sábado, regressávamos inesperadamente à Benquerença para velar o meu avó Manuel falecido na sexta-feira santa. Apagara-se ao fim de quase 82 anos e após longos anos de sofrimento e invalidez num corpo e mente de quem se construiu a si próprio. O pior dos destinos para qualquer self-made man. A morte viera-lhe como um favor e era com isto em mente que entravamos no concelho de Penamacor vindos de noroeste.

É curiosa a fronteira noroeste do Concelho, há um pedaço do Fundão entalado entre a Covilhã e Penamacor. Não há placas limítrofes a avisar mas há um estreitamento impressionante da faixa de rodagem. Para quem percorre aquela estrada, o Fundão é um garrote que parece evitar o namoro da grande serra da Estrela com o vale da Malcata, onde nasce a cova da beira...

ovelha1.jpg Foi pouco depois de regressarmos a estrada digna desse nome que nos surgiu no meio da via a ovelha e o cordeiro recém nascido. Titubeava ainda o nascituro.
Não havia rebanho à vista, apenas algumas terras cercadas. À nossa frente, parado, um jipe de onde saiam dois curiosos como nós. Saiam do carro coçando a cabeça. Impávidos, mãe e filho permaneciam estacados na estrada como estátuas, apenas a cria dava sinais de vida tremendo largamente. Ali ficámos alguns instantes reverenciando talvez o único milagre incontestável (matrixs à parte).

Avaliada a situação, seria?, as ovelhas afastaram-se finalmente da estrada metendo por caminho de terra batida. Houve então tempo para a fotografia...

cordeiros.jpgPor detrás da cerca a que levava o caminho, iniciou-se uma corrida ligeira de pequenos cordeiros aparecidos sabe-se lá de onde que vinham cumprimentar o mais novo que esperava de fora. E não pensem que atribuo sentimentos aos animais... Espreitem a outra fotografia...
Chegou então a pastora, de pick up, repondo a ordem naquele caos, terminado a privacidade estrita e integrando a família.

Nós partimos para uma última homenagem de alguma forma confortados pela demonstração do grande esquema das coisas.

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abril 14, 2004

Férias: Espreitando o Rossio ao Sul do Tejo (act.)

Adenda: melodia de fundo para esta crónica sugerida pela Giesta: 125 azul dos Trovante.

Foi no Domingo que zarpámos em direcção à Benquerença. O dia nasceu ameno como aliás nasceriam os restantes ao longo das férias que se iniciavam. Lisboa-Benquerença com paragem para juntar o útil ao agradável em Abrantes. Útil porque convém esticar as pernas pelo menos uma vez numa tirada de 300 quilómetro e agradável porque a cidade é acolhedora e havia por lá um abraço em dívida.

Na aproximação a Abrantes, já abandonada a A23, sintonizámos a Rádio Tágide e lá ouvimos o nosso amigo blogguer António Colaço, já próximo da 20ª hora da sua maratona de 25 horas em presença non-stop na Galeria Municipal de Abrantes, entrevistando um ancião do Distrito que havia ganho uma medalha pelo seu espírito inventivo. Havia inventado um novo apanhador...seria de fruta?

Enquanto subiamos a ladeira em direcção à praça forte da cidadela de Abrantes batemos continência no famoso quartel onde o Avô Branco assentou praça há mais 50 anos. Lembro-me de espreitar há muitos anos a sua cédula militar onde se apresenta garboso numa fotografia em cima de um belo cavalo. A mesma cédula onde com o conluio das autoridades fingiu que sabia ler e escrever. Olhando para a sentinela ao portão que desaparece à medida que o automóvel desfaz a rotunda em direcção ao topo da cidade vinga o dito antigo “Tudo como dantes no quartel de Abrantes”.

pego.jpg Tantas vezes passámos por Abrantes, juntos ou cada um por si. Lembro-me de admirar a cidade nas viagens do comboio ascendente em direcção a Castelo Branco e mais recentemente de a cruzar em direcção ao Rossio ao Sul do Tejo, sempre a caminho de Castelo Branco, vítima de uma autoestrada que teimava em se ir fazendo. Mas, naquele dia, neste dia, visitávamos com algum descanso o centro histórico e sentímos um pouquito do pulsar da cidade. Começava a cheirar a almoço, as ruas tinham pouca gente... Vimos as primeiras andorinhas. Bem podíamos estar em Avis (faltavam as laranjeiras) ou mesmo numa parte do planalto urbano de Penamacor... Assomando-nos ao parapeito da fortaleza (parcialmente encerrada a visitas) o Tejo cirandando e as três torres da central do Pego desenganaram-nos.

travessa do tem te bem.jpg A paragem e o passeio eram contudo essencialmente patrocinados pela visita à Galeria Municipal de Abrantes. Fomos então em busca da exposição Abril Ânimos Mil organizada pela alma responsável pela revista (agora blogue) que merecia ser parabenizada. Fomos dar com o local muito perto da Travessa do Tem-te-bem, já bem junto ao Largo da Câmara Municipal.

Lá dentro, a recepção ficou a cargo de Mário Viegas, Sempre!, vimos serigrafias, pinturas, esculturas naturais, fotografia, tudo num espaço pequeno, luminoso e acolhedor. Provámos os licores e o bolo finto, trocámos dois dedos de conversa com o António Colaço, off the air e on the air pois foi-nos impossível recusar “conceder-lhe” a nossa primeira entrevista para a rádio (a rádio Tágide – boa música celta por lá ecoou enquanto nos acompanhou no resto da viagem! ) e, por fim, bebido o cafezinho no café do Largo, deixámos Abrantes muito satisfeitos por nos termos oferecido tal paragem. Este foi sem dúvida um auspicioso início de férias. animo-expo.jpg

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Nota: a exposição Abril Ânimos Mil tem entrada livre, conta com a colaboração de mais de uma vintena de artistas e mantém-se aberta ao público até 30 de Abril.
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Nota II: Já foste ao teu blogue ver as notícias que interessam? Não, fui ao teu!

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abril 05, 2004

O último dos proto-blogs...

Amigos, se tudo correr bem regresso depois da Páscoa, entretanto fui mais uma vez ao baú. A que se segue tem exactamente 7 anos e com ela fecho os proto-blogs... Talvez se lhe sigam algumas "sequelas" mais actuais :-)

Querido filho...

Sortelha Velha, 3 de Abril de 1997


Querido filho, nora e netos, espero que convosco esteja tudo bem, que nós por cá, felizmente, vamos indo.

Muito estimamos a tua carta, meu filho, que cá recebemos pelo Entrudo.

Eu e o teu pai só agora tivemos um bocado para descansar, pois desde que a neve se foi temos andado sempre num andor.

Estou certa que tentaste telefonar cá para casa agora pela Páscoa, mas os telefones estão avariados desde que arderam os fios no incêndio da semana passada, que queimou metade da serra. Dizem que ainda esta semana os põem a trabalhar... Logo vos telefonamos.

Então a nossa Maria está-se a dar bem com o emprego novo no Ministério? E o Carlitos já foi para a Alemanha com a selecção de natação? E a Aninhas continua a ter boas notas?

A Ti Joaquina do Ti Inácio disse que vos viu às compras em Lisboa quando aí esteve para o baptizado do neto. Contou-me que andáveis todos engripados. Pois a malina cá em casa só atacou o teu pai: tombou-o na cama por três dias, mas já está fino, graças a Deus. O que lhe valeu foi o chá de rebentos de pinho que lhe dei; olhai que é remédio santo!

Por cá o tempo vai bem, mas estes calores fora de época trazem-nos em cuidados: as culturas estão todas adiantadas, está tudo muito viçoso e como em Abril ainda é tempo de virem as geadas pode-se abrasar tudo.

Mas se não houver azar vamos ter um ano de fruta como já não há memória: então as cerejas hão-de ser ao preço da chuva e de primeira qualidade.

Perguntas pela ribeira: a ribeira vai grande, sim senhor. Desde que temos a barragem, corre todo o ano, até corre mais no Verão porque o resto do ano trazem-na fechada. Precisas é de vir cá de férias mais de dois dias e fora da época das festas para veres o que isto mudou nos últimos anos.

Se vierdes com mais tempo, o teu pai diz que quer levar-vos à barragem para vos mostrar o calibre dos peixes que já se lá pescam.

Por falar em barragem, os malandros trazem a água do regadio fechada. Não disseram nem ai, nem ui e fecharam a água quase por um mês. Dizem que é para limpezas, mas se demoram muito e se entretanto não chover, lá se nos secam também as favas e o resto da horta.

O que andamos cá a fazer? O que haveria de ser, meu rico filho? O teu pai andou o mês de Fevereiro a semear pinhos no Cu da Raposa e a limpar o pinhal da sorte da Fonte Nova. Se não fosse eu a pôr-lhe tino nem cuidava de lavrar o Olival Basto. Apanhando-se na serra perde-se com aquilo! Este ano diz que viu um lince! Disse-mo a mim e ao povo todo! Diz que o viu na barroca do Chinquilho a correr atrás de um coelho.

Eu nem sei o que seja o animal, mas o teu pai andou cá uns dias pasmado a dizer que era um lince, o bicho mais lindo que viu na serra.

Mas já chega de chouchices.
O pinhal da Fonte Nova para o ano está pronto a cortar e eu tenho andado a ver se arranjo um madeireiro de confiança, mas está difícil. O Ti Aniceto, por exemplo, vendeu um pinhal há dois anos e só agora é que lho cortaram. O homem bem os ameaçou que vendia outra vez aquelos pinhos a outro madeireiro, pois era um crime não se estarem já lá a fazer pinhos novos.

Sabes qual foi a paga dos madeireiros? Foi ameaçarem o homem com a justiça dizendo que têm três anos para os cortar, depois de os comprarem. O mais que lhe fizeram foi deixarem lá a lenha toda, de tal forma que não há pinho que vingue no meio de tantos galhos caídos.

Se o Ti Aniceto for pagar a uns homens para lhe limparem a terra, gasta mais do que lhe deram pelos pinhos! Mas cá nos havemos de desenrascar.

Ontem acabámos de limpar as oliveiras do Chão da Porfia, que, apesar de não ter tornado a chover, ainda estão bem verdinhas. Na parte baixa, ao pé do ribeiro, até já têm chora. De certeza que vão dar mais azeite do que as do Olival Basto.

É verdade, no cabeço do Chão da Porfia, arrancámos aqueles toros velhos de carrascas e plantámos meia dúzia de cordovil. Se se derem tão bem como as outras cordovil, daqui a uns anitos já dão bom azeite que ainda é o que vai dando alguns tostões. É isso, o mel e os subsídios.

O Manel da Fisga o ano passado plantou dez hectares de tabaco que trouxe arrendados: assim que mamou o subsídio deixou a plantação com tudo por colher e agora ainda goza com os outros.

Quem aqui esteve também no gozo foi um dos Catarinos Trambalazanas. Veio cá para a burricada e desapareceu outra vez. Ainda dizem que o denunciaram e que veio cá a polícia, nesse dia, a ver se o caçava, mas nós não vimos nada.

A cunhada dele diz que ele já enterrou o dinheiro todo do subsídio na Espanha. O sócio, o carteiro, é que parece que já por lá tem um quinta grande; se calhar anda a preparar outra golpada.

A fabriqueta que eles começaram a construir aqui, diz que vai voltar a ser apoiada pela CEE, mas desta vez parece que é para um depósito de leite, vamos a ver...

Cá para o nosso lado é que pinga pouco, um subsídio para o gasóleo, um pouco pelas oliveiras e mais nada. Mas isto de viver à custa de subsídios também é um engano, não é verdade? Os miúdos do povo que não se metam nesse vício senão quando aquilo se acabar não sabem fazer nada. Mas a malta jovem agora já tem mais estudos, por isso não há-de ser nada.

Quem por aqui anda com grandes ganas é o João José: reformou-se da França, já fez uma casa e veio para cá com a família. O filho parece que é engenheiro-agrónomo e anda aí de redor dos engenheiros do emparcelamento. É um rapaz simpático e conversador com toda a gente.

Diz que vão comprar uma grande propriedade para plantar beterraba sacarina. O teu pai também já se convenceu de que são gente honesta e trabalhadora e que vão ganhar bom dinheiro porque há para aí uma fábrica de açúcar nova a pagar bem.

Ele anda a falar em fazer-se sócio e eu não sei se lhe hei-de dar para trás ou para a frente. O que é que achas? Sabes alguma coisa disso de açúcar de beterraba? E da fábrica?

No sábado passado houve uma burricada e a festa foi animada no alto de Santa Rachada. Esteve cá a televisão e até deu à noite no telejornal, vocês não viram aí nada? Eu ainda lá apareci mais o teu primo Alfredo. Prometeram que se houver burricada para o ano tornam cá.

Enfeitaram-se as carroças e os burros, fizeram um cortejo na aldeia - até passaram à nossa porta - e, depois, foram para o monte onde se juntaram com os das aldeias dos Cabeços. Aliás, foram, não; fomos, que nós também lá chegámos. Comemos lá todos e no fim fizeram um teatro a imitar as lides cá da terra do tempo dos antigos e de agora. Não sei é se chegou a haver corrida com os burros porque tivemos que nos vir embora para aproveitarmos a boleia no tractor do Ti Álvaro Farrusco.

Olha que ainda veio muita gente! A festa foi organizada pela gente nova e por dois ou três mordomos, à revelia do senhor padre... Diz lá ao Carlitos e à Aninhas se não querem vir para o ano que nós arranjamos-lhes burro, carroça e decoração!

Bom, a carta já vai longa e ainda não tem o tamanho da nossa saudade. Se o telefone se puser bom, se calhar ainda falamos antes de esta aí chegar, senão, cá vai ela.

É verdade, vocês aí também vêem o cometa?
O Ti Álvaro Farrusco diz que aquilo ainda vai cair numa sorte dele como caiu um, quando ele era pequeno, na palheira do seu pai! Como vês ele está na mesma. Manda dizer que está de mal contigo e que não lhe apareças pela frente sem trazeres uma garrafa daquela pinga que lhe deste aí em Lisboa.

Beijos para todos destes que muito vos amam.

Joana Barros e Jerónimo Fraga

Ouve: os dois cheques que seguem são para o Carlitos e o outro para a Aninhas. Diz-lhes que é a Bica da Páscoa dos avós.

Adeus

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abril 01, 2004

Tec tec tec

É estranho este som. Se caísse aqui sabendo-me apenas no interior de uma casa, no escuro da noite, e ouvisse este som - tec tec tec - poderia pensar ter ido parar a uma qualquer barraca de zinco, fustigada por um temporal.

Nesta zona da cidade, a caixa dos estores fica de fora de casa, à janela. Acresce que estas casotas de recolha dos estores são quase todas de lata.
Têm longas conversas entre elas em noites de chuva como a de hoje. Aliás, são bem mais tagarelas com a vizinhança que a maioria dos que habitam as casas que abrigam.

Lá estão elas: tec tec tec.

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março 30, 2004

Verde Esperança

Há tanto, mas tanto para fazer melhor nesta terra... Não penso em balanços colectivos por agora… Olho simplesmente para o meu trabalho, para algo que porventura muitíssimo poucos valorizarão se for bem feito e uns quanto mais, não muitos, repudiarão se for mal feito. Há de facto muitas pequenas coisas a melhorar. É em dias descontraídos a falar com os outros, porventura com um outro lá de fora, do resto do mundo, que podemos mais facilmente abrir os olhos. Secretamente ou não, vou registando a dimensão do fosso entre os que estão à nossa frente e os que vêm lá atrás.
De quem estamos mais perto? Depende do brilho das luzes, da intensidade do sol, do poder das miragens. Não há tempo nem paciência para lamentos, não é sequer preciso esperar que uns quaisquer “eles” nos mobilizem. Tratemos do nosso quintalzinho a bem de um mínimo de salubridade e depois... E depois, feito isto, levemos então imaginariamente a nossa família e/ou os nossos amigos a passear, fazendo turismo pela vizinhança, procurando sempre o espanto de nos espantarmos com esta existência. Sem medo da indignação e sem medo de sermos felizes.

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A hora de pôr a escrita em dia

Estaria ansioso? Parecia olhar mais avidamente para o cimo da avenida no seu lento vai-vem cinco passos a subir, cinco a descer. De vez em quando, ao mudar de sentido, espreitava o relógio ou ajeitava os óculos ou mexia no bolso. Lá está ele, mais uma suave meia volta nos calcanhares e nova subida... nova descida. Não há sequer uma montra de jeito naquele pedaço de rua, apenas uma loja para alugar.

Antes de apanhar o autocarro e de ali o deixar, notei que reparou nos outros que esperavam do outro lado da avenida. Um velho alto de nariz no chão, um rapaz sentado no banco da paragem de cotovelos nos joelhos e rosto apoiado na concha das mãos, semi-escondido atrás de uns óculos de sol, e duas mulheres fardadas, preparadas para regressar à base da Limpex, a empresa ganha-pão bem visível nas letras garrafais quase florescentes que cobrem metade das vestimentas.

Ao fim de alguns minutos parecia estar meio tonto, apesar de estar à sombra e nós ao sol. Parou e quase juro que lhe vi um tremor, talvez um início de vertigem. Sossegou... Olhou então para um prédio lá mais no cimo da avenida. Perscrutou-o de baixo a alto. Fixou-se finalmente no céu que neste dia se tingira de um azul invulgar. Invulgar para centro de cidade, bem entendido.

Estaria mais calmo? O relógio de novo. Não há dúvida que esperava. Esperava talvez por ela, a mulher imperturbável, eterna, que sempre fez esperar os homens. A tal de que se atreveu a falar num livro. Que seja digna da primeira e lhe ofereça uma irrepreensível desculpa que lhe permita a melhor bonomia de que qualquer homem, em espera, algum dia tenho sido capaz.

É mesmo o escritor, o tipo. Esteve agora ali na têvê. Um "gajo porreiro". Já lá vem o autocarro. Boas noites!

(Mário de Carvalho a Ana Sousa Dias)

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março 26, 2004

A Esquadra (act.)

Hoje falaram-me durante alguns minutos de uma esquadra da polícia no centro da capital do país.

Um colega foi roubado enquanto comia descansadamente num restaurante. O "cavalheiro" que se sentara na mesa de trás, estando costas com costas, aproveitou para lhe aliviar a carteira.
Algumas horas depois, descoberta a localização da esquadra mais próxima, lá foi dar conta da ocorrência.

Disse-me que foi muito bem recebido mas que preferia não ter partilhado a simpática companhia das forças da autoridade por mais de duas horas.
Haveria grande movimento na esquadra? Nem por isso. Havia era um fotocopiadora avariada há largos meses, um único PC funcional (quase um pré-PC pela descrição). Havia ainda um aparentemente novo software com o qual ninguém na esquadra sabia operar (ou seria o computador operacional uma efectiva novidade?) e havia uma má ligação telefónica (ou problemas de entendimento) entre o agente que desesperava em busca do botão certo em que carregar para registar a "ocorrência" e o "Help Desk" que o tentava guiar via telefone.

Mais de duas horas numa esquadra onde a infraestrutura policial era praticamente nula. As condições precárias e o profissionalismo compulsivamente reduzido à teimosa simpatia do mal amado quadro especial da função pública.

Em Lisboa, no Arco Cego, aos 25 de Março de 2004. Com vista para a magnífica sede da CGD, num estranho dia de brancas luminosidades e ares gélidos, de arreganho.

Posted by Rui at 11:45 PM | Comments (0) | TrackBack

Noite em Lisboa - Deixa-me Rir (act.)

A noite tinha tudo para correr mal. Os cinco bilhetes comprados há um mês haviam sido emitidos para uma data errada que pertencia ao passado. Como triste remedeio de uma frustrante recusa de responsabilidade no teatro (parcialmente justa) adivinhava-se uma sessão de cinema num centro comercial das redondezas. No entanto… Depois de algum choradinho e de uma boa dose de humildade mais que genuína arranjou-se um acordo com o teatro. Esperar até à última por lugares livres, desistências na plateia e, na pior das hipóteses, providenciar umas cadeirinhas extra no fundo da sala. Mal por mal a perspectiva de jantar – era ainda início da noite – ganhara contornos mais reconfortantes, as papilas gustativas reactivavam-se e a sensação de fome ressurgida confirmavam o sinal de esperança. Talvez afinal ainda viesse a haver motivos para rir.

O jantar. Lisboetas verdinhos enganam-se na transversal. O restaurante ficava mais adiante na avenida. Estava um frio de rachar mas perante uma sucessão tão absurda de contratempos recentes a opção “ir de carro” afigurava-se como um muito razoável factor de risco. Mais a mais fazia falta a carga ligeira pela Pascoal de Melo, Estefânia... Toca a libertar toxinas!
Ninguém se lembrou que o Benfica jogava em Itália e menos ainda veio à memória a tela gigante e a ligação à Sport TV. O restaurante estava quase a abarrotar, apenas duas mesas vagas em localização perigosamente próxima de perturbar a visão do relvado de São Ciro.
Eram muito raras as mulheres, quase todos os comensais trajavam de vermelho, na sala estava ainda um notável futuro presidente do grupo parlamentar do maior partido da oposição. Sofria, como os outros. Primeira parte, zero a zero.
Passados poucos minutos completou-se o grupo de amantes de teatro com os únicos dois Benfiquistas do quinteto. Faltava menos de uma hora para o início do primeiro acto. Os empregados de mesa não tiramvam os olhos do ecrã gigante. Os carrinhos com travessas, copos e garrafas deslizavam como que telecomandados até se acidentarem contra o cliente mais próximo. Evitou-se o pior… Não havia era maneira de os pratos chegarem à mesa.
GOLO do Benfica!

Ela nunca foi a um estádio, assustou-se com a euforia. Nunca me hás-de apanhar em Alvalade disse entredentes. Lá é muito mais sossegado é um espaço aberto, não faz ressonância menti descaradamente.

Passámos alguns instantes a olhar fixamente os empregados de mesa que por sua vez continuavam a olhar fixamente encantados o ecrã. Um ponta pé de baliza ou coisa que o valha lá quebrou o feitiço e finalmente mexeram-se. Comemos. Ainda antes de sairmos houve um susto de golo desfavorável, ouve aplausos perante a anulação e ouve um cabecear em direcção aos pratos, minutos depois. Final da primeira parte um a um.

Surpreendeu-nos muito positivamente a simpatia dos funcionários do teatro: "deixem-se estar aqui que havemos de vos arranjar lugar". E arranjaram, no final saiu-nos melhor do que a encomenda. Via-se que havia gosto em ter espectadores satisfeitos. Cinco estrelas Villaret!

Deixa-me rir
A peça… Na primeira parte Spin doctors, crítica mais ou menos subliminar ao governo do país (ou de quase qualquer país ocidental), aqui e ali com laivos revisteiros; mais jogos de poder e crítica mais incisiva, com mestria humorística mais evidente na segunda. Fechando em “mais” portanto.
Um ou outro gag poderia ter beneficiado da técnica de elaboração de discursos políticos que se parodiava no peça: mais curtos confeririam um pouco mais de dinamismo evitando alguns momentos de perda de gás. Os actores, todos muito bem. No final esperaria mais mamas, talvez borbotando no último protagonista.
Para que serve o humor? Para rir e para pensar, vai muito bem com uma noite de teatro. Faz uma muito boa noite de teatro.

Posted by Rui at 11:31 AM | Comments (0) | TrackBack

março 18, 2004

O vento nos salgueiros

Também quero!!!
Ir espreitar os choupos à beira da ribeira no Chão de Salgueiros... Ir ver se as oliveiras vingaram no Vale da Porfia...
Espreitar as estacas de marmeleiro aos Covões, que se iam finando no Verão mas das quais tenho vaga notícia de indícios de umas (des)pontas verdes (terão sido aqueles singelos baldes de água?)...
A nogueira no Chão do Pereiro...
Depois conta como correu a experiência com o telemóvel de terceira geração (ou lá o que é), bale Catarina?

Posted by Rui at 12:31 AM | Comments (2) | TrackBack

março 14, 2004

Já experimentaram matar uma silva?

Não é queimando as silvas com o nosso abrasador poder de fogo que as destruímos, elas nascem e renascem, menos exuberantes mas sempre dispersando-se, ramificando-se, cada vez mais rente ao solo, infestando uma área cada vez maior, oferecendo um saboroso fruto pejado de dezenas de sementes que mesmo um agricultor imprevidente poderá tratar de disseminar.
É preciso arrancar a silveira e expôr-lhe todas as raízes ao sol em época de pouca água, pois havendo humidade ela fará das hastes raízes e nem assim morrerá.
Sem a destreza, energia e determinação necessárias, sem arar toda terra e lançar-lhe outras sementes, sem zelar permanentemente pelo fruto, a silveira proliferará.
Já experimentaram arrancar uma silva? Mesmo com todas as cautelas, é quase impossível prever todos os espinhos...

É fundamental prezar a clarividência e rejeitar veementemente aqueles que, entre nós, insistem em misturar os seus receios ancestrais às ameaças do presente. Aqueles que tentarão cavalgar o sentimento de vulnerabilidade colectiva vendendo-nos as suas absurdas generalizações, o seu mundo simplificado a raiar um outro fanatismo, sempre em nome da auto-defesa e da auto-preservação (valores que todos defendemos).
O terrorista precisa desse aliado, joga as suas bombas na esperança de obter gritos de guerra e de ódio dirigidos aos que particularmente no mundo não ocidental recusam ainda aliar-se à barbárie.
Precisa de "cruzados", de defensores de uma fé ou de um seu sucedâneo que reajam sob impulso, de acordo com o discurso que o fanático espalha entre os que lhe estão mais próximos.

O que se passa no médio oriente, a intervenção extemporânea no Iraque, o forte desequilíbrio económico do planeta e mesmo as capacidades comunicacionais actuais, a globalização, ajudam a fomentar e a viabilizar o exercício do terror. Passado o momento de mais um choque brutal teremos de voltar a fazer contas ao exemplo do Iraque e mesmo do Afganistão [lembram-se do ópio que financiou os clãs militares e os talibans? Prolifera de novo por terras afgãs; quem fica com o dinheiro e que está a fazer com ele? Quando encararemos novas formas de lidar com a droga por cá?].
Há muitas lições de como não proceder para anotar.

Onde há miséria, revolta e exploração há sempre maior vulnerabilidade, melhor pasto para chamas. Mas o terrorismo quer ainda crescer mais, quer ser a maioria e não a minoria, quer fazer alastrar o fundamentalismo onde ainda reina o respeito religioso, o laicismo do Estado e mesmo a admiração pela civilização ocidental. Não será a tiro que o derrotaremos. Não será a tiro. A juzante podemos e devemos aplicar a justiça por todos os meios ao nosso alcance mas é noutro sítio e com outras práticas que se começa verdadeiramente a consolidar uma solução duradoura para resolver o problema.

Aos poucos vamos sendo capazes de resumir o essencial e traçar o caminho que teremos de percorrer. Hoje lê-se no Barnabé um texto escorreito e lúcido do André Belo, muito bem complementado por um comentário que escreveu em resposta às primeiras críticas de que foi alvo.

Vamos precisar de muita inteligência, determinação e acima de tudo de muita paciência e sensatez para resolver este problema que nos há-de acompanhar por longos anos.

Posted by Rui at 04:04 PM | Comments (0) | TrackBack

março 13, 2004

Abriu!

Eu vi com estes olhos que a terra há-de comer, cinco pimpolhos, todos satisfeitos, devorando o primeiro gelado do ano.
A 13 de Março abriu a gelataria cá da rua. Esqueçam as farmácias, deitem fora os comprimidos, está de volta o mais poderoso ansiolítico do mundo, o maior inimigo público das dietas, o defensor dos pneumáticos amigos do ambiente, o... eu vou ali já venho!

Posted by Rui at 05:21 PM | Comments (1) | TrackBack

março 12, 2004

Martenitzi

Um sopro persistente vai agitando a nossa bandeira. A verde e vermelha do liceu Filipa de Lencastre está a meia haste.

Ontem chegou da Bulgária uma pequena recordação. Um presente singelo de uma colega que durante seis meses se quedou por Portugal numa acção de formação. Há várias semanas que nos despedimos e, curiosamente, num dia muito triste, nesse mesmo dia, ela, o quase desconhecido fez chegar pelo correio um pedaço da sua cultura. Dois fios de lã interlaçados, um branco, outro vermelho com a medida suficiente para atar ao pulso e com a magia quanto baste para que se cumpra um desejo.

"This is old Bulgarian tradition: On the 1st of March, and the days following, all people in Bulgaria give each other these small tokens made from red and white woolen threads called ‘martenitzi’.
According to the tradition, you have to wear your martenitza pinned on your clothes or tied on your wrists (on the right one) and keep them until you see some sign of spring - such as stork, swallow, or blossoming tree. Only after seeing that sign you can remove the martenitzas and tie them on a fruit tree. Then make a wish. We believe that the wish always come true.
I wish you all your wishes to come true!
"

Martenitzi

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março 11, 2004

I /III - Do coração

11 - Haverá algum código de horror por decifrar neste número?

Estranho a maioria daqueles por quem passo. Espero descobrir neles um pesar, uma tristeza profunda mas entre aqueles que tenho mais à mão pouco mais adivinho do que a indiferença. Talvez seja meu o problema. Hoje apeteceu-me ir a correr para Madrid, chorar à vontade, em liberdade, confortar o inconsolável. Não, não foi só hoje. Carrego comigo uma boa dose do peso do mundo que vou alijando sempre com o exercício da vida. Será assim com todos e se não for, hoje, isso também não me interessa.
Acho que nunca aqui fiz alarde de como sofro, é algo demasiado íntimo e impronunciável. Por uma vez (haverá outras), aceito o risco do ridículo com estas pobres palavras. Mas é mais do que um lamento que aqui me traz, é também uma profunda crença na humanidade, naqueles com que partilho estes instantes. Não preciso de fés, de deuses ou demónios para ter este credo. Não é também o horror accionado pelos outros que me demove, espero que nem num trágico dia em que ele se aproxime ainda mais de mim, mude de ideias. Lembrem-me estas palavras se fraquejar…

Há certezas que o medo não vence, poucas, talvez, mas muito concretas. Há um saber que não precisa de espelhos ou de lupas para se assegurar de si. Não sou só eu que sou capaz de amar, não sou só eu que sou capaz de sofrer, não sou só eu que sou capaz de morrer, não sou eu aquele que é incapaz de matar.
Há perigos que o medo alimenta. E nada de mais perigoso há do que o dia em que passamos a sofrer de forma perene e inesgotável. Lembrem-me estas palavras se fraquejar…
Guerra, penas, morte. Talvez… Façamos delas amigas desinteressadas, disponíveis para ajudar em legítima defesa, mas não as abracemos enquanto amantes possessivas, voluptuosas, enebriantes. Não nos esqueçamos quão caprichoso e cego será esse abraço.

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março 08, 2004

A caminho de Sintra (Rev.)

Estação de Queluz, quarta-feira, dentro do comboio, no sentido Lisboa-Sintra.
Um rapaz entre os 18 e os 20 e poucos sustenta-se. Basta um breve olhar, para se perceber o espantoso estado em que ele se tem: de pé, pálpebras a meia haste, uma ausência total, completamente banhado em suor. Quando o comboio finalmente pára, dirige-se ao indivíduo, alguns anos mais velho, que se sentara a meu lado. Diz-lhe:
- Já há seis horas que devia ter tomado o antibiótico para o braço.
- Tu és assim! Responde-lhe, enquanto escorropicha o canudo de cartão de um gelado que devorara. E acrescenta: Nunca tens cuidado contigo! Dizendo isto, oferece à cabeça de um transeunte da estação o invólucro amachucado do calipo de limão.
- Merda! Olhe, desculpe! Berra, assomando-se à janela e obrigando-me a pose de contorcionista para não ser pisado. Pouco depois, reparo que me caiu sobre os joelhos um minúsculo pacotinho de plástico com um pó branco que acaba por escorregar para o chão.

Não se apercebeu.
- Já há seis horas, pá. Só tenho mais dois antibióticos.
- Amanhã, vamos ao médico para ele te passar outra receita.
O comboio estava apinhado de gente. Entre os dois interlocutores, ia um senhor na casa dos quarenta, vermelhão, de fisionomia escandinava, mas baixo, atarracado mesmo, muito bem nutrido. Piscava os olhos a uma velocidade incrível e mostrava-se nervoso, desconfortável e impotente para se afastar. Ora espreitava sobre o ombro, vislumbrando de relance o “doente”, ora olhava, a custo, para os sapatos, tentando observar, pelo canto do olho, as expressões e reacções do indivíduo do gelado que quase carregava ao colo a sua avantajada barriga.
- Desculpe, este saquinho cai-lhe do bolso do casaco...
O meu parceiro de banco olha-me inexpressivo durante breves instantes, fixa a minha mala de pele que trazia entre as pernas, cheia de livros, e leva a mão à boca como que a limpar algum bigode de açucar que ali tivesse ficado. Depois, pega no dito saquinho e sorri muito suavemente enquanto o enterra algures num bolso das calças.
O passageiro entalado suava agora abundantemente e ia fazendo diversas caretas, principalmente quando o “doente” se apoiava completamente nele, o que acontecia sempre que o comboio fazia alguma curva mais apertada. Chegados a Massamá lá conseguiu furar pela sardinhada e saiu do comboio. Ainda o vi a limpar a testa a um lenço, protegendo-se à sombra dum abrigo, dando todo o ar de que iria esperar pelo próximo comboio que o levaria necessariamente ao mesmo sítio que este agora abandonado. Creiam que não invento tudo isto, já conhecia a figura, mora no Cacém.
Várias pessoas haviam testemunhado as ocorrências e fitavam alternadamente o “doente”, o amigo e a minha pessoa esperando desenvolvimentos, talvez. Mau estar. Apercebo-me de uma tensão, um silêncio pesado. O comboio havia reiniciado a marcha, mas o ambiente manteve-se e, precisamente quando o meu parceiro de banco se preparava para fazer qualquer coisa, o “doente” desmaia provocando grande agitação. O amigo salta para o meio da carruagem, ampara-o e, às coteveladas, dirige-se à porta mais próxima. Em tom moderado diz ao ainda inconsciente:
- Parece-me que está a precisar de cuidados intensivos, meu merdas.
Puxa a alavanca de travagem de emergência do comboio, que circulava, então, a baixa velocidade (aproximando-se do Cacém), sai do comboio e carrega com o amigo às costas desaparecendo rapidamente por uma ribanceira íngreme e arborizada que ladeava a linha. Segui-se o falatório:
- Era só o que faltava!
- Agarrem-no!
- Então e se o ajudassem? O outro vai mal...
- Ajudar camelos deste? Vá lá você!
- Se fosse com o seu filho...
- Filhos da puta! Onde é que anda a PSP?
- Na semana passada foi alguém que se atirou à linha, hoje sai-me esta. E primeiro que ponham esta porcaria a andar? A senhora nem imagina!
- Onde é que o gajo se enfiou?
- E outra vez à quarta-feira!
- Quem é que joga hoje?
- Jogava! Meu amigo, jogava!
- Aquele que desmaiou era pedinte na linha de Cascais. É primo do perneta aqui do Cacém.
- Aquele do pé torto?
- Não. Aquele das moletas. O que apanha taxi em Campolide para ir p’r’ó Casal Ventoso.
- “Senhores passageiros, devido a problema técnico inultarpa... intrapa..inulprata... Por causa de uma avaria, têm que abandonar a composição! Obrigado!”
- Olhem, lá andam eles! Ali no IC 19. O que desmaiou ainda está estendido no chão!
- E o outro está a ver se convence algum carro a parar.
- É uma tristeza.

No IC 19 um carro encosta finalmente:
- Podia chamar uma ambulância. É o meu irmão...acho que morreu. Está ali deitado. Tomou um antibiótico marado. Muito obrigado.

Rui M. C. Branco
20 anos, est. Económicas, M. Martins

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Escrito há 8 anos, ligeiramente retocado.
Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

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março 01, 2004

Segunda Feira de cardadores

Há pouco, como muitas vezes acontece, um dos contribuintes líquidos para a minha carga genética deixou cair uma frase que vem lá do fundo dos tempos, pelo menos de meados do século passado.
"Amanhã é segunda feira, dia de cardadores". Porque mãe? Não sei. Era um dito lá da terra...

Dia de Cardadores. Já temos título. Falta o romance.

Posted by Rui at 12:13 AM | Comments (0) | TrackBack

fevereiro 24, 2004

Ter filhos

Deve haver partes do mundo que nos entram por casa a dentro sem pedir licença quando decidimos ter filhos. E não falo propriamente dos filhos, deles mesmos.
O carnaval, por exemplo, passa-me completamente ao lado e se adivinho algo que se aproxime de um sentimento quanto a este afastamento é o de algum alívio e prazer. Sem muito entusiamo, o máximo que me arranco é um "Viva um não-carnaval friorento, forçado, a meio do Inverno".

E depois como será? Como terá de ser? Adivinho desafios imensos à minha criatividade para aqui e ali conseguir fugir saudavelmente à norma.

Posted by Rui at 04:20 PM | Comments (0) | TrackBack

fevereiro 02, 2004

Gozando de uma belíssima dor de cabeça

Com um pouco de atenção detectam-se afectos em cada esquina da blogoesfera. Em tempos alguém disse que havia uma falta de amor por estes blogues como que provando uma incapacidade inultrapassável, inadequada ao meio. Mas o meio é reino da palavra e a palavra pertence-nos na criação.
O que aqui fazemos com ela é também o que fazemos em qualquer outro lado, na forma que melhor entendermos. Ela tem o poder de derrubar o muro que alguns aqui encontram e de nos desafiar nas nossas mais íntimas desconfianças, neste mundo de perfeitos estranhos e desconhecidos. Escrevemos, não falamos. Por vezes escrevemos como se falássemos. Lemo-nos, cortejamo-nos, esquivamo-nos para que não nos vejam, também. Alguma vez tivemos um contacto assim? Propenso a alguma reflexão (isto não é um chat) mas quase instantâneo? Passados mais de sete meses de blogoesfera ainda me espanto com o que isto pode ser e é. Ainda faço as primeiras perguntas!

Para um profissional da palavra o uso desta por aqui é muitas vezes assumidamente medido para não colidir com o ganha pão, afinal trabalhar a palavra, reconstruir pensamento, dá que fazer e é um bem escasso para cada homem, em cada dia...
Para aspirantes a profissionais será uma campanha de marketing mais ou menos desenfreado, de acordo com o grau de familiarização com o meio e as mais íntimas expectativas.
Depois há os outros, os que só aqui vêm porque vêm. Aqueles que têm tantas razões quanto vontades, que dizem como querem com uma absoluta liberdade que tanto se aproximará da mais fantástica ilusão como do mais cru dos seus dias.
Nas esquinas, apanhando desarmados os puros de coração surge o afecto, a força que vem das fraquezas e da franqueza. Há sempre alguém em busca de um abrigo, de um carinho de um sorriso de um contacto, de uma palavra. Mesmo que não acredites eu sei que há, já topei com alguns de carne e osso.

Até aqui num virtual olhos-nos-olhos é possível encontrar a magia que só nós fazemos e entendemos e que sobre tudo temos a mania de lançar. A magia que desaparecerá connosco, com o último Homem, com a última palavra dita, com a última palavra lida ou interpretada. Até ao dia em que não houver mais perdas na tradução.

(Parece que arranjei um fetiche com o Lost in Tranlation... Até para filosofia de algibeira de um pobre diabo com dor na pinha esta treta dá. Fiquem bem que eu farei por isso. Inté!)

Posted by Rui at 11:59 PM | Comments (5) | TrackBack

janeiro 28, 2004

Incidente no Emprego

É proibido. Não fica bem. É uma falha de segurança gravíssima. Vai contra as regras mas alguém abriu a porta e... O que é certo é que uma estudante de dança Israelita acabou de entrar pela sala dentro e tentou vender as telas de colegas seus...
Na sala há uma fotomontagem onde uma pequena criança está a mijar para cima do capacete de um militar enquanto este aponta a sua metralhadora. Ficamos a saber que a farda do soldado é israelita...

Ah! Algumas das telas eram pinturas surrealistas como é natural.

Posted by Rui at 04:50 PM | Comments (0) | TrackBack

janeiro 25, 2004

Sinistra exigência

Pensar, prever, esperar o inesperado. Tudo isto parece distante da poesia. Talvez contrário ao fado...

Não é preciso muito, não é preciso vivermos na obsessão planificadora da nossa vida...
Poderemos viver a vida como se todos os dias fossem o último?
Carpe diem não é bem isso.
O meu dia é hoje também uma perspectiva de amanhã. É alegre pelo minuto que vivo e pelo que ainda quero viver. É triste quando penso que um deles será o último; quando vejo aqueles que amo deixarem de ter tempo.
Pelo que sei hoje é bom que continue a ser assim, que seja sempre assim até ao fim. É bom que não me fuja essa tristeza!

Fazer uma conta, perspectivar uma despesa, projectar uma obra, seduzir alguém, tentar alcançar um sonho, acomodar um filho, tentar ser um pouco mais do que um homem de mãos nuas, ao frio...

Há momentos em que não tenho dúvidas sobre o que faço aqui. São apenas breves instantes que me valem pelas longas horas de angústia e incerteza. Momentos de paz onde nada é sinistro.

Sinistro... Sinistro pode ser não ter uma ambulância num estádio de futebol durante um jogo. Comer o lombo mas não conseguir chupar o crânio. Ter mão para abrir com violência uma lata de comida para o bichano e não ter "estômago" para ajudar um velho mais ou menos sujo que acabou de cair na calçada branca e aí jaz sangrando.
Sinistro é ver-me a fazer poses, sentir-me esquivo, fugindo de um abismo quando mergulho nele, a pique, julgando que voo.
Sinistro é não querer voar ou querer fazê-lo sem pensar em combustível.

O meu dia é hoje também uma perspectiva de amanhã. É alegre pelo minuto que vivo e pelo que ainda quero viver.
Pensar, prever, esperar o inesperado. Tudo isto parece distante da poesia. Talvez contrário ao fado...

Posted by Rui at 10:40 PM | Comments (2) | TrackBack

janeiro 24, 2004

A "GENTE" veio no Expresso

A revista Única do Expresso através da Gente fez hoje uma referência à iniciativa do António Colaço e da sua Ânimo (Os Ânimos de Ouro). Tendo quatro dos doze eleitores votado no Adufe, acabei por ganhar a "taça", uma original lembrança que muito estimo, bem como, mais importante, um outro tipo de convívio com alguns blogueres (e não blogueres) presentes no "jantar de gala" :-).
Ganhou também o Adufe uma referência impressa na media-esfera real, a primeira de que tenho conhecimento.
Destaco aqui o evento e respondo agora de uma outra forma a uma pergunta que o António me fez no jantar "Mas afinal de que Beira Baixa és tu?" ...
Republico um texto já aqui editado a 4 de Agosto de 2003.

Ignorando a lenda de Mem Martins

Fonte da imagem: Viajar-Clix

“Can you tell me where my country lies?”
said the unifaun to his true love’s eyes.
“It lies with me!” cried the Queen of Maybe
- for her merchandise, he traded in his prize.


Excerto de «Dancing With The Moonlit Knight», Genesis,
Álbum SELLING ENGLAND BY THE POUND, 1973

I

(...) Acabaram as aulas. A turma saiu da sala e dispersou-se rapidamente.
Distribui duas ou três «boas festas», mais uns quantos votos de «boa viagem» e ala para os beirais da serra; conforto e descanso é que se desejam, para corpo e alma. Mas este ano a serra é a de todos os dias; este ano, para variar, é Sintra que enfrenta a memória de outras férias passadas num vale à raia de Espanha, num buraquinho da Cova da Beira.

Talvez porque o ambiente e o cenário sejam propícios a nostalgias, talvez porque a saudade seja forte e genuína, despeço-me da Pena, fecho os olhos e recordo.

II

A aldeia

A sudeste, por entre meandros de vales contínuos que, caprichosamente, se sobrepõem e, em determinados pontos, prolongam o horizonte, adivinham-se terras de Espanha.
A noroeste, bem visível, surge a Estrela imponente e desafiadora. Não sei se as montanhas têm perfil mas se tiverem é assim que, daquela aldeia, se vê a Estrela.
Nos outros extremos erguem-se os amparos que completam a identidade do vale - rivalidades de duas montanhas que se aventuraram há milénios numa prova de resistência entre blocos de granito e maciços de xisto. Da distância escavada nasceu um vale largo, plano, fértil, muito raro.

Na noite da véspera de Natal, enquanto se celebra a cerimónia da missa do Galo, a grande maioria dos homens da aldeia fica no adro da Igreja em torno do secular madeiro de troncos de carvalho, pinheiro e castanheiro. Os «rapazes do ano» - os que esperam a incorporação num dos três ramos das forças armadas - descansam, finalmente, do grande andor em que viveram nos últimos dias. Passaram parte do mês acarretando camionetas e mais camionetas de toros e troncos para fazerem o mais alto, mais duradouro e mais brilhante madeiro em todo o vale da Ribeira da Meimoa; uma autêntica estrela a anunciar O menino! Mas que descanso permite a sua idade quando há o vinho novo pronto a provar, quando o contraste da fogueira monumental com o noite gélida entorpece os corpos apelando ao movimento constante tão bem satisfeito numa moda? E que dizer então quando os deveres religiosos estão cumpridos e o adro se completa com as «raparigas do ano»? Confesso que a “malta” de hoje raramente vai em modas e, também nesta aldeia, começa a ser mais cerveja do que tintol, ainda assim, mantém-se como uma das muitas seculares tradições desta noite, a troca, em torno do grande lume, de todos os primeiros olhares que ainda há para trocar. A promessa de amor (outra das tradições sobreviventes) já terá lugar, muito provavelmente, no aconchegante conforto do bafio da uma boate [isto não se escreve assim, pois não?] da aldeia - o bafio é o universal, nada tem de típico ou de pitoresco.

Voltemos às tradições. A que aqui me trouxe foi a de contar e ouvir contar histórias.
Todo o dia é bom dia para contar histórias, mas no Natal os avosinhos e avosinhas, perdão, as avosinhas e os avosinho parecem mais embuidos do espírito, o que, adjuvado pela existência de uma plateia mais estimulante e atenta - os jovens rebentos da família emigrada - torna mais provável esse momento de sempre espantosa beleza.
Me proponho contar-vos uma história, mas tenho de vos esclarecer que é, em última análise, uma composição das várias versões que fui ouvindo, em vários natais, pela boca de cada um dos meus avós . Em memória deles e pela minha memória, cá vai.

III

A querença

Há muitos, muitos anos - à distância a que se fazem as lendas - os homens desta região ficaram em paz e sossegaram os corações. Então, abandonaram os seus castros altaneiros e foram-se fixando um pouco por todo o vale.
No início, seriam apenas três, as famílias que formaram o núcleo original da aldeia cuja história vos conto. Juntos, partilhavam todas as tarefas, alegrias e tristezas fazendo-o com tanto amor e desinteresse, que impressionaram todos quantos passaram por aquele local do vale: o mais verdejante e bem amanhado, bem perto da generosa ribeira que a Malcata já então oferecia.
Era tamanho o bem querer transparecente da relação entre aquelas gentes, que não tardaram em ser conhecidos por todos os ajuntamentos do vale como os benqueridos.
Mas não termina aqui a história deste povo, como em muitos outros fados também o deles reservava provações. Sucessivamente, sofreram com as pragas de gafanhotos vindos de Espanha e sofreram com as pestilências e enxames de insectos oriundos dos muitos pântanos que pontuavam o vale. Só o ferrenho sentimento de entreajuda lhes permitia sobreviver a tais reveses, reconstruindo o sonho tantas vezes derrubado. No entanto, mais uma vez, o destino acrescentaria crueldade e tragédia às provações anteriores. Um dia, enquanto se entretinham com as ceifas, não se aperceberam dos subtis sinais que alertavam para a desgraça. No fim da manhã, surgiu um estranho mas discreto ruído que se avolumou lentamente. Contudo, só já perto do sol posto, associaram a agitação em que andaram os estorninhos, durante boa parte da jornada, a algo incomum, diverso da rapina. Adivinharam a tragédia quando viram o cimo da pequena colina, que os separava de suas casa, cobrir-se de um imenso tapete negro. Este perigo, quase invisível aos sentidos e implacável, tomou-lhes as casas, os animais e os filhos indefesos que por lá ficaram.
O horror e o desgosto não mudou estas gentes... Fê-los mudar de ninho mas não mudou o que os unia. Em resposta à tragédia, também o seu sentimento se acrescentou. Escolheram um local mais seco e de terras menos dadas às formigas; aproximaram-se da serra, ficando a meio caminho entre a floresta e a ribeira e seus pântanos. Mais uma vez sobreviveram e, finalmente, foram mais longe. Criaram raizes naquele lugar e chegaram a ver uma aldeia crescente em gente de geração própria e vinda de terras alheias. Vinham de terras onde se ouviram histórias de um lugar de gentes santas que haviam vencido, com o seu amor e determinação, todos os espinhos que se podem esperar em domínios da lavoura e pastorícia.
Hoje, não merecerá mais o seu nome do que qualquer outro lugar do país. É uma aldeia vulgar, distinta, talvez, pela forma como concentra tantas particularidades do universo da ruralidade portuguesa. Poucas haverá que possam testemunhar tão variados aspectos da história do interior deste país. Poucas haverá que possam continuar a significar na história do interior deste país.
Não sei se és a minha terra, mas quero-te bem Benquerença.

Mem Martins, de 18 a 26 de Dezembro de 1995
(excerto de um texto publicado em 1996 no DN Jovem)

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janeiro 22, 2004

Primavera?

Ontem quando abrimos os estores estava um casal de pardais a namorar no parapeito. Era tanto amor que não se assustaram com os quatro olhos esbugalhados bem fixos neles, admirados com tanta ternura.
Poucos segundos depois aproximaram-se mais dois machos pretendentes e iniciou-se um zaragata de todo o tamanho com a pobre "pardala" a assistir.
Hoje vejo os primeiros pombos a arrulhar em pose cortesã. Volteios e revolteios de um macho de penas lustrosas em torno da imperturbável fêmea...

Será que os pássaros andam baralhados com as mimosas em flor? Vestiram algum casaco especial e não dão pelo frio?
Faz de conta que é primavera em Lisboa.

Posted by Rui at 10:10 AM | Comments (0) | TrackBack

janeiro 04, 2004

Excerto de uma viagem de combóio

Entre o Rossio e Benfica (linha de Sintra) aos soluços:

"(...) Volta-se a ouvir o pouca-terra.

«O que faço eu aqui?» pergunta Bruce Chatwin num livro aqui ao meu lado.

Vejo as cúpulas redondas e bicudas do reaparecido aqueduto como que nascendo da terra.

Ali fora há gente na rua a viver - no talho, na mercearia, a comprar frangos assados para o jantar...

«Herois do Bar» pisca o neon (...)"

Posted by Rui at 05:30 PM | Comments (4) | TrackBack

janeiro 02, 2004

Inventário

O Adufe esteve ontem fechado para inventário e hoje regressa como se fosse o primeiro dia.
Sobre o dia anterior agradeço as simpáticas referências do Leonel e do trio do Mata-Mouros. São pequenos nadas que dão algum incentivo para aqui vir conversar. Dão-nos a sensação de estar entre amigos. Fico também grato aos que me leram, que comentaram, que polemizaram comigo. Agradeço igualmente aos que põem "blogues" no ar.

A todos os que se dão a conhecer e fazem da palavra tijolo para tanta construção.

Entre ontem e hoje (e agora refiro-me realmente ao dia de ontem e ao dia de hoje) reaprendi a importância das palavras. A palavra é uma das raras formas, talvez a única, que transmite o essencial do que nos destingue de tudo o que nos rodeia. Através dela podemos ser absolutamente tudo o que alguma vez poderemos ser. Ela tem um poder avassalador e permanece com essa condição desde o primeiro dia. Ainda estavam longe os perigos agora bem reais da aniquilação instantânea de todo o planeta e já ela nos chamava para a responsabilidade, já ela punha à prova a nossa capacidade de lidar com um poder fascinante, com um poder cujo exercício exige permanentes cautelas.

Tenho uma amiga que me diz que por vezes anunciar é meio caminho para não fazer. Procuramos no anuncio uma resposta, um suporte, ouvimo-nos para tentar entender o que queremos, até onde estamos dispostos a ir. Tentamos perceber o que nos assusta, afastamos um fantasma, fugimos dele atirando-o pela boca fora.
Neste mudar de ano, ordenamos o caos listando afazeres, reflectindo, procurando renascer. Por aqui, pelo Adufe, anuncia-se pouco do que se propõe para o futuro, do mesmo modo que anuncio pouco para o que tenciono fazer no resto da minha vida. Anuncio apenas a vontade de continuar vivinho da silva procurando dar algum sentido a esta viagem que também passa pela blogoesfera.

Este blogue é também um diário de pequenas partes da minha vida. Digo-o porque já baralhei alguns leitores por não encontrarem um fio condutor, não verem o Adufe corresponder a uma expectativa que criaram. Não há linha editorial clara, não há um propósito bem definido. Este blogue continuará a servir como mais um espaço para deixarmos palavras para os outros e tantas vezes para nós próprios.
(publicado inicialmente hoje às 12h58m, agora com uma gralhas a menos)

Posted by Rui at 04:58 PM | Comments (9) | TrackBack

dezembro 28, 2003

Na pele do outro

Quando no dia 11 de Setembro de 2001 aconteceu, em Nova Iorque, o que todos sabemos e se começaram a ouvir os números das potenciais vítimas do terrorismo lembro-me de ter perguntado aos meus botões quantas pessoas conhecerei ao longo de toda a minha vida. Já não era a primeira vez que perante uma tragédia tentava encontrar uma qualquer unidade de medida base mais próxima do meu pequeno mundo que me permitisse ter uma melhor noção do que se passava, hierarquizar a desgraça, antever as suas consequências.

Quase de certeza que já alguém fez essa pergunta e até deve haver estudos sobre o assunto, imagino que seja um número útil de estimar para efeitos epidemiológicos ou para outro fim que não descortino.

Esta sexta-feira quando ouvi as notícias do sismo no Irão e, mais tarde, quando revi o filme "A Vida é Bela", a pergunta voltou a acompanhar-me, mas há ordens de grandeza, quer nasçam do terror dos homens ou de algum cataclismo natural, que não consigo conceber por mais perguntas que faça.

Por mais que queira não encontro paralelos no meu mundo pequeno que me permitam aproximar a tragédia, perceber o incompreensível, imaginar-me verdadeiramente na pelo do outro. Desconfio, contudo, que esse é o nosso maior desafio e a nossa maior esperança para podermos continuar esta espantosa viagem.

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dezembro 22, 2003

São voltas e voltas

Contra este Natal marchar, marchar.
Porque afinal Deus é grande...
Ainda que o terror espreite por onde menos se espera e a contradição nos assalte do alto do nosso auto-elogioso saber.
Mas será contraditório o caminho de defender coerentemente a crítica dos que foram os nossos próprios argumentos, procurar continuamente os nossos caminhos?
Tudo dito e escrito restar-nos-á a muito íntima e universal perplexidade; teremos a não menos premente e estimulante presença da maravilhosa estupefacção que nos acompanhará esperançosamente até ao último momento.

Posted by Rui at 11:13 AM | Comments (0) | TrackBack

dezembro 21, 2003

Amizade

Aos poucos vamos fazendo amigos.
O exemplo que hoje vos trago começa por uma rotina. Pelo cafezinho que lá se vai tomar ao final do almoço. Pelo refresco saboreado na pequena esplanada num dia de verão. Pela surpresa de um valente saco de amendoins e demais salgadinhos que nos é oferecido numa inesperada visita familiar distraidamente confessada. Pelo paralelo surpreendente na história passada de uma vida que se descobre em dois dedos de conversa...
Esta semana foi uma encomenda que se deixou à guarda no café, à falta das chaves de casa; o único sítio de confiança. Um serviço prestado com simpatia e voluntarismo, com poucas palavras, mas sem dúvida "de confiança".
Aos poucos vai nascendo uma amizade feita de pequenos nadas, enraizada na qualidade do íntimo de cada um, a única condição suficiente e necessária.
Mais pelo que se faz e pelo que se compreende em breves palavras do que por qualquer outro meio, sentesse um laço animador a nascer.
Hoje tivemos muito gosto em oferecer uma prenda, uma Alice no País das Maravilhas, à filha dos senhores do café. Um pequeno gesto, entregue com poucas palavras, dado e recebido com muito sentimento.
É tão fácil andar distraido e não perceber estes pequenos nadas, deixá-los passar ao nosso lado, perder a oportunidade de fazer um amigo.
O nosso maior desafio hoje, moços da cidade, é continuar a acreditar, alimentar uma sonda que por debaixo das nossas couraças consiga chegar ao outro permitindo-nos arriscar um bocadinho.
Bom Natal!

Posted by Rui at 12:39 AM | Comments (3) | TrackBack

dezembro 18, 2003

Lancia Oppidana

Pesquisei há pouco "Sortelha a velha" no Yahoo e para minha satisfação descobri este site que o Sr. Américo Valente (Página de entrada aqui) que me contou coisas que eu só adivinhava daquele castro ou póvoa situado no concelho de Penamacor entre o limite da Benquerença e do Vale da Senhora da Póvoa na Serra de Opa. De lá vê-se a outra, a mais conhecida Sortelha, a aldeia muito merecidamente integrada na rota das aldeias históricas do país.
Subi até ao castro de Sortelha a Velha há mais de 10 anos. Sei-o agora que este castro ou cidadela é apenas um, talvez o primeiro e mais pequeno de três que se encontram em toda a extensão da Serra de Opa. Sortelha a Velha o único que visitei tem a particularidade ficar num monte isolado (designado de Serra da Galeota). Digo-vos que do vale só um olho conhecedor consegue descobrir o pequeno muro que resta enquanto vestígio da ocupação romana e subsequente (de facto, agora que tenho a certeza de existirem outros, posso desde já dizer que do vale da Ribeira da Meimoa, é possível adivinhar uma outra construção no cume mais elevado da Serra de Opa).
No dito sítio de Sortelha a Velha, percebe-se pelas lajes e seus entalhes e disposição circular das pedras do muro que houve ali mais do que uma qualquer choça de pastor. Pelo que leio, a atendendo à fonte dos dados referido por Américo Valente datar de 1964 é bem provável que algum estudo arqueológico tenha sido feito. Mas temo que talvez um pouco tardiamente, pois segundo me contam muito poder-se-á ter perdido nas campanhas do trigo que levaram ao cume da serra a força do arado. Ou então talvez algum artefacto mais valioso tenha ido parar às mãos de algum operário em vagabundagem serrana descansando das minas de volfrâmio que por lá se exploraram nos idos anos 40.
Talvez ainda descubra a história que há (haverá?) desse lugar. Tra-la-ei aqui se tal acontecer. Para já recomendo o que nos oferece o Américo Valente citando Mário Saa – As Grandes Vias da Lusitânia – 1964 nesta biblioteca de trazer por casa que é a Internet.

Posted by Rui at 10:23 AM | Comments (2) | TrackBack

dezembro 17, 2003

Cacofonia I

O que é Pop? *

Can’ttouchthis!

Duas moedas da mesma face.

Sou caipira.
Às vezes tenho a sensação de que não vou chegar aos trinta.
Carefree. Don’t worry, be...
Just do it!
Can’ttouchthis!


Limites fixos só na estrada.
Let it be!
...paved with gold.

Life is life!

You might as well face it! You’re addicted...
Just one life!
Thou shall not be sad.

Por os cavalos à frente dos bois.

Estou aqui a reclamar pelo que o filho da puta deste governo está a fazer!
...I know we'll meet again some sunny day!
...ilumina a mina...
Não posso mais...
Une valse a mil temps...
... callienta el sol...
Si tu veux, je...
...I went wandering.
Quem conta um conto...
Estamos condenados a repetirmo-nos!
It’s been a hard days night...
O mundo, num sentido lato...
Seemed to last forever!
Find me somebody to...

Return to sender! Return to sender!
Mayday! Mayday!
Quando eu morrer...
Play the game!
Roger!
Anda moi!
Come a papa!
Stay put for the next episode!
Não nos venham pedir contas!
Game, set and match.
If you have any doubts...
Go straight ahead...
By the way that is pointed, it looks safely in the fareway!
Start speeding the news, I’m coming to stay...

Up in the hill...
Wise man said...
...are you really social?
Are you real...
Será que o louco deve ir na barca?

Fade out (termina ao som do efeito que finda o álbum Zooropa dos U2, a última imagem é a de um santo escaravelho esborrachado por um martelo de madeira).

* - Coligido, essencialmente, no ano de 1994. Dedicado à SPA (Sociedade Portuguesa de Autores). Começo já a imaginar as pesquisas no Google que aqui hão-de vir em busca da dita SPA... Perdoem-me.

Posted by Rui at 10:40 PM | Comments (0) | TrackBack

dezembro 12, 2003

(Da) Ajuda aos Mártires da Pátria - act.

Chegou tarde, cansada mas sorridente. O trabalho no escritório decorreu sem notícia de destaque além da tardia hora de saída. Aproxima-se o tempo de todas as urgências. Ainda que poucos saibam o que fazem, tudo tem de estar pronto para recomeçar de novo no primeiro dia do ano. O dia de hoje foi um preliminar, sem história, ou quase.

A rotina foi quebrada com o patrocínio da Carris – que, para quem não sabe, é uma empresa centenária que está actualmente sobre alçada do Estado e é responsável pelos transporte colectivo rodoviário no interior da Cidade de Lisboa.
A Carris, ou melhor, parte dos seus trabalhadores, protagonizaram hoje mais uma meia greve, ou um turno de greve, custa-me precisar. Pela enésima vez este ano, os amarelo-laranjas, campeões da poluição por motor quadrado, ficaram nas garagens no início da noite. Também, devido a isto chegou tarde, cansada e particularmente... sorridente.

A companhia tem por hábito sub-contratar outras empresas para garantir algumas poucas carreiras onde o transporte público é exclusivamente assegurado pela via rodoviária e, esta modesta iniciativa, provou-se hoje, provou ela hoje, acabou por se revelar um anti-stressante inesperado.
Imaginem um condutor de autocarros de grande turismo, habituado a viagens de longo curso, onde as distâncias se contam às centenas e a velocidade às dezenas de quilómetros, a percorrer as ruas de Lisboa à caça de paragens cor de laranja num itinerário que mal conhece...

A cada mupi mais alaranjado que encontrava na beira do caminho lá estava o condutor a fazer pisca para a direita em sinal de “vou encostar”. Noutras ocasiões, as paragens estavam tão disfarçadas que não havia outro remédio senão deixar os passageiros pasmados e ligeiramente indignados no semáforo avermelhado mais próximo... Mas a história não se fica por aqui.

Era tarde, estava cansada e pouco animada. Começou a simpatizar com o condutor e a gostar da gincana invulgar.
Desprevenidas, duas turistas francesas entraram no autocarro, mostraram o bilhete diário e sentaram-se conversando animadamente. Ficaram neste descanso por pouco tempo. Passados alguns instantes, o extraordinário motorista meteu conversa com a dupla, em bom francês. A coisa podia ter dado para o torto, mas não! As senhoras deliraram por encontrar um chauffer francófono. E patati, patatá, ficaram a saber das andanças e paranças do motorista internacional. Até se souberam vizinhas da comadre Joaquina no 12º bairro de Paris-não-sei-a-ver-o-quê.
Não contentes com tamanhas descobertas, ao fim de mais alguns minutos, convertiam a viagem banal, rotineira, amorfa, num autocarro alugado pela Carris, numa autêntica excursão em espírito carpe diem. Puseram quase toda a gente no autocarro a cantarolar as musicas da rádio que entretanto subira de tom.

Para compor ainda mais o cenário desta crónica, é preciso frisar, que, a cada paragem falhada, a cada novo abrir de portas, os pacientes candidatos a passageiros ouviam as cantilenas e as risadas bem humoradas, bem como, a voz bonacheirona do motorista que, lá de dentro, as interpelava animada e veementemente: “Entrem, entrem que esta carreira faz quase o mesmo caminho que o 107. E esse ainda está em greve. Venham comigo até à Paiva Couceiro que de lá apanham o especial.”. Uns entravam outros ficavam-se com um olhar espantado e o autocarro lá seguia embalado ao som de mais uma música intemporal cantada com vigor por alguns dos passageiros e o respectivo mestre de cerimónias.

Muitas inesperadas paragens depois, tarde, cansada, ela saiu do transporte trazendo um sonoro “Boa Noite” nos ouvidos e um simpático e muito personalizado aceno de despedida no olhar. Chegou-me aqui com um sorridente “Não sabes o que me aconteceu agora. Só visto que contado ninguém acredita!

Lisboa, 11 de Novembro de 2003

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dezembro 02, 2003

Figos secos com noz

Da última vez que fui à provícia rural fiquei feliz por ver que a nogueira havia pegado de estaca. Estava viçosa a infanta por entre raquíticas pereiras, pobres árvores descendentes de outras primevas que em tempo de Homens serviram de pretexto para a toponímia daquelas terras. Apoucando-se as peras, alindou-se o terreno dando-lhe um declive mais suave; reduziu-se a concorrência daninha e infestante de silvedos e de outras plantas rasteiras e regou-se o pequeno canteiro feito com duas sachadelas.

Ainda há-de demorar uns anos até dar nozes mas já me sabem melhor os figos secos que nos ofereceram duas pingo-mel que habitam lá perto. Uma dupla de figueiras imbatíveis na produção de tão saboroso fruto. Quase anseio por um deserto se tiver a certeza de um oásis cheio de figos maduros.

Hoje, na província urbana, os maduros, já secos, marcham com nozes de Trás-os-montes e marcham bem. Um, dois, esquerdo, direito, encolhe a barriga e segue pelo estreito!

02/12/2003

Posted by Rui at 09:57 PM | Comments (0) | TrackBack

Ao passar um navio

Hoje de manhã, ao acordar, soube via rádio que a EDP apurou que os portugueses andam a dormir pouco. Deitam-se à meia-noite e acordam às sete. Devo confessar que ainda estava na cama, meio endorminhado, quando dei comigo a pensar “Quem me dera ser português. Sempre dormia mais uma horita ou duas.” Ora aí está! Junta-se um ligeiro estado de inconsciência a uma pitadinha de estatística e descobre-se a pátria da cada um. Hoje de manhã, provaram-me por A + B que só sou português ao fim de semana.
Boa noite, nobre povo.

15/11/96

Posted by Rui at 07:02 PM | Comments (4) | TrackBack

dezembro 01, 2003

Lavado a 90º Celsius e enxuto ao sol

Descubra as diferenças entre este:
E assim fomos para a noite
Este:
Seco ao sol depois de lavado
e este:

“Então, vão para a noite?”
Respondemos com um sorriso e seguimos caminho apaixonados. Nesta rua, neste momento, somos turistas, talvez em Roma, em Oslo ou em Madrid. Seguimos caminho por entre estrelas, pendões e esferas luminosas que completam o ambiente natalício.

É a minha primeira noite ali. Não vejo ninguém à porta. Apenas a luz suave que se projecta pelas estreitas frestas horizontais denuncia a actividade nocturna no interior. Entramos e somos envolvidos por uma nuvem de fumo com um intenso odor adocicado. Encontramos uma sala ampla iluminada com dezenas de luzes brancas de várias tonalidades. Projectores iluminam suavemente o tecto alto, coberto com baixos relevos e frescos.

A música, que sempre nos acompanhara desde o momento em que entráramos, só agora nos atinge plenamente. Vozes poderosas enchem a sala projectadas por colunas estrategicamente dispostas que aproveitam na perfeição a acústica da sala.

Habituamo-nos ao fumo e percebemos que a sala está cheia, não diria apinhada mas cheia. Uns de pé, outros sentados, alguns cantam animadamente.
Ficamos sentados ao fundo a ouvir e a observar.

A música pára... Todos se levantam aos primeiros acordes de outro som que é debitado das paredes. O cheiro a incenso é agora menos sufocante. Este é o Primeiro Domingo do Advento. O padre saúda-nos e tu ouves a palavra de Deus.

E assim fomos para a noite.

Lisboa, 1 de Dezembro de 2003

Posted by Rui at 02:20 AM | Comments (4) | TrackBack

Seco ao sol depois de lavado

E assim fomos para a noite

“Então, vão para a noite?”
Respondemos com um sorriso e seguimos caminho encarnando o casal de amantes apaixonados que não deixámos de ser. Cruzamo-nos com grupos animados com coisas para dizer. Nesta rua, neste momento, somos turistas como eles, talvez estejamos em Roma, em Oslo ou em Madrid. Chegamo-nos mais um ao outro e seguimos caminho por entre estrelas, pendões e esferas luminosas que completam o ambiente natalício.

É a minha primeira noite ali. É o meu amor que me conduz. Não vejo ninguém à porta mas isso parece ser normal. De fora apenas a luz suave que se projecta pelas estreitas frestas horizontais denuncia a actividade nocturna no interior. Entramos e somos de imediato envolvidos por uma nuvem de fumo com um intenso odor adocicado. Encontramos uma sala ampla iluminada com dezenas de luzes brancas de várias tonalidades. Adivinhamos também projectores que iluminam suavemente o tecto alto, coberto com baixos relevos e frescos. Toda a sala tem uma decoração requintada e completamente insuspeita do exterior. Mesmo ela que a conhece parece arrebatada pelo que vê.

A música, que sempre nos acompanhara desde o momento em que entráramos, só agora, após o primeiro confronto visual, nos atinge plenamente. Vozes poderosas enchem a sala projectadas por colunas estrategicamente dispostas que aproveitam na perfeição a acústica da sala.

Habituamo-nos ao fumo e percebemos que a sala está cheia, não diria apinhada mas cheia. Uns de pé, outros sentados, parecem encantados a ouvir. Alguns acompanham a música cantando animadamente.
Ficamos sentados ao fundo a ouvir e a observar. Reparo que as paredes estão também cobertas de baixos relevos, de pinturas, de panos coloridos e de esculturas embutidas em nichos, cada qual com a sua iluminação dedicada e sabiamente ajustada.

A música pára por instantes... Todos se levantam aos primeiros acordes deste outro som que, mais alto, é debitado das paredes. O cheiro a incenso é agora menos sufocante. Este é o Primeiro Domingo do Advento. O padre saúda-nos. A música cessa e ela ouve a palavra de Deus.
E assim fomos para a noite.

Lisboa, 1 de Dezembro de 2003

Posted by Rui at 01:59 AM | Comments (0) | TrackBack

E assim fomos para a noite (Rev.)

“Então, vão para a noite?”
Respondemos com um sorriso e seguimos caminho, lado a lado, em direcção ao metro, encarnando o casal de amantes apaixonados que não deixámos de ser.

Ressurgimos à superfície na zona nobre da capital. Na noite fresca, que não fria, encontramos ainda muitas pessoas. Cruzamo-nos com potenciais portugueses que falam estranhas línguas entre si. Grupos animados com coisas para dizer. Nesta rua, neste momento, somos turistas como eles, talvez estejamos em Roma, em Oslo ou em Madrid. Chegamo-nos mais um ao outro e seguimos caminho por entre estrelas, pendões e esferas luminosas que completam o ambiente natalício. Ainda haveríamos de ter nas mãos A Christmas Carol nesta noite, «Marley was dead, to begin with.», mas por ora: “Então, vão para a noite?”

É a minha primeira noite ali, é ela, o meu amor, que me conduz. Não vejo ninguém à porta mas isso parece ser normal. De fora apenas a luz suave que se projecta pelas estreitas frestas horizontais, construídas por cima de uma porta monumental, denuncia a actividade nocturna no interior. Entramos com um simples empurrar de porta e somos de imediato envolvidos por uma nuvem de fumo com um intenso odor adocicado. Encontramos uma sala ampla iluminada com dezenas de luzes brancas de várias tonalidades. Adivinhamos também projectores que iluminam suavemente o tecto alto, coberto com baixos relevos e frescos. Toda a sala tem uma decoração requintada e completamente insuspeita do exterior. Estamos os dois espantados com o cenário; mesmo ela que o conhece parece arrebatada pelo que vê. Imagino que este é um efeito que seguramente nunca experimentaríamos durante o dia.

A música, que sempre nos acompanhara desde o momento em que entráramos, só agora, após o primeiro confronto visual, nos atinge plenamente. Vozes poderosas enchem a sala projectadas por colunas estrategicamente dispostas que aproveitam na perfeição a acústica soberba da sala.

Habituamo-nos ao fumo e percebemos que a sala está cheia, não diria apinhada mas cheia. Uns de pé, outros sentados, parecem encantados a ouvir. Alguns acompanham a música cantando animadamente.
Preciso habituar-me ao ambiente, ela compreende e ficamos sentados ao fundo a ouvir e a observar.
Reparo que as paredes estão também cobertas de baixos relevos, de pinturas, de panos coloridos e de esculturas embutidas em nichos, cada qual com a sua iluminação dedicada e sabiamente ajustada.
A música pára por instantes... Todos se levantam aos primeiros acordes deste outro som que, mais alto, é debitado das paredes.

O cheiro a incenso é agora menos sufocante e uma pequena folha que encontro no banco em que nos sentámos esclarece que este é o Primeiro Domingo do Advento. A homilia versará, entre outros, sobre a Fé, a Esperança e a Caridade. O padre saúda-nos. A música cessa e ela ouve a palavra de Deus. Assim seja.
E assim fomos para a noite.

Lisboa, 30 de Novembro de 2003

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novembro 22, 2003

Qual terá sido a primeira pergunta?

Quando não encontrou resposta, quando perguntou e perguntou e não obteve resposta terá surgido ao Homem a ideia de Deus.
O tempo passou e para novas e velhas questões o Homem foi encontrando algumas respostas. A ideia de Deus deixou de ser indispensável, foi possível para alguns Homens relativizarem-na. Foi possível viver sem ter todas as respostas, insistindo nas perguntas.
Nada disto foi linear, pode nem ter sido assim, sabemos apenas que houve e há um caminho doloros entre estas poucas palavras.
Atrevo-me a pensar, cá para mim, que há apenas um caminho para lidar com elas.
Seja bem vindo quem vier por bem. A paz esteja connosco.

Posted by Rui at 11:55 PM | Comments (0) | TrackBack

O Início do Homem

O início do Homem terá muito provavelmente começado quando se formulou a primeira pergunta. O fim, para muitos homens, tem chegado quando insistem em repetir esse momento.
Muitos morreram hoje de fome, de doença... Quantos homens terão morrido hoje por terem feito a pergunta errada no momento errado, no sítio errado? Quantos terão perdido o emprego ou as aspirações na carreira? Quantos terão fugido do seu país? Quantos terão renegado a pergunta para poderem viver? Quantos terão encontrado uma resposta? Quantos terão compreendido?
O fim do Homem virá muito provavelmente quando houver Homens a menos no lugar certo, no momento certo, com a pergunta certa à procura de uma resposta.

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novembro 16, 2003

3. Dário Sintra

Os Três Dês e a Nota Final (conclusão - série integral em anexo)

3. Dário Sintra

Linha de Sintra, comboio para Lisboa, onze e picos da manhã.
Abrandava o combóio, já trintão e em fim de carreira, ao chegar à gare do Cacém. Lá fora grupinhos de dez, onze pessoas concentravam-se junto às várias portas. No interior eram ainda mais os lugares vazios que ocupados estando nestes últimos muitos estudantes que sairiam já ali, em Benfica, em Campolide ou em Lisboa.
Dário, que entrara em Mem Martins, ajeitou as folhas de apontamentos que viera namoriscando e colocou-as numa curiosa Bolsa do ISEG decorada com uns garridos E’s que se evidenciavam do fundo preto da dita. O nosso estudante aproveita então para observar os seus novos companheiros de banco que acabavam de se sentar, mas antes de ter passado os olhos pelos cinco, o novo vizinho do lugar à sua frente prende-lhe de imediato a atenção. O homem com 60, 70 anos não parava de emitir consecutivamente sons produzidos por um estranho ritual entre os lábios, as gengivas, os dentes, a língua, o nariz e os pulmões! Após o primeiro choque, Dário troca finalmente de olhar com os outros passageiros de banco que, contudo, se revelam já habituados àquela festa a que, por certo, haviam assistido de antemão enquanto esperavam na gare. Ainda assim, uma rapariga que se sentara ao lado do “músico” franzia periodicamente o sobrolho sempre que algum som mais estridente era emitido. Olhou para o Dário e apercebendo-se de semelhante reacção encolheu os ombros e sorriu, este, ainda não rendido à orquestração, fez mais uma careta de convicta desaprovação fiando-se no constrangimento que o velhote pudesse sentir quando se apercebesse que estava a ser descaradamente observado. Resultado: a situação permaneceu e alguns segundos depois foi substituída por uma variação mais coordenada e irritante.
Chegados a Queluz o homem levantou-se, calou-se... e depressa teve saudades do arranjo musical pois passados uns escasso instantes prosseguiu com a melodia até sair do combóio. Com ele saiu também a rapariga e ainda os outros ocupantes do banco. Quase automaticamente eis que todo o banco se enche de novo.

Para a nova história - ou será estória? - interessa apenas o substituto do músico que é nada mais nada menos que o jornal “O Bola” com pernas e braços (ou então alguém completamente enfronhado no jornal que só por instinto deu com o lugar e não se sentou no chão ou ao colo de alguém); interessam ainda duas raparigas, amigas, que entusiasticamente falam de um festival paroquial de música. Ora ouçam...
- Ah Tita! Este ano as canções foram o máximo!
- Sim também acho - respondeu a que se sentara ao lado do Dário que, entretanto, olhava fixamente um ponto imaginário que passava a alta velocidade pela janela a que se encostara.
- Mas Mí, também houve duas horríveis, foram boas músicas mas as vozes eram simplesmente horríveis! Então e a da Cila!? Um pavor!
- E a da Lolinhas?... a namorada do Dado, Tita!
- Ah. Siiiim!
- A melodia até ‘tava gira, mas a letra “...mortos de olhos no infinito, crianças oprimidas...” que horror!
- Oh Mí, mas essa foi no ano passado!
- Pois é que coisa! Olha para o ano já não posso ser do juri. A Pita mais o Cristas convidaram-me para compor a música e se calhar até vou tocar.
- Que bom, mas olha, tudo menos pandeiretas como as do Chininho. Até fiquei a zunir.
-Hi, Hi! Olha estão a pensar tocar aquele... aquele feito de pele que se toca com as mãos, mas não é um tambor...como é que se chama? - O leitor de “ A Bola” baixou o jornal e disse:
- Pandeireta?
- Não! Que disparate!
- Adufe?! -diz o Dário, quase involuntariamente, ainda olhando fixamente um ponto imaginário que passava a alta velocidade pela janela a que se havia encostado.
- Isso, o adufe!
- Ããh...pois...o adufu...pois...não conheço Mí...
Desde este dia que Dário, sujeito de alma sensível e facilmente impressionável, pode ser encontrado a vender a revista Cais na vã esperança de reunir dinheiro para comprar um Walkman bem potente, ou um Carro que ande, ou um Helicóptero que voe para assim poder voltar aos seus estudos em Lisboa.

Qualquer semelhança entre esta história e suas personagens com factos e pessoas reais não é mera coincidência mas para lá caminha.

Fim

MC White - 1994

[a nota final, em anexo, data também de 1994 ano em que me iniciara num cursor superior. Ano marcado por grandes manisfestações estudantis contra as propinas... A vaga anterior à actual, chamemos-lhe assim. Manuela Ferreira Leite era Ministra da Educação.]

Os Três Dês e a Nota Final

1. Diogo Campos

Por vastas planícies de cores suaves, com uma brisa morna, perfumada de odores maduros, surgiu aos olhos observadores de um “desconhecido” a silhueta de um qualquer felino que se passeava elegantemente umas dezenas de metros à sua frente. O animal caminhava lentamente não se distraindo por muito tempo da extensa linha do horizonte. Sem surpresa deparou com o “desconhecido” não lhe dedicando importância além de uns... cinco segundos, foi assim: primeiro olhou para o indíviduo, depois parou, olhou em volta, voltou a olhar desta vez bem de frente enquanto levantava a cabeça como que farejando o ar e, da forma serena como tinha parado, retomou o passo.
Um barulho no restolho em volta do “desconhecido” alertou-o. Não podendo ser grande bicho que por ali andava sem que o restolho o descobrisse, resolveu espreitar... E logo viu sair velozmente um empertigado lagartão que, indignado com a indiscrição do sujeito, mantinha a cabeça bem elevada enquanto se deslocava convictamente para o cimo de um pequeno penedo, ali ao lado, coroando-se com a luz que lá chegava.
Diogo, o nosso desconhecido observador, mirou o céu que trazia o sol já perto do horizonte e pôs-se a caminho do monte Trigueiro, destino da sua missão. Descendo por uma pequena vereda logo regressou à servidão de que se havia desviado há pouco, tendo-se-lhe juntado mais adiante o pequeno felino que sempre elegentemente, agitando a sua cauda cinzenta listrada de preto bem vivo, seguia um pouco à frente, olhando periodicamente para trás.
Com o decorrer das passadas Diogo notou que a pardalada se ia agitando em busca de repouso nas árvores e arbustos que eram sem dúvida mais numerosos em volta do caminho que no resto da planície.
Mais uns passos, uma ligeira subida e ali estava ele no Monte Trigueiro. Deu duas assobiadelas gritou “Carteiro!” e de pronto surgiu o Senhor Doutor Alfredo que simpaticamente, como sempre, o convidou a repousar no alpendre enquanto Dona Joaquina lhe servia um copo de água fresca. Bebeu a água e feita a entrega não se deteve dirigindo-se ao outro extremo do monte onde à porta da loja dos ferros estava já o Ti Fernando com a sua “...consertada e afinada...” bicicleta montesa.
Agradeceu a Ti Fernando e, desculpando-se com a hora, partiu para casa com o pequeno felino na agora completamente vazia sacola de carteiro. Uma boa refeição esperava-os.

MC White - Setembro de 1993

2. David Urbano

Metropolitano de Lisboa, três e meia da tarde. Lá fora, nas estações, a agitação era pouca, as caras sucediam-se dispersas pelas gares, os olhos raramente se desprendiam do infinito para procurar algo, e menos ainda para procurar outros olhos. Quando por acaso esse milagre acontecia, quando por acaso os olhares se cruzavam, um milagre ainda mais raro poderia então ocorrer, poderiam partilhar-se perguntas, emoções, sentimentos, histórias do dia que se vivia ou de toda uma vida. Tudo durante poucas fracções de segundo.
Um pouco como um jogador de roleta (russa), David arriscava-se nesse jogo perigoso de se mostrar aos outros, sem saber se o que veria seria uma imagem cautelosamente distorcida ou simplesmente escondida atrás de um espelho impenetrável; sem saber se a imagem seria enfeitiçante ou surprendentemente surprendente...David jogava, certo que nunca poderia antever até que ponto se expunha. À sua maneira achava-se um cruzado, um combatente pacífico em busca da valiosa arca escondida. Alguém que só pilharia se movido por perniciosa ingenuidade, imperceptível egoismo ou puro mau jeito.
Não vos digo qual será a sua sorte, sei apenas que pilhará muitas arcas, a muita gente.

MC White - Março de 1995

3. Dário Sintra

Linha de Sintra, comboio para Lisboa, onze e picos da manhã.
Abrandava o combóio, já trintão e em fim de carreira, ao chegar à gare do Cacém. Lá fora grupinhos de dez, onze pessoas concentravam-se junto às várias portas. No interior eram ainda mais os lugares vazios que ocupados estando nestes últimos muitos estudantes que sairiam já ali, em Benfica, em Campolide ou em Lisboa.
Dário, que entrara em Mem Martins, ajeitou as folhas de apontamentos que viera namoriscando e colocou-as numa curiosa Bolsa do ISEG decorada com uns garridos E’s que se evidenciavam do fundo preto do dita. O nosso estudante aproveita então para observar os seus novos companheiros de banco que acabavam de se sentar, mas antes de ter passado os olhos pelos cinco, o novo vizinho do lugar à sua frente prende-lhe de imediato a atenção. O homem com 60, 70 anos não parava de emitir consecutivamente sons produzidos por um estranho ritual entre os lábios, as gengivas, os dentes, a língua, o nariz e os pulmões! Após o primeiro choque, Dário troca finalmente de olhar com os outros passageiros de banco que, contudo, se revelam já habituados àquela festa a que, por certo, haviam assistido de antemão enquanto esperavam na gare. Ainda assim, uma rapariga que se sentara ao lado do “músico” franzia periodicamente o sobrolho sempre que algum som mais estridente era emitido. Olhou para o Dário e apercebendo-se de semelhante reacção encolheu os ombros e sorriu, este, ainda não rendido à orquestração, fez mais uma careta de convicta desaprovação fiando-se no constrangimento que o velhote pudesse sentir quando se apercebesse que estava a ser descaradamente observado. Resultado: a situação permaneceu e alguns segundos depois foi substituída por uma variação mais coordenada e irritante.
Chegados a Queluz o homem levantou-se, calou-se... e depressa teve saudades do arranjo musical pois passados uns escasso instantes prosseguiu com a melodia até sair do combóio. Com ele saiu também a rapariga e ainda os outros ocupantes do banco. Quase automaticamente eis que todo o banco se enche de novo.

Para a nova história - ou será estória? - interessa apenas o substituto do músico que é nada mais nada menos que o jornal “O Bola” com pernas e braços (ou então alguém completamente enfronhado no jornal que só por instinto deu com o lugar e não se sentou no chão ou ao colo de alguém); interessam ainda duas raparigas, amigas, que entusiasticamente falam de um festival paroquial de música. Ora ouçam...
- Ah Tita! Este ano as canções foram o máximo!
- Sim também acho - respondeu a que se sentara ao lado do Dário que, entretanto, olhava fixamente um ponto imaginário que passava a alta velocidade pela janela a que se encostara.
- Mas Mí, também houve duas horríveis, foram boas músicas mas as vozes eram simplesmente horríveis! Então e a da Cila!? Um pavor!
- E a da Lolinhas?... a namorada do Dado, Tita!
- Ah. Siiiim!
- A melodia até ‘tava gira, mas a letra “...mortos de olhos no infinito, crianças oprimidas...” que horror!
- Oh Mí, mas essa foi no ano passado!
- Pois é que coisa! Olha para o ano já não posso ser do juri. A Pita mais o Cristas convidaram-me para compor a música e se calhar até vou tocar.
- Que bom, mas olha, tudo menos pandeiretas como as do Chininho. Até fiquei a zunir.
-Hi, Hi! Olha estão a pensar tocar aquele... aquele feito de pele que se toca com as mãos, mas não é um tambor...como é que se chama? - O leitor de “ A Bola” baixou o jornal e disse:
- Pandeireta?
- Não! Que disparate!
- Adufe?! -diz o Dário, quase involuntariamente, ainda olhando fixamente um ponto imaginário que passava a alta velocidade pela janela a que se havia encostado.
- Isso, o adufe!
- Ããh...pois...o adufu...pois...não conheço Mí...
Desde este dia que Dário, sujeito de alma sensível e facilmente impressionável, pode ser encontrado a vender a revista Cais na vã esperança de reunir dinheiro para comprar um Walkman bem potente, ou um Carro que ande, ou um Helicóptero que voe para assim poder voltar aos seus estudos em Lisboa.

Qualquer semelhança entre esta história e suas personagens com factos e pessoas reais não é mera coincidência mas para lá caminha.

MC White - 1994

Nota Final
Despeço-me fazendo votos que os censores oficiais dos SAS-UTL e do respectivo ministério da tutela não encontrem nas minhas palavras motivo de exercício das suas dignissimas funções pedagogico-educativas. [Havia poucos dias que andara fugindo à frente dos cassetetes do Corpo de Intervenção algures na Rua de São Bento].
Viva a senhora doutora Manuela Ferreira Leite! E para a ministra não hánadanadanada? TUDO! ÉFEÉRREÁÁ..... NOVEMBRO is looking at you kid!

Já agora, cá para nós que ninguém nos lê, ó Manela - posso tratá-la por Sra. Dra. Manela não posso?... Prontos! Ouvi dizer que há aí uma faculdade de economia muita boa !... Sim! Fica ali pró pé da Rua de Campolide, vê-se do combóio!... Ali bem ao pé do futuro Windy Couple Boulevard! Disseram-me que têm vagas para docentes com experiência governativa,... isso! Têm vaga pra todos, pró Edu, pró Silva... O Alfredo de Sousa?! Então não sabe que ele... Pois é finou-se... Ah, já se lembra? O Silva chorou muito nesse dia? Coitado, faço ideia. Mas pronto não se esqueça do que eu lhe disse tá bem? É uma carreira excelente, muito prestigiante e bem paga. Pronto... Para si também. Adeuzinho. Ora essa... Sempre às ordens. Vivó PPD-PSD!... Como? Só PSD?! Mas o nosso presidente... não! O Santana diz isso!... Prontos 'tá bem, como queira. Adeus, com licença, sim... AH! Tá lá! Só mais uma coisa, se vir o Nandinho Nogueira dê-lhe os meus cumprimentos e diga-lhe que está muito bem no cartaz! Está melhor do que o do Toní Guto! Aqueles tons azuis e brancos no Background estilo folheto das Testemunhas de Jeová está o máximo! Não desfazendo nas testemunhas naturalmente! Tá bem?... Pronto. Muito obrigado. Cumprimentos à família.
Autor identificado

Posted by Rui at 11:18 PM | Comments (0) | TrackBack

2. David Urbano

Os Três Dês e a Nota Final (continuação)
2. David Urbano

Metropolitano de Lisboa, três e meia da tarde. Lá fora, nas estações, a agitação era pouca, as caras sucediam-se dispersas pelas gares, os olhos raramente se desprendiam do infinito para procurar algo, e menos ainda para procurar outros olhos. Quando por acaso esse milagre acontecia, quando por acaso os olhares se cruzavam, um milagre ainda mais raro poderia então ocorrer, poderiam partilhar-se perguntas, emoções, sentimentos, histórias do dia que se vivia ou de toda uma vida. Tudo durante poucas fracções de segundo.
Um pouco como um jogador de roleta (russa), David arriscava-se nesse jogo perigoso de se mostrar aos outros, sem saber se o que veria seria uma imagem cautelosamente distorcida ou simplesmente escondida atrás de um espelho impenetrável; sem saber se a imagem seria enfeitiçante ou surprendentemente surprendente...David jogava, certo que nunca poderia antever até que ponto se expunha. À sua maneira achava-se um cruzado, um combatente pacífico em busca da valiosa arca escondida. Alguém que só pilharia se movido por perniciosa ingenuidade, imperceptível egoismo ou puro mau jeito.
Não vos digo qual será a sua sorte, sei apenas que pilhará muitas arcas, a muita gente.

MC White - Março de 1995

(1º Episódio aqui falta editar: 3º Dário Sintra e a Nota Final)

Posted by Rui at 12:40 PM | Comments (0) | TrackBack

Os três D's (De um Proto-blogue com 10! anos)

Os Três Dês e a Nota Final
1. Diogo Campos

Por vastas planícies de cores suaves, com uma brisa morna, perfumada de odores maduros, surgiu aos olhos observadores de um “desconhecido” a silhueta de um qualquer felino que se passeava elegantemente umas dezenas de metros à sua frente. O animal caminhava lentamente não se distraindo por muito tempo da extensa linha do horizonte. Sem surpresa deparou com o “desconhecido” não lhe dedicando importância além de uns... cinco segundos, foi assim: primeiro olhou para o indivíduo, depois parou, olhou em volta, voltou a olhar desta vez bem de frente enquanto levantava a cabeça como que farejando o ar e, da forma serena como tinha parado, retomou o passo. Deixemos o felino em paz por uns instantes e concentremo-nos no "desconhecido".
Um barulho no restolho em volta do “desconhecido” alertou-o. Não podendo ser grande bicho que por ali andava sem que o restolho o descobrisse, resolveu espreitar... E logo viu sair velozmente um empertigado lagartão que, indignado com a indiscrição do sujeito, mantinha a cabeça bem elevada enquanto se deslocava convictamente para o cimo de um pequeno penedo, ali ao lado, coroando-se com a luz que lá chegava.
Diogo, o nosso desconhecido observador, mirou o céu que trazia o sol já perto do horizonte e pôs-se a caminho do monte Trigueiro, destino da sua missão.
Descendo por uma pequena vereda logo regressou à servidão de que se havia desviado há pouco, tendo-se-lhe juntado mais adiante o pequeno felino que sempre elegantemente, agitando a sua cauda cinzenta entremeada de pretos e brancos bem vivos, seguia um pouco à frente, olhando periodicamente para trás.
Com o decorrer das passadas, Diogo notou que a pardalada se ia agitando em busca de repouso nas árvores e arbustos que eram sem dúvida mais numerosos em volta do caminho que no resto da planície.
Mais uns passos, uma ligeira subida e ali estava ele no Monte Trigueiro. Deu duas assobiadelas, gritou “Carteiro!” e de pronto surgiu o Senhor Doutor Alfredo que simpaticamente, como sempre, o convidou a repousar no alpendre enquanto Dona Joaquina lhe servia um copo de água fresca. Bebeu a água e feita a entrega não se deteve dirigindo-se ao outro extremo do monte onde à porta da loja dos ferros estava já o Ti Fernando com a sua “...consertada e afinada...” bicicleta montesa.
Agradeceu a Ti Fernando e, desculpando-se com a hora, partiu para casa com o pequeno felino na agora completamente vazia sacola de carteiro. Uma boa refeição esperava-os.

MC White - Setembro de 1993
(Continua com:
2. David Urbano
3. Dário Sintra e a Nota Final que provará que 10 anos depois está quase tudo no mesmo sítio, moscas inclusive)

Posted by Rui at 01:40 AM | Comments (2) | TrackBack

Falta de respeito

Eu tenho alguma falta de respeito pelos leitores. Só assim se explica que escreva directamente aqui, muitas vezes sem reler ou rever eventuais erros...
Tento uma desculpa: se me levar demasiado a sério, se vos levar demasiado a sério, metade do que aqui escrevo nunca faria o percurso das sinapses do cérebro aos nervos que controlam os dedos da mão. Mal ou bem prefiro ir escrevendo, publicando e, depois de ver a "impressão", ir corrigindo ou mesmo apagando.
Se a explicação não vos satisfaz... Bem, afinal a pergunta não é real, foi apenas uma indignação do leitor imaginário para quem escrevo estas e todas as linhas. Por isso é melhor ficar-me por um "Vai-te deitar malandro!"

Posted by Rui at 01:00 AM | Comments (1) | TrackBack

Au clair de la lune

Neste típico dia de tempestade um inesperado luar banhava o mar da palha há pouco.
Visto de outro lado pareceria sinistro, compondo na perfeição um postal nocturno de Outono: árvores rangendo, estranhos objectos vagueando pelo ar e aquela luz coada que polvinhava de reflexos metálicos as faces húmidas da cidade... Mas visto de cima da ponte 25 de Abril era sublime aquela luz.

Deve estar quase a amanhecer no Iraque.

Posted by Rui at 12:49 AM | Comments (1) | TrackBack

novembro 14, 2003

Eyes Only

Lá fora algum desgraçado bozina desalmadamente entalado pelo avanço do estacionamento em segunda fila.
Mais em cima o céu mostra-se em tons propícios a receber de prenda expressões caracterizadoras que envolvem comparações com metais pesados. Ao virar da esquina o Cinema Londres aperalta-se para reabrir segunda-feira com cara lavada.
Do parapeito do terraço do hotel ninguém espreita curioso o horizonte de Lisboa, ou ouve o lamento do automóvel.
A menos de meio metro da cara o INE apela ao tio patinhas que há em nós com a palavra mágica: GRÁTIS!

Posted by Rui at 04:20 PM | Comments (0) | TrackBack

novembro 05, 2003

As Medidas do Tempo (rev.)

“Cruz em monte, cruz em fonte
nunca o diabo comigo se encontre.
Nem de noite, nem de dia,
nem às horas do meio-dia.”

Pai Nosso Pequenino

Benquerença, Dezembro de 1996

Nunca dei com o meu relógio de acordo com o da torre da igreja beirã: hoje o da torre leva seis minutos de adianto. O desfasamento entre a precisão do micro-segundo do meu relógio de pulso e o mecanismo não electrónico do relógio da paróquia vem lembrar, todas as meias horas, a dimensão temporal que impera no interior do país. Uma dimensão tal que em dois dias consegue a proeza de pôr um citadino experimentado sem saber onde param as segundas, terças e demais feiras da semana. Cá na terra, já 1996 vai bem adiantado, há, ainda e só, dois dias na semana: o domingo e os outros.

«O trânsito estará condiciondado entre as 15 e as 17 horas no sentido Centro Cultural de Belém - Avenidas Novas e também entre...»; o que se ouve é a ironia do relógio da torre sobre a emissora alienígena que se estendeu à raia do país. Bateu o meio-dia. É domingo.
Para trás ficaram aulas, trabalho, a rotina das sextas-feiras e ficaram já quatro sacas e meia de azeitona à espera do lagar. Entretanto: partiram-se dois banços das escadas quase centenárias; discutiu-se Deus e a nova equipa do Sporting entre os ramos mais altos de uma oliveira; trincaram-se sardinhas fritas partilhadas com o cachorro dos vizinhos do torrão ao lado e passou-se uma noite rara de lua, estrelas e lareira reanimadora, rematada por um sono profundo.

Enquanto vos escrevo esta, boa parte da minha família peca. O retiro dedicado à apanha da azeitona é curto, demasiado curto para dar conta de uma mão cheia de galegas, outra de cordovil e ainda outra de vermelhal e mais algumas carrascas. O dilema está em aproveitar o domingo e conseguir acabar o serviço ou não trabalhar ao domingo e partir para a cidade com menos alguns litros de azeite em conta e menos uma falta grave à religião.
Entre a geração temente a Deus, a que diz que teme e se balda e a que não teme e despreza, chegou-se ao compromisso pragmático de trabalhar meio domingo às escondidas das bocas do povo.
Hoje de manhã iniciou-se, então, uma operação «stealth» de cujo resultado teremos novas durante a semana pela boca (ou com sorte, pelo silêncio) das beatas da aldeia.

Estas peripécias lembram-me um outro dia no campo, durante uma descamisa ao luar, há imenso tempo; talvez até já conheçam a estória:
- Filho, estás a ver aquelas manchas negras na lua? Se reparares bem descobres lá a forma de um homem com um volume às costas. Vês? Ali.
- Ah...
- Aquele homem foi castigado por Deus. Era muito ganancioso e, embora se dissesse temente a Deus, pecava todos os domingos, pois, na avidez de ganhar mais uns patacos, enquanto as outras pessoas iam à missa e passavam o dia com a família, ele ia trabalhar para o campo. Castigando a sua ganância Deus condenou-o a carregar uma moreia de silvas para todo o sempre, sem destino, para que redimisse os seus pecados. E para que todos soubessem do seu pecado colocou-o lá em cima, no lugar mais alto e visível, no meio da lua branca. Vês?
- Pai... Eu pensava que aquela mancha era um olho e aquela ali ao lado era outro olho e a outra mais em baixo, meio de lado, era uma boca torcida. Pensava que a lua se ria...

Posted by Rui at 10:13 PM | Comments (1) | TrackBack

novembro 04, 2003

A Azeitona

Quem nesta esfera já algum dia apanhou azeitonas?
Quem já andou discutindo o tudo e o nada empinado em escadas de madeira entre as copas de uma generosa oliveira?

Amadureceu cedo a azeitona este ano em boa parte do país. Num ano normal ainda se andaria descansadamente a apanhar para a conserva...
Seja com máquinas que abanam as oliveiras da CEE (pequenas e certinhas, prontas para a recolha e tratamento mecanizado e para a exploração intensiva) ou à moda tradicional (chegam a ser milenares as oliveiras "tradicionais"), varejando no Alentejo ou depenicando nas Beiras e em Trás os Montes, está a chegar a altura da "apanha".

Amanhã regressarei às azeitonas se não estiver com os azeites!
Fiquem bem!

Posted by Rui at 11:06 PM | Comments (2) | TrackBack

Ecos de um país distante

Remexendo os restos de um proto-blogue desencantei estas história de cem palavras:

I

Colher

Não é colher é ser-se colhido.
Manhã cedo há a procura de um comboio. Segue-se viagem como ontem até que um dia o comboio pára onde não deveria: está vermelho o sinal.
«Senhores passageiros a circulação regista atraso. Foi colhido um indivíduo entre Queluz e Massamá. Pelo facto pedimos desculpa.»
À minha frente no comboio alguém pergunta se estava maduro, o indivíduo; ao meu lado pragueja-se pelo atraso; nos fones, aos meus ouvidos, o agricultor diz que a chuva em Junho já fez a colheita das cerejas.
Quando o comboio passa onde foi colhido um indivíduo, também faz pouca-terra?


II

Praia sem Headphones

Joãozinho! Não tire o chapéu!
Xaninha deixe o cão do senhor!
Ó meu estupor, se me acertas outra vez com essa bola!...
Joãozinho não vá para a água que molha a camisola!
JoJó! Você já viu que está todo cheio de areia?
Cajó! Sofia! Venham comer!
Mário Augusto, olhe que apanha!
Nelinho, não há gelado! Acabaste de comer um papo-seco!
Gustavo! Desenterra já o teu irmão!! Onde é que está o Sinopi?
Mãe! Olha o balão que apanhámos na água!
Chico! Deixa a lambisgoia e vai acudir ao teu filho que se picou no paaaixe!

Posted by Rui at 10:06 PM | Comments (0) | TrackBack

outubro 30, 2003

A Memória

Andei vagueando no sotão do meu computador.
É lá que recupero pedaços da minha memória secreta que aos poucos aqui se publica.
Sei que preciso alimentar a minha memória secreta (espero que não à custa do Adufe) mas hoje recordo-me há oito anos num pequeno proto post de que ainda gosto.
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Sob o signo do simbólico
Auscultadores sem fios
A Dupla Vida de Verorica Uma vez chorei ao ver um filme. Lembro-me de querer chorar convulsivamente. Vi o filme sozinho, na minha televisão.
No dia seguinte disse a um amigo que me tinha apaixonado por uma actriz. Hoje, sei que me havia apaixonado pela história e pelo filme. Senti-me feliz e incrivelmente livre pela surpresa das minhas sensações. Amei quem soube contar a história. Recontou-a e voltei a chorar. Às vezes quero ser a árvore viva da última cena.
«O dia 23 de Novembro de 1996 foi o mais importante das vidas delas. Foi nesse dia que, às 3 da manhã, as duas nasceram em cidades diferentes, em dois continentes diferentes. As duas tinham cabelos escuros e olhos castanho-esverdeados.
Quando tinham dois anos e já andavam, uma queimou-se ao tocar no forno. Alguns dias mais tarde, a outra aproximou também o dedo a um forno mas retirou-o no último momento. E não podia saber que se ia queimar.
- Gostas?
- Podia chamar-lhe “A vida dupla de...”. Não sei que nomes lhes vou dar.»
Um dia, talvez em Cracóvia, tirarei fotografias.


Nota: Excerto e alusões incidentais ao filme “ A vida dupla de Veronique” do Realizador Krzysztof Kieslowski.

Posted by Rui at 10:44 PM | Comments (3) | TrackBack

outubro 19, 2003

Lama

Ai vida. Lama e mais lama, lixo nas bermas com pinta de ser de outras primaveras e claro, nem um caixote do lixo à vista - minto, depois de muita pesquisa fiz serventia de um que pertencia a uma das tendas, por lá deixei o pauzinho do algodão doce.
Além do algodão que não sentia dissolver na língua há muito tempo, trouxe um cesto de verga para o pão e um assador de barro. Mas a recordação geral não me deixa vontade de regressar tão cedo. Prometem que para a semana será melhor... Bom proveito.
Está pior do que era há 10, 20 anos ou então (provavelmente) é dos meus olhos:
- por ter menos verde a envolve-la, apenas um vestígio de mata mal tratada que se transforma cada vez mais num vazadouro, ou num assento para mais um prédio da mais populosa freguesia da Europa;
- por ter menos oferta de produtos regionais e cada vez mais e mais capas de telemóveis Made in China...
É rara a água pé, filhós nem vê-las, higiene e cuidados com a clientela menos ainda.
Enfim, está cada vez mais ao nível da selva de betão envolvente, mal planificada, mal vivida e mal amada. Pobre Feira das Mercês.
Nem vestígios de actividade cultural (à parte a infalível vendedora da banha da cobra), nem promessas de interacção futura. Se vier a ter danças e outras andanças não dei por nada. Nem pela cerimónia religiosa... Mas também não sou de missas.

É pena... Ainda cativa muita gente esta festa. Apesar da chuva, apesar de muitos só andarem a ver... Ainda por lá vi muitos fatos de treino com a família atrás prometendo regressar no próximo fim de semana - depois do recebimento do mês o que apesar de tudo significa que ainda por lá encontram sedução - mas, de facto, assim, naquelas condições, não seria melhor o belo de Mega Centro Comercial? Era pôr lá dentro a vendedora da banha da cobra com a megafone e pronto! Isto à falta de imaginação para outros programas, bem entendido... Estou azedo, está visto...

Foi triste e cru este regresso à infância... Salvaram-se as febras à moda das Mercês que degustei serenamente em casa com a amante amada e os meus progenitores. Versão "ao azeite", nada de banhas.

Os meus cumprimentos para a comissão de festa e para a Câmara Municipal de Sintra.

Posted by Rui at 10:36 PM | Comments (0) | TrackBack

outubro 15, 2003

Há pouco, poucochinho...

símbolo sobre este dia, Autor: AAnesA Lua, os neons do subúrbio, depois os da metrópole.
Também os aviões, os últimos do dia.
Uma livraria ainda aberta com gente dentro.
Um lugar à porta para deixar o coche.
Um único benfiquista com meio sorriso no café da esquina.
O passeio molhado...
A cidade com cheiro forte a merda de cão.
As pernas cansadas, os olhos cansados, a cabeça... a cabeça a latejar mas a insistir numa boa memória, a memória de um livro que espera ser resgatado duma prateleira: A História do Seio. Como é mesmo o nome do autor?

Posted by Rui at 11:45 PM | Comments (2) | TrackBack

outubro 08, 2003

Sofregamente....

Sofregamente puxava e puxava. Três vezes puxou o ar filtrado para os pulmões. O cigarro tremia-lhe nos dedos da mão direita. Com a esquerda ajeitava os óculos escuros, depois a madeixa de cabelo castanho que lhe descaia para a fronte...
Caminhava com uma mala preta pendurada do ombro esquerdo. A espaços, olhava para as pedras da calçada calculando terreno seguro para os saltos altos... A madeixa caia, os óculos descaiam e o cigarro subia assim que levantava de novo a cabeça. E puxava, puxava. Até encher de novo os pulmões daquele ar. E assim seguiu e assim a perdi de vista hoje à hora do almoço, ali para as bandas da Duque de Ávila.
Será que fiz mal em não lhe dizer que tinha o cigarro apagado, por "abrir"?

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outubro 07, 2003

A Minha Praia no Verão

Praia Grande, Sintra, Portugal

Não tinhas body boarders, quase não havia surfistas e muito menos hordas de betos. As vivendas nas encostas eram escassíssimas. Apenas tinhas o "Lá vou eu" com as bolas de Berlim, pasteis de nata, batatas fritas e gelados.
E também tinhas um guarda mar, bem fardado, âncora no chapéu, divisas de marinheiro, pistola no coldre e pés descalços balanceando as pernas pelo areal.

Brincar, correr, jogar à bola, raramente incomodava pois havia espaço para respirar, até para manter à distância um olhar cúmplice.

Havia já aquela família de italianos que ano após ano regressava para esta praia. Um casal de pais e outro de filhos, ainda pequenos no inicio. Bem dispostos e simpáticos, sempre a falar pelos cotovelos.

Tinhas um mar forte de águas frias que metia respeito e por isso era honesto, não escondia agueiros insuspeitos, todo ele pedia cautela.
Por vezes, raras vezes, apequenava-se e deixava-nos nadar, ver o pano verde sempre mais viçoso que os outros de tão pouco usado. E aí eras a melhor das praias, o mar abria-se, as praias juntavam-se, a serra parecia menos íngreme e o mundo maior. Vistas mais de longe, do lado do mar, as pegadas dos dinossauros pereciam também mais reais, adivinhava-se-lhes melhor o ritmo que se petrificara no antigozoico.

Não tínhamos carro e como nós eram muitos os que tinham hora certa para chegar e hora certa para partir, sempre na velha rámona onde o cheiro enjoativo a gasóleo se misturava com os cheiros do mar e com o perfume da estrada até Sintra.

No regresso, depois do combóio que se apanhava numa estação que podia ser de província, tinha a certeza de um bom gelado, uma pérola escondida já em pleno subúrbio. Um monumento efémero empunhado firmemente, quase como um trofeu, que prolongava o prazer e fazia esquecer o cansaço.
Era assim a minha praia no Verão.

P.S.: Fiquei cheio de inveja das saudades da Catarina (Praias da Figueira) por isso resolvi dar largas às minhas.

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outubro 01, 2003

Refúgio

O meu mês é Agosto ou talvez Maio mas…
O Outono leva-nos em busca de um refúgio. Imaginar um casulo, prepará-lo, seguir respeitando o inevitável determinismo meteorológico. Em busca da serenidade, resistindo ao frenesim assustado e irritado que passa lá fora, na grande cidade.
É a altura de garantir que o ciclo não se gasta, não nos gasta. Nem sempre é fácil…
For depression press one after the beep.

É tempo de garantir que há uma linha contínua e incerta por onde caminhar.
Não anseio pelo inverno, pelo bafo húmido e peganhento que nos traz o ar mortiço do metro, do autocarro, do café, do carro… Não quero desculpas para o agasalho. Só lá para Janeiro me habituarei a ele, talvez. Mas se há quem me quer, quem me deixa ajeitar-lhe a lã ao rosto, como posso deixar de gostar destas manhãs de chumbo, promessa de nocturnos aconchegos?

Posted by Rui at 12:29 PM | Comments (0) | TrackBack

setembro 29, 2003

Mar D'Outubro

Escrevo-te um dito pensando no mar.

Não vemos o mar há meses.
Passou parte da primavera, todo o verão...
Dizes-me que és uma mulher do Outono. Da beleza multicolor e fugaz do Outono.

O teu Outono faz-se olhando o Paiva do alto das encostas de Montemuro, ou então mais a baixo, no parapeito da Igreja das Siglas, encostada ao velho cipreste, cercada de carvalhos, nogueiras e castanheiros...
Mais além, salgueiros, choupos e freixos. Sempre com o correr da água, sempre com uma nova cor num último esplendor de folhas-pétalas.

Até que te despedes em zigue-zagues, debruçada na janela do carro, espreitando os rápidos do Paiva mais soluçantes e mais vivos, descobertos do véu de folhas que se dissipa num mar d'Outubro.

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setembro 27, 2003

O Pão

Está na hora de ir à praça, pelo menos para mim que preguiço aos Sábados. Mas o verdadeiro, o genuíno entendido já estaria de regresso com os sacos cheios dos mais frescos e mais saborosos. Aqui vêm eles rua a baixo com o som dos plástico a roçar nas pernas a entrar pela minha janela, completando este escrevinhar com uma simpática banda sonora.
Ora ouçam:

..."Bom dia vizinho, como tem passado? Belos marmelos aí trás. Eu já a fiz na semana passada. Hei-de-lhe levar um frasco para provar."...

Há lá na praça perfumes especiais, odores telúricos, lembranças da criação para quem as trás no rol das saudades. Hipermercados? Só para emergências e geralmente para tristes e caros remedeios.

Venho de uma terra de boas praças, bem abastecidas por dedicados saloios. O pão era (e é) o ex-libris. Um fabuloso achado de Achada - Mafra. Um pão com raizes no palato de quem o come, bem cuidado por uma empresa familiar.
Confesso, agora que me mudei para a cidade, e depois de 7 ou 8 tentativas, que ainda não arranjei um pão à altura. Nem aqui na dinâmica praça de Arroios. Vai escasseando a esperança.
Enfim. Deixa-me cá ir telefonar...

"Ó mãe, reserva-me aí um de Mafra! E umas bolas de mistura."

Posted by Rui at 12:04 PM | Comments (0) | TrackBack

setembro 20, 2003

No ar!

I

“...finalmente música na antena, vejam se se lembram destas...
«Is this the real life, / is this just fantasy / Caught in a land-slide / No escapes from reality.»” * O som foi sem dúvida o que primeiro me atraiu para a rádio. Podia ter sido a cor do aparelho que estava lá no alto, no cimo da mesa da cozinha, podiam ter sido os inúmeros botões e manipulos que mal adivinhava, mas não, no início foi apenas o som. Era totalmente diferente dos que conhecia. Entretanto, vieram os livros de B.D., a escola, a brincadeira e a correria, os deliciosos anúncios na televisão e os desenhos animados... Durante algum tempo, a rádio permaneceu, apenas, vagamente presente. Fui crescendo e os botões do aparelho de rádio começaram a ser mais atraentes. Girar a rodinha de sintonização era extremamente divertido; adorava engasgar as vozes que ouvia e deturpar a música que tocavam com o ruído do espaço vazio da FM.

II

«I can’t seem to face up to the facts / I’m tense and nervous and I can’t relax / I can’t sleep ‘couse my bed’s on fire / don’t touch me I’m a real life wire!» *
Com o tempo, fui tendo cada vez mais liberdade para escolher e ditar qual a rádio a ouvir. Existindo apenas um rádio com FM em casa, tive que vencer as naturais resistências dos meus pais que, com as suas preferências já definidas, não viam qualquer sentido em errar pelas ondas. Ainda assim, consegui descobrir diferentes sons musicais, comecei a descobrir toda a informação que se fazia e, fundamentalmente, descobri maneiras totalmente diferentes de fazer rádio. Infelizmente, também não demorei muito tempo a descobrir que eram apenas quatro ou cinco as emissões nacionais. Então, comecei a reexplorar todos os botões do rádio e a conhecer novos “mares”. Acreditam que o que mais ouvi nessas frequências desconhecidas foi a conversa de pescadores portugueses e espanhois?! Nada de BBC, nem de Deutsch Wella, nem de Radio Luxembourg como prometiam as letras coloridas do mapa de sintonias, apenas um linguajar estranhíssimo entre comandantes de traineiras e emissões em código dignas dos ritmos “Dance Music”.

III

«Lembras-me uma marcha de Lisboa / num desfile singular / quem disse que há hora
e momento para se (...)»*

...Informar. No final da década de oitenta surgiram as “rádios piratas” e entre elas aquela que incontestavelmente deixaria a primeira grande marca de mudança no panorama rádiofónico nacional. Falo de uma emissora sediada em Lisboa que, como tantas outras, atravessou tormentas e tempestades e enfrentou batalhas quase ignoradas tendo conseguido, como poucas, chegar até hoje, com a essência do que lhe deu fascínio, ainda intacta : a TSF Rádio Jornal.
Os Dias da Rádio haviam regressado a Portugal, não só devido ao grande abanão dado pela TSF-RJ, nem à sã maluqueira dos brasileiros da Rádio Cidade, mas, fundamentalmente, devido às centenas de emissoras que surgiram como cogumelos um pouco por todo o país. Aliando a este factor o fenómeno paralelo da redescoberta da rádio pelo próprio ouvinte, esta viu relançado o seu papel na sociedade portuguesa, recuperando um lugar que fora perdendo, progressivamente, desde o aparecimento da televisão. Para o ouvinte, era espantoso ver aparecer um novo “pirata”, quase todos os dias, com as ideias mais incríveis, mostrando um enorme gozo no que estava a fazer.
Os meses foram passando e os atropelos de frequências sucederam-se mas, ainda antes do grande silêncio do natal de 88 - altura em que as emissões “piratas” foram proibidas- houve tempo para se ir compreendendo até que ponto pululavam trabalhos interessante, diferentes e desde logo notados como indispensáveis à rádio portuguesa.

IV

“...and if I die before I wake pray the lord my soul to take.” *
Certo dia de manhã, estava um rapazinho ainda deitado, gozando as férias e o finzinho dos seus 12 anos, quando ligou o recém adquirido radio a pilhas e viu mais do que a luz vermelha do aparelho, “viu” Lisboa a arder. Pulou da cama e correu para a cozinha ligando o, já velho, transistor “tamanho família”. E foi então que aconteceu uma coisa fantástica, pelo menos para uma criança de doze anos. Não haviam passado cinco minutos de empolgante e aterrador directo feito da zona do Chiado e o rádio começara literalmente a arder, sempre sem se calar. Imaginem o que passou pela cabeça deste inocente ouvinte! Só consta que tenha dito: “Fixe!”.

“If it be your will that I speak no more, and my voice be still as it was before; I will speak no more, I shall abide until I am spoken for, if it be your will.” *
A “pirataria” acabou e quando a lei foi escandalosamente reposta - quem estava atento então sabe ao que me refiro - os novos dias da rádio em Portugal estavam institucionalizados. Não mais deixei de ouvir a surpreendente TSF - que nem só de sínteses noticiosas se faz esta rádio, não senhor -, mas também nunca abandonei a minha alma de navegador errante. Actualmente colecciono pérolas na lutadora XFM [texto de 1995] e em qualquer outra emissora que me prenda nos breves segundos em que lhe faça abordagem no percurso dos 87.5 aos 108 Mhz.

V

“ I’d sit along and watch your light / my only friend through teenage night / and everything I had to know / I heard it all in my radio.” * Aí por volta dos 16 anos passei a fazer algo que conscientemente sempre recusara fazer: conhecer o mundo da música. Sempre ouvira música e ia já muito longe o primeiro arrepio na espinha que ela me provocara, posso até dizer que era mesmo um amante de música, mas totalmente desinteressado, mesmo da mais corriqueira intriga acerca desta ou daquela estrela pop. O que eu sei é que, desde então, tenho tido um gozo danado em redescobrir - porque muitas das vezes é disso que se trata - os grupos, cantores e músicos que encheram o ”eter” nos últimos vinte anos. Não raras vezes, tenho tido a surpresa espantosa de descobrir que, ainda que inconscientemente, tinha grupos e interpretes favoritos.
Mas nem só o aparelho auditivo “explodiu” com 16 anos, também a cabecinha começou a girar mais depressa. Interrogar, reflectir e explorar a informação que ia ouvindo pela rádio tornou-se um passatempo estimulante. Bem mais estimulante do que ler um livro, pensava eu - hoje evito a comparação.
A comparação que faço é entre a rádio de hoje e a que ouvia à 7, 8 anos. Na minha opinião, apesar dos muitos projectos já abortados, o balanço final, ou seja, o que é feito pelo ouvinte, só pode ser positivo. Neste momento, temos excelentes rádios generalistas, temos excelentes rádios especializadas, no fim de contas, temos emissões para todos os gostos. [1995] E digo isto, porque de entre os três grandes meios de comunicação social que me ocorrem - televisão, rádio e imprensa - este é, sem dúvida, o que, no seu processo de desenvolvimento, melhor preencheu todo o conjunto de eventuais «nichos de mercado» ao seu dispor. Em suma, foi o que melhor os detectou e foi o que demostrou melhor capacidade em os completar. Há, no entanto, uma grande nuvem negra que ameaça este cenário. Paradoxalmente, a indústria radiofónica esqueceu-se, até muito tarde, de algo que não escapou à preocupação dos outros dois meios de comunicação: a publicidade. Houve graves erros de gestão comercial em inúmeras rádios e, principalmente ao nível da publicidade radiofónica, chegou-se até a acreditar num esgotamento criativo que não estimulou nada o investimento dos anunciantes. Nesta altura e falando apenas como simples ouvinte, começo a ficar surpreendido com o humor e originalidade de alguns anúncios que surgem [1995]. Talvez o humor de qualidade não esteja longe de nós e uma escola de publicidade humorística radiofónica surja em Portugal - facto, em si, nada inédito na história da rádio mundial.

VI

No meu papel que é o de receptor, ouço rádio com um espírito profundamente crítico, tentando não perder de vista a capacidade de ser arrebatado pelo que recebo. E nesses momentos especiais lembro-me da magia particular de uma visão ingénua da rádio:

No ar!
Imagino um barco que navega suspenso sobre as ondas,
sempre no ar, sem as tocar...
Imagino-o a passar pela minha praia, cheio de gente!
Ainda não tenho histórias para contar...
Que se esconde por detrás daquelas vozes? Como é aquele olhar?

A rádio continua a gerar paixões e, se não acreditam, resigno-me a espicaçar o comum ouvinte que me lê a que descubra as pérolas no mar da rádio, porque as há, ainda que por vezes no mais insuspeito dos atóis. Descubram, inquietem-se, sobressaltem-se. Nunca somos demais.

* As frases em itálico são excertos de poemas de (por ordem de aparição):
Queen, “Bohemian Rapsody”; Talking Heads, “Psico Killer”; Trovante, “Memórias de um beijo” ; Leonard Cohen, “If it be your will”; Metallica, “Enter Sandman” - excerto da Oração da Noite praticada pela generalidade dos cristãos; Queen, “Radio GAGA”

Linha de Sintra, ao som da rádio, 11 de Setembro de 1995 (proto-blogue portanto)
*************************

Uma memória.
E depois surgiram os blogues...
Na altura em que escrevi este texto ouvia diariamente a Íntima Fracção, hoje recuperei essa paixão. Afastei-me sabendo sempre que no meio da noite estava lá um cantinho acolhedor, pleno de capacidade para provocar deslumbramento, apenas pelo som. Um cantinho de grandes janelas onde entrava, nesse entretanto, quase sempre de surpresa, quase sempre com comoção. Imaginando por vezes o além da voz, imaginando quem partilhava esta intimidade nos seus outros cantos...

Pouco para dizer, muito para escutar, tudo para ouvir. A Cristina Fernandes e o Mário Filipe tomaram a iniciativa de tentar coleccionar ideias para a continuidade da Íntima Fracção. No meio da noite não é o silêncio... é o barulho do coração

Posted by Rui at 07:57 PM | Comments (0) | TrackBack

setembro 18, 2003

No Jardim do Campo Pequeno

Outono / Inverno 94

Que tarde mais chocha, esta!
Nem chuva, nem sol; não está calor, nem frio; só cinzentos ou acastanhados.
Apenas um ventinho maroto vai desguedelhando e empurrando às rajadas os que passam pelo jardim.
Visto aqui dum banco bem no meio, o jardim parece uma ténue ilhazinha que termina a poucos metros, na primeira barragem de automóveis estacionados que o cercam. De facto, é difícil imaginar um jardim, mesmo daqui. Ainda assim, num intervalo entre dois aviões, as copas dos jacarandás e das restantes árvores lá nos vão dando a ilusão desejada de infinitude que hoje se resume ao espesso cinzento, facilmente depressivo.

Mato o tempo com bocejos sucessivos; olho para todos os lados menos para o livro que me ocupa as mãos. Ainda tenho mais quarenta minutos de espera pela frente. Tomo consciência do livro e agarro-me a ele com ganas de o devorar procurando uma fuga absorvente: ora onde é que eu deixei o Gineto...

- Dá-me licença? - Com uma sonora e inesperada interpelação sou retirado bruscamente do torpor a que me começava a entregar. Trata-se dum indivíduo de estatura média, magro, cabelo fraco, de rosto bem vincado por alguns pontos de tensão frequentes; para aí na casa dos quarenta. Ora essa! respondo, enquanto ajeito os cadernos com que ocupava a metade esquerda do banco. O indivíduo senta-se, cruza as pernas, acende um cigarro e assim fica algum tempo, olhando a avenida do outro lado, tendo sempre o cuidado de desviar o escape para bem longe de mim. Olho-o de soslaio e parece-me muito triste. Não vislumbrando sequência para a impetuosidade da interpelação, regresso ao meu livro, mas...
- Olhe para aquilo! Um gato pingado com uma ventoinha de arame a cortar a relva! E mais! Olhe para o que alí vem, duas marafonas, duas baleias! Como é que põem gente desta a tratar dos nossos jardins! E olhe que não é por serem de cor, pois os meus melhores amigos são pretos, mas trazerem imigrantes que nem o português sabem falar e que levam quase três horas a limpar este dedal! Sinceramente! Ah! Quando eu me lembro do antigamente! Os jardineiros, fique sabendo, eram às centenas. E os jardins... Eram autênticas obras de arte! Desde a Praça do Império ao Campo Grande. Não é preciso ir mais longe, este jardinzinho aqui, era um brinco! Mas desculpe estar assim a aborrece-lo, é que uma pessoa tem que desabafar, senão... ainda faz alguma asneira! Desculpe. É estudante, não é? Queira desculpar o desabafo.

Ainda meio apalermado com a nova tirada, repito-me com mais um “ora essa” acompanhado por um sorriso de cortesia. Insisto na leitura mas a irrequietude que ia ali à minha esquerda não agourava um futuro recatado. Fecho o livro e espero a nova intervenção, disposto a alinhar. Agora que bem penso, sempre quis saber o que dizem dois estranho que se encontram assim num banco de jardim.

- Desculpe lá chateá-lo outra vez ...
- Qual chatice! Para ser sincero, estava aqui a desperdiçar páginas do livro... Diga lá.
- O senhor é jovem e certamente já ouviu falar como isto era antes do 25 de Abril, não é verdade? Pois bem, não quero que pense que eu gostava do Salazar e da ditadura, mas há coisas que não há meio de voltarem a ser, pelo menos, tão boas como dantes! Olhe a segurança, por exemplo! Quase toda a gente tem medo de sair à noite. Eu, por exemplo, nunca saio à noite sem a minha Mauzer. Ainda o ano passado, numa noite, por volta das dez, dois putos tentaram assaltar-me aqui mesmo no jardim. Olhe, foi ali naquele banco. Um fica de atalaia por estas bandas e o outro aproxima-se e pede-me um cigarro. Mostro-lhe a pistola e pergunto-lhe se não quer fumar um bocadinho do meu «charuto». Não é que se põe a correr aos berros pela avenida a baixo? O outro apanhou tal cagaço com a cena que se estatelou no chão quando fugia ali para ao pé da praça de touros. Ha! Ha!... Mas já viu se eu não estivesse armado?
- Desculpe lá interrompê-lo, mas se todos usássemos armas era capaz de ser um bocado mais perigoso...
- Bem, bem, mas eu andei na tropa e tenho licença... Gosta de filmes do Charles Bronson? Aquele que faz quase sempre se mau? Conhece? Pois é, já reparou como só acerta nos que é preciso? Nunca falha! Se houvessem dois ou três como ele... Um ali no Parque Eduardo Sétimo, outro na Avenida da Liberdade... Era uma limpeza. Bem sei que é um exagero, mas pelo menos a polícia a cavalo, caramba! Dantes era um respeitinho.
- Nem as moscas voavam sem autorização, segundo creio...
- De facto, era uma ditadura e pronto! E também eram tempos difíceis... Não desvalorizo os problemas de hoje, logo os dos jovens, a incerteza, o desemprego... Mas olhe que eu também passei um mau bocado. Nasci ali em Alfama, conhece? Não tive brinquedos, nem a quarta classe acabei... Bem vê, éramos quatro irmãos, a minha mãe sempre a conheci prenhe e meu pai sempre grosso, uma besta, o desgraçado! Era um bufo, passava a vida em cafés e bares a tentar apanhar... enfim, descontentes com o regime. Trabalhava para o Nove Dedos e outros como ele, fazia todo o tipo de imundices. Que disparate! O senhor não deve estar a perceber nada, não é? O Nove Dedos era um pide, aliás, era o Pide mais conhecido da ci-da-de. O terror em pessoa. Acredita que o tipo engraçou comigo?! Andava sempre a perguntar-me como ia a escola. Até me dava uns trocados sem que eu lhe pedisse! Vá se lá saber porquê. O meu pai é que não me ligava nenhuma. Com ele era matemático: chapa ganha, chapa gasta. Putas e vinho verde, como se costuma dizer. Já viu, quatro crianças, a mãe grávida: uma miséria. Um dia chegou completamente louco a casa e começou a arrear na minha mãe, mesmo assim, naquele estado! Fui aos arames, devia ter onze anos, mas já tinha a escola toda, atirei-me a ele e parti-lhe a cara! É verdade. Depois pirei-me o mais depressa que pude. Só voltei a pôr os pés em casa outra vez no dia seguinte. Apanhei-o fora e fui buscar roupa, desde então nunca mais. Cá me safei, vim viver para casa da minha prima Alzira que era porteira dum prédio aqui na avenida, arranjei trabalho a servir numa tasca em Santa Apolónia e fui-me desenrascando. Um dia a besta do meu pai apareceu por lá... O senhor acredita que ele nem me reconheceu? Pode crer! Imagine como ele ia! Foi a última vez que o vi. Dias depois, soube que lhe deram um tiro ali para a Rua dos Remédios. Deus me perdoe, mas foi um bem que veio ao mundo. Um mês mais tarde, chegou a vez da minha mãe. Morreu do parto do meu quinto irmão. Valeu-nos a prima Alzira, outra vez, que Deus a tenha. À excepção da minha irmã mais velha que se amigou de um marujo e foi viver para a terra dele, levando o nosso irmão mais novo, veio tudo recambiado aqui para a Avenida de República. Mas já o estou a maçar, não é?
- Não ligue. Isto é só sono, é que já estou a pé desde as seis. Continue, por favor.
- Pois também eu, desde que trabalho aqui no BISCA, vai para vinte anos. Comecei como segurança no Banco, fui concorrendo e hoje sou assistente do director. Outros tempos, quanto a isto pode estar certo que já foi chão que deu uvas: sem o décimo segundo ano, pelo menos, não chega a lado nenhum e mesmo assim... Continue a estudar que faz muito bem. Isto é um mundo de cão. Olhe, estive casado dez anos e não tive filhos por causa destas guerras e deste mundo de cão. É preciso ser muito... É a minha opinião: não tenho coragem de pôr um filho neste mundo! Para quê? Gente a mais já nós temos. Veja só aquela marafona, tanto arrastou o sacos das folhas secas que o rasgou! Lindo chiqueiro! Ai Sampaio, Sampaio! Mas onde é que eu ia...
- A sua mãe tinha falecido e...
- Já me lembro. Estivemos com a prima Alzira nove anos até que ela morreu no metro. Foi do coração. Assaltaram-na e ela morreu com o susto. Mas o gatuno também teve a sua conta! Alguém o atirou para a linha e não morreu passado a ferro porque assou antes do tempo
- breve pausa. Hoje vivo com a minha irmã mais nova aqui na João XXI. Sabe, no entretanto ainda passámos mal, foi até eu ter arranjado emprego aqui no BISCA. Estivemos alguns anos a viver numa espelunca no Poço do Negros. Olhe, foi aí que fiz os meus amigos cabo-verdianos. Um amor de gente. Mas pronto, cá estamos. Felizmente hoje não tenho razões de queixa da vida. O que me enerva é o que vejo à nossa volta, esta falsidade, a malandragem... Ah! Vale tudo menos tirar olhos e, mesmo assim, qualquer dia até isso!
- Tirar olhos?!
- Sim senhor! Talvez para transplantar!
- risos. Esses canalhas mereciam era todos um balázio nos cornos. Mesmo que os apanhem, ao fim de dois ou três anos andam aí pelos jardins a fazer-nos companhia. Sabe, eu nunca fui de direita, mas esse tipo, o Monteiro, diz uma boas verdades. Diz, sim senhor. A única coisa que me vai valendo para animar é o Ceportengue. Eu cheguei a jogar futebol lá numa filial do Ceporteungue, em Alfama, e não era mau de todo, mas já pode imaginar, com esta vida... O meu divertimento quando não tinha dinheiro para ir ao estádio era escrever o relato nuns papelinhos. Ouvia o rádio e depois escrevia à minha maneira. O Ti João da mercearia dava-me lápis, eu arranjava o papel, escrevia e depois relatava o jogo para ele e para a malta lá da rua. De inverno, quando não podíamos jogar, eu era o rei. Juntavam-se no átrio da igreja para ouvirem o meu relato. Como se diz...? Enternecedor! Era enternecedor. Acabávamos quase sempre à porrada porque arranjava maneira de o Ceportengue ganhar todas! - risos. Mas era na reinação, até o senhor prior se divertia connosco.
- Pois eu também sou do Ceportengue.
- Grande clube, não haja dúvidas. Como é o Benfica e o Porto e outros, mas o Ceportengue é o Ceportengue, não é verdade? Aquele verde...
- A esperança! Viva o Ceportengue! Bom está na minha hora, senhor...
- João Tuna, João Tuna Oliveira, mas tome lá um cartão. Andei a gastar dinheiro com isto, tenho que os pôr a uso!
- Muito obrigado. Olhe não tenho para a troca... O meu nome é Rui Manuel, Rui Manuel Cerejeira. Foi um prazer.
- Muito obrigado eu ! Mais uma vez, desculpe a maçada.
- Ora essa! Então boa tarde.
- Felicidades!

Afasto-me do Jardim e rumo para a minha aula de condução, naturalmente com o senhor João Tuna em mente. Olho para o cartão e reparo que o verso está quase completamente negro. Assim que o último raio encandeador de sol deste dia se esgotou, pude perceber que tinha nas mãos um relato de um jogo do Ceportengue, escrito numa caligrafia minúscula, quase ilegível. Mas dava para entender que acabava bem: era o Ceportengue que ganhava ao Porto com um golo no último minuto.
Enquanto esperava que abrissem a porta do prédio da escola de condução ainda vislumbrei a figura esguia de João Tuna a atravessar a João XXI, calmamente, de mãos nos bolsos, imensamente triste.

******************
(Prot-blogue escrito há 9 anos - resisti em fazer-lhe afinações, perdoem-me. Esta Lisboa que eu amo...)

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setembro 14, 2003

O dia em que eu fui ver a volta passar

- em seis pequenos pontos -

I

Na noite anterior o meteorologista ameaçara com um dia muito quente e, na impossibilidade de se evitarem as obrigações rurais anuais, em torno de algumas courelas de terra, a manhã de mais um dia de férias na província foi destinada ao trabalho braçal em família.
As tarefas concluiram-se mais cedo do que o previsto e com isso estavam reunidas todas as condições para intensificar a minha campanha propagandística.

Ao regressarmos a casa era ainda demasiado cedo para acender o lume e preparar brasas para o churasco e, não dando tempo às mentes mais laboriosas para magicarem no que fazer na horita que sobrava, liguei o rádio bem alto a tempo de ouvir as crónicas e reportagens sobre mais uma etapa da volta a Portugal em bicicleta que se iniciara há escassos minutos: «ligeiramente atrasada face ao previsto pela organização», segundo dizia o jornalista.
Assim que o percurso da etapa ecou do rádio pelo quintal e foi referida a passagem num ponto quente situado na aldeia vizinha mais próxima, iniciei a derradeira etapa do meu plano que visava reunir uma mão cheia de familiares à beira da estrada nacional apreciando a passagem da caravana garrida.

Para minha surpresa, cinco minutos depois de lançar o convite já embraiava a terceira bem para lá do cemitério, um dos vértices do perímetro da aldeia. O carro levava pouco mais de meia carga mas ainda assim eu ia espantado pelo repentino sincronismo familiar transgeracional ali materializado.

II

Ia eu pensando nos porquês de nunca ter tido a ideia de espreitar o espectáculo da volta ao vivo (falha imperdoável do meu portuguesismo atendendo a que esta passara várias vezes a escassas centenas de metros da minha casa no concelho de Sintra), quando surgiram, a seguir a uma lomba acentuada, dois ciclistas pedalando, lado a lado, em marcha de caracol e ocupando descontraidamente a estreita faixa de alcatrão da estrada semi-municipal limitada a veículos de 10 toneladas.
Após a brusca travagem, note-se que circulávamos na mesma direcção, e de uma valente buzinadela, estive tentado a lembrar a limitação de peso imposta pela sinalização vertical naquela via ao soberbamente anafado ciclista da dupla bucha e estica, mas em boa hora não o fiz contribuindo para essa silênciosa revolução cultural que um dia há-de inundar as estradas do país de civismo e boas maneiras.

«O mais gordo era a cara chapada de fulano tal» disse a minha mãe após aquele breve encontro. Foi quanto bastou para os passageiros, conterrâneos, iniciarem o debate sobre as venturas e desventuras da aldeia e dos seus imigrantes. Quando chegámos ao cruzamento com a estrada nacional da Volta, entre o Vale da Senhora da Póvoa e a Meimoa, estava já estabelecido de quem eram netos e filhos os jovens ciclistas, portugueses de segunda geração, nascidos na França muito depois de qualquer um dos polemistas que me acompanhavam terem eles próprios abandonado a aldeia e perdido o contacto com a criação dos filhos da terra.

A exactidão da genealogia familiar que por mero acaso viria a confirmar dias depois fez-me crer ainda mais na importância dos genes e da sua herança escarrapachada nos nossas irrepetíveis faces.

III

A estrada nacional 233 tem um pavimento relativamente recente que vem resistindo quer ao intenso tráfego internacional de pesados - via Vilar Formoso - que a percorrem durante todo o ano, quer ao enxame veraneante e natalício de ligeiros oriundos do centro da Europa e de mais modestas migrações de âmbito nacional.
Entre o Sabugal e a Meimoa - a aldeia do ponto quente - enche-se de curvas e contracurvas cirandando entre meias encostas, pequenos planaltos e vales, quase sempre rodeada de arvoredo. Da Meimoa em diante, até Penamacor, a condução é mais suave surgindo grandes rectas planas, a espaços ladeadas por bem ordenadas fileiras de magestosos plátanos e eucaliptos. Apenas se puxa um pouco pela viatura ao circundar a vila na novíssima estrada de circunvalação.
Com a nova estrada, subir até à vila, tarefa sujeita a curvas e contracurvas que atingiram em tempos a fama das de Nisa, Estrela, Sintra, São Pedro do Sul ou Gerês, é hoje bem menos desafiante e perigoso. Para o ciclista, sobra o declive e o empedrado que teima em atapetar o centro histórico da vila raiana.
Em suma, aquele troço servia apenas para moer mais um pouco os ciclistas, juntar uns trocados e tomar balanço para chegar ao Fundão, depois à Covilhã e à Torre lá mais para o fim da tarde.

IV

Arranjar poiso seguro para parar o carro sem infringir regras de trânsito e garantir ao mesmo tempo um espaço de contacto visual com a estrada e aí aguardar a caravana, de preferência à fresca, não se adivinhava tarefa fácil, mas, mais uma vez, o meu pessimismo foi a enterrar bem depressa nesse dia.

Virámos no cruzamento em direcção à Meimoa subindo uma das meias encostas escavadas pela estrada e depressa descobrimos uma eventual escapatória de curva em sítio que cumpria de forma quase perfeita os requisitos acima enunciados. Note-se apenas que a nossa descoberta merece aspas pois o poiso estava já parcialmente ocupado por outro carro.

Dentro do carro vizinho - talvez montado quando os Trovante nos apresentavam A Menina das Sete Saias - estava um rapaz de vinte e muitos, trinta e poucos.
Saímos da fornalha do carro para a sombra dos enormes eucaliptos e trocámos a tradicional saudação com o tal rapaz. Bastou o “Bom Dia” para lhe apanhar a pronúncia beirã, bastante mais acentuada que a minha e um pouco mais do que a dos meus pais.
Pouco depois de nos estabelecermos, o rapaz saiu do carro e começou uma série de indiscutíveis sinais de ansiedade andando para trás e para diante sobre as folhas, cascas e toros de eucalipto ou olhando um pontinho entre as àrvores, lá para as bandas da aldeia do Vale, a cerca de 3 km de nós, sempre a descer.
Após uns instantes de maior frenesim, acalmou, aproximou-se do nosso carro e pareceu-me interessado em ouvir o que ia dizendo o auto-rádio. Por esta altura era já mais que evidente ao que nós iamos: comentáramos a classificação da Volta, os estrangeiros, o encantamento popular que originava este desporto em nós (pelos vistos!) e em tantos outros, as suas velhas glórias, etc. No entanto, o “Bom Dia” permanecia a única conversa feita com o rapaz.

Aumentei o volume do rádio para ouvir o reporter motorizado da TSF; já haviam passado o Sabugal e aproximavam-se de Santo Estevão, faltavam, portanto, cerca de 10 Km para chegarem até nós. O rapaz olhou o relógio e retomou gestos bruscos: para trás e para diante, abrindo a porta do carro e sentando-se por breves instantes, saltando do carro para espreitar outra vez por entre as árvores...
Pelo nosso lado íamos despejando a garrafa de litro e meio de água, enquanto continuávamos entretidos a deitar conversa fora.
O primeiro sinal da volta não tardou, o inconfundível som do helicóptero soou para as bandas do Vale e pela primeira vez percebi para onde olhava o rapaz: por entre os eucaliptos via-se o saída do Vale da Senhora da Póvoa sendo possível distinguir carros e camiões a passarem lá longe por entre uma breve clareira de vegetação. Mais uns minutos e a volta estaria a passar ao nosso lado, comentei eu em voz alta - não ouve reacções.
Passou sobre nós o helicóptero da SIC e pouco depois surgiram os primeiros camiões: o enorme contentor que servia de palco no final das etapas, um camião de exteriores da SIC e vários carros decorados com autocolantes de orgãos de comunicação social: Jornal do Fundão, Diário de Notícias, RFM, TSF, algumas rádios locais, etc. A seguir, passaram sem grande estardalhaço algumas motos da polícia que interromperam o trânsito em sentido oposto ao da Volta, depois o silêncio regressou.

Passaram-se mais alguns minutos antes que voltasse a surgir animação na estrada, desta vez protagonizada por ciclistas já meus conhecidos: o bucha e o estica pedalavam rouxos de esforço movendo-se muito lentamente lá no início da subida que os levava até à nossa curva. Após um piscar de olhos, já os víamos a passear, ao lado das máquinas, investindo contra a subida com a cabeça quase ao nível dos braços e do traseiro, de mãos no selim.
Chegaram até nós e esticaram-se no chão exaustos. Assim ficaram por alguns minutos condenados a não beneficiarem da nossa hospitalidade, pois então havíamos já esgotado o suprimento de água que tanto proveito lhes faria.
Nisto, como aparições alienígenas, surgiram perante o grupo de mirones de beira de estrada três vultos vermelhos, bem colados ao asfalto, anunciados por um gravíssimo matraquear mecânico: «Ferraris! Uau! Trois!» berrou, com uma energia que não se lhe adivinhava, o mais rouxo dos ciclistas.
Por um dia, Penamacor entra no topo da lista dos concelhos com maior número de Ferraris per capita do país, comentei no meu economês, ao que o rapaz de poucas falas me respondeu com um sonoro «Já lá vêm!».

V

Menos “grave”, mas igualmente cativador de atenções, surgiu outro matraquear mecânico, desta feita oriundo de uma soberba motorizada do tamanho de um pequeno cavalo. Não fosse a minha pouca paixão por estes assuntos e escreveria com detalhe ano, potência, modelo e demais pregaminhos do exemplar, mas o melhor que posso fazer para o enaltecer já o fiz, resta-me apenas descrever o que se seguiu e que motiva a recordação da máquina.
A cavalo ia um empertigadíssimo polícia. Estão a ver aqueles motões que acompanharam o presidente Kennedy na sua última visita ao Texas, empoleirados por polícias de capacete redondo, branco e envergando uns enormes óculos de sol que lhes tapavam metade da cara? A cena era parecida, com a nuance de que o que ali víamos era uma realidade em câmara lenta; parecia impossível como o condutor mantinha a moto a rolar, numa subida e a uma velocidade tão reduzida.
«Não hão-de ver mais motas como aquela na caravana» alvitrou o rapaz de poucas falas continuando, seguro de ter retidos as atenções: «Aquele indivíduo é polícia na cidade da Guarda e a mota é o única daquele modelo ao activo no distrito. No país! Fica o ano inteiro dentro de portas e só sai para a rua quando a Volta passa pela Guarda.» E continuou entusiamado: « Uma semana antes da Volta lá chegar, aquele indivíduo começa a pavonear-se pela cidade a cavalo no motarrão durante todo o dia. Não há ninguém na Guarda que não conheça a peça! Hoje vai aí nas suas sete quintas apresentando a aberração pelas serras a fora.».
Não cheguei a confirmar a autenticidade desta história quando algum tempo depois passei pela Guarda, mas o conto daquele rapaz tem qualquer coisa de insólito que abriu espaço na minha memória para reforçar a lembrança do dia em que fui ver a volta pela primeira vez.

VI

O poletão passou aos bochechos, berrámos todos um bocado como é de bom tom nestas coisas e pronto.
Logo a seguir ao carro vassoura o rapaz arrancou em elevadas rotações “esticando” o velho carro pelo monte acima, sem trocar connosco o tradicional, «Então, Bom Dia!».
Fiquei sem saber porquê ou por quem tanto sofria este estranho rapaz. Um estranho rapaz que tão depressa parecia intimidado e desconfortável com a nossa presença quanto arranjava à vontade para destilar um altivo sarcásmo sobre as respeitáveis forças da ordem a pretexto de uma pequena estória da pequena história quotidiana da cidade da Guarda. Mas todos estes considerandos resultavam se calhar dos meus olhos e a ideia de começar a pensar em ir fazer o almoço pareceu-me tão oportuna quanto aos demais passageiros pelo que também nós nos pusemos em ar de marcha da servil escapatória. Contudo, ainda antes da partida, testemunhámos e de alguma forma protagonizamos um pequeno drama.

Perante o cenário de repetir a façanha de cinco quilómetros a pedalar entre altos e baixos de regresso à aldeia, uma algaraviada afrancesada irrompeu entre os dois ciclistas luso-gauleses, promovida essencialmente pelo ainda mal recuperado baixote gordinho que insistia com o irmão mais velho para ir para a aldeia mais próxima - dois quilómetros e quase sempre a descer - de onde pediriam socorro à familia! Julgo ter percebido a expressão “no tractor da tia” por entre as resposta às invectivas cépticas do irmão mais velho.

Da contenda resultou que o gordo baixinho ficou especado com ar de grande desespero assistindo ao afastar do irmão ladeira a baixo a cavalo no velocípede, em direcção ao cruzamento que o levaria para a estrada semi-agrícola calcorreada há pouco.
Já com o motor a trabalhar, frustrámos, mais uma vez, uma tentativa hospitaleira de socorrer o atleta. Condoídos oferecemos-lhe boleia que ele aceitou de pronto... Mas havia a bicicleta, porventura, a maldita bicicleta...
O carro não era um dedal, mas, sem suportes apropriados no tejadilho, revelou-se impossível transportar a máquina inteira na mala do carro. O rapaz conformou-se e agradeceu descendo a passo a ladeira, pingando suor e escondendo as lágrimas antes que o irmão, que o esperava lá em baixo, as pudesse destrinçar...
A meio da rampa quando passámos por ele, simulou trepar para o selim, mas não passou disso. «Só lhe faz é bem. Para abater as banhas! Um rapaz tão novo...» disse um dos meus passageiros longe já dos ouvidos do ciclista.

No dia seguinte vi de novo o luso-francês mais anafado, ainda em prova, sorridente, pedalando pela terra batida de uma das linhas arquitectadas pela esquadria real do emparcelamento imaginário daquela pontinha da Cova da Beira. Ofereceu-me um tímido «Bom Dia» em bom português e seguiu viagem conduzindo com uma mão e levando com a outra à boca uma suculenta maçã, aproximando-se calmamente da frescura da ribeira.

(prot-blog com 5 anos)

Posted by Rui at 08:09 AM | Comments (0) | TrackBack

setembro 13, 2003

Meu Querido Diário

Benquerença, 2 de Agosto de 1997, férias de Verão em casa dos avós.

Parecia ser uma tarde normal de Verão, uma tarde de calma, de uma calma de derreter os ossos como as anteriores, quando de repente... Bom, de repente viu-se um filme repetido: partiu-se o céu ao meio e caiu-nos uma descarga de água e de electricidade em cima.
Um repâmpago-trovão de cegar os olhos e vibrar os pulmões iniciou a função. A chuva torrencial abafou o ar, amoleceu as moscas e pôs os humanos pensativos. Com a trovoada tão perto muitos aproximaram-se de Deus; como se diz: ficaram mais tementes a Deus. Eu continuei de mata-moscas na mão, mais implacável do que antes, bravamente à espera do raio castigador, talvez.
Com a falha da electricidade a reconversão de alguns católicos da família consumou-se de facto. «Ah! Se houvesse mais tempestades na cidade, mais cortes de energia... Como as igrejas se encheriam novamente, como todos se reduziriam à sua insignificância e descobririam o verdadeiro valor da vida», pensei divertido e enfadado. Adiante.

Com a falha da electricidade a reconversão de alguns católicos da família consumou-se de facto. «Ah! Se houvesse mais tempestades na cidade, mais cortes de energia... Como as igrejas se encheriam novamente, como todos se reduziriam à sua insignificância e descobririam o verdadeiro valor da vida», pensei divertido e enfadado. Adiante.
Pôs-se mais um rachão na lareira, acenderam-se algumas velas e as histórias de outras trovoadas tiveram o seu lugar com o ambiente «al dente». Isto dá que pensar, Diário: sem televisão, sem rádio, sem coragem para deixar os beirados das casas, as estórias que pareciam pertencer irremediavelmente presas à memória individual de algumas poucas e antigas crianças que por aqui ainda andam, brotam imediatamente à velocidade de um interruptor accionado, provenientes dos mais improváveis contadores.

Contou-se a estória daquela vez em que um raio caiu na antena da televisão e em que a casa ia ardendo. Acabado este conto passou a apelar-se a Santa Bárbara a cada nova descarga com crescente clamor.
A um canto, o meu pai recontou-me a história do grande carvalho da sua meninice que eu ainda conheci. Deixo-te aqui, querido diário, uma estória de ternura, e de fascínio.


Era uma vez um menino pequenino que era um pequenino pastor. Bom, a verdade, verdadinha não era bem essa. O menino andava na escola como os outros meninos e por isso, antes de mais nada, era um menino, mas, nas férias, como muitos outros meninos da sua aldeia, este era pastor. De manhã levava o rebanho de ovelhas e cabras a passear pela serra. Aí o gado passava o dia a encher a barriga com os petiscos que só são bons para cabras e ovelhas. O menino cuidava delas encaminhando-as para os melhores pastos e protegendo-as de algum perigo sempre com a ajuda dos seus dois cães pastores: a Estrela e o Tejo. Durante o dia o menino arranjava tempo para brincar sozinho e com outros pequenos pastores que encontrava. Trepava às árvores, descia às fragas, dormia de barriga ao leu aquecido pelo sol, acendia fogueiras quando o dia vinha fresco. Era imensamente feliz excepto quando às vezes a fome apertava e o Verão se engasgava nalgum temporal. Uma vez, num desses temporais de Verão o menino assistiu a uma coisa bem de pasmar.

Posted by Rui at 08:20 PM | Comments (0) | TrackBack

setembro 10, 2003

A Caminho de Gata (Integral)

O sargento Federico Gracias era o comandante do pelotão. Trinta e muitos anos, um metro e setenta, vozeirão à sargento. "Sou a voz da morte", dizia, em tom excepcionalmente cavernoso, ao ouvido da beldade de serviço numa qualquer taberna. Olhava-a então bem fundo, enigmático, primeiro, e completamente ameaçador, por fim. Fazia isto, sempre que estava bêbado de mais para querer folia. Depois, ria-se que nem um tolo até perder os sentidos. “A voz da morte”, balbuciava no dia seguinte, quando acordava na sua tenda.

Em regra, o comandante do pelotão oferecia ironia e humor negro, mantinha a moral irrealmente elevada. Mas, às vezes, afogava-se em álcool ou em lágrimas, consoante primeiro lhe chegasse um copo ou uma companhia paciente. Achava-se melhor quando estava com alguém, quase sempre em silêncio, sentado à mesa de uma tasca diferente da do dia anterior.

Nas noites em que conseguia adormecer, o último pensamento ia-lhe frequentemente para a deliciosa maçã que comera, há mais de trinta anos, encostado à vedação da casa dos seus avós maternos, na aldeia da Faia Grande, do outro lado da actual fronteira. Lembrava-se do estalar da maçã rija entre os dentes e do cheiro a feno vindo do palheiro monumental. O calor subtropical em que entrava ao mergulhar nos cobertores, lembrava-lhe a brisa morna que anunciou o fim daquela tarde de verão; era então que adormecia.

*

À saida do rancho:
- Sargento Gracias! Reuna já os seus homens. Hoje ainda têm serviço. Há muito desertor cá em Vila Rodrigo! O nosso general quer o serviço feito antes do arrear da bandeira. E isso limpinho, nada de dramas! Amanhã, antes do alvor, já devem ir a caminho de Gata. Entendido?
- Sim, meu major!

Ninguém quer o pelotão de fuzilamento mais famoso da península no seu quartel. Sempre em bolandas como um circo itenerante, sempre as mesmas caras trombudas pela frente. Asco, eram disso, as caras.
Na tenda do sargento:
- Meu sargento!
- O que é que queres?
- Que o meu sargento me dê um tiro nos cornos! Pois já era tempo de saber!
- Hoje não estou com paciência para brincadeiras, Lombriga...
Lombriga correspondia, na medida do quase impossível, à sua alcunha. Era magríssimo, alto, muito branco e tinha uma enorme boca oval cheia de dentes retorcidos, desproporcionados para o crânio tão reduzido. A sua frase de marca era responder que: “As lombrigas têm duas bossas e eu, como não tenho nenhuma, só posso ser uma ténia, camelo!”. O Lombriga tentava também (e de forma muito dedicada) cumprir o papel de aguarrás, atazanando tudo e todos, mas, geralmente, só agravava o mal estar eternamente latente entre os colegas. Era muito óbvio na sua tentativa de proporcionar uma realidade alternativa. Sempre que o caldo ameaçava entornar-se para o seu lado, tinha de se refugiar na exploração da figura anormal. Mas não se ficava por aqui o espírito missionário do Lombriga. Secretamente, tentava evitar que os colegas tivessem motivos para lhe chamarem parasita; razões além das evidentes. No fundo, ansiava sentir-se útil e querido pelos colegas.
- Sabia que hoje vamos consumar um poeta, meu sargento?
- Irra!
- Pronto, desculpe. Sabia que hoje vamos fuzilar um poeta? Não me diga que não leu a lista do...
- Toda a gente sabe que não gosto de poesia...
- Ah! Então, finalmente, vamos fazer alguma coisa do agrado do meu sargento!
- ...mas sempre gostei de poetas.
- Ó diabo!
- Quem chamou? (berra alguém do lado de fora da tenda)
- Não é contigo, Diabrete de Alcântara! E se a gente puser o indivíduo a declamar na hora da ordem? Sempre se torna mais fácil, meu sargento!
- Lombriga, és um anjo! Depois do que se passou ontem em Rigremoz eu pensava que não só seria incapaz de ordenar fogo, como eu próprio nunca mais seria capaz de disparar um tiro... Mas... Hoje, vou fazer a vontade a alguém e não vai ser só ao general. Lombriga?
- Meu sargento?
Pum!
- Que foi isso, meu sargento? (pergunta um soldado que se assoma à entrada da tenda)
- O Lombriga levou com um tiro meu nos cornos.
- Pois já não era sem tempo, meu sargento!
- Reune os homens Diabrete. Está quase na hora.
- Está tudo pronto, meu sargento!
- Então o que é que tu estás aqui a fazer? Mexe-te!
Os homens, que andavam já algo preocupados com o semblante teimosamente sorumbático do sargento, respiraram de alívio assim que lhe viram o sorriso sardónico (com que se havia despedido do defunto Lombriga), acompanhá-lo quando saiu da tenda. O velho sargento, comandante do pelotão, estava de volta!
Ajeitou o bivaque, acomodou o bigode (como se o tivesse) agarrou o cinto com as duas mãos, puxou as calças para cima, pôs as mãos atrás das costas, cuspiu, deu dois passos em frente e berrou:
- Poontar- ahr! ...Fogo!
Pum!

(Proto - Blogue de 1996)

Posted by Rui at 05:37 PM | Comments (2) | TrackBack

setembro 09, 2003

Criancinha

Proto-blogue da colectânea "Crónica Sobre Tansos!"

Eu deitei fogo aos armazens do Chiado, confesso. Naturalmente, assino sob pseudónimo, por isso, não se apoquentem...
Por que aqui trago esta? Porque ninguém acreditará que é verdadeira e porque sou um criminoso sentimentalista! Para os mais distraidos, lembro que no dia 25 de Agosto passou outro aniversário sobre o dia da Obra.
Revelo-vos a causa sobre a forma de uma pequena história. Desde já sublinho que não procuro absolvição pública, no máximo, justifico-me com os meus motivos.

Não se enganem pela minha morada! Lá em baixo, no fim do texto, escreve-se que sou de Mem Martins, suburbano, concluirão os mais avisados, fa-lo-ão erradamente, excelências!

O que eu sou é Saloio, duplamente! Sou Saloio dos arrabaldes de Sintra, terra de antigas tradições e gente pitoresca que ainda se mostra por ai fora (basta frequentar as feiras e mercados que vão autorizando nesta normalizada União Europeia), mas sou também saloio de tipo corrente, daqueles que se topam à distância na grande cidade. Bem,... talvez já não tanto como naquela altura.

Vivo numa casinha térrea, modesta e singela, deixada na família por meus bisavós, antigos caseiros da Quinta de Fanares de Baixo. Hoje, está entala entre dois caixotes de oito andares, na companhia das portas zincadas das respectivas garagens privativas; é a última sobrevivente de toda a rua. No outro dia, um rapazinho que por cá passava, perguntou ao seu pai porque se chamava esta rua de Rua das Hortas de Fanares e eu, que estava amanhando o torrãozito que ainda sobrou em frente à nossa casa, após o alargamento da via, não resisti, arranquei logo ali uma alface bem viçosa (de entre a mão cheia delas que lá vou plantando) e mostrei-a ao miúdo. É triste saber que daqui a uns anos, ou meses, talvez mesmo antes de morrerem as últimas alface cá na rua, o nome de um qualquer finório, conhecido por alguns gatos pingados da Junta, aqui veja cumprido um pretenso sonho de toda uma vida ao se acrescentar à toponímia nacional!

Onde isto já vai! Desculpem a divagação, mas têm de me conhecer minimamente para que façam proveito das minhas palavras.
Possuo alguns estudos, acabei o secundário em tempo razoável, conheço dos livros, da televisão e das comédias da vida que vão acontecendo a todos. Contudo, de horizontes viajados, tenho ainda poucos a contar e menos ainda tinha em Agosto de 88.

*

Para mim ir a Lisboa era um acontecimento, a começar pelo comboio. O mágico fascínio dos comboios foi revivido por mim tão fielmente como por aquele menino que ainda ontem vi com sua mãe, a caminho de Lisboa. Na grande cidade, os primeiros momentos eram extasiantes; outro mundo, bem vêem. Mas - cá está ele, o pequeno grande senão por que vos faço esperar - o que geralmente me levava a Lisboa era a mais chata, secante, sofrível e ingrata das tarefas que se podem exigir de uma criança, principalmente, aos rapazes mais simples e tapadinhos como eu: ir comprar roupa.

Com a cidade sedutora a envolver-me os sentidos de forma extenuante, lá tinha eu de andar atrás dos meus pais a galgar as ruas em passo de caracol. Mirar a montra de forma incrivelmente lenta, decidir se vale a pena entrar, entrar por fim, escolher, palpar, provar, escolher, palpar, vistoriar, provar, escolher, vezes sem conta, para se sair da loja de mãos vazias e repetir o rito na montra seguinte e, por vezes, recuar à montra anterior para reapreciar e comparar!... Um martírio.

Depressa a excitação dos primeiros momentos transformava-se em ansiedade, um mau estar desgraçado a crescer a cada passo. O encanto dos pombos era substituído pela barulheira e odor insuportável dos motores na Rua do Augusta - parabéns a quem de lá expulsou os carrinhos! A beleza da calçada desenhada não resistia às horas sucessivas que levava a pular de floreado em floreado numa desesperante tentativa criativa de matar o tédio. É, eu morria sempre que tinha de ir nesta procissão. Faltava-me o ar, faltava-me a água, embrulhava-se-me o estômago e, invariavelmente, tinha de irritar toda a comitiva pedinchando a satisfação de alguma destas necessidades vitais, ou então, reclamando igual lentidão em lojas de jogos electrónicos, em bancas com livros de banda desenhada - pequena vingançazinha pouco reconfortante, diga-se de passagem. Uma tarde inteira nisto. Com sorte, lá reanimava os sentidos quando convencia a comitiva a ir espreitar o rio mais de perto, mas era coisa rara “por causa do tempo que se gastava”, diziam.

Rua dos Fanqueiros, Rua da Prata, Rua Augusta, Rua do Ouro e respectivas transversais, Praça da Figueira e outras envolventes, era este o calvário, sempre em busca de um par de calças, de sapatos, de sapatos de ténis - até isto eu detestava comprar, contrariando a maioria dos meus pares de geração -, de camisas, ou até mesmo - supremo dos martírios- de pijamas, chinelos, cuecas, peúgas, roupões, lenços e outros trocados.

Há um cantinho da cidade de que ainda não falei: o Chiado e, principalmente, a dissimulada Rua do Carmo. Linda rua aquela, de aparência agradável, subida (ou descida) ligeira, menos transitada por veículos... Escondia o meu maior inferno. Entrando nos Armazéns, estavam garantidas horas de tédio e sufoco repartidos pelos variados pisos da torre. Só tinha um aspecto a favor: como é que entravamos por uma porta, fartava-mo-nos de descer degraus e depois saia-mos por outra, directamente para a rua sem subir um palmo? Mistério insignificante perante o sacrifício que exigiam!

Passado um dia de cão - como eu invejava os pombos! - ainda tinha de ser submetido àquela última provação?! Depois das promessas que sempre se adivinham numa novidade (bem embrulhadinha na deliciosa viagem de comboio) faziam-me uma traição daquelas!

*

Os anos passaram sem alterações de monta no ritual, agravado apenas pela acrescida dificuldade em caber nas roupas, provocada por esta rasquíssima característica nossa de termos em média mais um palmo do que a média da população. Finalmente, um dia, na volta de uma noitada no BA - não foi propriamente uma noitada, foi a primeira e única, até à data - acossado pela lembrança da ameaça da minha namorada de então - uma lisboeta chatérrima (conhecimento das praias de Sintra) que vim a descartar em três tempos -, cometi o crime. A rapariga vivia de gelados e de maratonas à caça de roupas, exigia que gastássemos o Sábado que se seguia numa dessas provas, em tudo semelhante às minhas anteriores provações. Não resisti à louca desinibição nocturna e deitei fogo aos armazéns com o auxílio de uma meia garrafa de vodka, uma mecha acesa e um lançamento perfeito. Liberdade!

*

Cá em casa, sou conhecido como o T.G.V., por duas razões: uma é a de que ninguém se consegue vestir e despir mais depressa do que eu - há sempre coisas mais interessantes a fazer antes e depois desses breves instantes- e a outra é a de que, agora, ninguém é capaz de comprar roupa adequada mais depressa do que eu! Em abono da verdade, também não tenho muita escolha, pois com os meus dois metros - há cá muitos assim em Mem Martins, por isso, não pensem que me apanham com esta “desatenção”- não há assim muitas lojas e marcas por onde escolher.

Quando penso que o que fiz foi um crime, regozijo-me de ver o fervilhar de tanta gente na realização de recriar o antigo coração da cidade; vejam o Siza Vieira que ganhou assim tão rara oportunidade de mostrar talento aos seus ignorantes compatriotas lisboetas! Só me custa é ver aquela gente que ficou sem emprego e todo o imbróglio que inventaram antes que reconstruíssem a zona. Mas o principal está feito, por portas e travessas garanti que os armazéns passassem à história. Agora, é só dar um pulinho às Amoreiras ou ao Cascais Shopping para comprar Benneton, Façonable, Maximo Dutti, -já foram ver os saldos à Zara?- e que tais, ou então, é ir ali à praça.

*

Digamos que fui um curto circuito saloio em 25 de Agosto de 1988 rodeado de muita carga térmica inflamável. Já lá vão oito anos de carga térmica a consumir-se. Haja pachorra! Mas nem assim me arrependo! Deitava o fogo outra vez. Palavra!

Assinado: T.G.V.
27 anos, Trolha, Mem Martins
(1996)

Posted by Rui at 04:58 PM | Comments (0) | TrackBack

A parede que fala e tira o sono

Porque me lembrei de Fernando Alves, António Jorge Branco, José Feliciano e de uma história que ouvi contar pela primeira vez há mais de 10 anos assomado a um postigo na rádio .

A parede que fala e tira o sono

Lenura, Beira Baixa, 1957

Na praça do Cruzeiro apenas um galo madrugador quebrava a imobilidade e o silêncio. Nas restantes ruas não havia quem notasse a falta do som das carroças e ninguém ficara apeado quando a carreira das seis não veio. O dia nascia calmo e propício à indolência como convinha aos finais do mês de Agosto.
Perto da novíssima torre do posto de alta tensão, bem no centro da aldeia, o canto do galo e o toque do sino às meias horas rivalizavam com o chilrear crescente das andorinhas que se empoleiravam às centenas nos cabos eléctricos que dali partiam.

Em toda a aldeia, apenas a Ti Chitas vira nascer a estrela da manhã e apenas ela tinha o burro alimentado e o terço rezado quando o Toninho “Baratas” apareceu de mãozitas nos bolsos das calças, pé descalço, cabelo em desalinho e ainda bastante estremunhado na praça do Cruzeiro.
Quem visse o petiz àquelas horas da manhã de domingo, especado a olhar seriamente para a parede lisa e bem caiada da Casa do Povo, ora de frente, ora de meio fio, de perto, depois de mais longe e chegando até a encostar-se a ela e a raspar pedacitos de caliça branca que mereciam exame atento e demorado com todos os sentidos – e que amargo era o petisco! – quem o visse naqueles preparos, dizia, tomá-lo-ia por doido ou por possuído pelos maus espíritos que põem as pessoas a fazer coisas levadas do diabo em pleno santo sono. O que é certo é que não havia quem ali estivesse para apreciar a peça e muito menos havia espíritos malignos que o atentassem.

Achando um mocho encostado ao chafariz do Cruzeiro, o Toninho “Baratas” – alcunha que ganhara nesse mesmo ano por se demorar sempre no recreio a amestrar baratas, bichos-clérigos e demais insectos rastejantes que apanhasse à mão – agarrou-o, pô-lo ao centro da praça e de frente para a parede da Casa do Povo sentou-se, continuando a mirar a parede. Não satisfeito com a posição, levantou-se e tendo chegado junto à parede virou-lhe as costas e contou um número determinado de passos, marcando o local com os olhos e colocando sobre ele o mocho de verga e pau. Sentou-se a si no assento e à sua cabeça de oito anos nas palmas das mãos que acabavam nos cotovelos fincando os joelhos. Assim esteve largos minutos de olhos já bem vivos e cheios de sonhos, a olhar a parede.

O galo que passeava ali perto, voltou a cantar a alvorada sem resultado aparente e topando com o “Baratas” interessou-se e aproximou-se sempre desconfiado. Cantou de novo. Aproximou-se um pouco mais , emproou-se um pouco melhor arrebitando a crista e passeou-se bem na frente do “Baratas” maneando a cabeça discretamente, o suficiente para se assegurar de que não seria surpreendido por alguma reacção; como esta não veio, o bicho enfadou-se e regressou à capoeira mantendo a pose.

Ao bater meia hora, uma brisa mais forte carregou até ao pé descalço da criança um dos folhetos escritos em letras grandes e liláses que encheram as ruas da terra na sexta-feira e no sábado. Sem lhe pegar leu-o devagar, letra a letra, sílaba a sílaba, apesar de já o saber de cor. Depois, sorriu, pôs as mãos atrás da cabeça, olhou as últimas estrelas e soube que elas eram como a máquina de luz que estivera ali ontem onde ele estava agora. Soube então que era mesmo dela que vinham as imagens e os sons que encheram a parede e a praça. O filme que vinha das estrelas era o sol que nascia e o cantar dos pássaros e ele e todas as coisas que há no mundo.

O galo tornou a cantar e o “Baratas” pulou do assento, correu para a parede, parou bem perto, virou-se para a praça e começou uma série de gestos e acrobacias salpicadas por palavras soltas, berros, urros e demais efeitos sonoros que tão depressa pareciam imitar um cavalo a relinchar como um comboio a vapor. Pulou e espalhou cabriolas por toda a praça, fez do mocho o centro da sua coreografia: disparou sobre ele as suas pistolas fumarentas; lançou-lhe um laço levantando muito pó; fugiu dele abrigando-se junto à parede e abraçou-o como se na despedida antes da grande aventura.

A chinfrineira cinéfila acordou o Zé “Taberneiro” que tinha o boteco ali na praça. Chegando-se à porta, despejou a má disposição da ressaca que trazia da noite anterior num imediatamente contido berro de «Caluda!». Com a cabeça a latejar e ainda meio zonzo foi à praça agarrar no mocho que de seguida desfez atirando contra a parede da Casa do Povo e errando largamente o alvo palrador que não desarmou. O Toninho “Baratas” - «Alma do diabo!» - correu a cavalgar acenando um dos folhetos com letras liláses pela Rua Direita a baixo, imensamente feliz, e a gritar espantando gentes e andorinhas: «Não percam o cinema itenerante de José Feliciano em Lenura sábado e domingo! No sábado as aventuras do oeste americano entre cowboys e índios no mais empolgante filme do ano com John Waine: Rio Vermelho! No domingo, o melhor filme de desenhos animados alguma vez produzido: Fantasia de Walt Disney, deixem-se maravilhar com a cor e o som do espectáculo do cinema! Sábado e domingo em Lenura na Praça do Cruzeiro às nove horas da noite! Tragam assentos!».

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setembro 07, 2003

O «Pechêgo»

Ele era a figura da aldeia. Se tivessem de escolher um autóctone para se sentar numa cadeira de verga, bem à sombra da placa toponímica, certamente escolhê-lo-iam a ele, ao Ti Jaquim «Pechêgo».
Estatura média, ligeiramente curvado pelos seus mais de 80 anos, olhava por detrás de uns óculos quadrangulares, largos, que escondiam, ao mais desatento, uns olhos pequeninos sempre muito brilhantes. Nunca abandonava o seu chapéu castanho nem a boa disposição, e se o fizesse, por um dia que fosse, o assunto chegaria seguramente ao café, bem como às conversas de serão. Aliás, a última vez que o recordavam triste remontava já ao falecimento de sua esposa quando tinha então os seus setenta e picos.

Era o velhote mais rijo e alegre daquelas ruas, afinal, quem lhe desse a salvação habituara-se já a levar um sorriso nos lábios, fruto duma chalaça sempre pronta. A sua adega era de longe a mais frequentada e todos lhe gabavam o bom vinho e restante hospitalidade. Dizem-me que, desde que montou a adega, não houve um único dia em que esta não acolhesse convidados e era mesmo uma espécie de ponto de romagem obrigatório a todos os visitantes da aldeia de Benquerença. Tudo lhe parecia dar um ar bonacheirão. Das suas faces permanentemente rosadas veio-lhe a alcunha; dizia-se que não havia sobre a Terra coisa mais parecida com um pêssego que as maçãs do rosto das gentes da sua família.

O Ti Jaquim «Pechêgo» era um caminhante. Adorava passear e fê-lo todos os dias, desde que se lembrava. Conhecia palmo a palmo todas as terras do vale e de todas parecia conhecer “uma parte”, fosse a tragédia de uma disputa por uma certa courela, o segredo de tesouros enterrados durante as invasões francesas em determinado covão, ou os dizeres sobre paixões proibidas que fizeram história, nesta ou naquela choça, bem perto de um qualquer bardo desocupado. Ao longo de oito décadas de casamentos, festejos, provações e mortes a cruzarem vidas por aquelas terras, juntara, nas sua memória, toda a história da aldeia e de boa parte do vale

Imaginem-se agora a seu lado, num dos longos passeios primaveris que fazia pelos caminhos e quelhas do vale, em redor da ribeira, ou então, sob a sombra do arvoredo nos arrabaldes da serra, entre a água de fontes e regatos. Ou ainda, sob o alpendre de cantaria bem à porta da fresca loja de sua casa, durante uma escaldante tarde de verão.
Fiquemo-nos pelo último cenário para apreciarmos uma das artes onde melhor se revelava a sua mestria. Imaginem-se a ouvir algumas das suas longas narrativas...

Sobre um cepo, que já fora, por ventura, encosto para muitas desmanchaduras do porco e para muitos rachões, oferecer-nos-ia um copo de vinho beirão ou de água serrana, ambos bem frescos pelas bilhas de barro. A acompanhar: um naco de pão com queijo ou um apetitoso chouriço caseiro.
Ah! Mas a história! A arte de a contar! Mil vezes a repetisse outras tantas vezes nos deleitaríamos. Primeiro a sugestão. Vinha no meio da conversa sempre a propósito e quase sempre sem nos apercebermos. Quando dávamos por ela, estávamos a esforçar o ouvido para não perdermos pitada. Seguia-se um minucioso enquadramento de toda a acção. Umas histórias passavam-se durante a época das bandeiras negras (a fome), outras quando o padre Álvaro ainda era o pároco da aldeia, mas também as havia da altura em que os filhos da Ti Marques foram apanhados pelos carabineiros com os sacos do minério às costas! Depois, a surpresa era total. Poderíamos ter uma história do anedotário da aldeia, onde não raras vezes dominavam as falas inevitavelmente hilariantes dos intervenientes; poderíamos ter um conto fantástico sobre a origem do nome de um qualquer lugar do vale, como o Terreiro das Bruxas ou o Cú do Lobo; poderíamos ouvir a história da tragédia de uma paixão arrebatadora que percorreu séculos na oralidade da aldeia. Enfim, podíamos esperar qualquer aventura e experimentar as inúmeras sensações que se desencantam e insinuam num conto.
Mas o que fica mais marcado na memória, é todo o ritual que o Ti Jaquim seguia e toda a magia e encanto que fazia desprender de cada passagem duma história. A cada vez que usasse o canivete para cortar um pedaço de chouriço ou parasse para beber um trago de vinho, quase recomeçava a história do início. Seria isso consequência da idade ou matreirice de quem se sabendo com um público que lhe bebia as palavras, aproveitava para prolongar o seu momento de glória, acrescentando aqui e ali um pormenor de que se “esquecera”? Não sei bem, mas sei que fazer uma pergunta tinha invariavelmente o efeito de beber um trago de vinho ou de cortar um naco de chouriço, e sei também que bastas vezes havia quem o interpelasse, saborosamente.

O Ti Jaquim «Pechêgo» já morreu e fê-lo de surpresa, sem dizer a ninguém o que fazer às suas histórias. Um dia devo ter-lhe perguntado se as criava ou se alguém lhas contara e ele ter-me-á dito, com um sorriso largo e encolhendo os ombros, que simplesmente lhe vinham à memória. Provavelmente, algumas contara-lhas o seu pai, outras os seus irmãos, os seus amigos e outras contara-lhas a vida. Mas como vêem não vos posso dar o número da sua porta nem sequer o nome da sua rua, garanto-vos, contudo, que ele ainda por aí anda a contar histórias e a lançar chalaças certeiras a quem lhe dá a salvação numa qualquer rua deste país. «Bom dia, Ti Jaquim! Que tal vão esses ossos?»

.................
O «Pechêgo» é uma personagem, mas é, acima de tudo, o meu bisavô, recordo-o aqui como contador de histórias e como um dos “velhotes” mais populares de uma aldeia. Para mim, é gente com história e com histórias, que está a morrer todos os dias por esse país fora, ainda à espera de ser “entrevistado”. (É mais um proto-blog enviado para o DNJ em 1995)

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setembro 05, 2003

Moscas no pára brisas

Este dia não existe. Tudo parece incomum, caótico, incompreensí­vel. Surreal.
Onde estou? Num centro comercial em meio de semana, à hora da matiné. Amoreiras... No átrio de acesso a algumas salas de cinema.
Sentados nos poucos degraus, meia duzia de jovens aguardam a próxima sessão em estranho silêncio; rapazes e raparigas um pouco mais novos do que eu. Neste momento, parece-me impossí­vel imitá-los. Dobrar as pernas está definitivamente fora de questão. Estranho efeito produzido pelo intenso cheiro a pipocas e pela inebriante voz de Chet Baker que completa o ambiente. O que vim aqui fazer?

Desço os degraus, quase tropeçando, e fico junto à porta de mãos nos bolsos, observando as gentes. Assim estou como que acendendo um cigaro em dia ventoso, espreitando por debaixo da aba de um chapéu. Se me visse ao espelho tinha de estar vestido de gabardine e com um chapéu clássico, completamente cinzento.
À esquerda, a uma velocidade incrivelmente lenta, aproxima-se uma senhora, seguramente octogenária, de braço dado a um rapaz de fato que a ajuda a arrastar-se até à sala. Ela traz uma peruca castanha com um penteado de há mais de meio século, fazendo-o acompanhar da correspondente maquilhagem. Veste cores claras, castanhos e amarelos, destaca-se o xaile que surge bem ní­tido no conjunto. Todos os gestos lhe denunciam a idade. A peruca afigura-se mais com uma coroa genuí­na, de decano, do que com uma máscara de fantasia. É vaidosa, ainda. O rapaz não a guia, serve-lhe apenas de apoio, permite-lhe a determinação.
Vindo das escadas rolantes surge mais um grupo de jovens, este muito ruidoso, exclusivamente composto de raparigas. Olha ali, diz uma apontando, aquela senhora não é uma atriz dos filmes a preto e branco? A senhora não ouve; observa atentamente uma montra.

*
As portas das salas abrem-se finalmente. Zeno Saint-Lear Da Costa, eu, o fumador imaginário, regresso ao atrio. Espero um pouco curioso por descobrir qual o filme que a senhora da peruca vem ver. Entretanto, o homem da lanterna, que por acaso era uma simpática jovem, vendo-me com o bilhete na mão e com um ar meio perdido, pergunta se não quero entrar. Atiro-lhe um sorri e estendo o bilhete. Certamente, a senhora da peruca vem ver este filme, vem ver o cinema português de hoje. Deve ser.
Ocupo o meu lugar central na penúltima fila e descanso os olhos. Estou aqui para me abstrair de tudo por uma horas. Principalmente da última briga, a definitiva... O grande melodrama: gritos histéricos, choros de mansinho, escandalo com direito a expulsão do restaurante... Relaxa, Zeno.
A música ambiente subiu de volume, Masquerade berrava um corro de vozes. Fantasma da Ópera. Seguiu-se outro excerto de uma opera-rock, uma vozinha angelical afirmava I Don´t Know How to Love Him. Jesus Christ!... Superstar. Solta-se-me um enorme bocejo e volto a fechar os olhos. Está a resultar.
Um momento de silêncio, mas não é ainda o início da publicidade, começou outra selecção. A voz, aquela voz... A mesma voz... Ouço com atenção e com o coração aos pulos... I don't care who I hurt, I don't care who I do wrong... As I cuddled the porcupine, he said I had none to blame, but me. Held my heart, deep in hair, time to shave, shave it off. No time for romantic escape, when your fluffy heart is ready for rape. No!...No time... Que raio de ironia era esta? Aquela voz tão parecida com a da música inesquecí­vel, a «nossa música»! Your fluffy heart is ready for rape?! Senti-me o personagem de uma trama irreal, duma teia feita em plena febre. Eu era um pour boy handkinding thru'the blues. Raios! Diabo de cinema, merda de música. Porque é que não resisti à normalidade de ter uma música romãntica, a «nossa música»? Saí­ da sala, mas fiquei. Vi um filme e não vi. Nunca fechei os olhos nem chorei. As lágrimas rasgaram-me a garganta e acumularam-se pastosas à porta do estômago comprimido. Detestava-me impavidamente. Que estranha revelaço se escondia nesta ironia? She is looking at me? Talvez. Rindo.

Nota: excerto de Back in N.Y.C., Genesis, álbum The lamb lies down on Broadway, 1974

(proto-blog do meu ano de mais febril paixão pela rádio - até ao momento 1996)

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setembro 04, 2003

Elevador (act.)


É para o 15º, por favor.

I

Ting!

De tantos serem os sítios e situações de encruzilhada que existem neste mundo, todos os dias acontecem pequenos milagres, autênticas aberrações estatísticas.
Como é possível serem dez para as duas da tarde de uma quinta feira e o elevador da torre um das amoreiras disparar para o alto saíndo do rés-do-chão com apenas duas pessoas lá dentro?
Testemunhas do milagre apenas os intervenientes: uma rapariga e um rapaz, ambos na casa dos vinte, ambos auditores em multinacionais rivais e vizinhas.
Ela chegou perto do hall dos elevadores e realizou mecanicamente os poucos passos necessários para chamar a máquina: primido o botão, o primeiro com seta para cima que abrisse as portas era o seu. Não demorou meio minuto até que chegasse e ela entrou. Só reparou que ninguém a seguia, que estava sozinha, quando a noção de espaço foi ampliada pelo espelho que ocupava a toda a altura o interior do elevador. Naquele momento era normal que estivesse a ser condicionada, apertada para os fundos, provavelmente pisada e empurrada. A rapariga despertou do turpor mecanizado e deitou a cabeça para fora, incrédula, espreitou ainda a seta luminosa e confirmou que não havia engano... Ia subir.
Ele entrou de supetão quando as pesadas portas já se fechavam e quase levou os joelhos ao chão com o arranque violento da aparelhagem elevatória em direcção ao sétimo piso, destino pré-programado pela moça.
Não fora a traição do espelho do elevador e nem um olhar teriam trocado. Ela ajeita uma madeixa aqui, um bricozinho acolá; ele vai de endireitar a gravata e de carregar no botão que "já me esquecia".
É o rapaz a pôr o indicador em acção e o elevador a estacar bruscamente entre o 3º e o 4º andar.
Salta um susto do peito da moça que depressa se recompõe dardejando, de seguida, olhares assassinos em direcção ao inocente desaventurado. Ela carrega de novo no botão que diz sétimo piso e depois em outros, mas o elevador não se mexe.


II
Priiiiiii. Priiiiiii.
Nada.
Priiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
Nicles.
A rapariga sopra às madeixas não poupando os pulmões.
Já vai! Ouve-se distante a voz do zelador.
Priiiiiiiiii.
Já vai ! Porra! Tenho de esperar pelo outro elevador para aí chegar!
Só faltava agora o homem ficar preso no outro! desabafa a rapariga para as portas fechadas.
Dizem que havendo companhia, a maioria das pessoas não aguenta estar 8 segundos num elevador em silêncio total... Quando as palavras dela ditas para as portas casmurras ameaçaram pisar a referida distância temporal, o rapaz desenrola a seguinte história, olhando também as portas e pondo as mãos atrás das costas, quase em sentido.
Um dia fiquei preso num elevador na Madeira. Fui fazer uma auditoria na Electricidade da Madeira e ficámos três presos no elevador: eu, o meu manager e o director financeiro da empresa... Era sexta-feira, já passava das sete e o prédio estava vazio. Segundo o director financeiro os seguranças da empresa não faziam rondas durante os fins de semana. Dizia-nos com o seu madeirense macarrónico e com ar preocupado que eram "fortes as probabilidades de termos de passar ali dois dias e meio!"
A ideia de imitar a pronúncia madeirense ainda passou pela cabeça do rapaz mas o sentido do ridículo deu-lhe outros conselhos.
Estávamos enfiados num elevador minúsculo onde mal cabiamos de pé... Tinha para aí um quarto do tamanho deste! O elevador dava para três pessoas e marcava um máximo de 250 quilos. Eu confesso que nessa altura já pesava bem uns 80... O director e o meu manager pesavam juntos, à vontadinha, 250 quilos! Com envergadura a condizer!
Perante a ausência de sinais de enfado, o rapaz a esta altura já fazia gestos largos com as mãos e deixara de olhar as portas...
Passou-se a primeira meia hora e já pensava em água e na comida! Num assomo de esperança... Num quê? Perguntou ela. Assomo, replicou ele sorrindo. Visto não ter havido vestígios de paternalismo no sorriso dele, ela concedeu e sorriu também, moderadamente.
O que eu queria dizer é que me lembrei de usar o telemóvel mas não tinha rede! E estava a ficar... aflitinho.
O rapaz resolveu mostrar um sorriso a apelar à cumplicidade e fez uma pausa no discurso. Ela olhava-o inexpressiva, talvez expectante, talvez não... Vai-se a ver e se calhar aquele tipo de lembranças não estavam com nada num momento como aquele!
Continuou: Ainda não tinha passado uma hora quando a maquineta se pôs a andar. Tinha havido uma falha de corrente eléctrica na Electricidade da Madeira!!
Ela riu-se, ou melhor, sorriu, talvez da anedota, talvez do jeito meio tonto e trapalhão com que o rapaz foi contando a história. E deixou ficar o sorriso nos lábios enquanto se virou de novo para a campainha de alarme.
Priiiiiiiii.
O elevador retomou a sua marcha quase de imediato e parou no 4º andar.
Esperava-os o zelador:
Já está em ordem, arranjámos a avaria. Aliás, não houve avaria, desligámos... foi um circuito, sem querer... e o elevador ficou sem corrente. E vai de coçar a cabeça, fazer um ar traquina e atirar umas desculpas gagejadas. Está como novo!
Não chegaram a sair. Fecharam-se as portas e ela perguntou: Vai para qual?
É para o 15º, por favor.

Posted by Rui at 10:24 PM | Comments (0) | TrackBack

setembro 02, 2003

Caso Esquisito (quase) Verídico

Tenebroso é o estado de espírito de um Sportinguista nesta noite... Tomem lá disto (uma Proto-posta de há uns anos)

Caso Esquisito (quase) Verídico

Gaspar era um rapaz decidido: gostava de salada de pepinos, de pimentos assados e de beringelas fritas em cobertura de ovo enfarinhado em trigo. No bolso, raras vezes o apanhavam sem uma alfarroba meio trincada.
Gaspar era ainda pequenino.

O Gaspar está preso num sítio muito branco e muito negro; é mesmo um daqueles pardais-de-prisão.
Entrou pela primeira vez na cela com um «Estou frito!» no pensamento e, desde então, não deixou de pensar a uma velocidade alucinante, como nem sequer se sabia capaz.
A imagem dele e do seu pai fazendo de almas penadas nas noites estreladas de fim de Verão, prescutando as oliveiras à caça de pardais, ele com a laterna e o pai com a pressão de ar, tem-no perseguido em muitas noites mal dormidas no cárcere. «Pardais fritos, estaladiços, humm...Bem bom!» aventava ele aos colegas de escola em conversa de meninice, a armar em grande caçador e apreciador de iguarias exóticas.

Um dia...

Gaspar era já rapazote, de barba bem formada, sempre amigo dos seus amigos de paródia: «Vamos pregar uma partida à Soraia?» e foram.
A Soraia estava na escola, no balneário das raparigas com mais três cachopas - e cachopas assentava-lhes na perfeição...
Num abrir e fechar de olhos viram-se trancadas lá dentro com um balde de pimentos vermelhos bem queimosos a arder. Com o reboliço espalharam-se os pimentos em brasa pelo chão enquanto o balde ardeu, a um canto, libertando um fumo negro e sufocante que depressa encheu o pequeno balneário. Noutro abrir e fechar de olhos... morreram.
Gaspar riu-se que nem um perdido com o resto da malta e que nem um perdido ficou quando a algazarra no balneário amainou e, por fim, se extinguiu.
Então, acabou-se a poesia popular ao castiço.

Hoje Gaspar já não gosta de pepinos, pimentos, beringelas e alfarrobas; é mais alpista e hospício. «Estaladiços, humm!... Bem bom!» repete em voz alta entre dois pensamentos insondáveis para quem o não está a ouvir.

Posted by Rui at 10:40 AM | Comments (0) | TrackBack

As cerejas

«(...) Tivemos 7 tamagotchis e fomos felizes para sempre, que fica, como sabem, em parte nenhuma»
Sarah Adamopoulos, Ciberia, TSF, 1996(?)

As cerejas
A primeira:
«E se bem viveram, melhor morreram.»

As outras:
Um dia lí ou ouvi, já não sei bem, um escritor dizendo que o primeiro passo para escrever um romance é encontrar um final, um final mesmo antes de se construir o resto. Sei que franzi o sobrolho e cocei a cabeça; apesar de adorar sobremesas.
Lembrei-me do dito do escritor quando, num espantoso documentário em filme de curta-metragem sobre o país Basco, realizado por Orson Welles no imediato pós-II Guerra Mundial (exibido na RTP 2), fiquei a saber que as estórias de encantar bascas têm este fim: «E se bem viveram, melhor morreram» - assombradoramente diferente do nosso conhecido «E viveram felizes para sempre».
Podem-me chamar maluco, mas, assim que acabou o documentário, veio-me à cabeça um verso do «Fim» de Mário de Sá Carneiro e fiquei com uma vontade enorme de saber como é que um burro ajaezado à andaluza se distingue de um outro ajaezado de outra forma. Queria que alguém me contasse, em palavras fresquinhas... Para a troca tenho pelo menos um «Bem haja» guardado...

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(As linhas ali de cima são mais um prot-blogue de 1996 que traz ainda outro excerto desse outro Rui de então:
Estou a ouvir o primeiro «Cyberia» na TSF - e estaria a ouvi-lo na XFM se... - e digo-vos que é uma coisinha danadinha de boa: é original, delirante, arrepiante e, a espaços, hilariante: faz cocegas!!!...Virtuais.)

E agora num blogue perto de si.

Posted by Rui at 06:51 AM | Comments (0) | TrackBack

setembro 01, 2003

Programa «Última Carta» Anotado

Memórias de um Proto-Blogue VIII

Escrito há sete anos e agora ressuscitado. O espanto de me espantar comigo! Amen.

Programa «Última Carta» Anotado

I
...Registo Final - Capítulo VIII
...Última semana de condicionamento
...Programa Última Carta
...Gatilho específico para o programa na série 414 de clonskização em neo-alga mais:
«Hello Dolly» (a melodia suprema)

...Conteúdo moral psico-induzido disparado aos primeiros acordes:

«Eu sou feliz.
Pertenço ao grupo de inteligência máxima.
Sou diferente e melhor do que os sub-neo-alga mais.
Sou fiel depositário da segurança da espécie.
Replico exactamente os «Perfeitos» escolhidos nos primórdios do tempo da Grande Ovelha.

(Pausa)

Cumpri.
Segui o caminho para ajudar no Fim Superior da Espécie.
Fui Soldado Alguíssimo e destrui o Cancro.
Eu [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky] continuo para sempre.
Serei a espécie de amanhã.
Em nome da Grande Ovelha: Hello Dolly!»


...Conteúdo motricional psico-induzido disparado aos primeiros acordes:

«Eu [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky] devo ajoelhar-me.
Erguer os braços perpendicularmente ao solo.
Devo juntar as palmas das mãos sobre a cabeça entrelaçando os dedos e assim ficar até ouvir o Condicionador Supremo.»


...Conteúdo moral psico-induzido disparado ao terminar o último acorde ou quando a melodia seja interrompida:
«A voz que ouves é a do Condicionador Supremo.
Presta atenção e cumpre.
Presta atenção e cumpre.
Deixa que continue o fim do fim.
Hello Dolly, [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky], Hello Dolly»


...Conteúdo motricional psico-induzido disparado no momento do fim da melodia suprema ou quando esta seja interrompida:

«Devo assumir a posição fetal.
Devo entrar em atrofia total de funcionamento cognitivo consciente.»


...Repetir programa «Última Carta» cem vezes, durante a semana de condicionamento.


...Programa Borracha Atómica para branqueamento do condicionamento da série 414 de clonskização em neo-alga mais
...Gatilho descondicionador geral: «This isn’t Luis!»


...Fim do processo global de condicionamento da série 414 de clonskização em neo-alga mais.

...Director Geral para o programa «Última Carta»
...Alf Joca Novsky

...Sumo Ovino da Série VIII
...Nostradamos Fédon Memé

...Hello Dolly!

...Clonecity-in-bocanovsky, Oitava Ovelha (740,34).


NOTA: Paródias incidentais ao livro «Admirável Mundo Novo» de Aldous Huxley


II

Se morresse hoje, não deixava carta nenhuma.
Não tenho absolutamente nada a dizer, tal como não tenho nada a dizer quando morre um amigo da minha idade (ou que ande lá perto). Nessas alturas demoram a vir as palavras.
No máximo praguejava, coisa que faço raramente, mas que, de tanto uso e abuso que tem por aí, não se traduziria em nada de significativo para quem me ouvisse à distância.

*
Não é preciso chegar à bocanovskização:
Imaginem-se no vosso leito de morte.
Imaginem que uma filha vossa se despede e promete que irá ter um filho exactamente igual a vocês.
O momento da morte será o momento da recriação de um ser fisicamente idêntico.
Exemplo: outras fotografias com um corpo e cara igual à vossa surgirão muito depois de terdes desaparecido.
«Vós» sereis o vosso neto; haverá uma paragem genética naquele ponto.
Qual seria a vossa última carta para essa filha?

*

Mais perto do início do que agora, havia seres unicelulares (ainda há!) que não se reproduziam através do sexo; um limitava-se a dividir-se em dois. Um que exista não será filho do um inicial, pois o um inicial nunca morre de facto enquanto houver um que resulte de uma divisão de outro que não desapareceu no processo - nem sequer haverá um «mais inicial» do que o outro pois esse será seu irmão de divisão. Não há vida e morte, há vida e (talvez) crescimento, há outra espécie de imortalidade, menos poética e mais física.
Hoje sabemos que esses seres não mudaram tanto como os que surgiram mais tardiamente com sexo. Em princípio têm também menos hipóteses de resistir a mudanças ambientais, pois jogam menos vezes no totoloto, ou seja, não fazem as apostas multiplas que resultam do cruzamento de dois seres diferentes, de sexos diferentes que produzirão um outro diferente de todos os outros anteriores e que, portanto, apresenta uma nova chave no jogo da sobrevivência.
O caminho natural (obra do acaso das mutações genéticas) inventou o «It takes two, baby» para fazer um bébé. Agora regredimos e substituimo-nos à manipulação genética natural.
Para começar paramo-la (clonagem), qualquer dia substitui-la-emos - refiro-me aos seres humanos, pois com outras espécie é pratica frequente - e talvez surja o «it takes three or four, why not une million, baby?».
Teremos mais um brinquedo para atingir a perfeição, sem acto sexual natural a estorvar - não demorará muito o orgasmómetro de Allen [Woody] para satisfazer os humanos e para não complicar mais a perfeição. Mas a perfeição segundo quem? E que diabo é isso de perfeição no mundo não metafísico? Chamem-me maluco, mas isto faz-me lembrar algumas passagens da discussão sobre o aborto (noutro dia eu explico-me).
No Direito há uma coisinha chamada o abuso do direito que avisa para a existência de limites sobre o exercício de um direito apesar de este ser geralmente aplicável. Será que não deve haver abuso da ciência? Mas quem é que vai responder a estas perguntas? Primeiro era preciso haver políticos generalistas que aconselhados por técnicos (e não mais do que isso) estivessem em condições de começar o processo de discussão.


Quando tiver mais um tempinho gostava de tentar escrever umas coisinhas assim bem reflectidas e sabiamente desgarradas. É que esta semana descobri o menos mau dos métodos para se tomar decisões... Ainda não fiz todos os teste necessários por isso não o divulgo (ainda) aqui na Nature. Talvez haja musa, também para as coisas aparentemente mais denotativas ela é necessária. Por agora, antes de pôr as celulazinhas cinzentas a trabalhar, quase desejo a solução mais fácil: que os clones morram todos de cancro!
Ainda somos muito pouco crianças.
Tenho dito (mas só um bocadinho).

John Doe Rosebud
21 anos, Caipira irritadiço, Grã-Lisboa

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agosto 15, 2003

Excerto da emissão radiofónica de 8 de Abril de 1516, da Portugal FM Real Emissora Nacional

Memórias de um proto-blogue VII

Excerto da emissão radiofónica de 8 de Abril de 1516, da Portugal FM Real Emissora Nacional

«A Portugal FM apresenta:
Novos Mundos
Espaço de informação e debate com Gonçalo Cortez.

Gonçalo Cortez (GC): Muito boa tarde senhores ouvintes. Inicia-se mais uma edição de Novos Mundos, desta feita em directo da Ribeira de Lisboa. À nossa frente está fundeada e pronta para zarpar a primeira frota portuguesa a demandar o caminho da India neste ano da graça de 1516. A azáfama visível na beira rio é bem característica dos últimos preparativos para aquela que se espera mais uma proveitosa empresa para o reino e para o distinto capitão, sendo este, se não estou falho de memória, D. Lopo de Orgens. Como pano de fundo para o nosso espaço de entrevista temos o grandioso Paço da Ribeira onde a corte prepara uma festa de Boa Fortuna em homenagem aos marinheiros, prestada na pessoa do seu capitão. Ainda há poucos instante tivemos oportunidade de saudar El Rei e sua esplendorosa comitiva, quando este terminou mais um dos seus tradicionais passeios pela capital. Saiba-se que D. Manuel se mostrou em sedosos panos de tom azul marinho pontuados com pequenos adornos dourados e cintilantes. Sua majestade revelou um sorriso constante e apresentava um semblante calmo e um olhar confiante. Voltaremos dentro de momentos para vos apresentar os entrevistados de hoje. Fique connosco, somos a Portugal FM.


Publicidade: Grande venda de escravos do Mestre André! Amanhã, na praça do Pelourinho Velho. Lotes de 2, 4 e 6 escravos servis e qualificados para todas as tarefas! Em apresentação machos e fêmeas provenientes da melhor terra de Africa. Você merece! A venda terá lugar de manhã, pelas dez horas. Não se arrependa depois, apareça! Olhe que o seu vizinho vai estar lá!...

GC: Ao meu lado tenho os dois entrevistados de hoje, ambos são lisboetas e ambos se passeavam aqui pela Ribeira há cerca de uma hora, altura em que os interpelámos e convidámos a participarem na nossa entrevista semanal. À minha direita tenho Damião Vicente, de 26 anos. Damião foi antigo soldado na India com D. Francisco de Almeida, escriba de alugo no Pelouro Velho durante um ano e de momento é animador da corte, colaborando com Gil Vicente com quem, realce-se, não tem laço familiares. À minha esquerda tenho Mafalda Capitoa, de 29 anos, peixeira no mercado da ribeira desde que se lembra. Agradeço a vossa disponibilidade para estarem presentes nesta entrevista.
O assunto principal que pretendo abordar convosco é a “Matança de Pascoela” sobre a qual se comemoram hoje precisamente 10 anos. Antes de vos pedir opinião e de fazermos o balanço da situação nestes dias, proponho que ouçamos uma peça preparada por Álvaro Torres sobre o massacre de há dez anos...

AT: Em Abril de 1506 a cidade de Lisboa vivia os horrores da peste e da impotência. Os habitantes procuravam através de rituais e cerimónias sagradas manter a fé. Reforçavam-se os apelos à misericórdia divina.
No dia 8 desse mês, comemorou-se o Domingo de Pascoela, por toda a cidade se realizaram procissões e serviços religiosos em memória dos que haviam sido levados pela doença e em favor dos pecadores que aos milhares rogavam por vida sã. Segundo mais tarde apuraram os conselheiros do rei e os nossos reporteres, no Mosteiro de São Domingos, o solo sagrado esteve perto de ser tingido de sangue, sangue de cristão-novo. Em pleno serviço, aos gritos de “Milagre!”, entoados pela massa ávida por revelações e apoio divino, sobrepuseram-se as considerações de uma alma menos crédula. Uma luz ou um sinal? Um cristão-novo apregoava que o que se via no altar era um reflexo de luz, que entrava por uma fresta; a multidão indignou-se perante a negação da sua visão e encontrou assim sobre quem exercer a catarse. Um alvo perfeito por ser estranho, diferente, introvertido e invejável na riqueza, um culpado inquestionável: o «Assassino de Jesus!». Num ai, toda a cidade gritava as palavras condenatórias, toda a cidade espancava e sofria. Em dois dias morreram mais de dois milhares de cristãos-novos, às mãos de outros lisboeta, atiçados por ditos “puros” da fé cristã. Estava consumado um dos dias mais sangrentos da história desta cidade. Sua majestade, indignada com o desrespeito pelas suas ordenações sobre os cristãos-novos, puniu severamente os “puros” e mais 50 de Lisboa morreram em consequência; desta feita, na forca. A cidade perdeu alguns dos favores do rei e o país ou se calou por vergonha ou ficou num murmúrio cúmplice. Hoje, passados 10 anos, são ainda frequentes quezílias com pretexto religioso e o massacre, se bem que nunca mais repetido, surge ainda bem vivo na memória de uns e de outros, atravancando a boa vivência entre todos os de Portugal.

GC: Mais um trabalho de Álvaro Torres para a Portugal FM.
Já a seguir à publicidade vamos ouvir os comentários dos dois lisboetas convidados.

Publicidade: Se está farto, fartinho da poalha e dos maus cheiros que infestam a cidade, se enjoou a paleta de tecidos que tem em casa e procura algo diferente, se tem problemas com a digestão ou se a comida não lhe sabe bem, se sofre de dores frequentes nas cruzes e se tem caruncho nas pernas... Venha à loja de António Pais de Açafrão, o mais experimentado e viajado dos comerciantes com negócio na capital! Desde as especiarias mais raras da Asia, às mais puras águas de Sintra, tudo encontrará na mais frequentada e melhor apetrechada loja de Lisboa. Para o povo e fidalguia, a todos servir com esmero! António Pais de Açafrão, à Rua Nova dos Mercadores.

GC: Mafalda Capitoa, o que se lhe oferece dizer neste aniversário da “Matança da Pascoela”?

Mafalda Capitoa (MC).: Eu não tenho nada contra essa gente. Eu não lido com eles, nem eles me compram peixe porque sabem bem que já os topei há muito. São uns falsos! Mas isso é lá com eles, não tenho que ver com isso. É com eles e com as suas almas. Deus não é cego! Ele tratará de os julgar. Por mim, desde que não me chateiem, nem me atrapalhem o negócio... Tudo bem. Agora, nesse dia da Matança, eles estavam a pedi-las! Já se dizia por toda a cidade que tinha sido um deles que tinha trazido a peste num barco que veio de Roma, depois, quando toda a cidade organizava preces e romarias, eles surgiam sempre com cara de poucos amigo e enfadados... É que nem disfarçavam! Naquele dia, disse-me a Alzira, minha vizinha, que estava lá em São Domingos, eles fizeram chacota do Espirito Santo que apareceu no altar!! O que é que seria de se esperar? Foi o que se sabe: arrastaram-nos à praça e entregaram-nos ao Senhor. E Este? Valeu-lhes? Acha que se fossem verdadeiros cristãos ele teria permitido tamanha perdição?

GC: Como interpretou a reacção do Rei?

MC: O rei estava lá longe, em Aviz, longe da peste e não foi bem informado. Os convertidos sempre tiveram amigos importantes na corte e assim sendo não é dificil maldizer o que aconteceu. Quando a notícia chegou aos ouvidos de sua majestade nós já eramos pintados de seres diabólicos e traidores! Mas é assim, o povo de Lisboa já sobreviveu a tormentas bem piores. E o amuo do rei já passou há muito tempo! Não o viu hoje com o cortejo pela cidade? Estava um poço de sorrisos e boa disposição, home!

GC: E você, Damião Vicente, que pensa deste assunto? Acha possível repetir-se uma matança como a de há 10 anos?

Damião Vicente (DV): Deus nos livre de repetir tamanho pecado. Pois se o Rei já esqueceu e perdoou, Deus tem a memória mais comprida, senhora peixeira! Não traga nos favores das suas preces as almas dos que matámos no meio daquela loucura e depois admire-se do que lhe calhar no juizo final! Foi coisa de bárbaros, meus senhores! Pois eles não morriam de peste como nós? Não traziam no olhar o desepero de quem tinha perdido meia família? E que história é essa de fazerem chacota do Espirito Santo que apareceu em São Domingos? Eu, com estes, já vi o tal “Espirito Santo” dezenas de vezes no Mosteiro de São Domingos e já o tinha visto outras tantas antes daquela época! Era uma reflexo, sim senhor! E se não fosse? Onde estava a cristandade de amparar quem duvidava, inundando-o com a sabedoria de quem tem fé? Quem nunca duvidou entre os cristãos? Esta cidade está cheia e a encher por todas as portas! Vêm do interior, vêm de além mar, têm cores diferentes, diferentes hábitos e saberes... O que será de nós se a todos culparmos do que não sabemos, conhecemos ou não podemos combater? Como poderá esta ser a capital do mundo e nós o povo de paz e união que se exige entre os filhos de Deus? Porque todos o somos, à sua imagem e semelhança!

MC: Tanto que peleja por tão pouca gente, Damião Vicente animador de sua majestade!

DV: Tanto que se resolveu com a Matança de Pascoela peixeira de quem lhe aprouver! Por ventura desapareceu a peste?

MC: Porventura desapareceram todos os cristão-novos da nossa cidade?

DV: E não tem vossemecê nada contra “tal gente”!!

GC.: Bom, não me cabe a mim ajuizar e considerar sobre as vossas opiniões, mas penso que os nossos ouvintes já têm dados suficiente para reflectir sobre o que dissesteis. Antes de terminarmos e uma vez que estamos em Lisboa, queria dar-vos a oportunidade, aliás como fazemos em todas as cidades por onde temos passado e com todos os entrevistados que convidamos, queria dar-vos a oportunidade, dizia, de que expressasseis quais os principais problemas da vossa cidade e quais os que gostarieis de ver resolvidos o mais depressa possível. Mafalda Capitoa.

MC: Já não é para falar dos judeus?

GC: Não. Diga-nos o que está mal na cidade, na sua opinião. Pode ser que alguém nos ouça...

MC: Olhe o que está mal é que haja tanto miserável pela cidade. Há por aí gente a morrer pelos cantos que é um dó. Pois se veêm que temos cá escravos que cheguem e que não há quem lhes dê ofício, porque insistem em ficar em Lisboa? Sim, que muitos deles vêm de fora e cá ficam a apodrecer e a empestar a cidade! O Rei que os ponha fora das muralhas e os mande para o campo que boa falta lá fazem. Fique a saber que a minha prima Deolinda que esteve numa terrinha perto de Felgueiras me disse que nem braços havia para tocar o sino! Pois não estava um homem como convém em toda a aldeia, só as mulheres, velhos e crianças! O resto, andava entre portos ou vinha a caminho de Lisboa à sorte melhor. E depois vê-mo-los aqui: uns a definharem sem sustento e doentes, outros a estourarem o que têm no vinho ou no jogo, sempre à porrada... Isto é que está mal. O lugar deles não é aqui.

GC: Damião Vicente...

DV: Então e a poeirada, os buracos e caboucos novos que aparecem a cada dia não incomodam tanto quanto essa miséria que não é escolhida mas destinada por estranhos andares do mundo e deste país? Pois se a um lado desses miseráveis se erguem monumentos, mosteiros, conventos e armazéns e ao outro passam fidalgos, senhoritos e até, com todo o respeito, peixeiras com corgalhos de escravos atrás, prontos, talvez, para lhes limpar o cu, não acha que isso é no mínimo igualmente chocante? Construa-se, digo eu, que são precisos os hospitais, os mosteiros, conventos, paço e armazéns. Afinal, esta cidade quer-se digna da nossa façanha. Mas não se ofusquem com vaidades e brilhos vãos os de Lisboa e os do país que aqui chegam como moscas ao esterco. Aprendi que na guerra, no mar e na vida tudo exige equilíbrio e talento. A nau quer-se, e tem de se querer, bem equilibrada antes de se fazer ao mar, pois, de outro modo, não se verá outro porto que o da largada. Connosco, aqui em Lisboa, o risco é o mesmo. E o que custa ler as escrituras e de lá tirar estes ensinamentos? Tanto penou Abrão pelo seu vale fertil e para quê? Para esbanjá-lo confiando na riqueza de amanhã só porque foi boa o colheita deste ano? Onde estariamos sem a riqueza que há-de navegar, sabe-se lá até quando, nestas naus que aqui temos à frente?

MC: Tanta palavra vossemecê diz que já me tenho tonta, homem! Fico-me com esta: Buscámos, encontrámos. O antigamente já passou. O que vê é bom, por isso, goze-o enquanto cá anda que nisto da vida homem e peixe estão sempre a trocar de lugar na ponta do anzol. Quanto ao equilibrio, o que interessa é o da balança da Casa da Índia: que se continuem a pôr muitas medidas para chegar à conta do ouro e da especiaria.

GC: Assim termina mais um Novos Mundos, neste dia 8 de Abril de 1516. Para a semana não haverá programa:s estaremos de viagem em direcção a Faro onde faremos uma entrevista em exclusivo com o Feitor da Mina em visita ao Algarve. Boa noite e continue com a Portugal FM. Já a seguir e satisfazendo o pedido de vários ouvintes vamos retransmitir a «Farsa do Velho da Horta» da autoria de Gil Vicente, gravada há quatros anos no Paço da Ribeira.»

Fim

Dados Estóricos Importantes:
- Álvaro Torres foi queimado num auto-de fé em 1541 acusado de heresia.
- Damião Vicente foi persseguido pela inquisição e crê-se que tenha fugido para o Brasil onde residiu sob falsa identidade.
- Mafalda Capitoa foi queimada juntamente com as suas quatro criadas escravas num auto-de-fé em 1541, acusadas de associação com o demónio e bruxaria.
- Gonçalo Cortez abandonou Lisboa no ano em que se instaurou o Santo Ofício e passou os seus dias a puxar o sino numa aldeizinha perto de Felgueiras na companhia de uma tal Deolinda que conheceu pouco depois desta entrevista numa das suas viagens pelo país
- Autor está farto de inventar nomes pseudo quinhentista e anda a tentar perceber em que é que o seu subconsciente se baseou para o consciente agora se perguntar porque é que o português que colocou na boca de personagens do século XVI resulta num linguajar tão arrevesado.

Mem Martins, 1998 (?)

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agosto 14, 2003

O cão do meu vizinho

Memórias de um Proto-Blogue VI
O cão do meu vizinho

Lá esta ele encostado à sombra do muro do quintal, dormitando sob o calor da primeira tarde de verão. De há um par de anos para cá a vida deste cão castanho, tamanho médio em medida de cão, resume-se a uma rígida rotina.
Gastam-lhe os dias encurralando-o num pequeno espaço do quintal: uma parte elevada onde deveria ser o estendedal de roupa, aí coisa para 12 metros por metro e meio.
A um dos cantos, encostada ao muro, tem a sua barraca improvisada de dois andares: tijolos para as paredes, placa de contraplacado entre pisos e telhado de tábuas e alcatifa velha.
O muro em três lados do rectângulo e o abismo de mais de dois metros do outro, bem como, um resto de estrado de cama colocado ao cimo da escadaria que dá acesso a esta moradia do cão, impedem o animal de alargar horizontes.

Acorda bem cedo, dá uns pinotes para espreguiçar e aclara o latido, cada vez mais raramente. Depois, anima-se com alguma vida que surge na parte de baixo do quintal, aninha-se de olhos e orelhas atentos e assim fica até chegarem os restos do almoço. Nessa altura, mais uma sessão de pinotes e cabriolas se não for dia de estar encharcado pela chuva que entra por todos os cantos da sua casota sem portado.

Uma boa tarde para o animal deve ser bastante parecida com esta, esticado à sombra fazendo a sesta; falta talvez um gato.
Ocasionalmente, uma pequena reentrância do muro é utilizada pelos gatos das redondezas para atravessarem este quintal. O cão têm então a emoção da semana ladrando, saltanto, mas apenas cheirando o gato ligeiro que já há muito conhece as limitações dos pulos do cão. Em regra, ido o gato, segue-se sessão de latidos e perseguições ao próprio rabo, naquilo que parece ser uma imensa mistura de emoções, entre a ansiedade, a frustração e uma pontinha de alegria pelo breve sabor a vida. Certos dias, após a aparição do gato, há ainda mijadelas pelos cantos do rectângulo e cagadelas apressadas no extremo oposto à casota.

Ao sábado, ou ao domingo, é tempo de mangueirada à propriedade e ao seu residente; com sorte é verão, está calor e o dono vem com uma rara vontade de dar trela aos graçejos do bicho.

Após os restos do jantar o cão ruma à casota, 1º andar, e por ali fica com o focinho entre as patas, talvez à espera do embalo de uma lua nascente, talvez lembrando o pequeno companheiro, padrasto e amigo que morreu aproveitando-se da misericordiosa eutanásia realizada por um veterinário que lhe diagnosticou um cancro em fase terminal, há coisa de dois anos.
A casota está mais vazia, já não há guerras brincalhonas no rectângulo onde o cão grande, mais novo, se vencia perante o empertigado meia leca que o acolhera com pouco custo na propriedade. Já não há cenas gay quando o vento muda de direcção. Já não há desgarradas barulhentas. Restam os gatos, às vezes um pardal distraido, ou um pedaço de osso mais abaulado e saltitante.
Às vezes, o cão fica-se com se num pedestal de rabo e focinho bem esticados, orelhas em frente e olhos espectantes, mas o que sai pela porta do quintal raras vezes confirma a espectativa e o focinho volta ao meio das patas. Aos olhos regressa a tristeza e a língua perde-se numa pata dianteira, no enorme trambolho que lhe cresce rapidamente do corpo.
Tanto que eu adivinho desta vida de cão.

19 de Junho de 1998

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agosto 13, 2003

André e a Secular Rede da Boa Vontade

Mais uma do baú
Memórias de um Proto-Blogue V

Crónicas Rapidinhas sobre Tansos:
André e a Secular Rede da Boa Vontade

Chamemos-lhe André. André é um rapaz a rondar os 20 anos, tem uma cara juvenil e uma capacidade de representação razoável. Este rapaz apresenta aos passageiros da linha de Sintra, na estação do Rossio, uma variante interessante do pedinte de comboio. A sua imagem é completamente oposta à do pedinte clássico que ainda vai resistindo: o indivíduo chungoso e fedorento, de baixa estatura e envergadura diminuida pela dependência e pela imunodeficiência adquirida, que vai tentando vender pensos rápidos a 100 paus a dúzia.
O André não é mal parecido, é asseado, anda sempre bem vestido - de pólo ou T-shirt com boas calças de ganga e tenis a condizer ou então de fato cinzento - e faz-se acompanhar de uma pequena pasta portfólio que completa a figura de indefeso estudante do secundário ou universitário.
Composto o boneco, o André lança a linha com um dizer relativamente comum mas ainda não saturado nestas andanças das carroagens de comboio: «A senhora [alvos preferências entre potenciais mães ou pais de adolescentes] não me podia dar qualquer coisa para acabar de pagar o bilhete? É que perdi o passe e estou desprevenido... Só tenho 100 escudos....»

Nos primeiros tempos, o sucesso do esquema é razoável, pois o boneco está bem feitinho e é bem diferente da tal imagem preconcebida a que as pessoas reagem com uma automática recusa.
Quando o André me interpelou pela primeira vez, confesso que fiquei espantado com a sofisticação e demorei mais um segundo do que devia para responder negativamente ao pedido.
Poucos dias depois, volto a encontrar o André no Rossio com outra roupa e outra pasta, mas com o mesmo boneco e esquema. Quase lhe bati palmas: a representação melhorava de dia para dia! No entanto, quando me interpelou novamente, brindei-o com o silêncio e um olhar imperturbável bem fixo na cara dele o que me valeu, desde então, ser poupado a futuras exibições personalizadas.
Hoje, passados alguns meses após o primeiro encontro, tornei a ver o André no comboio (vem lá ao fundo da carroagem, neste momento) ainda com a mesma ladainha e esquema. A avaliar pelas contribuições, o negócio já teve melhores dias, quase só sobram as senhoras de bom coração que não têm ido corrigir as dioptrias ultimamente, mesmo assim, ainda vai rendendo qualquer coisa, não é André? O tipo ainda me conhece! Passou por mim agora mesmo, poupando latim.
É preciso ter lata, mas mais importante do que isso é preciso ter dinheiro. André tem conseguido doses bem aviadas de tudo isto e tem ainda o filão da linha de Cascais para explorar (qualquer dia terá também a do Pinhal Novo). Desejo-lhe boa memória para me continuar a reconhecer e desejo-me a fortuna de nunca precisar de recorrer à generosidade alheia em região já batida e chupada pelo André; já agora, desejo o mesmo para vocês.

*

Hoje, ao início da tarde - alguns dias depois do anterior «hoje» que vem ali mais acima -, voltei a ver o André na estação do Rossio. Estava no grande átrio onde se vendem jornais, bilhetes e pipocas.
A indumentária era a do esquema e tudo indicava que ia começar mais um dia de trabalho, mas havia uma novidade, uma novidade para mim, não para a verdadeira história quotidiana da linha: com o André estavam mais dois Andrés. Um talvez fosse o António: “vestia” a sua pastinha de apontamentos que trazia na mão esquerda juntamente com o caderno escolar que encostava à T-Shirt da moda. O outro, mais velho, parecia coordenar as tarefas do dia distribuindo direcções e instruções para os Andrés. Este outro parecia menos universitário, mas também não tive tempo para o topar em condições. Num instante se separaram em direcção às várias linhas da gare do Rossio. A rede da boa vontade voltava a atacar os generosos e indefesos cidadãos suburbanos.
Hoje é terça feira, dia de feira da ladra, há pombos, fumo, enganos, rugas e olheiras. Parece Inverno este Verão. Acho que não devia, mas tenho nojo de alguma coisa.

Mem Martins, 24 de Julho de 1997

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agosto 12, 2003

Crónica desordenada de um sofrimento comum

Era sempre a mesma coisa! O João abria um livro e, logo nas primeiras linhas, lá estava escarrapachada uma das ideias que tinha como parte do seu mais íntimo património, obra de sua suprema singularidade. E, invariavelmente, o livro ia parar à gaveta da mesinha de cabeceira, condenado. Que diabo! Seria isto um truque da sua mente? Estariam já todas as ideias escritas num livro? Porque teimavam em parecer sempre mais belas e perfeitas? E porque lhe passava constantemente pelo pensamento aquele quadrado da Mafaldinha, onde se dizia que criar não era mais do que imitar com antecedência?

O pior é que, a cada experiência destas, surgia mais forte a convicção de que o próprio problema enfrentado não poderia ser algo de novo. A originalidade é uma utopia logo, não vale a pena pensar porque é virtualmente impossível criar. Caso arrumado, segue a vida! Não segue não senhor. O João tinha que resolver o assunto de uma vez por todas, afinal, no seu código não havia prisões perpétuas e, de certeza, incorreria novamente no hábito da leitura.

Abriu a gaveta e o livro do momento,“Os Mais” de Eça de Queiroz, capítulo tantos da página tal, cá estava: Ega resolvera escrever as «Memórias de Um Átomo». Ora, um fulano que nascera há aproximadamente 150 anos, aliás, há precisamente 150 anos, retirou o brilho da originalidade a uma ideia que o João tivera há uns meses atrás! Quem era esse Eça de Queiroz para agora, com o peso dos seus anos e com a sua antecessora existência, vir condicionar os que se lhe seguiram, ao ponto de lhes retirar a legitimidade de se apregoarem criadores de uma ideia, pais de um pensamento, que efectivamente era tanto de sua exclusiva autoria como foram os de Eça em seu tempo?
Mas que “culpa” tem Eça? Certamente, também não terá menores direitos.
A culpa não é de ninguém! Queimem-se os livros, escrevam-se outros para a fogueira! Não, isso também não. Se a escrita fosse uma colecção de ideias finítas essa nunca seria uma solução; não haveria solução. A escrita deve ser algo mais - desconfiou o João.
Após estas reflexões não se sentia nem melhor nem pior, uma mistura de revolta e angústia dominavam-no. Resolveu então partir do princípio que só conseguira aflorar a ponta de um iceberg, uma vez que era essa a sua sensação mais frequente no dia a dia. Geralmente, tudo o pensamento ou reflexão que produzisse empurravam-o para um mundo extremamente complicado e cheio de relativismos movediços, potencialmente agonizantes. Assim, tomou este como um desses casos frequentes e resolveu abordá-lo de uma forma diferente: ia escrever.
O desespero foi instantâneo. Ainda antes de escrever imaginou-se já a combater o ridículo da repetição, da frase feita, do pensamento estafado ou completamente previsível. Em torrente e meio desvairado debitou para o papel: «Mas eu só nasci quando nasci; estou limitado aos meus conhecimentos. Afinal, o meu tempo só conta com o passado dos outros quando faço dele presente. Não lhes devo direitos de autor; devo-lhes respeito e estudo. Mas devo-me o esforço de pensar pela primeira vez a ideia nova, ainda que no tempo dos homens seja já antiga e tradicional». Parou um pouco e releu-se. Continuou: «Também já não estou na fase do “contra”, já faço compromissos. Tento manter um ritmo assente na espontaneidade e na naturalidade, sempre combatendo as poses que insisto em fazer e em aturar. Cada um tem que descobrir o seu estilo, a sua personalidade, mas sempre sem abusar dos ídolos, das comparações, das oposições e de todo o tipo de reacções mecânicas. É algures no meio desta filosofia que tenho de encontrar o meu meio de navegação mais racional, pois que não raras vezes me é apenas possível navegar com recursos mais primários, ainda que ocasionalmente mais inesperados e desconhecidos». João voltou a parar, olhou para o livro e rematou: «Qual é o melhor caminho para se aprender a ler? Lendo?!»
Ficou ali um pouco, sentado na cama, a olhar para o papel. De seguida, ergueu ligeiramente a cabeça e olhou-se no espelho, viu o livro ao seu lado e quiz agarrá-lo com a mão direita. Dissimulado, este fugiu-lhe aproveitando a traição do espelho. João sorriu. Com uma sensação de rendição, enfiou-se debaixo dos cobertores e sonhou Lisboa, e depois Sintra, tal como Eça lhe sussurrara pelas páginas de um livro aberto.

Aos 10 de Outubro de 1995
(publicado no DN-Jovem em Novembro de 1995)

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agosto 11, 2003

Memórias de um Proto-Blogue: A Senhora do Ó

Hoje é quinta feira dia 18 de Setembro de 1997.

A poucos passos da Calçada do Combro, lá bem no fundo, havia sol; uma esquina de sol de fim de tarde que vinha caprichosamente por entre os telhados até à esquina da Rua dos Poiais de São Bento.

Nessas esquinas estava uma senhora de Ó parada no passeio, virada para a estrada. Vestia de vermelho uma camisola de malha que aperfeiçoava e vincava o magní­fico Ó atirado para a frente com a ajuda das duas mãos bem fixas nas ilhargas.

Acabei de descer a í­ngreme calçada e passei também pelas esquinas: ela já lá não estava. Distrai-me com a sua imagem que fixara uns metros atrás e perdi-lhe o destino. O meu, ia sendo passado a ferro pelo carro apressadinho que não queria parar ao sair das esquinas: «Desculpe lá! Não o vi com o sol.» disse em voz trémula a senhora que trazia ao lado um seu Ó com vinte e poucos anos, no feminino. E que lindo sorriso iluminado me mostrou este outro Ó quando o susto passou...
Faltavam quarenta e três minutos para a hora marcada e eu sobrevivia feliz, galgando a calçada branca e cagada da cidade de Lisboa. Arranjei uma musa para o meu último exame da faculdade.

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Memórias de um Proto-Blogue: Avenida da Liberdade

Uma rapariga apressada, sisuda, que subia a Avenida da Liberdade arriscou - oh acto de bravura nesta era desgraçada!- perguntar, a um rapaz que descia, que horas eram. Este, em vez de virar a cara para o lado e apressar o passo antes que fosse assaltado, ou então, antes que fosse convidado a uma sessão de apresentação de um excelente produto, arriscou também - oh feliz o audaz que propiciou esta coinciência!- e respondeu.

Engasgou-se tantas vezes antes de dar a hora certa que acabou a pedir desculpas à rapariga que sorria agora divertida, tal fora a palhaçada.
A boa disposição em que a moça ficara funcionou positivamente no rapaz e este justificou-se dizendo que o relógio era novo e sendo analógico não estava habituado a ele. Ela replicou que seguramente valera a pena reaprender a ver as horas dado que o relógio era muito bonito. Acrescentou: “É a primeira vez que pergunto as horas a alguém, se eu soubesse que era tão divertido já o tinha feito mais vezes.” Cavalheiresco, o rapaz respondeu: “Disponha, estou sempre às ordens para receber um sorriso... como o seu.” Num tom cúmplice, continuou: “Para a próxima, já que esgotámos este espediente, pode perguntar-me uma direcção. Garanto-lhe que vai rir a valer! Especialmente se secretamente souber onde é. Eu nem lhe digo quantos desgraçados é que já desencaminhei com a maior das boas intenções!” Riram, despediram-se. Pouco depois, olharam os dois para trás aos mesmo tempo, sorriram de novo. Ela apanhou o metro, ele entrou num Banco.

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agosto 08, 2003

O dia em que Avis foi ao café

Já alguma vez tentaram entrevistar alguém? Imaginem que estão num sítio onde não conhecem ninguém e ninguém vos conhece. Trazem numa pasta perguntas impressas que terão de fazer a pessoas determinadas: ao Sr. João Alves Pereira Rosado, à Sra. Zulmira Brito, ao Sr. António Silva… Enfim, a pessoas concretas que alguém escolheu como representativas por algum critério para expressarem a opinião do país sobre, por exemplo, as preocupações ambientais.

Há poucos anos, um entrevistador do INE, deslocou-se a Avis para perguntar a residentes seleccionados cerca de uma dúzia de questões sobre ambiente. Levava os nomes, as idades e as moradas. Chegado à vila procurou os endereço, bateu às portas e pouco ou nada conseguiu fazer. Não aparecia ninguém. Andou nisto uma manhã. Quando pedia ajuda a algum dos escassos passantes ninguém conhecia o Sr. João Alves Pereira Rosado ou a Sra. Zulmira Brito… A situação tornava-se desesperante. Até que em mais umas das tentativas um velhote lá aconselhou o inquiridor a desistir do bater às porta e a abancar no café.

Assim fez. Entre tragar um refresco e descansar numa cadeira perguntou pelo Sr. João Rosado…
- O que é que o senhor lhe quer? Perguntou um companheiro de bebida sentado na mesa em frente.
O entrevistador explicou ao que ia, que era do INE de Évora e que queria fazer umas perguntas sobre o ambiente, que não senhor não era para vender nada, nem era preciso cuidar que o assunto não interessava à polícia.
- Então o Sr. João Rosado devo ser eu mas não percebo nada de ambiente, pode pôr aí no papel.
O nosso entrevistador encontrara o Ti João da Fisga , vizinho da Ti Brites (Zulmira Brito) e companheiro das cartas do Ti Tonho Tamanco (António Silva). Os nomes de guerra e as alcunhas não chegaram aos ficheiros centrais do INE… Faltava esclarecer o que era “isso do ambiente”. Mas por mais que repetisse as perguntas de português polido que vinham na papeleta não havia maneira do Ti João da Fisga dar ares de entendimento. E se entendia, continuava desconfiado, parecendo procurar uma razão escondida.

Já os dois se impacientavam quando chega o Ti Tonho que sendo coxo de alcunha se apresentou lesto e voluntarioso em mostrar-se prestável pois tinha um sobrinho no INE de Lisboa e queria ajudar. Mas… “Isso do ambiente é lá nas cidades, com os carros e os aviões, aqui é tudo pacato e sossegado… Não ouve os pardalitos?”. Tudo assim andava, entre risadas e copos pagos, até que o entrevistador falou de água, de águas sujas nos rios. E tudo mudou, mudaram as expressões, o grão da voz, a postura nas cadeiras.“Os maganos das fábricas que nos matam o peixe e que nos engrossam a água no verão.
Volvidos dez minutos de conversa o café estava a abarrotar de gente disposta a responder ao senhor do INE, demandando ser ouvida, exigindo que se soubesse em Évora e em Lisboa o que pensavam do ambiente na sua terra. Das vinte entrevista previstas, cem se teriam feito sem dificuldade e, no fim, todos agraciaram o senhor do INE que se dignara apresentar-se na terra e lhe rogaram que falasse com as autoridades, que tivessem vergonha e lhes devolvessem o Alentejo onde nasceram.

Pelo que nos diz o Aviz, esta pequena estória inspirada numa outra história partilhada durante um belo repasto alentejano, está bem longe de ser pura ficção.

P.S.: Os nomes são ficcionados está bom de ver...

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agosto 07, 2003

A "Pomba" era desta raça, pai? (rev.)

O Grupo Lobo, a Naturlink e a BP, lançaram uma campanha de conservação do Lobo-ibérico e de raças portuguesas de Cães de Gado. O patrocínio a conceder pela BP será função do número de pontos dos cartões BP doados (ou jogados) pelos seus utilizadores.
(...)
Um Cão de Gado é um cão que protege os animais domésticos dos ataques dos predadores, como os lobos, as raposas ou os cães vadios. É calmo, não interfere nas actividades do rebanho, mas está sempre atento à aproximação de qualquer intruso ou situação estranha. Sendo muito independente, trabalha sem necessitar da presença ou supervisão do pastor.

A "Pomba" era desta raça, pai?
Era assim que te permitias escalar a serra sem veres o rebanho, dormires a sesta à sombra do castanheiro, resgatares a tua infância com outros pequenos pastores como tu. Ao som do teu assobio a "Pomba" trazia-te o rebanho... À mais pequena restolhada denunciava o Lobo. E tu fazias-te valente contra aquela figura bestial ao lado da tua Pomba.
Ainda bem que te comoves e não te envergonhas desse brilho nos olhos que quase invejo quando te lembras pastor.
Um beijo.

P.S.: Obrigado pelo link Ana.

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Quanto medem duas léguas...

Ora, ora... Um prometedor e útil portal para quem quer ter o primeiro contacto com a Beira Baixa. Se bem percebo, desenvolvido pela ADRACES - ASSOCIAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA RAIA CENTRO-SUL. Ainda há muito em construção mas já é possível encontrar referências históricas, demográficas e sociais para as freguesias dos concelhos raianos de Castelo Branco, Idanha a Nova, Vila Velha de Rodão e Penamacor. Não faltam as referências de equipamentos hoteleiros, restaurantes e locais turísticos de interesse. Tudo muito sintetizado, bonito e limpinho. O Adufe tem de acarinhar...
Tomo a liberdade de reproduzir aqui três pequenos textos da parte mais literária do Bis- Net, a saber: alguns dos Contos, Lendas e Tradições que surgem nas páginas dedicadas às aldeias (seleciono apenas aldeias de Penamacor). Já agora, não se esqueçam de visitar, serão todos benquistos concerteza.

Aldeia do Bispo

O Frade e a Freira
Em tempos muito remotos havia dois conventos, destinando-se um a homens o outro a mulheres. A distância que separava as duas casas de recolhimento não era pequena. Contudo, o regulamento dos dois claustros proibia a entrada dos frades nos conventos das freiras e a destas no daqueles. Passaram anos, que perfizeram séculos, não havendo nada que fosse contra esta disposição monástica. Um dia, porém, em falso monge, qual outro lobo vestido com a pele de cordeiro, entrou no mosteiro das freiras e seduz uma pobre religiosa. Ambos fogem das casas que os haviam acolhido hospitaleira e religiosamente. Em breve, ao toque das matinas, se notou nos mosteiros a falta dos religiosos. Procuraram-nos por montes e vales, por desertos e povoados e em vão foram feitas estas buscas. Como deviam aparecer, se eles tinham fugido num cavalo que andava tanto como o vento? Os superiores de ambos os mosteiros viveram horas amargas pela fuga dos monges. Um dia, porém, viram, com grande surpresa, em elegante cavalo que caminhava dum convento para o outro, parecendo querer oferecer os seus serviços àquelas casas de penitência. Os videntes não se enganaram. Este cavalo, que misteriosamente lhes apareceu tinha a qualidade de andar tanto como o pensamento. Então um frade dos mais destemidos, depois de arraçoar o animal, toma lugar na cela, e numa correria fantástica, o animal levou-o, num abrir e fechar de olhos, ao local longínquo, onde os fugitivos se encontravam. Como castigo, estes dois maus religiosos são levados para o cabeço da portela, a oriente da Aldeia do Bispo, junto às minas do Pinheiro e, ali, como a mulher de Lot transformada em estátua de sal, são convertidos em estátua de duro granito. Lá se encontram ainda hoje, expiando o castigo da sua culpa, aos olhos de todos quantos ali passam. O cabeço onde o castigo se operou, tem o nome de Cabeço do Frade e da Freira.

Bemposta

Senhora da Silva
Segundo a tradição, a imagem da Senhora da Silva, orago da freguesia e, que ainda hoje se venera, apareceu, em tempos idos, no tronco ocado de uma oliveira, rodeada de silvas que dava pequenas rosas brancas, como a neve pura nas altas montanhas. Estas flores são conhecidas por rosas bravas. Ainda se podem ver no lugar da aparição restos do arbusto. Ao aparecimento da imagem é-lhe dada a seguinte interpretação: em tempos muito remotos de guerras e perturbações sucedeu, várias vezes, os habitantes das povoações abandonarem as suas terras e, portanto, as suas casas. Acontecia, como em todos os povos da antiguidade, durante estas lutas, que os habitantes escondiam, enterrando-os por vezes, os seus haveres, para que não lhe fossem destruídos ou roubados. Ora a Imagem de Nossa Senhora, que é de roca e vestida, como diz o povo, apesar de nada ter de artístico, foi contudo sempre venerada como padroeira do povo de Bemposta. Os habitantes tiveram, em ocasiões de luta, de abandonarem os seus lares. Para que a Imagem da sua padroeira não fosse profanada pelos povos invasores, esconderam-na enterrando-a. Estes povos não mais voltaram e a imagem permaneceu no esconderijo. Nele nasceu um silvado que, na Primavera, floresce de rosas brancas, como brancas são as virtudes. Num dia porém, o dono da propriedade lembrou-se, certamente por necessidade de cultura, de cortar o silvado e arrotear o terreno. Qual não foi a surpresa do agricultor ao encontrar a imagem de Nossa Senhora que, desde esse dia, foi levada para a Igreja Matriz, tomando o nome de Senhora da Silva em homenagem ao arbusto deste nome, nascido no local.

Benquerença

O Cruzeiro
Conta-se que, em tempos idos, todas as freguesias que ficassem a menos de duas léguas da sede de concelho, no dia do Corpo de Deus, eram obrigadas a fazerem-se representar na procissão que ali se realizava. Como o caminho era difícil e penoso, um ano a Benquerença faltou e foi processada. O tribunal mandou medir a distância e como a freguesia ainda não chegava onde hoje chega, foi absolvida porque as duas léguas foram marcada fora do perímetro da freguesia. Esta, em sinal de alegria e por se ver desobrigada daquele compromisso, construiu no local um cruzeiro assinalando-o. A data deve ter sido 1774, pois é a que está marcada na pedra que servia de base ao cruzeiro primitivo e que houve o cuidado de conservar na base actual.

Todas as imagem foram retiradas daqui.

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agosto 04, 2003

Ignorando a lenda de Mem Martins

“Can you tell me where my country lies?”
said the unifaun to his true love’s eyes.
“It lies with me!” cried the Queen of Maybe
- for her merchandise, he traded in his prize.


Excerto de «Dancing With The Moonlit Knight», Genesis,
Álbum SELLING ENGLAND BY THE POUND, 1973

I

(...) Acabaram as aulas. A turma saiu da sala e dispersou-se rapidamente.
Distribui duas ou três «boas festas», mais uns quantos votos de «boa viagem» e ala para os beirais da serra; conforto e descanso é que se desejam, para corpo e alma. Mas este ano a serra é a de todos os dias; este ano, para variar, é Sintra que enfrenta a memória de outras férias passadas num vale à raia de Espanha, num buraquinho da Cova da Beira.

Talvez porque o ambiente e o cenário sejam propícios a nostalgias, talvez porque a saudade seja forte e genuina, despeço-me da Pena, fecho os olhos e recordo.

II

A aldeia

A sudeste, por entre meandros de vales contínuos que, caprichosamente, se sobrepõem e, em determinados pontos, prolongam o horizonte, adivinham-se terras de Espanha.
A noroeste, bem visível, surge a Estrela imponente e desafiadora. Não sei se as montanhas têm perfil mas se tiverem é assim que, daquela aldeia, se vê a Estrela.
Nos outros extremos erguem-se os amparos que completam a identidade do vale - rivalidades de duas montanhas que se aventuraram há milénios numa prova de resistência entre blocos de granito e maciços de xisto. Da distância escavada nasceu um vale largo, plano, fértil, muito raro.

Na noite da véspera de Natal, enquanto se celebra a cerimónia da missa do Galo, a grande maioria dos homens da aldeia fica no adro da Igreja em torno do secular madeiro de troncos de carvalho, pinheiro e castanheiro. Os «rapazes do ano» - os que esperam a incorporação num dos três ramos das forças armadas - descansam, finalmente, do grande andor em que viveram nos últimos dias. Passaram parte do mês acarretando camionetas e mais camionetas de toros e troncos para fazerem o mais alto, mais duradouro e mais brilhante madeiro em todo o vale da Ribeira da Meimoa; uma autêntica estrela a anunciar O menino! Mas que descanso permite a sua idade quando há o vinho novo pronto a provar, quando o contraste da fogueira monumental com o noite gélida entorpece os corpos apelando ao movimento constante tão bem satisfeito numa moda? E que dizer então quando os deveres religiosos estão cumpridos e o adro se completa com as «raparigas do ano»? Confesso que a “malta” de hoje raramente vai em modas e, também nesta aldeia, começa a ser mais cerveja do que tintol, ainda assim, mantém-se como uma das muitas seculares tradições desta noite, a troca, em torno do grande lume, de todos os primeiros olhares que ainda há para trocar. A promessa de amor (outra das tradições sobreviventes) já terá lugar, muito provavelmente, no aconchegante conforto do bafio da uma boate [isto não se escreve assim, pois não?] da aldeia - o bafio é o universal, nada tem de típico ou de pitoresco.

Voltemos às tradições. A que aqui me trouxe foi a de contar e ouvir contar histórias.
Todo o dia é bom dia para contar histórias, mas no Natal os avosinhos e avosinhas, perdão, as avosinhas e os avosinho parecem mais embuidos do espírito, o que, adjuvado pela existência de uma plateia mais estimulante e atenta - os jovens rebentos da família emigrada - torna mais provável esse momento de sempre espantosa beleza.
Me proponho contar-vos uma história, mas tenho de vos esclarecer que é, em última análise, uma composição das várias versões que fui ouvindo, em vários natais, pela boca de cada um dos meus avós . Em memória deles e pela minha memória, cá vai.

III

A querença

Há muitos, muitos anos - à distância a que se fazem as lendas - os homens desta região ficaram em paz e sossegaram os corações. Então, abandonaram os seus castros altaneiros e foram-se fixando um pouco por todo o vale.
No início, seriam apenas três, as famílias que formaram o núcleo original da aldeia cuja história vos conto. Juntos, partilhavam todas as tarefas, alegrias e tristezas fazendo-o com tanto amor e desinteresse, que impressionaram todos quantos passaram por aquele local do vale: o mais verdejante e bem amanhado, bem perto da generosa ribeira que a Malcata já então oferecia.
Era tamanho o bem querer transparecente da relação entre aquelas gentes, que não tardaram em ser conhecidos por todos os ajuntamentos do vale como os benqueridos.
Mas não termina aqui a história deste povo, como em muitos outros fados também o deles reservava provações. Sucessivamente, sofreram com as pragas de gafanhotos vindos de Espanha e sofreram com as pestilências e enxames de insectos oriundos dos muitos pântanos que pontuavam o vale. Só o ferrenho sentimento de entreajuda lhes permitia sobreviver a tais reveses, reconstruindo o sonho tantas vezes derrubado. No entanto, mais uma vez, o destino acrescentaria crueldade e tragédia às provações anteriores. Um dia, enquanto se entretinham com as ceifas, não se aperceberam dos subtis sinais que alertavam para a desgraça. No fim da manhã, surgiu um estranho mas discreto ruído que se avolumou lentamente. Contudo, só já perto do sol posto, associaram a agitação em que andaram os estorninhos, durante boa parte da jornada, a algo incomum, diverso da rapina. Adivinharam a tragédia quando viram o cimo da pequena colina, que os separava de suas casa, cobrir-se de um imenso tapete negro. Este perigo, quase invisível aos sentidos e implacável, tomou-lhes as casas, os animais e os filhos indefesos que por lá ficaram.
O horror e o desgosto não mudou estas gentes... Fê-los mudar de ninho mas não mudou o que os unia. Em resposta à tragédia, também o seu sentimento se acrescentou. Escolheram um local mais seco e de terras menos dadas às formigas; aproximaram-se da serra, ficando a meio caminho entre a floresta e a ribeira e seus pântanos. Mais uma vez sobreviveram e, finalmente, foram mais longe. Criaram raizes naquele lugar e chegaram a ver uma aldeia crescente em gente de geração própria e vinda de terras alheias. Vinham de terras onde se ouviram histórias de um lugar de gentes santas que haviam vencido, com o seu amor e determinação, todos os espinhos que se podem esperar em domínios da lavoura e pastorícia.
Hoje, não merecerá mais o seu nome do que qualquer outro lugar do país. É uma aldeia vulgar, distinta, talvez, pela forma como concentra tantas particularidades do universo da ruralidade portuguesa. Poucas haverá que possam testemunhar tão variados aspectos da história do interior deste país. Poucas haverá que possam continuar a significar na história do interior deste país.
Não sei se és a minha terra, mas quero-te bem Benquerença.

Mem Martins, de 18 a 26 de Dezembro de 1995
(excerto de um texto publicado em 1996 no DN Jovem)

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julho 28, 2003

Citando o Mestre de Aviz

"Ora, quando se pensa na América não se pensa nisso: nas árvores, nos rios, na pesca à truta. "


Há pouco tempo, confesso, revoltei-me comigo próprio quando me apercebi que pensava aquilo que toda a gente pensa quando se fala da América por estes dias.
Fui à procura de "truques mentais" para evitar o preconceito, a escalada do raciocínio viciado e intoxicado.

Os truques:
Por estranho que possa parecer: os filmes dos irmão Coen. Quando me lembro de Fargo vem-me à memória aquele pedaço de continente que parece não falar de Washinton para o mundo. Primeiro pelas paisagens, pela América que não se vê, depois porque quase tudo é desarmante.
Outro é a National Geographic. Um belíssimo contributo americano para uma espantosa globalização positiva.

Roda pé:
1. Um dia, há já uns anitos, numa bela madrugada de estudo ouvi o Fernando Alves (na TSF) dizer algo do género "acabou de entrar o meu amigo Francisco e que belos livros ele deve trazer debaixo do braço"
A maior surpresa quando li pela primeira vez o seu blog foi adivinhar que era Judeu. Podemos imaginar a cara do radialista ou do escritor e falhar largamente o boneco real. Por que raio é que eu fiquei surpreendido com um FJV judeu?! Porque nunca imaginei a religião de um escritor?

2. Ando há um tempinho a tentar perceber o que se passa no médio oriente. Com grande admiração pelas análises de José Golão (que desconfio estar longe das premissas do FJV) tento completar o arco lendo a outra parte. Uma das dúvidas imediatas é, por exemplo, o que é o sionismo. Julgo que estou a ficar esclarecido. No fundo procuro truques para não pensar sobre Israel o que toda a gente pensa por estes dias.

3. Apaixonei-me por Avis num belo dia em que fui até lá contar bidões de tomate! Um encontro que tenho de agradecer a uma aparentemente defunta multinacional americana de auditoria.

4. A segunda visita fi-la com as laranjeiras em flor. Vagueei pelo meio de um acampamento de ciganos por entre ruínas históricas.

Adiante.
De um leitor assíduo ficam os melhores cumprimentos

Posted by Rui at 06:14 PM | Comments (0) | TrackBack

julho 23, 2003

Um selo singular (act.)

Quando era pequeno havia um livro lá em casa que guardava como um tesouro. Era grande e estreito e tinha uma capa colorida de inúmeras fotografias dispostas como um caleidoscópio. Não era um livro de bonecos como o do Mickey, Asterix ou Tin tin. Era "A História de Portugal". Gostava de sentir aquela capa rija e suave e passear o livro pela casa.

O livro tinha lá por dentro muitas janelas pequenas de onde se viam longínquos lugares e estranhos artefactos... Castelos, igrejas, figuras de reis e rainhas, instrumentos estranhos, navios, combóios, aviões...

Uma dessas janelas era bem diferente, muito discreta, quase não se via. Era um selo pequeno cheio de letras ainda mais pequenas que formavam quadradinhos bem alinhados. "Hino Nacional" diziam umas letras mais escuras que surgiam bem no cimo daquele selo.
Pai, o que é o Hino Nacional? E como se canta?

O selo já eu sabia para que servia: fazia chegar aos avós na terra e aos primos no Luxemburgo as cartas que escrevíamos e púnhamos no velho marco de ferro vermelho que guardava a esquina do mercado. Mas os selos que conhecia tinham desenhos de passarinhos, bonecos com gente vestida de várias modas... Este levava uma cantiga.
E estava impresso no livro... Não tinha o preço escrito em lado nenhum. Era pequeno como um selo, tinha as bordas recortadas como um selo, no entanto, não podia pô-lo numa carta.
Era bonita a canção: Heróis do mar nobre povo...

Saudai o sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte. Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu !
Brade a Europa à Terra inteira:
Portugal não pereceu !
Beija o solo teu jucundo
O Oceano, a rugir d'amor,
E o teu braço vencedor
Deu Mundos novos ao Mundo !

Às armas, às armas !
Sobre a terra sobre o mar.
Às armas, às armas !
Pela Pátria lutar !
Contra os canhões marchar, marchar !

Poesia de H. Lopes de Mendonça
Música de Alfredo Keil

Versos do poema original que não foram incluidos no Hino Nacional PortuguêsFonte: http://www.terravista.pt/meiapraia/1222/hino.html

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julho 19, 2003

Insónias? Vai uma sátirazinha à moda antiga?


A Modest Proposal
By Jonathan Swift (1729)

Ao meu professor de história do 12º ano e ao Nelson do DesBlogueador de Conversa

Jonathan Swift (1667-1745), author and satirist, famous for Gulliver's Travels (1726) and A Modest Proposal (1729). This proposal, where he suggests that the Irish eat their own children, is one of his most drastic pieces. He devoted much of his writing to the struggle for Ireland against the English hegemony. Fonte: http://art-bin.com/art/omodest.html

About this text.

It is a melancholy object to those who walk through this great town or travel in the country, when they see the streets, the roads, and cabin doors, crowded with beggars of the female sex, followed by three, four, or six children, all in rags and importuning every passenger for an alms. These mothers, instead of being able to work for their honest livelihood, are forced to employ all their time in strolling to beg sustenance for their helpless infants: who as they grow up either turn thieves for want of work, or leave their dear native country to fight for the Pretender in Spain, or sell themselves to the Barbadoes.
I think it is agreed by all parties that this prodigious number of children in the arms, or on the backs, or at the heels of their mothers, and frequently of their fathers, is in the present deplorable state of the kingdom a very great additional grievance; and, therefore, whoever could find out a fair, cheap, and easy method of making these children sound, useful members of the commonwealth, would deserve so well of the public as to have his statue set up for a preserver of the nation.

But my intention is very far from being confined to provide only for the children of professed beggars; it is of a much greater extent, and shall take in the whole number of infants at a certain age who are born of parents in effect as little able to support them as those who demand our charity in the streets.

”I have been assured by a very knowing American of my acquaintance in London, that a young healthy child well nursed is at a year old a most delicious, nourishing, and wholesome food, whether stewed, roasted, baked, or boiled ...”

As to my own part, having turned my thoughts for many years upon this important subject, and maturely weighed the several schemes of other projectors, I have always found them grossly mistaken in the computation. It is true, a child just dropped from its dam may be supported by her milk for a solar year, with little other nourishment; at most not above the value of 2s., which the mother may certainly get, or the value in scraps, by her lawful occupation of begging; and it is exactly at one year old that I propose to provide for them in such a manner as instead of being a charge upon their parents or the parish, or wanting food and raiment for the rest of their lives, they shall on the contrary contribute to the feeding, and partly to the clothing, of many thousands.

There is likewise another great advantage in my scheme, that it will prevent those voluntary abortions, and that horrid practice of women murdering their bastard children, alas! too frequent among us! sacrificing the poor innocent babes I doubt more to avoid the expense than the shame, which would move tears and pity in the most savage and inhuman breast.

The number of souls in this kingdom being usually reckoned one million and a half, of these I calculate there may be about two hundred thousand couple whose wives are breeders; from which number I subtract thirty thousand couples who are able to maintain their own children, although I apprehend there cannot be so many, under the present distresses of the kingdom; but this being granted, there will remain an hundred and seventy thousand breeders. I again subtract fifty thousand for those women who miscarry, or whose children die by accident or disease within the year. There only remains one hundred and twenty thousand children of poor parents annually born. The question therefore is, how this number shall be reared and provided for, which, as I have already said, under the present situation of affairs, is utterly impossible by all the methods hitherto proposed. For we can neither employ them in handicraft or agriculture; we neither build houses (I mean in the country) nor cultivate land: they can very seldom pick up a livelihood by stealing, till they arrive at six years old, except where they are of towardly parts, although I confess they learn the rudiments much earlier, during which time, they can however be properly looked upon only as probationers, as I have been informed by a principal gentleman in the county of Cavan, who protested to me that he never knew above one or two instances under the age of six, even in a part of the kingdom so renowned for the quickest proficiency in that art.

I am assured by our merchants, that a boy or a girl before twelve years old is no salable commodity; and even when they come to this age they will not yield above three pounds, or three pounds and half-a-crown at most on the exchange; which cannot turn to account either to the parents or kingdom, the charge of nutriment and rags having been at least four times that value.

I shall now therefore humbly propose my own thoughts, which I hope will not be liable to the least objection.

I have been assured by a very knowing American of my acquaintance in London, that a young healthy child well nursed is at a year old a most delicious, nourishing, and wholesome food, whether stewed, roasted, baked, or boiled; and I make no doubt that it will equally serve in a fricassee or a ragout.

I do therefore humbly offer it to public consideration that of the hundred and twenty thousand children already computed, twenty thousand may be reserved for breed, whereof only one-fourth part to be males; which is more than we allow to sheep, black cattle or swine; and my reason is, that these children are seldom the fruits of marriage, a circumstance not much regarded by our savages, therefore one male will be sufficient to serve four females. That the remaining hundred thousand may, at a year old, be offered in the sale to the persons of quality and fortune through the kingdom; always advising the mother to let them suck plentifully in the last month, so as to render them plump and fat for a good table. A child will make two dishes at an entertainment for friends; and when the family dines alone, the fore or hind quarter will make a reasonable dish, and seasoned with a little pepper or salt will be very good boiled on the fourth day, especially in winter.

I have reckoned upon a medium that a child just born will weigh 12 pounds, and in a solar year, if tolerably nursed, increaseth to 28 pounds.

I grant this food will be somewhat dear, and therefore very proper for landlords, who, as they have already devoured most of the parents, seem to have the best title to the children.

Infant's flesh will be in season throughout the year, but more plentiful in March, and a little before and after; for we are told by a grave author, an eminent French physician, that fish being a prolific diet, there are more children born in Roman Catholic countries about nine months after Lent than at any other season; therefore, reckoning a year after Lent, the markets will be more glutted than usual, because the number of popish infants is at least three to one in this kingdom: and therefore it will have one other collateral advantage, by lessening the number of papists among us.

I have already computed the charge of nursing a beggar's child (in which list I reckon all cottagers, laborers, and four-fifths of the farmers) to be about two shillings per annum, rags included; and I believe no gentleman would repine to give ten shillings for the carcass of a good fat child, which, as I have said, will make four dishes of excellent nutritive meat, when he hath only some particular friend or his own family to dine with him. Thus the squire will learn to be a good landlord, and grow popular among his tenants; the mother will have eight shillings net profit, and be fit for work till she produces another child.

Those who are more thrifty (as I must confess the times require) may flay the carcass; the skin of which artificially dressed will make admirable gloves for ladies, and summer boots for fine gentlemen.

As to our city of Dublin, shambles may be appointed for this purpose in the most convenient parts of it, and butchers we may be assured will not be wanting; although I rather recommend buying the children alive, and dressing them hot from the knife, as we do roasting pigs.

A very worthy person, a true lover of his country, and whose virtues I highly esteem, was lately pleased in discoursing on this matter to offer a refinement upon my scheme. He said that many gentlemen of this kingdom, having of late destroyed their deer, he conceived that the want of venison might be well supplied by the bodies of young lads and maidens, not exceeding fourteen years of age nor under twelve; so great a number of both sexes in every country being now ready to starve for want of work and service; and these to be disposed of by their parents, if alive, or otherwise by their nearest relations. But with due deference to so excellent a friend and so deserving a patriot, I cannot be altogether in his sentiments; for as to the males, my American acquaintance assured me, from frequent experience, that their flesh was generally tough and lean, like that of our schoolboys by continual exercise, and their taste disagreeable; and to fatten them would not answer the charge. Then as to the females, it would, I think, with humble submission be a loss to the public, because they soon would become breeders themselves; and besides, it is not improbable that some scrupulous people might be apt to censure such a practice (although indeed very unjustly), as a little bordering upon cruelty; which, I confess, hath always been with me the strongest objection against any project, however so well intended.

But in order to justify my friend, he confessed that this expedient was put into his head by the famous Psalmanazar, a native of the island Formosa, who came from thence to London above twenty years ago, and in conversation told my friend, that in his country when any young person happened to be put to death, the executioner sold the carcass to persons of quality as a prime dainty; and that in his time the body of a plump girl of fifteen, who was crucified for an attempt to poison the emperor, was sold to his imperial majesty's prime minister of state, and other great mandarins of the court, in joints from the gibbet, at four hundred crowns. Neither indeed can I deny, that if the same use were made of several plump young girls in this town, who without one single groat to their fortunes cannot stir abroad without a chair, and appear at playhouse and assemblies in foreign fineries which they never will pay for, the kingdom would not be the worse.

Some persons of a desponding spirit are in great concern about that vast number of poor people, who are aged, diseased, or maimed, and I have been desired to employ my thoughts what course may be taken to ease the nation of so grievous an encumbrance. But I am not in the least pain upon that matter, because it is very well known that they are every day dying and rotting by cold and famine, and filth and vermin, as fast as can be reasonably expected. And as to the young laborers, they are now in as hopeful a condition; they cannot get work, and consequently pine away for want of nourishment, to a degree that if at any time they are accidentally hired to common labor, they have not strength to perform it; and thus the country and themselves are happily delivered from the evils to come.

I have too long digressed, and therefore shall return to my subject. I think the advantages by the proposal which I have made are obvious and many, as well as of the highest importance.

For first, as I have already observed, it would greatly lessen the number of papists, with whom we are yearly overrun, being the principal breeders of the nation as well as our most dangerous enemies; and who stay at home on purpose with a design to deliver the kingdom to the Pretender, hoping to take their advantage by the absence of so many good protestants, who have chosen rather to leave their country than stay at home and pay tithes against their conscience to an episcopal curate.

Secondly, The poorer tenants will have something valuable of their own, which by law may be made liable to distress and help to pay their landlord's rent, their corn and cattle being already seized, and money a thing unknown.

Thirdly, Whereas the maintenance of an hundred thousand children, from two years old and upward, cannot be computed at less than ten shillings a-piece per annum, the nation's stock will be thereby increased fifty thousand pounds per annum, beside the profit of a new dish introduced to the tables of all gentlemen of fortune in the kingdom who have any refinement in taste. And the money will circulate among ourselves, the goods being entirely of our own growth and manufacture.

Fourthly, The constant breeders, beside the gain of eight shillings sterling per annum by the sale of their children, will be rid of the charge of maintaining them after the first year.

Fifthly, This food would likewise bring great custom to taverns; where the vintners will certainly be so prudent as to procure the best receipts for dressing it to perfection, and consequently have their houses frequented by all the fine gentlemen, who justly value themselves upon their knowledge in good eating: and a skilful cook, who understands how to oblige his guests, will contrive to make it as expensive as they please.

Sixthly, This would be a great inducement to marriage, which all wise nations have either encouraged by rewards or enforced by laws and penalties. It would increase the care and tenderness of mothers toward their children, when they were sure of a settlement for life to the poor babes, provided in some sort by the public, to their annual profit instead of expense. We should see an honest emulation among the married women, which of them could bring the fattest child to the market. Men would become as fond of their wives during the time of their pregnancy as they are now of their mares in foal, their cows in calf, their sows when they are ready to farrow; nor offer to beat or kick them (as is too frequent a practice) for fear of a miscarriage.

Many other advantages might be enumerated. For instance, the addition of some thousand carcasses in our exportation of barreled beef, the propagation of swine's flesh, and improvement in the art of making good bacon, so much wanted among us by the great destruction of pigs, too frequent at our tables; which are no way comparable in taste or magnificence to a well-grown, fat, yearling child, which roasted whole will make a considerable figure at a lord mayor's feast or any other public entertainment. But this and many others I omit, being studious of brevity.

Supposing that one thousand families in this city, would be constant customers for infants flesh, besides others who might have it at merry meetings, particularly at weddings and christenings, I compute that Dublin would take off annually about twenty thousand carcasses; and the rest of the kingdom (where probably they will be sold somewhat cheaper) the remaining eighty thousand.

I can think of no one objection, that will possibly be raised against this proposal, unless it should be urged, that the number of people will be thereby much lessened in the kingdom. This I freely own, and 'twas indeed one principal design in offering it to the world. I desire the reader will observe, that I calculate my remedy for this one individual Kingdom of Ireland, and for no other that ever was, is, or, I think, ever can be upon Earth. Therefore let no man talk to me of other expedients: Of taxing our absentees at five shillings a pound: Of using neither cloaths, nor houshold furniture, except what is of our own growth and manufacture: Of utterly rejecting the materials and instruments that promote foreign luxury: Of curing the expensiveness of pride, vanity, idleness, and gaming in our women: Of introducing a vein of parsimony, prudence and temperance: Of learning to love our country, wherein we differ even from Laplanders, and the inhabitants of Topinamboo: Of quitting our animosities and factions, nor acting any longer like the Jews, who were murdering one another at the very moment their city was taken: Of being a little cautious not to sell our country and consciences for nothing: Of teaching landlords to have at least one degree of mercy towards their tenants. Lastly, of putting a spirit of honesty, industry, and skill into our shop-keepers, who, if a resolution could now be taken to buy only our native goods, would immediately unite to cheat and exact upon us in the price, the measure, and the goodness, nor could ever yet be brought to make one fair proposal of just dealing, though often and earnestly invited to it.

Therefore I repeat, let no man talk to me of these and the like expedients, 'till he hath at least some glympse of hope, that there will ever be some hearty and sincere attempt to put them into practice.

But, as to my self, having been wearied out for many years with offering vain, idle, visionary thoughts, and at length utterly despairing of success, I fortunately fell upon this proposal, which, as it is wholly new, so it hath something solid and real, of no expence and little trouble, full in our own power, and whereby we can incur no danger in disobliging England. For this kind of commodity will not bear exportation, and flesh being of too tender a consistence, to admit a long continuance in salt, although perhaps I could name a country, which would be glad to eat up our whole nation without it.

After all, I am not so violently bent upon my own opinion as to reject any offer proposed by wise men, which shall be found equally innocent, cheap, easy, and effectual. But before something of that kind shall be advanced in contradiction to my scheme, and offering a better, I desire the author or authors will be pleased maturely to consider two points. First, as things now stand, how they will be able to find food and raiment for an hundred thousand useless mouths and backs. And secondly, there being a round million of creatures in human figure throughout this kingdom, whose whole subsistence put into a common stock would leave them in debt two millions of pounds sterling, adding those who are beggars by profession to the bulk of farmers, cottagers, and laborers, with their wives and children who are beggars in effect: I desire those politicians who dislike my overture, and may perhaps be so bold as to attempt an answer, that they will first ask the parents of these mortals, whether they would not at this day think it a great happiness to have been sold for food, at a year old in the manner I prescribe, and thereby have avoided such a perpetual scene of misfortunes as they have since gone through by the oppression of landlords, the impossibility of paying rent without money or trade, the want of common sustenance, with neither house nor clothes to cover them from the inclemencies of the weather, and the most inevitable prospect of entailing the like or greater miseries upon their breed for ever.

I profess, in the sincerity of my heart, that I have not the least personal interest in endeavoring to promote this necessary work, having no other motive than the public good of my country, by advancing our trade, providing for infants, relieving the poor, and giving some pleasure to the rich. I have no children by which I can propose to get a single penny; the youngest being nine years old, and my wife past child-bearing.

The End

Posted by Rui at 04:20 PM | Comments (0) | TrackBack