outubro 01, 2003

Refúgio

O meu mês é Agosto ou talvez Maio mas…
O Outono leva-nos em busca de um refúgio. Imaginar um casulo, prepará-lo, seguir respeitando o inevitável determinismo meteorológico. Em busca da serenidade, resistindo ao frenesim assustado e irritado que passa lá fora, na grande cidade.
É a altura de garantir que o ciclo não se gasta, não nos gasta. Nem sempre é fácil…
For depression press one after the beep.

É tempo de garantir que há uma linha contínua e incerta por onde caminhar.
Não anseio pelo inverno, pelo bafo húmido e peganhento que nos traz o ar mortiço do metro, do autocarro, do café, do carro… Não quero desculpas para o agasalho. Só lá para Janeiro me habituarei a ele, talvez. Mas se há quem me quer, quem me deixa ajeitar-lhe a lã ao rosto, como posso deixar de gostar destas manhãs de chumbo, promessa de nocturnos aconchegos?

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setembro 29, 2003

Mar D'Outubro

Escrevo-te um dito pensando no mar.

Não vemos o mar há meses.
Passou parte da primavera, todo o verão...
Dizes-me que és uma mulher do Outono. Da beleza multicolor e fugaz do Outono.

O teu Outono faz-se olhando o Paiva do alto das encostas de Montemuro, ou então mais a baixo, no parapeito da Igreja das Siglas, encostada ao velho cipreste, cercada de carvalhos, nogueiras e castanheiros...
Mais além, salgueiros, choupos e freixos. Sempre com o correr da água, sempre com uma nova cor num último esplendor de folhas-pétalas.

Até que te despedes em zigue-zagues, debruçada na janela do carro, espreitando os rápidos do Paiva mais soluçantes e mais vivos, descobertos do véu de folhas que se dissipa num mar d'Outubro.

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setembro 27, 2003

O Pão

Está na hora de ir à praça, pelo menos para mim que preguiço aos Sábados. Mas o verdadeiro, o genuíno entendido já estaria de regresso com os sacos cheios dos mais frescos e mais saborosos. Aqui vêm eles rua a baixo com o som dos plástico a roçar nas pernas a entrar pela minha janela, completando este escrevinhar com uma simpática banda sonora.
Ora ouçam:

..."Bom dia vizinho, como tem passado? Belos marmelos aí trás. Eu já a fiz na semana passada. Hei-de-lhe levar um frasco para provar."...

Há lá na praça perfumes especiais, odores telúricos, lembranças da criação para quem as trás no rol das saudades. Hipermercados? Só para emergências e geralmente para tristes e caros remedeios.

Venho de uma terra de boas praças, bem abastecidas por dedicados saloios. O pão era (e é) o ex-libris. Um fabuloso achado de Achada - Mafra. Um pão com raizes no palato de quem o come, bem cuidado por uma empresa familiar.
Confesso, agora que me mudei para a cidade, e depois de 7 ou 8 tentativas, que ainda não arranjei um pão à altura. Nem aqui na dinâmica praça de Arroios. Vai escasseando a esperança.
Enfim. Deixa-me cá ir telefonar...

"Ó mãe, reserva-me aí um de Mafra! E umas bolas de mistura."

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setembro 20, 2003

No ar!

I

“...finalmente música na antena, vejam se se lembram destas...
«Is this the real life, / is this just fantasy / Caught in a land-slide / No escapes from reality.»” * O som foi sem dúvida o que primeiro me atraiu para a rádio. Podia ter sido a cor do aparelho que estava lá no alto, no cimo da mesa da cozinha, podiam ter sido os inúmeros botões e manipulos que mal adivinhava, mas não, no início foi apenas o som. Era totalmente diferente dos que conhecia. Entretanto, vieram os livros de B.D., a escola, a brincadeira e a correria, os deliciosos anúncios na televisão e os desenhos animados... Durante algum tempo, a rádio permaneceu, apenas, vagamente presente. Fui crescendo e os botões do aparelho de rádio começaram a ser mais atraentes. Girar a rodinha de sintonização era extremamente divertido; adorava engasgar as vozes que ouvia e deturpar a música que tocavam com o ruído do espaço vazio da FM.

II

«I can’t seem to face up to the facts / I’m tense and nervous and I can’t relax / I can’t sleep ‘couse my bed’s on fire / don’t touch me I’m a real life wire!» *
Com o tempo, fui tendo cada vez mais liberdade para escolher e ditar qual a rádio a ouvir. Existindo apenas um rádio com FM em casa, tive que vencer as naturais resistências dos meus pais que, com as suas preferências já definidas, não viam qualquer sentido em errar pelas ondas. Ainda assim, consegui descobrir diferentes sons musicais, comecei a descobrir toda a informação que se fazia e, fundamentalmente, descobri maneiras totalmente diferentes de fazer rádio. Infelizmente, também não demorei muito tempo a descobrir que eram apenas quatro ou cinco as emissões nacionais. Então, comecei a reexplorar todos os botões do rádio e a conhecer novos “mares”. Acreditam que o que mais ouvi nessas frequências desconhecidas foi a conversa de pescadores portugueses e espanhois?! Nada de BBC, nem de Deutsch Wella, nem de Radio Luxembourg como prometiam as letras coloridas do mapa de sintonias, apenas um linguajar estranhíssimo entre comandantes de traineiras e emissões em código dignas dos ritmos “Dance Music”.

III

«Lembras-me uma marcha de Lisboa / num desfile singular / quem disse que há hora
e momento para se (...)»*

...Informar. No final da década de oitenta surgiram as “rádios piratas” e entre elas aquela que incontestavelmente deixaria a primeira grande marca de mudança no panorama rádiofónico nacional. Falo de uma emissora sediada em Lisboa que, como tantas outras, atravessou tormentas e tempestades e enfrentou batalhas quase ignoradas tendo conseguido, como poucas, chegar até hoje, com a essência do que lhe deu fascínio, ainda intacta : a TSF Rádio Jornal.
Os Dias da Rádio haviam regressado a Portugal, não só devido ao grande abanão dado pela TSF-RJ, nem à sã maluqueira dos brasileiros da Rádio Cidade, mas, fundamentalmente, devido às centenas de emissoras que surgiram como cogumelos um pouco por todo o país. Aliando a este factor o fenómeno paralelo da redescoberta da rádio pelo próprio ouvinte, esta viu relançado o seu papel na sociedade portuguesa, recuperando um lugar que fora perdendo, progressivamente, desde o aparecimento da televisão. Para o ouvinte, era espantoso ver aparecer um novo “pirata”, quase todos os dias, com as ideias mais incríveis, mostrando um enorme gozo no que estava a fazer.
Os meses foram passando e os atropelos de frequências sucederam-se mas, ainda antes do grande silêncio do natal de 88 - altura em que as emissões “piratas” foram proibidas- houve tempo para se ir compreendendo até que ponto pululavam trabalhos interessante, diferentes e desde logo notados como indispensáveis à rádio portuguesa.

IV

“...and if I die before I wake pray the lord my soul to take.” *
Certo dia de manhã, estava um rapazinho ainda deitado, gozando as férias e o finzinho dos seus 12 anos, quando ligou o recém adquirido radio a pilhas e viu mais do que a luz vermelha do aparelho, “viu” Lisboa a arder. Pulou da cama e correu para a cozinha ligando o, já velho, transistor “tamanho família”. E foi então que aconteceu uma coisa fantástica, pelo menos para uma criança de doze anos. Não haviam passado cinco minutos de empolgante e aterrador directo feito da zona do Chiado e o rádio começara literalmente a arder, sempre sem se calar. Imaginem o que passou pela cabeça deste inocente ouvinte! Só consta que tenha dito: “Fixe!”.

“If it be your will that I speak no more, and my voice be still as it was before; I will speak no more, I shall abide until I am spoken for, if it be your will.” *
A “pirataria” acabou e quando a lei foi escandalosamente reposta - quem estava atento então sabe ao que me refiro - os novos dias da rádio em Portugal estavam institucionalizados. Não mais deixei de ouvir a surpreendente TSF - que nem só de sínteses noticiosas se faz esta rádio, não senhor -, mas também nunca abandonei a minha alma de navegador errante. Actualmente colecciono pérolas na lutadora XFM [texto de 1995] e em qualquer outra emissora que me prenda nos breves segundos em que lhe faça abordagem no percurso dos 87.5 aos 108 Mhz.

V

“ I’d sit along and watch your light / my only friend through teenage night / and everything I had to know / I heard it all in my radio.” * Aí por volta dos 16 anos passei a fazer algo que conscientemente sempre recusara fazer: conhecer o mundo da música. Sempre ouvira música e ia já muito longe o primeiro arrepio na espinha que ela me provocara, posso até dizer que era mesmo um amante de música, mas totalmente desinteressado, mesmo da mais corriqueira intriga acerca desta ou daquela estrela pop. O que eu sei é que, desde então, tenho tido um gozo danado em redescobrir - porque muitas das vezes é disso que se trata - os grupos, cantores e músicos que encheram o ”eter” nos últimos vinte anos. Não raras vezes, tenho tido a surpresa espantosa de descobrir que, ainda que inconscientemente, tinha grupos e interpretes favoritos.
Mas nem só o aparelho auditivo “explodiu” com 16 anos, também a cabecinha começou a girar mais depressa. Interrogar, reflectir e explorar a informação que ia ouvindo pela rádio tornou-se um passatempo estimulante. Bem mais estimulante do que ler um livro, pensava eu - hoje evito a comparação.
A comparação que faço é entre a rádio de hoje e a que ouvia à 7, 8 anos. Na minha opinião, apesar dos muitos projectos já abortados, o balanço final, ou seja, o que é feito pelo ouvinte, só pode ser positivo. Neste momento, temos excelentes rádios generalistas, temos excelentes rádios especializadas, no fim de contas, temos emissões para todos os gostos. [1995] E digo isto, porque de entre os três grandes meios de comunicação social que me ocorrem - televisão, rádio e imprensa - este é, sem dúvida, o que, no seu processo de desenvolvimento, melhor preencheu todo o conjunto de eventuais «nichos de mercado» ao seu dispor. Em suma, foi o que melhor os detectou e foi o que demostrou melhor capacidade em os completar. Há, no entanto, uma grande nuvem negra que ameaça este cenário. Paradoxalmente, a indústria radiofónica esqueceu-se, até muito tarde, de algo que não escapou à preocupação dos outros dois meios de comunicação: a publicidade. Houve graves erros de gestão comercial em inúmeras rádios e, principalmente ao nível da publicidade radiofónica, chegou-se até a acreditar num esgotamento criativo que não estimulou nada o investimento dos anunciantes. Nesta altura e falando apenas como simples ouvinte, começo a ficar surpreendido com o humor e originalidade de alguns anúncios que surgem [1995]. Talvez o humor de qualidade não esteja longe de nós e uma escola de publicidade humorística radiofónica surja em Portugal - facto, em si, nada inédito na história da rádio mundial.

VI

No meu papel que é o de receptor, ouço rádio com um espírito profundamente crítico, tentando não perder de vista a capacidade de ser arrebatado pelo que recebo. E nesses momentos especiais lembro-me da magia particular de uma visão ingénua da rádio:

No ar!
Imagino um barco que navega suspenso sobre as ondas,
sempre no ar, sem as tocar...
Imagino-o a passar pela minha praia, cheio de gente!
Ainda não tenho histórias para contar...
Que se esconde por detrás daquelas vozes? Como é aquele olhar?

A rádio continua a gerar paixões e, se não acreditam, resigno-me a espicaçar o comum ouvinte que me lê a que descubra as pérolas no mar da rádio, porque as há, ainda que por vezes no mais insuspeito dos atóis. Descubram, inquietem-se, sobressaltem-se. Nunca somos demais.

* As frases em itálico são excertos de poemas de (por ordem de aparição):
Queen, “Bohemian Rapsody”; Talking Heads, “Psico Killer”; Trovante, “Memórias de um beijo” ; Leonard Cohen, “If it be your will”; Metallica, “Enter Sandman” - excerto da Oração da Noite praticada pela generalidade dos cristãos; Queen, “Radio GAGA”

Linha de Sintra, ao som da rádio, 11 de Setembro de 1995 (proto-blogue portanto)
*************************

Uma memória.
E depois surgiram os blogues...
Na altura em que escrevi este texto ouvia diariamente a Íntima Fracção, hoje recuperei essa paixão. Afastei-me sabendo sempre que no meio da noite estava lá um cantinho acolhedor, pleno de capacidade para provocar deslumbramento, apenas pelo som. Um cantinho de grandes janelas onde entrava, nesse entretanto, quase sempre de surpresa, quase sempre com comoção. Imaginando por vezes o além da voz, imaginando quem partilhava esta intimidade nos seus outros cantos...

Pouco para dizer, muito para escutar, tudo para ouvir. A Cristina Fernandes e o Mário Filipe tomaram a iniciativa de tentar coleccionar ideias para a continuidade da Íntima Fracção. No meio da noite não é o silêncio... é o barulho do coração

Posted by Rui at 07:57 PM | Comments (0) | TrackBack

setembro 18, 2003

No Jardim do Campo Pequeno

Outono / Inverno 94

Que tarde mais chocha, esta!
Nem chuva, nem sol; não está calor, nem frio; só cinzentos ou acastanhados.
Apenas um ventinho maroto vai desguedelhando e empurrando às rajadas os que passam pelo jardim.
Visto aqui dum banco bem no meio, o jardim parece uma ténue ilhazinha que termina a poucos metros, na primeira barragem de automóveis estacionados que o cercam. De facto, é difícil imaginar um jardim, mesmo daqui. Ainda assim, num intervalo entre dois aviões, as copas dos jacarandás e das restantes árvores lá nos vão dando a ilusão desejada de infinitude que hoje se resume ao espesso cinzento, facilmente depressivo.

Mato o tempo com bocejos sucessivos; olho para todos os lados menos para o livro que me ocupa as mãos. Ainda tenho mais quarenta minutos de espera pela frente. Tomo consciência do livro e agarro-me a ele com ganas de o devorar procurando uma fuga absorvente: ora onde é que eu deixei o Gineto...


- Dá-me licença? - Com uma sonora e inesperada interpelação sou retirado bruscamente do torpor a que me começava a entregar. Trata-se dum indivíduo de estatura média, magro, cabelo fraco, de rosto bem vincado por alguns pontos de tensão frequentes; para aí na casa dos quarenta. Ora essa! respondo, enquanto ajeito os cadernos com que ocupava a metade esquerda do banco. O indivíduo senta-se, cruza as pernas, acende um cigarro e assim fica algum tempo, olhando a avenida do outro lado, tendo sempre o cuidado de desviar o escape para bem longe de mim. Olho-o de soslaio e parece-me muito triste. Não vislumbrando sequência para a impetuosidade da interpelação, regresso ao meu livro, mas...
- Olhe para aquilo! Um gato pingado com uma ventoinha de arame a cortar a relva! E mais! Olhe para o que alí vem, duas marafonas, duas baleias! Como é que põem gente desta a tratar dos nossos jardins! E olhe que não é por serem de cor, pois os meus melhores amigos são pretos, mas trazerem imigrantes que nem o português sabem falar e que levam quase três horas a limpar este dedal! Sinceramente! Ah! Quando eu me lembro do antigamente! Os jardineiros, fique sabendo, eram às centenas. E os jardins... Eram autênticas obras de arte! Desde a Praça do Império ao Campo Grande. Não é preciso ir mais longe, este jardinzinho aqui, era um brinco! Mas desculpe estar assim a aborrece-lo, é que uma pessoa tem que desabafar, senão... ainda faz alguma asneira! Desculpe. É estudante, não é? Queira desculpar o desabafo.

Ainda meio apalermado com a nova tirada, repito-me com mais um “ora essa” acompanhado por um sorriso de cortesia. Insisto na leitura mas a irrequietude que ia ali à minha esquerda não agourava um futuro recatado. Fecho o livro e espero a nova intervenção, disposto a alinhar. Agora que bem penso, sempre quis saber o que dizem dois estranho que se encontram assim num banco de jardim.

- Desculpe lá chateá-lo outra vez ...
- Qual chatice! Para ser sincero, estava aqui a desperdiçar páginas do livro... Diga lá.
- O senhor é jovem e certamente já ouviu falar como isto era antes do 25 de Abril, não é verdade? Pois bem, não quero que pense que eu gostava do Salazar e da ditadura, mas há coisas que não há meio de voltarem a ser, pelo menos, tão boas como dantes! Olhe a segurança, por exemplo! Quase toda a gente tem medo de sair à noite. Eu, por exemplo, nunca saio à noite sem a minha Mauzer. Ainda o ano passado, numa noite, por volta das dez, dois putos tentaram assaltar-me aqui mesmo no jardim. Olhe, foi ali naquele banco. Um fica de atalaia por estas bandas e o outro aproxima-se e pede-me um cigarro. Mostro-lhe a pistola e pergunto-lhe se não quer fumar um bocadinho do meu «charuto». Não é que se põe a correr aos berros pela avenida a baixo? O outro apanhou tal cagaço com a cena que se estatelou no chão quando fugia ali para ao pé da praça de touros. Ha! Ha!... Mas já viu se eu não estivesse armado?
- Desculpe lá interrompê-lo, mas se todos usássemos armas era capaz de ser um bocado mais perigoso...
- Bem, bem, mas eu andei na tropa e tenho licença... Gosta de filmes do Charles Bronson? Aquele que faz quase sempre se mau? Conhece? Pois é, já reparou como só acerta nos que é preciso? Nunca falha! Se houvessem dois ou três como ele... Um ali no Parque Eduardo Sétimo, outro na Avenida da Liberdade... Era uma limpeza. Bem sei que é um exagero, mas pelo menos a polícia a cavalo, caramba! Dantes era um respeitinho.
- Nem as moscas voavam sem autorização, segundo creio...
- De facto, era uma ditadura e pronto! E também eram tempos difíceis... Não desvalorizo os problemas de hoje, logo os dos jovens, a incerteza, o desemprego... Mas olhe que eu também passei um mau bocado. Nasci ali em Alfama, conhece? Não tive brinquedos, nem a quarta classe acabei... Bem vê, éramos quatro irmãos, a minha mãe sempre a conheci prenhe e meu pai sempre grosso, uma besta, o desgraçado! Era um bufo, passava a vida em cafés e bares a tentar apanhar... enfim, descontentes com o regime. Trabalhava para o Nove Dedos e outros como ele, fazia todo o tipo de imundices. Que disparate! O senhor não deve estar a perceber nada, não é? O Nove Dedos era um pide, aliás, era o Pide mais conhecido da ci-da-de. O terror em pessoa. Acredita que o tipo engraçou comigo?! Andava sempre a perguntar-me como ia a escola. Até me dava uns trocados sem que eu lhe pedisse! Vá se lá saber porquê. O meu pai é que não me ligava nenhuma. Com ele era matemático: chapa ganha, chapa gasta. Putas e vinho verde, como se costuma dizer. Já viu, quatro crianças, a mãe grávida: uma miséria. Um dia chegou completamente louco a casa e começou a arrear na minha mãe, mesmo assim, naquele estado! Fui aos arames, devia ter onze anos, mas já tinha a escola toda, atirei-me a ele e parti-lhe a cara! É verdade. Depois pirei-me o mais depressa que pude. Só voltei a pôr os pés em casa outra vez no dia seguinte. Apanhei-o fora e fui buscar roupa, desde então nunca mais. Cá me safei, vim viver para casa da minha prima Alzira que era porteira dum prédio aqui na avenida, arranjei trabalho a servir numa tasca em Santa Apolónia e fui-me desenrascando. Um dia a besta do meu pai apareceu por lá... O senhor acredita que ele nem me reconheceu? Pode crer! Imagine como ele ia! Foi a última vez que o vi. Dias depois, soube que lhe deram um tiro ali para a Rua dos Remédios. Deus me perdoe, mas foi um bem que veio ao mundo. Um mês mais tarde, chegou a vez da minha mãe. Morreu do parto do meu quinto irmão. Valeu-nos a prima Alzira, outra vez, que Deus a tenha. À excepção da minha irmã mais velha que se amigou de um marujo e foi viver para a terra dele, levando o nosso irmão mais novo, veio tudo recambiado aqui para a Avenida de República. Mas já o estou a maçar, não é?
- Não ligue. Isto é só sono, é que já estou a pé desde as seis. Continue, por favor.
- Pois também eu, desde que trabalho aqui no BISCA, vai para vinte anos. Comecei como segurança no Banco, fui concorrendo e hoje sou assistente do director. Outros tempos, quanto a isto pode estar certo que já foi chão que deu uvas: sem o décimo segundo ano, pelo menos, não chega a lado nenhum e mesmo assim... Continue a estudar que faz muito bem. Isto é um mundo de cão. Olhe, estive casado dez anos e não tive filhos por causa destas guerras e deste mundo de cão. É preciso ser muito... É a minha opinião: não tenho coragem de pôr um filho neste mundo! Para quê? Gente a mais já nós temos. Veja só aquela marafona, tanto arrastou o sacos das folhas secas que o rasgou! Lindo chiqueiro! Ai Sampaio, Sampaio! Mas onde é que eu ia...
- A sua mãe tinha falecido e...
- Já me lembro. Estivemos com a prima Alzira nove anos até que ela morreu no metro. Foi do coração. Assaltaram-na e ela morreu com o susto. Mas o gatuno também teve a sua conta! Alguém o atirou para a linha e não morreu passado a ferro porque assou antes do tempo
- breve pausa. Hoje vivo com a minha irmã mais nova aqui na João XXI. Sabe, no entretanto ainda passámos mal, foi até eu ter arranjado emprego aqui no BISCA. Estivemos alguns anos a viver numa espelunca no Poço do Negros. Olhe, foi aí que fiz os meus amigos cabo-verdianos. Um amor de gente. Mas pronto, cá estamos. Felizmente hoje não tenho razões de queixa da vida. O que me enerva é o que vejo à nossa volta, esta falsidade, a malandragem... Ah! Vale tudo menos tirar olhos e, mesmo assim, qualquer dia até isso!
- Tirar olhos?!
- Sim senhor! Talvez para transplantar!
- risos. Esses canalhas mereciam era todos um balázio nos cornos. Mesmo que os apanhem, ao fim de dois ou três anos andam aí pelos jardins a fazer-nos companhia. Sabe, eu nunca fui de direita, mas esse tipo, o Monteiro, diz uma boas verdades. Diz, sim senhor. A única coisa que me vai valendo para animar é o Ceportengue. Eu cheguei a jogar futebol lá numa filial do Ceporteungue, em Alfama, e não era mau de todo, mas já pode imaginar, com esta vida... O meu divertimento quando não tinha dinheiro para ir ao estádio era escrever o relato nuns papelinhos. Ouvia o rádio e depois escrevia à minha maneira. O Ti João da mercearia dava-me lápis, eu arranjava o papel, escrevia e depois relatava o jogo para ele e para a malta lá da rua. De inverno, quando não podíamos jogar, eu era o rei. Juntavam-se no átrio da igreja para ouvirem o meu relato. Como se diz...? Enternecedor! Era enternecedor. Acabávamos quase sempre à porrada porque arranjava maneira de o Ceportengue ganhar todas! - risos. Mas era na reinação, até o senhor prior se divertia connosco.
- Pois eu também sou do Ceportengue.
- Grande clube, não haja dúvidas. Como é o Benfica e o Porto e outros, mas o Ceportengue é o Ceportengue, não é verdade? Aquele verde...
- A esperança! Viva o Ceportengue! Bom está na minha hora, senhor...
- João Tuna, João Tuna Oliveira, mas tome lá um cartão. Andei a gastar dinheiro com isto, tenho que os pôr a uso!
- Muito obrigado. Olhe não tenho para a troca... O meu nome é Rui Manuel, Rui Manuel Cerejeira. Foi um prazer.
- Muito obrigado eu ! Mais uma vez, desculpe a maçada.
- Ora essa! Então boa tarde.
- Felicidades!

Afasto-me do Jardim e rumo para a minha aula de condução, naturalmente com o senhor João Tuna em mente. Olho para o cartão e reparo que o verso está quase completamente negro. Assim que o primeiro raio encandeador de sol deste dia se esgotou, pude perceber que tinha nas mãos um relato de um jogo do Ceportengue, escrito numa caligrafia minúscula, quase ilegível. Mas dava para entender que acabava bem: era o Ceportengue que ganhava ao Porto com um golo no último minuto.
Enquanto esperava que abrissem a porta do prédio da escola de condução ainda vislumbrei a figura esguia de João Tuna a atravessar a João XXI, calmamente, de mãos nos bolsos, imensamente triste.

******************
(Prot-blogue escrito há 9 anos - resisti em fazer-lhe afinações, perdoem-me. Esta Lisboa que eu amo...)

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setembro 14, 2003

O dia em que eu fui ver a volta passar

- em seis pequenos pontos -

I

Na noite anterior o meteorologista ameaçara com um dia muito quente e, na impossibilidade de se evitarem as obrigações rurais anuais, em torno de algumas courelas de terra, a manhã de mais um dia de férias na província foi destinada ao trabalho braçal em família.
As tarefas concluiram-se mais cedo do que o previsto e com isso estavam reunidas todas as condições para intensificar a minha campanha propagandística.

Ao regressarmos a casa era ainda demasiado cedo para acender o lume e preparar brasas para o churasco e, não dando tempo às mentes mais laboriosas para magicarem no que fazer na horita que sobrava, liguei o rádio bem alto a tempo de ouvir as crónicas e reportagens sobre mais uma etapa da volta a Portugal em bicicleta que se iniciara há escassos minutos: «ligeiramente atrasada face ao previsto pela organização», segundo dizia o jornalista.
Assim que o percurso da etapa ecou do rádio pelo quintal e foi referida a passagem num ponto quente situado na aldeia vizinha mais próxima, iniciei a derradeira etapa do meu plano que visava reunir uma mão cheia de familiares à beira da estrada nacional apreciando a passagem da caravana garrida.

Para minha surpresa, cinco minutos depois de lançar o convite já embraiava a terceira bem para lá do cemitério, um dos vértices do perímetro da aldeia. O carro levava pouco mais de meia carga mas ainda assim eu ia espantado pelo repentino sincronismo familiar transgeracional ali materializado.

II

Ia eu pensando nos porquês de nunca ter tido a ideia de espreitar o espectáculo da volta ao vivo (falha imperdoável do meu portuguesismo atendendo a que esta passara várias vezes a escassas centenas de metros da minha casa no concelho de Sintra), quando surgiram, a seguir a uma lomba acentuada, dois ciclistas pedalando, lado a lado, em marcha de caracol e ocupando descontraidamente a estreita faixa de alcatrão da estrada semi-municipal limitada a veículos de 10 toneladas.
Após a brusca travagem, note-se que circulávamos na mesma direcção, e de uma valente buzinadela, estive tentado a lembrar a limitação de peso imposta pela sinalização vertical naquela via ao soberbamente anafado ciclista da dupla bucha e estica, mas em boa hora não o fiz contribuindo para essa silênciosa revolução cultural que um dia há-de inundar as estradas do país de civismo e boas maneiras.

«O mais gordo era a cara chapada de fulano tal» disse a minha mãe após aquele breve encontro. Foi quanto bastou para os passageiros, conterrâneos, iniciarem o debate sobre as venturas e desventuras da aldeia e dos seus imigrantes. Quando chegámos ao cruzamento com a estrada nacional da Volta, entre o Vale da Senhora da Póvoa e a Meimoa, estava já estabelecido de quem eram netos e filhos os jovens ciclistas, portugueses de segunda geração, nascidos na França muito depois de qualquer um dos polemistas que me acompanhavam terem eles próprios abandonado a aldeia e perdido o contacto com a criação dos filhos da terra.

A exactidão da genealogia familiar que por mero acaso viria a confirmar dias depois fez-me crer ainda mais na importância dos genes e da sua herança escarrapachada nos nossas irrepetíveis faces.

III

A estrada nacional 233 tem um pavimento relativamente recente que vem resistindo quer ao intenso tráfego internacional de pesados - via Vilar Formoso - que a percorrem durante todo o ano, quer ao enxame veraneante e natalício de ligeiros oriundos do centro da Europa e de mais modestas migrações de âmbito nacional.
Entre o Sabugal e a Meimoa - a aldeia do ponto quente - enche-se de curvas e contracurvas cirandando entre meias encostas, pequenos planaltos e vales, quase sempre rodeada de arvoredo. Da Meimoa em diante, até Penamacor, a condução é mais suave surgindo grandes rectas planas, a espaços ladeadas por bem ordenadas fileiras de magestosos plátanos e eucaliptos. Apenas se puxa um pouco pela viatura ao circundar a vila na novíssima estrada de circunvalação.
Com a nova estrada, subir até à vila, tarefa sujeita a curvas e contracurvas que atingiram em tempos a fama das de Nisa, Estrela, Sintra, São Pedro do Sul ou Gerês, é hoje bem menos desafiante e perigoso. Para o ciclista, sobra o declive e o empedrado que teima em atapetar o centro histórico da vila raiana.
Em suma, aquele troço servia apenas para moer mais um pouco os ciclistas, juntar uns trocados e tomar balanço para chegar ao Fundão, depois à Covilhã e à Torre lá mais para o fim da tarde.

IV

Arranjar poiso seguro para parar o carro sem infringir regras de trânsito e garantir ao mesmo tempo um espaço de contacto visual com a estrada e aí aguardar a caravana, de preferência à fresca, não se adivinhava tarefa fácil, mas, mais uma vez, o meu pessimismo foi a enterrar bem depressa nesse dia.

Virámos no cruzamento em direcção à Meimoa subindo uma das meias encostas escavadas pela estrada e depressa descobrimos uma eventual escapatória de curva em sítio que cumpria de forma quase perfeita os requisitos acima enunciados. Note-se apenas que a nossa descoberta merece aspas pois o poiso estava já parcialmente ocupado por outro carro.

Dentro do carro vizinho - talvez montado quando os Trovante nos apresentavam A Menina das Sete Saias - estava um rapaz de vinte e muitos, trinta e poucos.
Saímos da fornalha do carro para a sombra dos enormes eucaliptos e trocámos a tradicional saudação com o tal rapaz. Bastou o “Bom Dia” para lhe apanhar a pronúncia beirã, bastante mais acentuada que a minha e um pouco mais do que a dos meus pais.
Pouco depois de nos estabelecermos, o rapaz saiu do carro e começou uma série de indiscutíveis sinais de ansiedade andando para trás e para diante sobre as folhas, cascas e toros de eucalipto ou olhando um pontinho entre as àrvores, lá para as bandas da aldeia do Vale, a cerca de 3 km de nós, sempre a descer.
Após uns instantes de maior frenesim, acalmou, aproximou-se do nosso carro e pareceu-me interessado em ouvir o que ia dizendo o auto-rádio. Por esta altura era já mais que evidente ao que nós iamos: comentáramos a classificação da Volta, os estrangeiros, o encantamento popular que originava este desporto em nós (pelos vistos!) e em tantos outros, as suas velhas glórias, etc. No entanto, o “Bom Dia” permanecia a única conversa feita com o rapaz.

Aumentei o volume do rádio para ouvir o reporter motorizado da TSF; já haviam passado o Sabugal e aproximavam-se de Santo Estevão, faltavam, portanto, cerca de 10 Km para chegarem até nós. O rapaz olhou o relógio e retomou gestos bruscos: para trás e para diante, abrindo a porta do carro e sentando-se por breves instantes, saltando do carro para espreitar outra vez por entre as árvores...
Pelo nosso lado íamos despejando a garrafa de litro e meio de água, enquanto continuávamos entretidos a deitar conversa fora.
O primeiro sinal da volta não tardou, o inconfundível som do helicóptero soou para as bandas do Vale e pela primeira vez percebi para onde olhava o rapaz: por entre os eucaliptos via-se o saída do Vale da Senhora da Póvoa sendo possível distinguir carros e camiões a passarem lá longe por entre uma breve clareira de vegetação. Mais uns minutos e a volta estaria a passar ao nosso lado, comentei eu em voz alta - não ouve reacções.
Passou sobre nós o helicóptero da SIC e pouco depois surgiram os primeiros camiões: o enorme contentor que servia de palco no final das etapas, um camião de exteriores da SIC e vários carros decorados com autocolantes de orgãos de comunicação social: Jornal do Fundão, Diário de Notícias, RFM, TSF, algumas rádios locais, etc. A seguir, passaram sem grande estardalhaço algumas motos da polícia que interromperam o trânsito em sentido oposto ao da Volta, depois o silêncio regressou.

Passaram-se mais alguns minutos antes que voltasse a surgir animação na estrada, desta vez protagonizada por ciclistas já meus conhecidos: o bucha e o estica pedalavam rouxos de esforço movendo-se muito lentamente lá no início da subida que os levava até à nossa curva. Após um piscar de olhos, já os víamos a passear, ao lado das máquinas, investindo contra a subida com a cabeça quase ao nível dos braços e do traseiro, de mãos no selim.
Chegaram até nós e esticaram-se no chão exaustos. Assim ficaram por alguns minutos condenados a não beneficiarem da nossa hospitalidade, pois então havíamos já esgotado o suprimento de água que tanto proveito lhes faria.
Nisto, como aparições alienígenas, surgiram perante o grupo de mirones de beira de estrada três vultos vermelhos, bem colados ao asfalto, anunciados por um gravíssimo matraquear mecânico: «Ferraris! Uau! Trois!» berrou, com uma energia que não se lhe adivinhava, o mais rouxo dos ciclistas.
Por um dia, Penamacor entra no topo da lista dos concelhos com maior número de Ferraris per capita do país, comentei no meu economês, ao que o rapaz de poucas falas me respondeu com um sonoro «Já lá vêm!».

V

Menos “grave”, mas igualmente cativador de atenções, surgiu outro matraquear mecânico, desta feita oriundo de uma soberba motorizada do tamanho de um pequeno cavalo. Não fosse a minha pouca paixão por estes assuntos e escreveria com detalhe ano, potência, modelo e demais pregaminhos do exemplar, mas o melhor que posso fazer para o enaltecer já o fiz, resta-me apenas descrever o que se seguiu e que motiva a recordação da máquina.
A cavalo ia um empertigadíssimo polícia. Estão a ver aqueles motões que acompanharam o presidente Kennedy na sua última visita ao Texas, empoleirados por polícias de capacete redondo, branco e envergando uns enormes óculos de sol que lhes tapavam metade da cara? A cena era parecida, com a nuance de que o que ali víamos era uma realidade em câmara lenta; parecia impossível como o condutor mantinha a moto a rolar, numa subida e a uma velocidade tão reduzida.
«Não hão-de ver mais motas como aquela na caravana» alvitrou o rapaz de poucas falas continuando, seguro de ter retidos as atenções: «Aquele indivíduo é polícia na cidade da Guarda e a mota é o única daquele modelo ao activo no distrito. No país! Fica o ano inteiro dentro de portas e só sai para a rua quando a Volta passa pela Guarda.» E continuou entusiamado: « Uma semana antes da Volta lá chegar, aquele indivíduo começa a pavonear-se pela cidade a cavalo no motarrão durante todo o dia. Não há ninguém na Guarda que não conheça a peça! Hoje vai aí nas suas sete quintas apresentando a aberração pelas serras a fora.».
Não cheguei a confirmar a autenticidade desta história quando algum tempo depois passei pela Guarda, mas o conto daquele rapaz tem qualquer coisa de insólito que abriu espaço na minha memória para reforçar a lembrança do dia em que fui ver a volta pela primeira vez.

VI

O poletão passou aos bochechos, berrámos todos um bocado como é de bom tom nestas coisas e pronto.
Logo a seguir ao carro vassoura o rapaz arrancou em elevadas rotações “esticando” o velho carro pelo monte acima, sem trocar connosco o tradicional, «Então, Bom Dia!».
Fiquei sem saber porquê ou por quem tanto sofria este estranho rapaz. Um estranho rapaz que tão depressa parecia intimidado e desconfortável com a nossa presença quanto arranjava à vontade para destilar um altivo sarcásmo sobre as respeitáveis forças da ordem a pretexto de uma pequena estória da pequena história quotidiana da cidade da Guarda. Mas todos estes considerandos resultavam se calhar dos meus olhos e a ideia de começar a pensar em ir fazer o almoço pareceu-me tão oportuna quanto aos demais passageiros pelo que também nós nos pusemos em ar de marcha da servil escapatória. Contudo, ainda antes da partida, testemunhámos e de alguma forma protagonizamos um pequeno drama.

Perante o cenário de repetir a façanha de cinco quilómetros a pedalar entre altos e baixos de regresso à aldeia, uma algaraviada afrancesada irrompeu entre os dois ciclistas luso-gauleses, promovida essencialmente pelo ainda mal recuperado baixote gordinho que insistia com o irmão mais velho para ir para a aldeia mais próxima - dois quilómetros e quase sempre a descer - de onde pediriam socorro à familia! Julgo ter percebido a expressão “no tractor da tia” por entre as resposta às invectivas cépticas do irmão mais velho.

Da contenda resultou que o gordo baixinho ficou especado com ar de grande desespero assistindo ao afastar do irmão ladeira a baixo a cavalo no velocípede, em direcção ao cruzamento que o levaria para a estrada semi-agrícola calcorreada há pouco.
Já com o motor a trabalhar, frustrámos, mais uma vez, uma tentativa hospitaleira de socorrer o atleta. Condoídos oferecemos-lhe boleia que ele aceitou de pronto... Mas havia a bicicleta, porventura, a maldita bicicleta...
O carro não era um dedal, mas, sem suportes apropriados no tejadilho, revelou-se impossível transportar a máquina inteira na mala do carro. O rapaz conformou-se e agradeceu descendo a passo a ladeira, pingando suor e escondendo as lágrimas antes que o irmão, que o esperava lá em baixo, as pudesse destrinçar...
A meio da rampa quando passámos por ele, simulou trepar para o selim, mas não passou disso. «Só lhe faz é bem. Para abater as banhas! Um rapaz tão novo...» disse um dos meus passageiros longe já dos ouvidos do ciclista.

No dia seguinte vi de novo o luso-francês mais anafado, ainda em prova, sorridente, pedalando pela terra batida de uma das linhas arquitectadas pela esquadria real do emparcelamento imaginário daquela pontinha da Cova da Beira. Ofereceu-me um tímido «Bom Dia» em bom português e seguiu viagem conduzindo com uma mão e levando com a outra à boca uma suculenta maçã, aproximando-se calmamente da frescura da ribeira.

(prot-blog com 5 anos)

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setembro 13, 2003

Meu Querido Diário

Benquerença, 2 de Agosto de 1997, férias de Verão em casa dos avós.

Parecia ser uma tarde normal de Verão, uma tarde de calma, de uma calma de derreter os ossos como as anteriores, quando de repente... Bom, de repente viu-se um filme repetido: partiu-se o céu ao meio e caiu-nos uma descarga de água e de electricidade em cima.
Um repâmpago-trovão de cegar os olhos e vibrar os pulmões iniciou a função. A chuva torrencial abafou o ar, amoleceu as moscas e pôs os humanos pensativos. Com a trovoada tão perto muitos aproximaram-se de Deus; como se diz: ficaram mais tementes a Deus. Eu continuei de mata-moscas na mão, mais implacável do que antes, bravamente à espera do raio castigador, talvez.
Com a falha da electricidade a reconversão de alguns católicos da família consumou-se de facto. «Ah! Se houvesse mais tempestades na cidade, mais cortes de energia... Como as igrejas se encheriam novamente, como todos se reduziriam à sua insignificância e descobririam o verdadeiro valor da vida», pensei divertido e enfadado. Adiante.

Com a falha da electricidade a reconversão de alguns católicos da família consumou-se de facto. «Ah! Se houvesse mais tempestades na cidade, mais cortes de energia... Como as igrejas se encheriam novamente, como todos se reduziriam à sua insignificância e descobririam o verdadeiro valor da vida», pensei divertido e enfadado. Adiante.
Pôs-se mais um rachão na lareira, acenderam-se algumas velas e as histórias de outras trovoadas tiveram o seu lugar com o ambiente «al dente». Isto dá que pensar, Diário: sem televisão, sem rádio, sem coragem para deixar os beirados das casas, as estórias que pareciam pertencer irremediavelmente presas à memória individual de algumas poucas e antigas crianças que por aqui ainda andam, brotam imediatamente à velocidade de um interruptor accionado, provenientes dos mais improváveis contadores.

Contou-se a estória daquela vez em que um raio caiu na antena da televisão e em que a casa ia ardendo. Acabado este conto passou a apelar-se a Santa Bárbara a cada nova descarga com crescente clamor.
A um canto, o meu pai recontou-me a história do grande carvalho da sua meninice que eu ainda conheci. Deixo-te aqui, querido diário, uma estória de ternura, e de fascínio.


Era uma vez um menino pequenino que era um pequenino pastor. Bom, a verdade, verdadinha não era bem essa. O menino andava na escola como os outros meninos e por isso, antes de mais nada, era um menino, mas, nas férias, como muitos outros meninos da sua aldeia, este era pastor. De manhã levava o rebanho de ovelhas e cabras a passear pela serra. Aí o gado passava o dia a encher a barriga com os petiscos que só são bons para cabras e ovelhas. O menino cuidava delas encaminhando-as para os melhores pastos e protegendo-as de algum perigo sempre com a ajuda dos seus dois cães pastores: a Estrela e o Tejo. Durante o dia o menino arranjava tempo para brincar sozinho e com outros pequenos pastores que encontrava. Trepava às árvores, descia às fragas, dormia de barriga ao leu aquecido pelo sol, acendia fogueiras quando o dia vinha fresco. Era imensamente feliz excepto quando às vezes a fome apertava e o Verão se engasgava nalgum temporal. Uma vez, num desses temporais de Verão o menino assistiu a uma coisa bem de pasmar.

Posted by Rui at 08:20 PM | Comments (0) | TrackBack

setembro 10, 2003

A Caminho de Gata (Integral)

O sargento Federico Gracias era o comandante do pelotão. Trinta e muitos anos, um metro e setenta, vozeirão à sargento. "Sou a voz da morte", dizia, em tom excepcionalmente cavernoso, ao ouvido da beldade de serviço numa qualquer taberna. Olhava-a então bem fundo, enigmático, primeiro, e completamente ameaçador, por fim. Fazia isto, sempre que estava bêbado de mais para querer folia. Depois, ria-se que nem um tolo até perder os sentidos. “A voz da morte”, balbuciava no dia seguinte, quando acordava na sua tenda.

Em regra, o comandante do pelotão oferecia ironia e humor negro, mantinha a moral irrealmente elevada. Mas, às vezes, afogava-se em álcool ou em lágrimas, consoante primeiro lhe chegasse um copo ou uma companhia paciente. Achava-se melhor quando estava com alguém, quase sempre em silêncio, sentado à mesa de uma tasca diferente da do dia anterior.

Nas noites em que conseguia adormecer, o último pensamento ia-lhe frequentemente para a deliciosa maçã que comera, há mais de trinta anos, encostado à vedação da casa dos seus avós maternos, na aldeia da Faia Grande, do outro lado da actual fronteira. Lembrava-se do estalar da maçã rija entre os dentes e do cheiro a feno vindo do palheiro monumental. O calor subtropical em que entrava ao mergulhar nos cobertores, lembrava-lhe a brisa morna que anunciou o fim daquela tarde de verão; era então que adormecia.

*

À saida do rancho:
- Sargento Gracias! Reuna já os seus homens. Hoje ainda têm serviço. Há muito desertor cá em Vila Rodrigo! O nosso general quer o serviço feito antes do arrear da bandeira. E isso limpinho, nada de dramas! Amanhã, antes do alvor, já devem ir a caminho de Gata. Entendido?
- Sim, meu major!

Ninguém quer o pelotão de fuzilamento mais famoso da península no seu quartel. Sempre em bolandas como um circo itenerante, sempre as mesmas caras trombudas pela frente. Asco, eram disso, as caras.
Na tenda do sargento:
- Meu sargento!
- O que é que queres?
- Que o meu sargento me dê um tiro nos cornos! Pois já era tempo de saber!
- Hoje não estou com paciência para brincadeiras, Lombriga...
Lombriga correspondia, na medida do quase impossível, à sua alcunha. Era magríssimo, alto, muito branco e tinha uma enorme boca oval cheia de dentes retorcidos, desproporcionados para o crânio tão reduzido. A sua frase de marca era responder que: “As lombrigas têm duas bossas e eu, como não tenho nenhuma, só posso ser uma ténia, camelo!”. O Lombriga tentava também (e de forma muito dedicada) cumprir o papel de aguarrás, atazanando tudo e todos, mas, geralmente, só agravava o mal estar eternamente latente entre os colegas. Era muito óbvio na sua tentativa de proporcionar uma realidade alternativa. Sempre que o caldo ameaçava entornar-se para o seu lado, tinha de se refugiar na exploração da figura anormal. Mas não se ficava por aqui o espírito missionário do Lombriga. Secretamente, tentava evitar que os colegas tivessem motivos para lhe chamarem parasita; razões além das evidentes. No fundo, ansiava sentir-se útil e querido pelos colegas.
- Sabia que hoje vamos consumar um poeta, meu sargento?
- Irra!
- Pronto, desculpe. Sabia que hoje vamos fuzilar um poeta? Não me diga que não leu a lista do...
- Toda a gente sabe que não gosto de poesia...
- Ah! Então, finalmente, vamos fazer alguma coisa do agrado do meu sargento!
- ...mas sempre gostei de poetas.
- Ó diabo!
- Quem chamou? (berra alguém do lado de fora da tenda)
- Não é contigo, Diabrete de Alcântara! E se a gente puser o indivíduo a declamar na hora da ordem? Sempre se torna mais fácil, meu sargento!
- Lombriga, és um anjo! Depois do que se passou ontem em Rigremoz eu pensava que não só seria incapaz de ordenar fogo, como eu próprio nunca mais seria capaz de disparar um tiro... Mas... Hoje, vou fazer a vontade a alguém e não vai ser só ao general. Lombriga?
- Meu sargento?
Pum!
- Que foi isso, meu sargento? (pergunta um soldado que se assoma à entrada da tenda)
- O Lombriga levou com um tiro meu nos cornos.
- Pois já não era sem tempo, meu sargento!
- Reune os homens Diabrete. Está quase na hora.
- Está tudo pronto, meu sargento!
- Então o que é que tu estás aqui a fazer? Mexe-te!
Os homens, que andavam já algo preocupados com o semblante teimosamente sorumbático do sargento, respiraram de alívio assim que lhe viram o sorriso sardónico (com que se havia despedido do defunto Lombriga), acompanhá-lo quando saiu da tenda. O velho sargento, comandante do pelotão, estava de volta!
Ajeitou o bivaque, acomodou o bigode (como se o tivesse) agarrou o cinto com as duas mãos, puxou as calças para cima, pôs as mãos atrás das costas, cuspiu, deu dois passos em frente e berrou:
- Poontar- ahr! ...Fogo!
Pum!

(Proto - Blogue de 1996)

Posted by Rui at 05:37 PM | Comments (0) | TrackBack

setembro 09, 2003

Criancinha

Proto-blogue da colectânea "Crónica Sobre Tansos!"

Eu deitei fogo aos armazens do Chiado, confesso. Naturalmente, assino sob pseudónimo, por isso, não se apoquentem...
Por que aqui trago esta? Porque ninguém acreditará que é verdadeira e porque sou um criminoso sentimentalista! Para os mais distraidos, lembro que no dia 25 de Agosto passou outro aniversário sobre o dia da Obra.
Revelo-vos a causa sobre a forma de uma pequena história. Desde já sublinho que não procuro absolvição pública, no máximo, justifico-me com os meus motivos.

Não se enganem pela minha morada! Lá em baixo, no fim do texto, escreve-se que sou de Mem Martins, suburbano, concluirão os mais avisados, fa-lo-ão erradamente, excelências!

O que eu sou é Saloio, duplamente! Sou Saloio dos arrabaldes de Sintra, terra de antigas tradições e gente pitoresca que ainda se mostra por ai fora (basta frequentar as feiras e mercados que vão autorizando nesta normalizada União Europeia), mas sou também saloio de tipo corrente, daqueles que se topam à distância na grande cidade. Bem,... talvez já não tanto como naquela altura.

Vivo numa casinha térrea, modesta e singela, deixada na família por meus bisavós, antigos caseiros da Quinta de Fanares de Baixo. Hoje, está entala entre dois caixotes de oito andares, na companhia das portas zincadas das respectivas garagens privativas; é a última sobrevivente de toda a rua. No outro dia, um rapazinho que por cá passava, perguntou ao seu pai porque se chamava esta rua de Rua das Hortas de Fanares e eu, que estava amanhando o torrãozito que ainda sobrou em frente à nossa casa, após o alargamento da via, não resisti, arranquei logo ali uma alface bem viçosa (de entre a mão cheia delas que lá vou plantando) e mostrei-a ao miúdo. É triste saber que daqui a uns anos, ou meses, talvez mesmo antes de morrerem as últimas alface cá na rua, o nome de um qualquer finório, conhecido por alguns gatos pingados da Junta, aqui veja cumprido um pretenso sonho de toda uma vida ao se acrescentar à toponímia nacional!

Onde isto já vai! Desculpem a divagação, mas têm de me conhecer minimamente para que façam proveito das minhas palavras.
Possuo alguns estudos, acabei o secundário em tempo razoável, conheço dos livros, da televisão e das comédias da vida que vão acontecendo a todos. Contudo, de horizontes viajados, tenho ainda poucos a contar e menos ainda tinha em Agosto de 88.

*

Para mim ir a Lisboa era um acontecimento, a começar pelo comboio. O mágico fascínio dos comboios foi revivido por mim tão fielmente como por aquele menino que ainda ontem vi com sua mãe, a caminho de Lisboa. Na grande cidade, os primeiros momentos eram extasiantes; outro mundo, bem vêem. Mas - cá está ele, o pequeno grande senão por que vos faço esperar - o que geralmente me levava a Lisboa era a mais chata, secante, sofrível e ingrata das tarefas que se podem exigir de uma criança, principalmente, aos rapazes mais simples e tapadinhos como eu: ir comprar roupa.

Com a cidade sedutora a envolver-me os sentidos de forma extenuante, lá tinha eu de andar atrás dos meus pais a galgar as ruas em passo de caracol. Mirar a montra de forma incrivelmente lenta, decidir se vale a pena entrar, entrar por fim, escolher, palpar, provar, escolher, palpar, vistoriar, provar, escolher, vezes sem conta, para se sair da loja de mãos vazias e repetir o rito na montra seguinte e, por vezes, recuar à montra anterior para reapreciar e comparar!... Um martírio.

Depressa a excitação dos primeiros momentos transformava-se em ansiedade, um mau estar desgraçado a crescer a cada passo. O encanto dos pombos era substituído pela barulheira e odor insuportável dos motores na Rua do Augusta - parabéns a quem de lá expulsou os carrinhos! A beleza da calçada desenhada não resistia às horas sucessivas que levava a pular de floreado em floreado numa desesperante tentativa criativa de matar o tédio. É, eu morria sempre que tinha de ir nesta procissão. Faltava-me o ar, faltava-me a água, embrulhava-se-me o estômago e, invariavelmente, tinha de irritar toda a comitiva pedinchando a satisfação de alguma destas necessidades vitais, ou então, reclamando igual lentidão em lojas de jogos electrónicos, em bancas com livros de banda desenhada - pequena vingançazinha pouco reconfortante, diga-se de passagem. Uma tarde inteira nisto. Com sorte, lá reanimava os sentidos quando convencia a comitiva a ir espreitar o rio mais de perto, mas era coisa rara “por causa do tempo que se gastava”, diziam.

Rua dos Fanqueiros, Rua da Prata, Rua Augusta, Rua do Ouro e respectivas transversais, Praça da Figueira e outras envolventes, era este o calvário, sempre em busca de um par de calças, de sapatos, de sapatos de ténis - até isto eu detestava comprar, contrariando a maioria dos meus pares de geração -, de camisas, ou até mesmo - supremo dos martírios- de pijamas, chinelos, cuecas, peúgas, roupões, lenços e outros trocados.

Há um cantinho da cidade de que ainda não falei: o Chiado e, principalmente, a dissimulada Rua do Carmo. Linda rua aquela, de aparência agradável, subida (ou descida) ligeira, menos transitada por veículos... Escondia o meu maior inferno. Entrando nos Armazéns, estavam garantidas horas de tédio e sufoco repartidos pelos variados pisos da torre. Só tinha um aspecto a favor: como é que entravamos por uma porta, fartava-mo-nos de descer degraus e depois saia-mos por outra, directamente para a rua sem subir um palmo? Mistério insignificante perante o sacrifício que exigiam!

Passado um dia de cão - como eu invejava os pombos! - ainda tinha de ser submetido àquela última provação?! Depois das promessas que sempre se adivinham numa novidade (bem embrulhadinha na deliciosa viagem de comboio) faziam-me uma traição daquelas!

*

Os anos passaram sem alterações de monta no ritual, agravado apenas pela acrescida dificuldade em caber nas roupas, provocada por esta rasquíssima característica nossa de termos em média mais um palmo do que a média da população. Finalmente, um dia, na volta de uma noitada no BA - não foi propriamente uma noitada, foi a primeira e única, até à data - acossado pela lembrança da ameaça da minha namorada de então - uma lisboeta chatérrima (conhecimento das praias de Sintra) que vim a descartar em três tempos -, cometi o crime. A rapariga vivia de gelados e de maratonas à caça de roupas, exigia que gastássemos o Sábado que se seguia numa dessas provas, em tudo semelhante às minhas anteriores provações. Não resisti à louca desinibição nocturna e deitei fogo aos armazéns com o auxílio de uma meia garrafa de vodka, uma mecha acesa e um lançamento perfeito. Liberdade!

*

Cá em casa, sou conhecido como o T.G.V., por duas razões: uma é a de que ninguém se consegue vestir e despir mais depressa do que eu - há sempre coisas mais interessantes a fazer antes e depois desses breves instantes- e a outra é a de que, agora, ninguém é capaz de comprar roupa adequada mais depressa do que eu! Em abono da verdade, também não tenho muita escolha, pois com os meus dois metros - há cá muitos assim em Mem Martins, por isso, não pensem que me apanham com esta “desatenção”- não há assim muitas lojas e marcas por onde escolher.

Quando penso que o que fiz foi um crime, regozijo-me de ver o fervilhar de tanta gente na realização de recriar o antigo coração da cidade; vejam o Siza Vieira que ganhou assim tão rara oportunidade de mostrar talento aos seus ignorantes compatriotas lisboetas! Só me custa é ver aquela gente que ficou sem emprego e todo o imbróglio que inventaram antes que reconstruíssem a zona. Mas o principal está feito, por portas e travessas garanti que os armazéns passassem à história. Agora, é só dar um pulinho às Amoreiras ou ao Cascais Shopping para comprar Benneton, Façonable, Maximo Dutti, -já foram ver os saldos à Zara?- e que tais, ou então, é ir ali à praça.

*

Digamos que fui um curto circuito saloio em 25 de Agosto de 1988 rodeado de muita carga térmica inflamável. Já lá vão oito anos de carga térmica a consumir-se. Haja pachorra! Mas nem assim me arrependo! Deitava o fogo outra vez. Palavra!

Assinado: T.G.V.
27 anos, Trolha, Mem Martins
(1996)

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A parede que fala e tira o sono

Porque me lembrei de Fernando Alves, António Jorge Branco, José Feliciano e de uma história que ouvi contar pela primeira vez há mais de 10 anos assomado a um postigo na rádio .

A parede que fala e tira o sono

Lenura, Beira Baixa, 1957

Na praça do Cruzeiro apenas um galo madrugador quebrava a imobilidade e o silêncio. Nas restantes ruas não havia quem notasse a falta do som das carroças e ninguém ficara apeado quando a carreira das seis não veio. O dia nascia calmo e propício à indolência como convinha aos finais do mês de Agosto.
Perto da novíssima torre do posto de alta tensão, bem no centro da aldeia, o canto do galo e o toque do sino às meias horas rivalizavam com o chilrear crescente das andorinhas que se empoleiravam às centenas nos cabos eléctricos que dali partiam.

Em toda a aldeia, apenas a Ti Chitas vira nascer a estrela da manhã e apenas ela tinha o burro alimentado e o terço rezado quando o Toninho “Baratas” apareceu de mãozitas nos bolsos das calças, pé descalço, cabelo em desalinho e ainda bastante estremunhado na praça do Cruzeiro.
Quem visse o petiz àquelas horas da manhã de domingo, especado a olhar seriamente para a parede lisa e bem caiada da Casa do Povo, ora de frente, ora de meio fio, de perto, depois de mais longe e chegando até a encostar-se a ela e a raspar pedacitos de caliça branca que mereciam exame atento e demorado com todos os sentidos – e que amargo era o petisco! – quem o visse naqueles preparos, dizia, tomá-lo-ia por doido ou por possuído pelos maus espíritos que põem as pessoas a fazer coisas levadas do diabo em pleno santo sono. O que é certo é que não havia quem ali estivesse para apreciar a peça e muito menos havia espíritos malignos que o atentassem.

Achando um mocho encostado ao chafariz do Cruzeiro, o Toninho “Baratas” – alcunha que ganhara nesse mesmo ano por se demorar sempre no recreio a amestrar baratas, bichos-clérigos e demais insectos rastejantes que apanhasse à mão – agarrou-o, pô-lo ao centro da praça e de frente para a parede da Casa do Povo sentou-se, continuando a mirar a parede. Não satisfeito com a posição, levantou-se e tendo chegado junto à parede virou-lhe as costas e contou um número determinado de passos, marcando o local com os olhos e colocando sobre ele o mocho de verga e pau. Sentou-se a si no assento e à sua cabeça de oito anos nas palmas das mãos que acabavam nos cotovelos fincando os joelhos. Assim esteve largos minutos de olhos já bem vivos e cheios de sonhos, a olhar a parede.

O galo que passeava ali perto, voltou a cantar a alvorada sem resultado aparente e topando com o “Baratas” interessou-se e aproximou-se sempre desconfiado. Cantou de novo. Aproximou-se um pouco mais , emproou-se um pouco melhor arrebitando a crista e passeou-se bem na frente do “Baratas” maneando a cabeça discretamente, o suficiente para se assegurar de que não seria surpreendido por alguma reacção; como esta não veio, o bicho enfadou-se e regressou à capoeira mantendo a pose.

Ao bater meia hora, uma brisa mais forte carregou até ao pé descalço da criança um dos folhetos escritos em letras grandes e liláses que encheram as ruas da terra na sexta-feira e no sábado. Sem lhe pegar leu-o devagar, letra a letra, sílaba a sílaba, apesar de já o saber de cor. Depois, sorriu, pôs as mãos atrás da cabeça, olhou as últimas estrelas e soube que elas eram como a máquina de luz que estivera ali ontem onde ele estava agora. Soube então que era mesmo dela que vinham as imagens e os sons que encheram a parede e a praça. O filme que vinha das estrelas era o sol que nascia e o cantar dos pássaros e ele e todas as coisas que há no mundo.

O galo tornou a cantar e o “Baratas” pulou do assento, correu para a parede, parou bem perto, virou-se para a praça e começou uma série de gestos e acrobacias salpicadas por palavras soltas, berros, urros e demais efeitos sonoros que tão depressa pareciam imitar um cavalo a relinchar como um comboio a vapor. Pulou e espalhou cabriolas por toda a praça, fez do mocho o centro da sua coreografia: disparou sobre ele as suas pistolas fumarentas; lançou-lhe um laço levantando muito pó; fugiu dele abrigando-se junto à parede e abraçou-o como se na despedida antes da grande aventura.

A chinfrineira cinéfila acordou o Zé “Taberneiro” que tinha o boteco ali na praça. Chegando-se à porta, despejou a má disposição da ressaca que trazia da noite anterior num imediatamente contido berro de «Caluda!». Com a cabeça a latejar e ainda meio zonzo foi à praça agarrar no mocho que de seguida desfez atirando contra a parede da Casa do Povo e errando largamente o alvo palrador que não desarmou. O Toninho “Baratas” - «Alma do diabo!» - correu a cavalgar acenando um dos folhetos com letras liláses pela Rua Direita a baixo, imensamente feliz, e a gritar espantando gentes e andorinhas: «Não percam o cinema itenerante de José Feliciano em Lenura sábado e domingo! No sábado as aventuras do oeste americano entre cowboys e índios no mais empolgante filme do ano com John Waine: Rio Vermelho! No domingo, o melhor filme de desenhos animados alguma vez produzido: Fantasia de Walt Disney, deixem-se maravilhar com a cor e o som do espectáculo do cinema! Sábado e domingo em Lenura na Praça do Cruzeiro às nove horas da noite! Tragam assentos!».

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setembro 07, 2003

O «Pechêgo»

Ele era a figura da aldeia. Se tivessem de escolher um autóctone para se sentar numa cadeira de verga, bem à sombra da placa toponímica, certamente escolhê-lo-iam a ele, ao Ti Jaquim «Pechêgo».
Estatura média, ligeiramente curvado pelos seus mais de 80 anos, olhava por detrás de uns óculos quadrangulares, largos, que escondiam, ao mais desatento, uns olhos pequeninos sempre muito brilhantes. Nunca abandonava o seu chapéu castanho nem a boa disposição, e se o fizesse, por um dia que fosse, o assunto chegaria seguramente ao café, bem como às conversas de serão. Aliás, a última vez que o recordavam triste remontava já ao falecimento de sua esposa quando tinha então os seus setenta e picos.

Era o velhote mais rijo e alegre daquelas ruas, afinal, quem lhe desse a salvação habituara-se já a levar um sorriso nos lábios, fruto duma chalaça sempre pronta. A sua adega era de longe a mais frequentada e todos lhe gabavam o bom vinho e restante hospitalidade. Dizem-me que, desde que montou a adega, não houve um único dia em que esta não acolhesse convidados e era mesmo uma espécie de ponto de romagem obrigatório a todos os visitantes da aldeia de Benquerença. Tudo lhe parecia dar um ar bonacheirão. Das suas faces permanentemente rosadas veio-lhe a alcunha; dizia-se que não havia sobre a Terra coisa mais parecida com um pêssego que as maçãs do rosto das gentes da sua família.

O Ti Jaquim «Pechêgo» era um caminhante. Adorava passear e fê-lo todos os dias, desde que se lembrava. Conhecia palmo a palmo todas as terras do vale e de todas parecia conhecer “uma parte”, fosse a tragédia de uma disputa por uma certa courela, o segredo de tesouros enterrados durante as invasões francesas em determinado covão, ou os dizeres sobre paixões proibidas que fizeram história, nesta ou naquela choça, bem perto de um qualquer bardo desocupado. Ao longo de oito décadas de casamentos, festejos, provações e mortes a cruzarem vidas por aquelas terras, juntara, nas sua memória, toda a história da aldeia e de boa parte do vale

Imaginem-se agora a seu lado, num dos longos passeios primaveris que fazia pelos caminhos e quelhas do vale, em redor da ribeira, ou então, sob a sombra do arvoredo nos arrabaldes da serra, entre a água de fontes e regatos. Ou ainda, sob o alpendre de cantaria bem à porta da fresca loja de sua casa, durante uma escaldante tarde de verão.
Fiquemo-nos pelo último cenário para apreciarmos uma das artes onde melhor se revelava a sua mestria. Imaginem-se a ouvir algumas das suas longas narrativas...

Sobre um cepo, que já fora, por ventura, encosto para muitas desmanchaduras do porco e para muitos rachões, oferecer-nos-ia um copo de vinho beirão ou de água serrana, ambos bem frescos pelas bilhas de barro. A acompanhar: um naco de pão com queijo ou um apetitoso chouriço caseiro.
Ah! Mas a história! A arte de a contar! Mil vezes a repetisse outras tantas vezes nos deleitaríamos. Primeiro a sugestão. Vinha no meio da conversa sempre a propósito e quase sempre sem nos apercebermos. Quando dávamos por ela, estávamos a esforçar o ouvido para não perdermos pitada. Seguia-se um minucioso enquadramento de toda a acção. Umas histórias passavam-se durante a época das bandeiras negras (a fome), outras quando o padre Álvaro ainda era o pároco da aldeia, mas também as havia da altura em que os filhos da Ti Marques foram apanhados pelos carabineiros com os sacos do minério às costas! Depois, a surpresa era total. Poderíamos ter uma história do anedotário da aldeia, onde não raras vezes dominavam as falas inevitavelmente hilariantes dos intervenientes; poderíamos ter um conto fantástico sobre a origem do nome de um qualquer lugar do vale, como o Terreiro das Bruxas ou o Cú do Lobo; poderíamos ouvir a história da tragédia de uma paixão arrebatadora que percorreu séculos na oralidade da aldeia. Enfim, podíamos esperar qualquer aventura e experimentar as inúmeras sensações que se desencantam e insinuam num conto.
Mas o que fica mais marcado na memória, é todo o ritual que o Ti Jaquim seguia e toda a magia e encanto que fazia desprender de cada passagem duma história. A cada vez que usasse o canivete para cortar um pedaço de chouriço ou parasse para beber um trago de vinho, quase recomeçava a história do início. Seria isso consequência da idade ou matreirice de quem se sabendo com um público que lhe bebia as palavras, aproveitava para prolongar o seu momento de glória, acrescentando aqui e ali um pormenor de que se “esquecera”? Não sei bem, mas sei que fazer uma pergunta tinha invariavelmente o efeito de beber um trago de vinho ou de cortar um naco de chouriço, e sei também que bastas vezes havia quem o interpelasse, saborosamente.

O Ti Jaquim «Pechêgo» já morreu e fê-lo de surpresa, sem dizer a ninguém o que fazer às suas histórias. Um dia devo ter-lhe perguntado se as criava ou se alguém lhas contara e ele ter-me-á dito, com um sorriso largo e encolhendo os ombros, que simplesmente lhe vinham à memória. Provavelmente, algumas contara-lhas o seu pai, outras os seus irmãos, os seus amigos e outras contara-lhas a vida. Mas como vêem não vos posso dar o número da sua porta nem sequer o nome da sua rua, garanto-vos, contudo, que ele ainda por aí anda a contar histórias e a lançar chalaças certeiras a quem lhe dá a salvação numa qualquer rua deste país. «Bom dia, Ti Jaquim! Que tal vão esses ossos?»

.................
O «Pechêgo» é uma personagem, mas é, acima de tudo, o meu bisavô, recordo-o aqui como contador de histórias e como um dos “velhotes” mais populares de uma aldeia. Para mim, é gente com história e com histórias, que está a morrer todos os dias por esse país fora, ainda à espera de ser “entrevistado”. (É mais um proto-blog enviado para o DNJ em 1995)

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setembro 05, 2003

Moscas no pára brisas

Este dia não existe. Tudo parece incomum, caótico, incompreensí­vel. Surreal.
Onde estou? Num centro comercial em meio de semana, à hora da matiné. Amoreiras... No átrio de acesso a algumas salas de cinema.
Sentados nos poucos degraus, meia duzia de jovens aguardam a próxima sessão em estranho silêncio; rapazes e raparigas um pouco mais novos do que eu. Neste momento, parece-me impossí­vel imitá-los. Dobrar as pernas está definitivamente fora de questão. Estranho efeito produzido pelo intenso cheiro a pipocas e pela inebriante voz de Chet Baker que completa o ambiente. O que vim aqui fazer?

Desço os degraus, quase tropeçando, e fico junto à porta de mãos nos bolsos, observando as gentes. Assim estou como que acendendo um cigaro em dia ventoso, espreitando por debaixo da aba de um chapéu. Se me visse ao espelho tinha de estar vestido de gabardine e com um chapéu clássico, completamente cinzento.
À esquerda, a uma velocidade incrivelmente lenta, aproxima-se uma senhora, seguramente octogenária, de braço dado a um rapaz de fato que a ajuda a arrastar-se até à sala. Ela traz uma peruca castanha com um penteado de há mais de meio século, fazendo-o acompanhar da correspondente maquilhagem. Veste cores claras, castanhos e amarelos, destaca-se o xaile que surge bem ní­tido no conjunto. Todos os gestos lhe denunciam a idade. A peruca afigura-se mais com uma coroa genuí­na, de decano, do que com uma máscara de fantasia. É vaidosa, ainda. O rapaz não a guia, serve-lhe apenas de apoio, permite-lhe a determinação.
Vindo das escadas rolantes surge mais um grupo de jovens, este muito ruidoso, exclusivamente composto de raparigas. Olha ali, diz uma apontando, aquela senhora não é uma atriz dos filmes a preto e branco? A senhora não ouve; observa atentamente uma montra.

*
As portas das salas abrem-se finalmente. Zeno Saint-Lear Da Costa, eu, o fumador imaginário, regresso ao atrio. Espero um pouco curioso por descobrir qual o filme que a senhora da peruca vem ver. Entretanto, o homem da lanterna, que por acaso era uma simpática jovem, vendo-me com o bilhete na mão e com um ar meio perdido, pergunta se não quero entrar. Atiro-lhe um sorri e estendo o bilhete. Certamente, a senhora da peruca vem ver este filme, vem ver o cinema português de hoje. Deve ser.
Ocupo o meu lugar central na penúltima fila e descanso os olhos. Estou aqui para me abstrair de tudo por uma horas. Principalmente da última briga, a definitiva... O grande melodrama: gritos histéricos, choros de mansinho, escandalo com direito a expulsão do restaurante... Relaxa, Zeno.
A música ambiente subiu de volume, Masquerade berrava um corro de vozes. Fantasma da Ópera. Seguiu-se outro excerto de uma opera-rock, uma vozinha angelical afirmava I Don´t Know How to Love Him. Jesus Christ!... Superstar. Solta-se-me um enorme bocejo e volto a fechar os olhos. Está a resultar.
Um momento de silêncio, mas não é ainda o início da publicidade, começou outra selecção. A voz, aquela voz... A mesma voz... Ouço com atenção e com o coração aos pulos... I don't care who I hurt, I don't care who I do wrong... As I cuddled the porcupine, he said I had none to blame, but me. Held my heart, deep in hair, time to shave, shave it off. No time for romantic escape, when your fluffy heart is ready for rape. No!...No time... Que raio de ironia era esta? Aquela voz tão parecida com a da música inesquecí­vel, a «nossa música»! Your fluffy heart is ready for rape?! Senti-me o personagem de uma trama irreal, duma teia feita em plena febre. Eu era um pour boy handkinding thru'the blues. Raios! Diabo de cinema, merda de música. Porque é que não resisti à normalidade de ter uma música romãntica, a «nossa música»? Saí­ da sala, mas fiquei. Vi um filme e não vi. Nunca fechei os olhos nem chorei. As lágrimas rasgaram-me a garganta e acumularam-se pastosas à porta do estômago comprimido. Detestava-me impavidamente. Que estranha revelaço se escondia nesta ironia? She is looking at me? Talvez. Rindo.

Nota: excerto de Back in N.Y.C., Genesis, álbum The lamb lies down on Broadway, 1974

(proto-blog do meu ano de mais febril paixão pela rádio - até ao momento 1996)

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setembro 04, 2003

Elevador (act.)


É para o 15º, por favor.

I

Ting!

De tantos serem os sítios e situações de encruzilhada que existem neste mundo, todos os dias acontecem pequenos milagres, autênticas aberrações estatísticas.
Como é possível serem dez para as duas da tarde de uma quinta feira e o elevador da torre um das amoreiras disparar para o alto saíndo do rés-do-chão com apenas duas pessoas lá dentro?
Testemunhas do milagre apenas os intervenientes: uma rapariga e um rapaz, ambos na casa dos vinte, ambos auditores em multinacionais rivais e vizinhas.
Ela chegou perto do hall dos elevadores e realizou mecanicamente os poucos passos necessários para chamar a máquina: primido o botão, o primeiro com seta para cima que abrisse as portas era o seu. Não demorou meio minuto até que chegasse e ela entrou. Só reparou que ninguém a seguia, que estava sozinha, quando a noção de espaço foi ampliada pelo espelho que ocupava a toda a altura o interior do elevador. Naquele momento era normal que estivesse a ser condicionada, apertada para os fundos, provavelmente pisada e empurrada. A rapariga despertou do turpor mecanizado e deitou a cabeça para fora, incrédula, espreitou ainda a seta luminosa e confirmou que não havia engano... Ia subir.
Ele entrou de supetão quando as pesadas portas já se fechavam e quase levou os joelhos ao chão com o arranque violento da aparelhagem elevatória em direcção ao sétimo piso, destino pré-programado pela moça.
Não fora a traição do espelho do elevador e nem um olhar teriam trocado. Ela ajeita uma madeixa aqui, um bricozinho acolá; ele vai de endireitar a gravata e de carregar no botão que "já me esquecia".
É o rapaz a pôr o indicador em acção e o elevador a estacar bruscamente entre o 3º e o 4º andar.
Salta um susto do peito da moça que depressa se recompõe dardejando, de seguida, olhares assassinos em direcção ao inocente desaventurado. Ela carrega de novo no botão que diz sétimo piso e depois em outros, mas o elevador não se mexe.


II
Priiiiiii. Priiiiiii.
Nada.
Priiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
Nicles.
A rapariga sopra às madeixas não poupando os pulmões.
Já vai! Ouve-se distante a voz do zelador.
Priiiiiiiiii.
Já vai ! Porra! Tenho de esperar pelo outro elevador para aí chegar!
Só faltava agora o homem ficar preso no outro! desabafa a rapariga para as portas fechadas.
Dizem que havendo companhia, a maioria das pessoas não aguenta estar 8 segundos num elevador em silêncio total... Quando as palavras dela ditas para as portas casmurras ameaçaram pisar a referida distância temporal, o rapaz desenrola a seguinte história, olhando também as portas e pondo as mãos atrás das costas, quase em sentido.
Um dia fiquei preso num elevador na Madeira. Fui fazer uma auditoria na Electricidade da Madeira e ficámos três presos no elevador: eu, o meu manager e o director financeiro da empresa... Era sexta-feira, já passava das sete e o prédio estava vazio. Segundo o director financeiro os seguranças da empresa não faziam rondas durante os fins de semana. Dizia-nos com o seu madeirense macarrónico e com ar preocupado que eram "fortes as probabilidades de termos de passar ali dois dias e meio!"
A ideia de imitar a pronúncia madeirense ainda passou pela cabeça do rapaz mas o sentido do ridículo deu-lhe outros conselhos.
Estávamos enfiados num elevador minúsculo onde mal cabiamos de pé... Tinha para aí um quarto do tamanho deste! O elevador dava para três pessoas e marcava um máximo de 250 quilos. Eu confesso que nessa altura já pesava bem uns 80... O director e o meu manager pesavam juntos, à vontadinha, 250 quilos! Com envergadura a condizer!
Perante a ausência de sinais de enfado, o rapaz a esta altura já fazia gestos largos com as mãos e deixara de olhar as portas...
Passou-se a primeira meia hora e já pensava em água e na comida! Num assomo de esperança... Num quê? Perguntou ela. Assomo, replicou ele sorrindo. Visto não ter havido vestígios de paternalismo no sorriso dele, ela concedeu e sorriu também, moderadamente.
O que eu queria dizer é que me lembrei de usar o telemóvel mas não tinha rede! E estava a ficar... aflitinho.
O rapaz resolveu mostrar um sorriso a apelar à cumplicidade e fez uma pausa no discurso. Ela olhava-o inexpressiva, talvez expectante, talvez não... Vai-se a ver e se calhar aquele tipo de lembranças não estavam com nada num momento como aquele!
Continuou: Ainda não tinha passado uma hora quando a maquineta se pôs a andar. Tinha havido uma falha de corrente eléctrica na Electricidade da Madeira!!
Ela riu-se, ou melhor, sorriu, talvez da anedota, talvez do jeito meio tonto e trapalhão com que o rapaz foi contando a história. E deixou ficar o sorriso nos lábios enquanto se virou de novo para a campainha de alarme.
Priiiiiiiii.
O elevador retomou a sua marcha quase de imediato e parou no 4º andar.
Esperava-os o zelador:
Já está em ordem, arranjámos a avaria. Aliás, não houve avaria, desligámos... foi um circuito, sem querer... e o elevador ficou sem corrente. E vai de coçar a cabeça, fazer um ar traquina e atirar umas desculpas gagejadas. Está como novo!
Não chegaram a sair. Fecharam-se as portas e ela perguntou: Vai para qual?
É para o 15º, por favor.

Posted by Rui at 10:24 PM | Comments (0) | TrackBack

setembro 02, 2003

Caso Esquisito (quase) Verídico

Tenebroso é o estado de espírito de um Sportinguista nesta noite... Tomem lá disto (uma Proto-posta de há uns anos)

Caso Esquisito (quase) Verídico

Gaspar era um rapaz decidido: gostava de salada de pepinos, de pimentos assados e de beringelas fritas em cobertura de ovo enfarinhado em trigo. No bolso, raras vezes o apanhavam sem uma alfarroba meio trincada.
Gaspar era ainda pequenino.

O Gaspar está preso num sítio muito branco e muito negro; é mesmo um daqueles pardais-de-prisão.
Entrou pela primeira vez na cela com um «Estou frito!» no pensamento e, desde então, não deixou de pensar a uma velocidade alucinante, como nem sequer se sabia capaz.
A imagem dele e do seu pai fazendo de almas penadas nas noites estreladas de fim de Verão, prescutando as oliveiras à caça de pardais, ele com a laterna e o pai com a pressão de ar, tem-no perseguido em muitas noites mal dormidas no cárcere. «Pardais fritos, estaladiços, humm...Bem bom!» aventava ele aos colegas de escola em conversa de meninice, a armar em grande caçador e apreciador de iguarias exóticas.

Um dia...

Gaspar era já rapazote, de barba bem formada, sempre amigo dos seus amigos de paródia: «Vamos pregar uma partida à Soraia?» e foram.
A Soraia estava na escola, no balneário das raparigas com mais três cachopas - e cachopas assentava-lhes na perfeição...
Num abrir e fechar de olhos viram-se trancadas lá dentro com um balde de pimentos vermelhos bem queimosos a arder. Com o reboliço espalharam-se os pimentos em brasa pelo chão enquanto o balde ardeu, a um canto, libertando um fumo negro e sufocante que depressa encheu o pequeno balneário. Noutro abrir e fechar de olhos... morreram.
Gaspar riu-se que nem um perdido com o resto da malta e que nem um perdido ficou quando a algazarra no balneário amainou e, por fim, se extinguiu.
Então, acabou-se a poesia popular ao castiço.

Hoje Gaspar já não gosta de pepinos, pimentos, beringelas e alfarrobas; é mais alpista e hospício. «Estaladiços, humm!... Bem bom!» repete em voz alta entre dois pensamentos insondáveis para quem o não está a ouvir.

Posted by Rui at 10:40 AM | Comments (0) | TrackBack

As cerejas

«(...) Tivemos 7 tamagotchis e fomos felizes para sempre, que fica, como sabem, em parte nenhuma»
Sarah Adamopoulos, Ciberia, TSF, 1996(?)

As cerejas
A primeira:
«E se bem viveram, melhor morreram.»

As outras:
Um dia lí ou ouvi, já não sei bem, um escritor dizendo que o primeiro passo para escrever um romance é encontrar um final, um final mesmo antes de se construir o resto. Sei que franzi o sobrolho e cocei a cabeça; apesar de adorar sobremesas.
Lembrei-me do dito do escritor quando, num espantoso documentário em filme de curta-metragem sobre o país Basco, realizado por Orson Welles no imediato pós-II Guerra Mundial (exibido na RTP 2), fiquei a saber que as estórias de encantar bascas têm este fim: «E se bem viveram, melhor morreram» - assombradoramente diferente do nosso conhecido «E viveram felizes para sempre».
Podem-me chamar maluco, mas, assim que acabou o documentário, veio-me à cabeça um verso do «Fim» de Mário de Sá Carneiro e fiquei com uma vontade enorme de saber como é que um burro ajaezado à andaluza se distingue de um outro ajaezado de outra forma. Queria que alguém me contasse, em palavras fresquinhas... Para a troca tenho pelo menos um «Bem haja» guardado...

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(As linhas ali de cima são mais um prot-blogue de 1996 que traz ainda outro excerto desse outro Rui de então:
Estou a ouvir o primeiro «Cyberia» na TSF - e estaria a ouvi-lo na XFM se... - e digo-vos que é uma coisinha danadinha de boa: é original, delirante, arrepiante e, a espaços, hilariante: faz cocegas!!!...Virtuais.)

E agora num blogue perto de si.

Posted by Rui at 06:51 AM | Comments (0) | TrackBack

setembro 01, 2003

Programa «Última Carta» Anotado

Memórias de um Proto-Blogue VIII

Escrito há sete anos e agora ressuscitado. O espanto de me espantar comigo! Amen.

Programa «Última Carta» Anotado

I
...Registo Final - Capítulo VIII
...Última semana de condicionamento
...Programa Última Carta
...Gatilho específico para o programa na série 414 de clonskização em neo-alga mais:
«Hello Dolly» (a melodia suprema)

...Conteúdo moral psico-induzido disparado aos primeiros acordes:

«Eu sou feliz.
Pertenço ao grupo de inteligência máxima.
Sou diferente e melhor do que os sub-neo-alga mais.
Sou fiel depositário da segurança da espécie.
Replico exactamente os «Perfeitos» escolhidos nos primórdios do tempo da Grande Ovelha.

(Pausa)

Cumpri.
Segui o caminho para ajudar no Fim Superior da Espécie.
Fui Soldado Alguíssimo e destrui o Cancro.
Eu [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky] continuo para sempre.
Serei a espécie de amanhã.
Em nome da Grande Ovelha: Hello Dolly!»


...Conteúdo motricional psico-induzido disparado aos primeiros acordes:

«Eu [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky] devo ajoelhar-me.
Erguer os braços perpendicularmente ao solo.
Devo juntar as palmas das mãos sobre a cabeça entrelaçando os dedos e assim ficar até ouvir o Condicionador Supremo.»


...Conteúdo moral psico-induzido disparado ao terminar o último acorde ou quando a melodia seja interrompida:
«A voz que ouves é a do Condicionador Supremo.
Presta atenção e cumpre.
Presta atenção e cumpre.
Deixa que continue o fim do fim.
Hello Dolly, [espaço de quatro segundos para a designação particular de cada unidade clonsky], Hello Dolly»


...Conteúdo motricional psico-induzido disparado no momento do fim da melodia suprema ou quando esta seja interrompida:

«Devo assumir a posição fetal.
Devo entrar em atrofia total de funcionamento cognitivo consciente.»


...Repetir programa «Última Carta» cem vezes, durante a semana de condicionamento.


...Programa Borracha Atómica para branqueamento do condicionamento da série 414 de clonskização em neo-alga mais
...Gatilho descondicionador geral: «This isn’t Luis!»


...Fim do processo global de condicionamento da série 414 de clonskização em neo-alga mais.

...Director Geral para o programa «Última Carta»
...Alf Joca Novsky

...Sumo Ovino da Série VIII
...Nostradamos Fédon Memé

...Hello Dolly!

...Clonecity-in-bocanovsky, Oitava Ovelha (740,34).


NOTA: Paródias incidentais ao livro «Admirável Mundo Novo» de Aldous Huxley


II

Se morresse hoje, não deixava carta nenhuma.
Não tenho absolutamente nada a dizer, tal como não tenho nada a dizer quando morre um amigo da minha idade (ou que ande lá perto). Nessas alturas demoram a vir as palavras.
No máximo praguejava, coisa que faço raramente, mas que, de tanto uso e abuso que tem por aí, não se traduziria em nada de significativo para quem me ouvisse à distância.

*
Não é preciso chegar à bocanovskização:
Imaginem-se no vosso leito de morte.
Imaginem que uma filha vossa se despede e promete que irá ter um filho exactamente igual a vocês.
O momento da morte será o momento da recriação de um ser fisicamente idêntico.
Exemplo: outras fotografias com um corpo e cara igual à vossa surgirão muito depois de terdes desaparecido.
«Vós» sereis o vosso neto; haverá uma paragem genética naquele ponto.
Qual seria a vossa última carta para essa filha?

*

Mais perto do início do que agora, havia seres unicelulares (ainda há!) que não se reproduziam através do sexo; um limitava-se a dividir-se em dois. Um que exista não será filho do um inicial, pois o um inicial nunca morre de facto enquanto houver um que resulte de uma divisão de outro que não desapareceu no processo - nem sequer haverá um «mais inicial» do que o outro pois esse será seu irmão de divisão. Não há vida e morte, há vida e (talvez) crescimento, há outra espécie de imortalidade, menos poética e mais física.
Hoje sabemos que esses seres não mudaram tanto como os que surgiram mais tardiamente com sexo. Em princípio têm também menos hipóteses de resistir a mudanças ambientais, pois jogam menos vezes no totoloto, ou seja, não fazem as apostas multiplas que resultam do cruzamento de dois seres diferentes, de sexos diferentes que produzirão um outro diferente de todos os outros anteriores e que, portanto, apresenta uma nova chave no jogo da sobrevivência.
O caminho natural (obra do acaso das mutações genéticas) inventou o «It takes two, baby» para fazer um bébé. Agora regredimos e substituimo-nos à manipulação genética natural.
Para começar paramo-la (clonagem), qualquer dia substitui-la-emos - refiro-me aos seres humanos, pois com outras espécie é pratica frequente - e talvez surja o «it takes three or four, why not une million, baby?».
Teremos mais um brinquedo para atingir a perfeição, sem acto sexual natural a estorvar - não demorará muito o orgasmómetro de Allen [Woody] para satisfazer os humanos e para não complicar mais a perfeição. Mas a perfeição segundo quem? E que diabo é isso de perfeição no mundo não metafísico? Chamem-me maluco, mas isto faz-me lembrar algumas passagens da discussão sobre o aborto (noutro dia eu explico-me).
No Direito há uma coisinha chamada o abuso do direito que avisa para a existência de limites sobre o exercício de um direito apesar de este ser geralmente aplicável. Será que não deve haver abuso da ciência? Mas quem é que vai responder a estas perguntas? Primeiro era preciso haver políticos generalistas que aconselhados por técnicos (e não mais do que isso) estivessem em condições de começar o processo de discussão.


Quando tiver mais um tempinho gostava de tentar escrever umas coisinhas assim bem reflectidas e sabiamente desgarradas. É que esta semana descobri o menos mau dos métodos para se tomar decisões... Ainda não fiz todos os teste necessários por isso não o divulgo (ainda) aqui na Nature. Talvez haja musa, também para as coisas aparentemente mais denotativas ela é necessária. Por agora, antes de pôr as celulazinhas cinzentas a trabalhar, quase desejo a solução mais fácil: que os clones morram todos de cancro!
Ainda somos muito pouco crianças.
Tenho dito (mas só um bocadinho).

John Doe Rosebud
21 anos, Caipira irritadiço, Grã-Lisboa

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agosto 15, 2003

Excerto da emissão radiofónica de 8 de Abril de 1516, da Portugal FM Real Emissora Nacional

Memórias de um proto-blogue VII

Excerto da emissão radiofónica de 8 de Abril de 1516, da Portugal FM Real Emissora Nacional

«A Portugal FM apresenta:
Novos Mundos
Espaço de informação e debate com Gonçalo Cortez.

Gonçalo Cortez (GC): Muito boa tarde senhores ouvintes. Inicia-se mais uma edição de Novos Mundos, desta feita em directo da Ribeira de Lisboa. À nossa frente está fundeada e pronta para zarpar a primeira frota portuguesa a demandar o caminho da India neste ano da graça de 1516. A azáfama visível na beira rio é bem característica dos últimos preparativos para aquela que se espera mais uma proveitosa empresa para o reino e para o distinto capitão, sendo este, se não estou falho de memória, D. Lopo de Orgens. Como pano de fundo para o nosso espaço de entrevista temos o grandioso Paço da Ribeira onde a corte prepara uma festa de Boa Fortuna em homenagem aos marinheiros, prestada na pessoa do seu capitão. Ainda há poucos instante tivemos oportunidade de saudar El Rei e sua esplendorosa comitiva, quando este terminou mais um dos seus tradicionais passeios pela capital. Saiba-se que D. Manuel se mostrou em sedosos panos de tom azul marinho pontuados com pequenos adornos dourados e cintilantes. Sua majestade revelou um sorriso constante e apresentava um semblante calmo e um olhar confiante. Voltaremos dentro de momentos para vos apresentar os entrevistados de hoje. Fique connosco, somos a Portugal FM.


Publicidade: Grande venda de escravos do Mestre André! Amanhã, na praça do Pelourinho Velho. Lotes de 2, 4 e 6 escravos servis e qualificados para todas as tarefas! Em apresentação machos e fêmeas provenientes da melhor terra de Africa. Você merece! A venda terá lugar de manhã, pelas dez horas. Não se arrependa depois, apareça! Olhe que o seu vizinho vai estar lá!...

GC: Ao meu lado tenho os dois entrevistados de hoje, ambos são lisboetas e ambos se passeavam aqui pela Ribeira há cerca de uma hora, altura em que os interpelámos e convidámos a participarem na nossa entrevista semanal. À minha direita tenho Damião Vicente, de 26 anos. Damião foi antigo soldado na India com D. Francisco de Almeida, escriba de alugo no Pelouro Velho durante um ano e de momento é animador da corte, colaborando com Gil Vicente com quem, realce-se, não tem laço familiares. À minha esquerda tenho Mafalda Capitoa, de 29 anos, peixeira no mercado da ribeira desde que se lembra. Agradeço a vossa disponibilidade para estarem presentes nesta entrevista.
O assunto principal que pretendo abordar convosco é a “Matança de Pascoela” sobre a qual se comemoram hoje precisamente 10 anos. Antes de vos pedir opinião e de fazermos o balanço da situação nestes dias, proponho que ouçamos uma peça preparada por Álvaro Torres sobre o massacre de há dez anos...

AT: Em Abril de 1506 a cidade de Lisboa vivia os horrores da peste e da impotência. Os habitantes procuravam através de rituais e cerimónias sagradas manter a fé. Reforçavam-se os apelos à misericórdia divina.
No dia 8 desse mês, comemorou-se o Domingo de Pascoela, por toda a cidade se realizaram procissões e serviços religiosos em memória dos que haviam sido levados pela doença e em favor dos pecadores que aos milhares rogavam por vida sã. Segundo mais tarde apuraram os conselheiros do rei e os nossos reporteres, no Mosteiro de São Domingos, o solo sagrado esteve perto de ser tingido de sangue, sangue de cristão-novo. Em pleno serviço, aos gritos de “Milagre!”, entoados pela massa ávida por revelações e apoio divino, sobrepuseram-se as considerações de uma alma menos crédula. Uma luz ou um sinal? Um cristão-novo apregoava que o que se via no altar era um reflexo de luz, que entrava por uma fresta; a multidão indignou-se perante a negação da sua visão e encontrou assim sobre quem exercer a catarse. Um alvo perfeito por ser estranho, diferente, introvertido e invejável na riqueza, um culpado inquestionável: o «Assassino de Jesus!». Num ai, toda a cidade gritava as palavras condenatórias, toda a cidade espancava e sofria. Em dois dias morreram mais de dois milhares de cristãos-novos, às mãos de outros lisboeta, atiçados por ditos “puros” da fé cristã. Estava consumado um dos dias mais sangrentos da história desta cidade. Sua majestade, indignada com o desrespeito pelas suas ordenações sobre os cristãos-novos, puniu severamente os “puros” e mais 50 de Lisboa morreram em consequência; desta feita, na forca. A cidade perdeu alguns dos favores do rei e o país ou se calou por vergonha ou ficou num murmúrio cúmplice. Hoje, passados 10 anos, são ainda frequentes quezílias com pretexto religioso e o massacre, se bem que nunca mais repetido, surge ainda bem vivo na memória de uns e de outros, atravancando a boa vivência entre todos os de Portugal.

GC: Mais um trabalho de Álvaro Torres para a Portugal FM.
Já a seguir à publicidade vamos ouvir os comentários dos dois lisboetas convidados.

Publicidade: Se está farto, fartinho da poalha e dos maus cheiros que infestam a cidade, se enjoou a paleta de tecidos que tem em casa e procura algo diferente, se tem problemas com a digestão ou se a comida não lhe sabe bem, se sofre de dores frequentes nas cruzes e se tem caruncho nas pernas... Venha à loja de António Pais de Açafrão, o mais experimentado e viajado dos comerciantes com negócio na capital! Desde as especiarias mais raras da Asia, às mais puras águas de Sintra, tudo encontrará na mais frequentada e melhor apetrechada loja de Lisboa. Para o povo e fidalguia, a todos servir com esmero! António Pais de Açafrão, à Rua Nova dos Mercadores.

GC: Mafalda Capitoa, o que se lhe oferece dizer neste aniversário da “Matança da Pascoela”?

Mafalda Capitoa (MC).: Eu não tenho nada contra essa gente. Eu não lido com eles, nem eles me compram peixe porque sabem bem que já os topei há muito. São uns falsos! Mas isso é lá com eles, não tenho que ver com isso. É com eles e com as suas almas. Deus não é cego! Ele tratará de os julgar. Por mim, desde que não me chateiem, nem me atrapalhem o negócio... Tudo bem. Agora, nesse dia da Matança, eles estavam a pedi-las! Já se dizia por toda a cidade que tinha sido um deles que tinha trazido a peste num barco que veio de Roma, depois, quando toda a cidade organizava preces e romarias, eles surgiam sempre com cara de poucos amigo e enfadados... É que nem disfarçavam! Naquele dia, disse-me a Alzira, minha vizinha, que estava lá em São Domingos, eles fizeram chacota do Espirito Santo que apareceu no altar!! O que é que seria de se esperar? Foi o que se sabe: arrastaram-nos à praça e entregaram-nos ao Senhor. E Este? Valeu-lhes? Acha que se fossem verdadeiros cristãos ele teria permitido tamanha perdição?

GC: Como interpretou a reacção do Rei?

MC: O rei estava lá longe, em Aviz, longe da peste e não foi bem informado. Os convertidos sempre tiveram amigos importantes na corte e assim sendo não é dificil maldizer o que aconteceu. Quando a notícia chegou aos ouvidos de sua majestade nós já eramos pintados de seres diabólicos e traidores! Mas é assim, o povo de Lisboa já sobreviveu a tormentas bem piores. E o amuo do rei já passou há muito tempo! Não o viu hoje com o cortejo pela cidade? Estava um poço de sorrisos e boa disposição, home!

GC: E você, Damião Vicente, que pensa deste assunto? Acha possível repetir-se uma matança como a de há 10 anos?

Damião Vicente (DV): Deus nos livre de repetir tamanho pecado. Pois se o Rei já esqueceu e perdoou, Deus tem a memória mais comprida, senhora peixeira! Não traga nos favores das suas preces as almas dos que matámos no meio daquela loucura e depois admire-se do que lhe calhar no juizo final! Foi coisa de bárbaros, meus senhores! Pois eles não morriam de peste como nós? Não traziam no olhar o desepero de quem tinha perdido meia família? E que história é essa de fazerem chacota do Espirito Santo que apareceu em São Domingos? Eu, com estes, já vi o tal “Espirito Santo” dezenas de vezes no Mosteiro de São Domingos e já o tinha visto outras tantas antes daquela época! Era uma reflexo, sim senhor! E se não fosse? Onde estava a cristandade de amparar quem duvidava, inundando-o com a sabedoria de quem tem fé? Quem nunca duvidou entre os cristãos? Esta cidade está cheia e a encher por todas as portas! Vêm do interior, vêm de além mar, têm cores diferentes, diferentes hábitos e saberes... O que será de nós se a todos culparmos do que não sabemos, conhecemos ou não podemos combater? Como poderá esta ser a capital do mundo e nós o povo de paz e união que se exige entre os filhos de Deus? Porque todos o somos, à sua imagem e semelhança!

MC: Tanto que peleja por tão pouca gente, Damião Vicente animador de sua majestade!

DV: Tanto que se resolveu com a Matança de Pascoela peixeira de quem lhe aprouver! Por ventura desapareceu a peste?

MC: Porventura desapareceram todos os cristão-novos da nossa cidade?

DV: E não tem vossemecê nada contra “tal gente”!!

GC.: Bom, não me cabe a mim ajuizar e considerar sobre as vossas opiniões, mas penso que os nossos ouvintes já têm dados suficiente para reflectir sobre o que dissesteis. Antes de terminarmos e uma vez que estamos em Lisboa, queria dar-vos a oportunidade, aliás como fazemos em todas as cidades por onde temos passado e com todos os entrevistados que convidamos, queria dar-vos a oportunidade, dizia, de que expressasseis quais os principais problemas da vossa cidade e quais os que gostarieis de ver resolvidos o mais depressa possível. Mafalda Capitoa.

MC: Já não é para falar dos judeus?

GC: Não. Diga-nos o que está mal na cidade, na sua opinião. Pode ser que alguém nos ouça...

MC: Olhe o que está mal é que haja tanto miserável pela cidade. Há por aí gente a morrer pelos cantos que é um dó. Pois se veêm que temos cá escravos que cheguem e que não há quem lhes dê ofício, porque insistem em ficar em Lisboa? Sim, que muitos deles vêm de fora e cá ficam a apodrecer e a empestar a cidade! O Rei que os ponha fora das muralhas e os mande para o campo que boa falta lá fazem. Fique a saber que a minha prima Deolinda que esteve numa terrinha perto de Felgueiras me disse que nem braços havia para tocar o sino! Pois não estava um homem como convém em toda a aldeia, só as mulheres, velhos e crianças! O resto, andava entre portos ou vinha a caminho de Lisboa à sorte melhor. E depois vê-mo-los aqui: uns a definharem sem sustento e doentes, outros a estourarem o que têm no vinho ou no jogo, sempre à porrada... Isto é que está mal. O lugar deles não é aqui.

GC: Damião Vicente...

DV: Então e a poeirada, os buracos e caboucos novos que aparecem a cada dia não incomodam tanto quanto essa miséria que não é escolhida mas destinada por estranhos andares do mundo e deste país? Pois se a um lado desses miseráveis se erguem monumentos, mosteiros, conventos e armazéns e ao outro passam fidalgos, senhoritos e até, com todo o respeito, peixeiras com corgalhos de escravos atrás, prontos, talvez, para lhes limpar o cu, não acha que isso é no mínimo igualmente chocante? Construa-se, digo eu, que são precisos os hospitais, os mosteiros, conventos, paço e armazéns. Afinal, esta cidade quer-se digna da nossa façanha. Mas não se ofusquem com vaidades e brilhos vãos os de Lisboa e os do país que aqui chegam como moscas ao esterco. Aprendi que na guerra, no mar e na vida tudo exige equilíbrio e talento. A nau quer-se, e tem de se querer, bem equilibrada antes de se fazer ao mar, pois, de outro modo, não se verá outro porto que o da largada. Connosco, aqui em Lisboa, o risco é o mesmo. E o que custa ler as escrituras e de lá tirar estes ensinamentos? Tanto penou Abrão pelo seu vale fertil e para quê? Para esbanjá-lo confiando na riqueza de amanhã só porque foi boa o colheita deste ano? Onde estariamos sem a riqueza que há-de navegar, sabe-se lá até quando, nestas naus que aqui temos à frente?

MC: Tanta palavra vossemecê diz que já me tenho tonta, homem! Fico-me com esta: Buscámos, encontrámos. O antigamente já passou. O que vê é bom, por isso, goze-o enquanto cá anda que nisto da vida homem e peixe estão sempre a trocar de lugar na ponta do anzol. Quanto ao equilibrio, o que interessa é o da balança da Casa da Índia: que se continuem a pôr muitas medidas para chegar à conta do ouro e da especiaria.

GC: Assim termina mais um Novos Mundos, neste dia 8 de Abril de 1516. Para a semana não haverá programa:s estaremos de viagem em direcção a Faro onde faremos uma entrevista em exclusivo com o Feitor da Mina em visita ao Algarve. Boa noite e continue com a Portugal FM. Já a seguir e satisfazendo o pedido de vários ouvintes vamos retransmitir a «Farsa do Velho da Horta» da autoria de Gil Vicente, gravada há quatros anos no Paço da Ribeira.»

Fim

Dados Estóricos Importantes:
- Álvaro Torres foi queimado num auto-de fé em 1541 acusado de heresia.
- Damião Vicente foi persseguido pela inquisição e crê-se que tenha fugido para o Brasil onde residiu sob falsa identidade.
- Mafalda Capitoa foi queimada juntamente com as suas quatro criadas escravas num auto-de-fé em 1541, acusadas de associação com o demónio e bruxaria.
- Gonçalo Cortez abandonou Lisboa no ano em que se instaurou o Santo Ofício e passou os seus dias a puxar o sino numa aldeizinha perto de Felgueiras na companhia de uma tal Deolinda que conheceu pouco depois desta entrevista numa das suas viagens pelo país
- Autor está farto de inventar nomes pseudo quinhentista e anda a tentar perceber em que é que o seu subconsciente se baseou para o consciente agora se perguntar porque é que o português que colocou na boca de personagens do século XVI resulta num linguajar tão arrevesado.

Mem Martins, 1998 (?)

Posted by Rui at 12:13 PM | Comments (0) | TrackBack