Retomo a pomposa rubrica: "Pela dignificação da democracia representativa"
Quantos deputados em funções na Assembleia da República surgirão em lugares elegíveis para o Parlamento Europeu?
Quantos deputados eleitos para o Parlamento Europeu interromperão o mandato para se candidatarem a outros cargos políticos? E desses quantos regressarão ao Parlamento por terem perdido as batalhas em que se envolveram?
Um vereador interrompe um mandato para concorrer às legislativas, é eleito; fica como deputado durante dois anos após o que se candidata ao Parlamento Europeu, é eleito; fica ano e meio, interrompe para se candidatar à presidência de uma câmara, é eleito; interrompe para se candidatar à presidência da república... Há aqui algo de muito errado neste percurso prefeitamente perfeitamente plausível de um político português.
Já repararam que passamos a vida a votar em SUPLENTES!
E agora que lhe tomei o gosto e uma vez que os políticos não deixam de dar bons maus exemplos segue já este de grande actualidade.
Factos 1: Um dia depois do Público noticiar que "Alberto Martins, Ana Benavente e Luís Nazaré todos membros do Secretariado, não gostaram dos métodos usados por Eduardo Ferro Rodrigues nestes processos e de não terem sido consultados em momentos que são chave na estratégia dos socialistas"...
Factos 2: surge a notícia no Diário Digital que "Luís Nazaré demitiu-se do Secretariado Nacional do Partido Socialista (PS). O dirigente socialista apresentou a sua demissão a Ferro Rodrigues, invocando motivos pessoais e profissionais para a decisão.
De acordo com a imprensa deste sábado, Nazaré segue para a direcção do Grupo de Estudos do PS, um cargo ocupado até agora por António José Seguro, que deverá, por sua vez, passar para a bancada parlamentar socialista. "
Perplexidade: não, não é a ironia de percursos que quero sublinhar, é a linguagem. Chamem-lhe um preciosismo, uma ingenuidade, o que quiserem, mas acho que devíamos preservar a língua, o sentido, no discurso político. Deixemos os duplos sentidos para quando se impõe a necessidade diplomática. E este não me parece absolutamente nada ser caso para isso. Vai parecer que Luis Nazaré saiu por estar em ruptura com Ferro Rodrigues e/ou com o Secretariado do PS. É impossível dar um mínimo de crédito à justificação "invocando motivos pessoais e profissionais para a decisão". Falar claro é um valor, é uma necessidade gritante na política. Luis Nazaré teria feito um pequeno serviço de moralização do discurso político (retirando espaço de manobra à plêiade de conjecturistas que assim promove, e que no limite seremos todos nós). Porque não afirmou peremptoriamente: demito-me porque deixei de me rever na orientação política do secretariado nacional do PS, nomeadamente, devido a isto, isto e aquilo. Assim sim, eu cidadão eleitor, sentiria que estavam a falar directamente para mim, que estavam a dar uma mensagem clara, de fácil avaliação. “Motivos pessoais e profissionais...” O que é que se ganha com estes rodriguinhos? Expliquem-me!!!
Invocando motivos pessoais, nomeadamente uma decisão pessoal de combate às reservas mentais, vou aqui iniciar uma nova categoria temática no Adufe: "Pela dignificação da democracia representativa".
Facto 1: A Agência Lusa via Público informou, no passado dia 6 de Janeiro que:
"A ex-presidente da Câmara de Sintra Edite Estrela foi hoje condenada ao pagamento de seis mil euros ou 133 dias de prisão pelos crimes de violação dos deveres de neutralidade e imparcialidade e de abuso de poder."
Facto 2: No início de Março, Edite Estrela surge integrada na lista do PS às Eleições ao Parlamento Europeu em lugar elegível.
Perplexidades:
* Os factos de que Edite Estrela foi acusada e condenada não serão suficientemente graves, principalmente quanto ao péssimo exemplo de condução da actividade política que transmitem, para que o PS lhe impusesse, no mínimo, um período de nojo político?
* Não haverá ninguém no PS mais merecedor de uma oportunidade (com o cadastro límpo, de preferência) para se propor como representante dos portugueses no Parlamento Europeu?
Conclusão: Nem Edite Estrela, nem o Partido, tomaram a iniciativa de promover um processo de reabilitação política e pública, apostaram claramente no branqueamento. Perde o PS, perde a democracia e perdemos todos.